dois pensares

Decerto a história do socialismo europeu, ao longo de seus quase 200 anos, é o maior e melhor exemplo da esperança por justiça posta em prática. Mas há uma diferença entre essa história e Marx. Eu concordo com Kolakowski quando ele diz

O apocalipse da crença na consumação da história, a inevitabilidade do socialismo, e a sequência natural das ‘formações socialistas’; a ‘ditadura do proletariado’, a exaltação da violência, a fé no efeito automático da indústria nacionalizante, as fantasias de uma sociedade sem conflito e uma economia sem dinheiro – tudo isso não tem nada em comum com a ideia do socialismo democrático. O propósito deste último é criar instituições capazes de gradualmente reduzir a subordinação da produção ao lucro, eliminar a pobreza, reduzir as desigualdades, remover barreiras às oportunidades de educação, e minimizar, ante as liberdades democráticas, a ameaça do estado burocrático e das seduções do totalitarismo.

Como muitos de nós social-democratas anglófonos, Kolakowski não considera Marx o epítome do socialismo, mas uma sua distração. Não só porque Marx era deslumbrado pela filosofia, nem porque ele teve o azar de ser usado como volante de toda uma galeria de tiranos sanguinários, mas sim porque ele não explica muito bem como criar instituições que possam dar conta das diversas tarefas em aberto. A talvez única sugestão construtiva de Marx, a abolição da propriedade privada, foi tentada. Não deu certo. Agora é pois difícil achar aquilo que Derrida chamava de ‘imperativo político’ em Marx – seja este um imperativo mais específico ou mais inovador que a velha, velha necessidade de impedir que os ricos sigam roubando os pobres.

Richard Rorty, trecho do ensaio ‘Um espectro ronda os intelectuais: Derrida sobre Marx’ (in Philosophy and Social Hope, Penguin, 1999), tradução minha

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Penso que dar à gente que clama por liberdade o poder de organizar-se é bem diferente de aumentar o poder de organização daqueles que só querem controlar (geralmente porque já estão no controle).

Quando a gente sem poder ganha poder, nasce uma diferença de modo. Quando os poderosos ganham poder, há uma diferença de grau. Poder onde não havia poder é bem diferente de um pouquinho a mais de poder onde o poder já estava concentrado.

Não acho que o fim dessa história possa ser predeterminado. Em dias ruins, fico gelado só de pensar até onde poderia um déspota usar a tecnologia para espionar sem falhas e coordenar sem falhas um exército de bandidos.

Mas mesmo nesses dias ruins, acredito que a melhor resposta a este medo seja a posse dos meios de informação e a garantia de que os benefícios da tecnologia sejam distribuídos a todos, não só aos poderosos. A recusa a se engajar com (ou proteger) a tecnologia não implica que os bad guys não vão usá-la–mas que os good guys vão acabar desarmados nas lutas por vir.

Edward Snowden, nossa autoridade solitária e confiável no que diz respeito ao poder das agências de espionagem, afirma que a criptografia funciona. Tecnologias de rede boas e seguras permitem que a gente no dia a dia possa falar entre si com tal grau de segurança que mesmo as mais poderosas e aptas agências de vigilância do mundo falham ao tentar espionar. Qualquer coisa que consiga manter fora os espiões também pode manter fora os golpistas, os voyeurs e outros esquisitinhos.

Noutras palavras, é a primeira vez na história da humanidade que a gente comum consegue coordenar entre si o que deve e pode ser feito sem se preocupar com intrusos na comunicação a corromper ou atrapalhar. Tal é o benefício da tecnologia, além de qualquer preço, um tesouro cujo valor não tem precedência na história.

Mas tal benefício será nosso conquanto a infraestrutura seja livre e justa. Será nosso somente se superarmos a narrativa Hollywood-versus-Google, se resistirmos a que nossa produção seja parasitada a serviço da censura, da espionagem e do controle.

Cory Doctorow, trecho do livro ‘Information Doesn’t Want to Be Free’ (McSweeney’s, 2015), tradução e ênfases minhas

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