dois poemas: bopp & correia

COBRA NORATO – XVI

– Mar fica longe, compadre?
– Fica
São dez léguas de mato e mais dez léguas
– Então vamos

Está começando a escurecer
A tarde esticou a asa vermelha

Toiceiras de capim membeca
escrevem sombras longas nas areias usadas

Uma inhambu se assusta

Ecoa no fundo sem resposta
o grito cansado de um pixi-pixi

Encolhe-se a luz do dia
devagarzinho

– Vou ficar com os olhos entupidos de escuro
– Adeus marreca toicinho!
– Adeus garça morena da lagoa!

Apagam-se as cores Horizontes se afundam
num naufrágio lento

A noite encalhou com um carregamento de estrelas

* * *
– Raul Bopp (1898–1984). Poema reunido em Cobra Norato e outros poemas, Civilização Brasileira, 1976
* * *

O SACRIFÍCIO – VII

Medeia a Revolução fez outro aborto:
muda de nome o asco agora é vasco.
Fandanga a tropa é trampa é um desporto
de Moscovo que abriu um novo tasco.

Aqui até Otelo é laparoto,
a cantar de carrasco é um fiasco.
Do povo unido num gris de rato morto
Judas é presidente. É um engasgo.

O gáudio é de gadanho e de guedelha;
come-se merda só porque é vermelha.
O crime é curial se for esquerdo.

Está o tempo sentado na sentina.
Ó musa és de trapos de cozinha!
Peço-te amor. Dás-me um poema azedo.

* * *
– Natália Correia (1923–1993). Poema do livro Epístola aos lamitas, Publicações Dom Quixote, 1976
* * *

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