dois poemas

ODOR DE FILHO BRANCO

estamos diante do espelho enorme que há na sala
(aguardou para saber se a equipe ganharia),
vejo com nitidez seu perfil, não vejo o meu

sua demora me confunde, afronta-me,
a tela mostra a taça do penta sendo carregada,
o capitão não esconde o que é nossa infantilidade

seu corpo de mulher branca se interpõe
entre meus olhos e o televisor, a camiseta laranja,
estampa porn star, subtrai o verde do gramado

sua mão estica a passagem para rotterdam,
deixa tudo à mostra (não ousa me chamar de pai),
seus olhos têm um azul que chega a me repugnar

Paulo Scott (1966). Poema do livro Senhor Escuridão, Bertrand Brasil, 2006

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PARA A MINHA POBRE FRAGILIDADE

Para a minha pobre fragilidade
Olhas, sem dissipar palavras.
Tu és pedra, mas eu canto,
És estátua, mas eu voo levanto.

Eu sei que o maio mais terno
Não é nada, aos olhos do Eterno.
Mas eu sou pássaro – a mal não leve,
Se sobre mim pousou uma lei mais leve.

– Marina Tsvetáieva (1892-1941). Poema traduzido por Aurora F. Bernardini na seleção Indícios Flutuantes, Martins Fontes, 2006

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