dois poemas: kehl & brandão

SAGITÁRIO

e esses homens aflitos
que habitam meu corpo
delgados e jovens como
cavalos
               bem sei o que querem de mim

esses rapazes roucos
povoam meus sonhos
que sonho acordada

à noite são anjos de asas caídas
me custam o sono
e as unhas roídas.

Maria Rita Kehl (1951). Poema do livro o amor é uma droga pesada, Vertente editora, 1983

––

FOME GORDA

Emas correndo, emas voando
Com o sol nas costas, com o sol nas patas.
O boi velho adora as moscas no atoleiro,
As baratas são tições no capinzal,

Os besouros têm sapatos pesados e sufocam.
O boi engole fogo pelas ventas,
O veado e a jaguatirica se equilibram no ar,
A anta em prece se ajoelha.

O mato queima, os bichos naufragam no rio gordo,
O rio gordo solta a cadela para cruzar com os bichos.
No meu tronco chamuscado as últimas fagulhas,

Uma brasa queima nos meus olhos e na minha língua.
O rio gordo, a cadela do rio gordo, os bichos,
A fome gorda dos bichos no crepúsculo do rio gordo.

José Carlos Mendes Brandão (1947). Poema do livro O sangue da terra – poemas telúricos, Tiprogresso Fortaleza, 2010

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