dois poemas: hilda hilst

Sem heroísmo nem queixa, ofereço-vos
Minha mão aberta. Agora vos pertence.
Queimada de uma luz tão viva
Como se ardesse viva sob o sol. Olhai se possível
A mão que se queimou de coisas limpas.
E se souberdes o que em vós é justiça
Podereis refazê-la como a vossa mão. E depois igualada
Aproveitá-la. A cada hora, a cada hora
E para vosso pão.

* * *
Do livro Iniciação do poeta (1963–1966)
* * *

Poeta, os homens manipulam a matéria.
Artífices do grande sonho dão-se as mãos
E é o meu canto o fruto dessa espera.
Canto como quem risca a pedra. Te celebro
Na mais alta metamorfose da minha época.

Não cantarei em vão.

* * *
Do livro Pequenos funerais cantantes ao poeta Carlos Maria de Araújo (1967)
* * *

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