dois poemas: edimilson de almeida pereira

DA CERA

a proibição deu-se a ver escrita. antes era tudo conversa de inocentes. agora a escrita fala no corpo que ruiu sob os estrados. um livro se escreve agreste e quem o fala regressa do garimpo apenas com a garimpagem. a capanga em que recolheu o melhor do dia, rompeu-se; sobre ela o infortúnio atira seus mascates. a mina e a língua cultivam uma cabeça para habitar os corpos que maduram nas árvores.

* * *

JOÃO. DE DEUS

João de deus não vive
do seu.
Vive do alheio.
Para dar, em graça,

um assobio de barro,
um pião.
Seu ouro,
sem arca, é para os

pobres.
Ele diferente deles,
e dos ricos,
arca com o mistério.

Labor sem causa
de quem,
não tendo casa, vai
à caça

pelos outros:
um boi rosado, uma
linha
entre bordados.

João. De deus
se nutre
e sua forma não cessa.
Junta-se

à farsa da vida,
aos farsantes de cepa.
João, menos
que nome,

uma letra.
Faz-se em graça. Para
si retira
o último coringa.

* * *
do livro qvasi (2017)
* * *

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