dois pensares

Outra nudez já tinha surgido no horizonte cultural da Europa, com o aparecimento do homem americano. E se houve um ponto de encontro entre a Renascença e o Humanismo, esse se deu no entusiasmo comum pela natureza que a Idade Média difamava.

Era, porém, tão terrível e grosseiro o preconceito que aureolava o mundo helênico que, quando com as Cartas de Vespúcio e pelas Utopias se divulgou a existência de uma super-humanidade perdida do outro lado da terra, se perguntava a respeito dessa gente: – Serão gregos? Ou pelo menos mediterrâneos? O cristianismo dólico-louro trabalha e deforma tudo. Petrarca protesta contra a ideia de que Cícero pudesse ter ido para o inferno, pelo desconhecimento do Cristo. Ele e Sócrates são tidos como “colaborantes do cristianismo”.

A Cícero e a Sócrates, que são considerados deístas, incorpora-se então uma legião de sub-humanistas católicos que têm, hoje, nomes inteiramente esquecidos. É tão grave a deformação cristianizante que a mitologia pagã passa a ser uma teologia velada, as Metamorfoses de Ovídio são a Gênese. Até Homero é um pronunciador de mistérios católicos.

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A Renascença modela e disciplina grandes assuntos. Sempre o seu triunfo técnico se sobrepõe ao tema, à inspiração e ao sentimento. Enquanto isso, o Humanismo dá o estofo das Utopias futuras. Ele cria o Direito Natural. Ele produz, na longínqua América, a primeira experiência de uma sociedade nova – a República Comunista Cristã do Paraguai. No século XVIII, ele dá os fundamentos da Filosofia das Luzes e realiza a Revolução Francesa. No século XIX consegue o abalo sísmico das agitações liberais. E hoje, mais do que nunca, é no Humanismo e na sua tradição revolucionária que se fundamenta a conquista de uma vida melhor para todos os povos.

Oswald de Andrade, no artigo A marcha das Utopias I, publicado n’O Estado de São Paulo aos 5/7/1953, e reunido no volume A utopia antropofágica, Globo, 2001

Alguém é um pai apenas porque existe outrem de quem ele é o pai: a paternidade é uma relação, ao passo que a peixidade ou a serpentitude é uma propriedade intrínseca dos peixes e cobras. O que sucede no perspectivismo, entretanto, é que algo também só é peixe porque existe alguém de quem este algo é o peixe.

Mas se dizer que os grilos são os peixes dos mortos ou que os lameiros são a rede das antas é realmente como dizer que Nina, filha de minha irmã Isabel, é minha sobrinha, então, de fato, não há nenhum relativismo envolvido. Isabel não é uma mãe para Nina, do ponto de vista de Nina, no sentido usual, subjetivista, da expressão. Ela é a mãe de Nina, ela é real e objetivamente sua mãe, e eu sou de fato seu tio. A relação é interna e genitiva – minha irmã é a mãe de alguém, de quem sou tio, exato como os grilo dos vivos são os peixes dos mortos –, e não uma conexão externa, representacional, do tipo “X é peixe para alguém”, que implica que X é apenas representado como peixe, seja lá o que for “em si mesmo”. Seria absurdo dizer que, desde que Nina é filha de Isabel mas não minha, então ela não é uma “filha” para mim – pois de fato ela o é, filha de minha irmã, precisamente. Em Process and reality, Whitehead observa: “a expressão ‘mundo real’ é como ‘ontem’ ou ‘amanhã’ – ela muda de sentido conforme o ponto de vista” (apud Latour 1994). Assim, um ponto de vista não é uma opinião subjetiva; não há nada de subjetivo nos conceitos de “ontem” e “amanhã”, como não há nos de “minha mãe” ou “teu irmão”. O mundo real das diferentes espécies depende de seus pontos de vista, porque o “mundo” é composto das diferentes espécies, é o espaço abstrato de divergência entre elas enquanto pontos de vista: não há pontos de vista sobre as coisas – as coisas e os seres é que são pontos de vista (Deleuze 1969). A questão aqui, portanto, não é saber “como os macacos veem o mundo” (Cheney; Seyfarth 1990), mas que mundo se exprime através dos macacos, de que mundo eles são o ponto de vista.

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O sangue dos humanos é o cauim do jaguar exatamente como minha irmã é a esposa do meu cunhado, e pelas mesmas razões. Os numerosos mitos ameríndios que põem em cena casamentos interespecíficos, demorando-se nas difíceis relações entre os genros ou cunhados humanos e seus sogros ou cunhados animais, não fazem senão combinar as duas analogias em uma só. Vemos assim que o perspectivismo tem uma relação estreita com a troca. Ele não apenas pode ser tomado como uma modalidade de troca, mas a troca mesma deve ser definida nestes termos – como troca de perspectivas.

Eduardo Viveiros de Castro, no ensaio-fundição Perspectivismo e Multinaturalismo na América Indígena, reunido no volume A inconstância da alma selvagem, Cosac Naify, 2001; Ubu, 2017

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