dois poemas

QUEM

Quem um dia dançou os pés de outro?
Todos os que dançam, todos
Apenas dançam os próprios pés.
Quem pensa na imortalidade do outro
E durante o próprio sonho
Sonha com o sonho do outro?
Quem, no nascimento do menino humilde,
Pede sua coroação pelos reis?
Quem manda violetas ao pobre encarcerado?
Quem se sente poeta pelo que o não é?

– Murilo Mendes (1901–1975). Poema do livro ‘Parábola’, reunido em seleção da Global editora, 1983

––

o homem perfeito
usa o seu espírito
como um espelho
diziam os poetas do Tao
eu próprio em certos dias
promovo o vazio dentro de mim
e quando o vento e a chuva
me impedem de sair
procuro o silêncio
e tenho por testemunhas
as límpidas fontes da alma
e seixos brancos
que se podem ver
mesmo quando
cobertos de água

Manuel Afonso Costa. Poema do livro Memórias da casa da China e outras visitas, Assírio&Alvim, 2017

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