dois poemas: meireles & baq

APRESENTAÇÃO DO BOM PRESSÁGIO [trecho]

Olhando bem para o fundo da memória, vimos que éramos prisioneiros, e vimos que éramos também a prisão. E desejamos liberdade, como um último sorvo de ar para um resto de vida.

Foi quando reconhecemos no fundo de nós mesmos, depois de todos os desencantos e além de todas as misérias, aquele vulto gêmeo que ninguém pode ver, e que ninguém compreendeu nem amou. O que existiu por si, magoadamente. Que teve sempre glória: que foi arrependimento, que foi perdão, que foi um profundo suspiro para domínios mais puros e que, cercado de portas fechados, teve a forma com que as angústias limitam o tamanho das ansiedades.

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Cecília Meireles (1901–1964). Poema em prosa do livro Episódio Humano, Editora Batel / Desiderata, 2007
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Alguém sentado no escuro
sentiu a presença de Alguém.
Se um pintasse o outro,
os auto-retratos unidos
dariam meu rosto também.

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bobby baq. Poema do livro Nébula, Riacho, 2016
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