dois poemas: drummond & saramago

CARTA

Há muito tempo, sim, que não te escrevo.
Ficaram velhas todas as notícias.
Eu mesmo envelheci: Olha, em relevo,
estes sinais em mim, não de carícias

(tão leves) que fazias no meu rosto:
são golpes, são espinhos, são lembranças
da vida a teu menino, que ao sol-posto
perde a sabedoria das crianças.

A falta que me fazes não é tanto
à hora de dormir, quando dizias
“Deus te abençoe”, e a noite abria em sonho.

É quando, ao despertar, revejo a um canto
a noite acumulada de meus dias,
e sinto que estou vivo, e que não sonho.

– Carlos Drummond de Andrade. Poema do livro ‘Lição das coisas’ (1962), reunido no volume Poesia Completa, Nova Aguilar, 2001

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CORPO

Talvez atrás dos olhos, quando abertos,
Uma cinzenta luz de madrugada
Ou vago sol oculto entre névoa.

O resto é escuridão, onde se esconde,
Entre colunas de ossos e arcadas,
Como animais viscosos, palpitando,
A soturna cegueira das entranhas.

O resto se compõe de fundas grutas,
De abismos insondáveis que demonstram,
Ao compasso do sangue e da memória,
As medidas do tempo irrecusado.

Tudo tão pouco e tanto quando, lenta,
Na penumbra dos olhos se desenha
A lembrança dum corpo retirado.

– José Saramago. Poema reunido no volume Cinco séculos de Sonetos Portugueses, Cassa da Palavra, 2013

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