dois poemas

Fotografia

As frutas quando caem
amadurecem vermes
nas nossas barrigas.

Como são tristes as horas
se não são janela
interrompendo o bairro.

Queria compor um poema
todo hiatos e risos
(todo infância, águas mudas).

Queria, irmã, compor-te luz
e não guardar essa noite.
Teimo, porém, e componho

mãos

de lenta lida de amor
que devagar irrigam
as nossas fotografias.

Rafael Zacca (1984)
(poema da coleção Kraft, Cozinha Experimental, 2014)

––

o erro

não, eles não podem me culpar se meu erro foi, apenas,
ter comido meu próprio uniforme
e ter rascunhado 54 vezes as arestas
de uma única saída para a praia

haver crido que éramos presos
tê-lo escrito com meu sangue
em lençóis azuis
e perseguido, em um sonho, uma cadeira sagrada
com etiqueta e um nome
e ter plantado o eterno em jardins suspensos
cujos mecanismos das sementes
eu mesmo parafusei

se meu erro foi, percebendo que saía leite de meu peito,
bebê-lo e me esquecer
das papoulas

Sarah Valle (1990)
(poema da coleção Kraft, Cozinha Experimental, 2014)

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