dois poemas: hilda hilst

Lenho, olaria, constróis
Tua casa no meu quintal.
E desde sempre te espio

Linhos e cal tua cara
Lenta tua casa

Nova crescendo agora
Nos meus cinquenta.
E madeirames e telhas
E escadas, tuas rijezas

Tuas costas altas

Vezenquando te volteias
Para que eu não me esqueça

Do instante cego

Quando me pedirás companhia.
Eu não me esqueço.
Te espio de hora em hora

Casa e começo, tua cara,
A qualquer tempo te reconheço.

* * *
Do livro Da morte. Odes mínimas (1980)
* * *

Ouvia:
Que não podia odiar
E nem temer
Porque tu eras eu.
E como seria
Odiar a mim mesma

E a mim mesma temer

Se eu caminhava, vivia
Colada a quem sou
E ao mesmo tempo ser
Dessa de mim, inimiga?

Que não podia te amar
Tão mais do que pretendia.
Pois como seria ser
Pessoa além do que me cabia?

Que pretensões de um sentir
Tão excedente, tão novo
São questões para o divino

E ao mesmo tempo um estorvo
Pra quem nasceu pequenino.
Tu e eu. Humanos. Limite mínimo.

* * *
Do livro Cantares de perda e predileção (1983)
* * *

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