dois kästner por drummond

CARTA A MEU FILHO

Afinal, eu quisera ter um filho
Forte e inteligente como essas crianças de hoje.
Só uma coisa me falta para esse menino.
Falta-lhe apenas a mãe.

Não é qualquer moça que serve para esse fim.
Há longos anos eu a estou procurando.
A felicidade é mais rara que os feriados,
E tua mãe nada sabe ainda de nós, meu filho.

Mas um belo dia começas a existir,
E já me alegro por isso.
Aprendes a correr, aprendes a viver,
E o que daí resulta chama-se: uma existência.

A princípio, apenas gritas e gesticulas,
Até passares a outros atos,
Até que teu corpo e teus olhos cresçam
E compreendas o que é preciso compreender.

Quem começa a compreender já não entende mais nada
E olha estarrecido para o teatro do mundo.
No começo, criança necessita muito da mãe.
Mas quando ficares maior, precisarás de teu pai.

Quero levar-te às minas de carvão.
Quero mostrar-te os parques com palácios de mármore.
Tu me fitarás, sem compreender.
Mas eu vou te esclarecer, criança, e me calarei.

Quero ir contigo a Vaux e a Ypres
E lá olhar o mar de cruzes brancas.
Ficarei quieto, nada insinuando.
Mas quando chorares, meu filho, eu estarei de acordo.

Não quero te dizer como vão as coisas,
Quero te mostrar como a coisa é.
Pois a razão só pode vencer por si mesma.
Quero ser teu pai, e não um profeta.

Se entretanto fores um homem como a maioria,
Apesar de tudo que te fiz ver,
Um homem como qualquer outro, fabricado em série,
Então jamais serás o que deves ser: meu filho.

POR ASSIM DIZER, NO ESTRANGEIRO

Estava sentado na grande cidade de Berlim,
Junto à pequena mesa.
A cidade era grande, mesmo sem ele.
Não fazia falta à cidade, bem percebia.
E em seu redor havia veludo.

Pessoas amontoavam-se em cacho,
Apesar disso, estava só.
E no espelho, para onde olhava,
Todos se amontoavam outra vez,
Como se assim devesse ser.

A sala, pálida de tanta luz,
Cheirando a perfume e bolos.
Sério, fita rosto após rosto.
O que ele vê não lhe agrada,
E, triste, desvia o olhar.

Alisa a branca toalha,
Olha no fundo do copo.
Já meio farto da vida!
Que queria dessa cidade,
Ali, sentado, sozinho?

Então se levanta, na cidade de Berlim,
Daquela mesa pequena.
Ninguém o conhece,
Mas começa a tirar o chapéu para todos.
A necessidade nos torna inventivos.

Poemas de Erich Kästner traduzidos por Carlos Drummond de Andrade reunidos no livro Poesia Traduzida, Cosac Naify, 2011

Deixe uma resposta

Post Navigation