dois poemas

em 2008
para participar de uma antologia
em homenagem a ana cristina cesar
fiz um poema chamado
“a garota de belfast
ordena a teus pés
alfabeticamente”
o poema partiu de uma brincadeira de leitura
peguei todos os versos do livro
a teus pés
e coloquei em ordem alfabética
foi uma maneira de ler o livro de ana c. de outra forma
de deslocar o contexto de onde tinham saído os versos
para poder perceber outras relações             a partir
dos próprios versos
foi uma maneira de conhecer ana c. outra vez
parece que a gente está sempre buscando conhecer de novo
refazer o caminho até as coisas
percebi por exemplo que a palavra                             “atravessar”
se repete muitas vezes no início dos versos
ou então que o “agora” é o marcador temporal
mais frequente ocupando o início dos versos
o procedimento deixa a gente curioso
para ler por exemplo
quais são as linhas que começam com o pronome “eu”
nos poemas de ana c.
ou pelo “você”

a teus pés em ordem alfabética foi apenas um jogo de leitura
do qual parti para fazer o poema
há algumas semanas
para o lançamento da obra poética de ana c.
preparei um vídeo a partir desse poema
queria descrever concretamente o processo de feitura
de algum modo essa prática é como a da escrita
escolhi um filme da cineasta belga chantal akerman
je, tu, il, elle
e recortei quatro cenas
o filme parecia um banco de dados
queria pegar uma imagem
que dialogasse com o poema
uma imagem fora do contexto
mas trazendo dele rastros           restos
uma imagem que pudesse estabelecer relações com o texto
escrever também pode ser assim
às vezes basta um verso uma fala solta
que possa se encaixar e transformar um poema
a fala não traz nada do seu contexto inicial?
ele pergunta
seleciono as cenas do filme para importar no adobe pro
depois importo o áudio com a leitura do poema
a partir daí
passo a recortar as cenas
montar              repetir             avançar
ouvir o ritmo do texto a voz da imagem
em movimento
então insiro texto sobre isso tudo
para dialogar com o que está acontecendo
de algum modo é como escrever
e o resultado imprevisto
o vídeo está aqui

Marília Garcia (1979), poema do livro um teste de resistores, 7Letras, 2014

IANSÃ

 
Sopro

leve.

 
Que se atrevendo

atravesse:

 
corpo. muro. corpo.

 
Afago relâmpago

de vento

fêmea,

que conduza o arrepio

através da pele.

E,

por toda ela,

 
reverbere.

 
(Um
 
blefe
 
de um frio,
 
que se respira,
 
e exausta.)

 
Invisível, a tempestade

se revela,

na maquiagem que usa
:
a chuva.

Borra-se,

cai.

Eduardo Lacerda (1982), poema do livro Outro dia de folia, Patuá, 2012

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