dois poemas: hilda hilst

O vocábulo se desprende
Em longas espirais de aço
Entre nós dois.
Ajustemos a mordaça
Porque no tempo presente
Além da carícia, é a farsa
Aquela que se insinua.
Faço parte da paisagem.
E há muito para se ver
Aquém e além da colina.
Há pouco para dizer
Quando a alma que é menina
Vê de um lado o que imagina,
Do outro o que todos veem:

O sol, a verdura fina
Algumas reses paradas
No molhado da campina.
Ventura a minha, a de ser
Poeta e podendo dizer
Calar o que mais me afeta.
Ventura ter o meu mundo
E resguardá-lo das cinzas
Das invasões e dos gestos.
Ah, poderiam ter sido
Encantados e secretos
Aqueles brandos colóquios
Que outrora se pareciam
Às doces falas do afeto.

* * *

A Aldous Huxley

Agora, meus senhores
É preciso dormir.
Embora muitos não saibam
É cada vez mais difícil
Sorrir.

Agora, meus senhores
É preciso dormir.
Minhas senhoras e mães:
É preciso esquecer
de parir.

Temos um mundo novo:
Traço, aço, espaço e cor.
E estruturas infantis
Garra e pupila
Para o amor.

Agora, meus senhores
É preciso dormir.
E que o sonho não tarde.
Azul e rosa e gaze
Repetindo comigo:

Azul
E rosa
E gaze.

* * *
ambos do livro Roteiro do silêncio (1959)
* * *

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