dois poemas: valter hugo mãe

a virgindade de amélia
primeiro ano, curso de direito, univ. moderna,
porto, noventa

aceita este livro diria mais bonito
do que os outros encontrarás nele
imagens que talvez te surpreendam
mas não te assustes tantas vezes to peço
não te assustes repara na natureza das coisas
em como é tão comum depararmo-nos
com estas ideias e talvez entendas

há uma pornografia erudita feita para
gente como nós uma coisa entre o
querer fazer a aflição espiritual
e o amor eterno

depois vem cá ter juro-te
que às cinco em ponto da tarde não há
ninguém na casa dos meus pais

– – –

caxinas, um

as garças já não passam por
aqui o frio impede a rotação da
imagem um silvo enche os
ouvidos como o canto das
raparigas espalha a sobrevivência em
redor do peixe

os velhos morrem à
tardinha espevitados pelo sol
vejo-lhe as viúvas como
travessões largos nos passeios
enquanto os putos ameaçam as
ondas e quantas vezes os pais
irreconhecíveis de encontro às
rochas os corações convocados e o
sino a distribuir a morte severamente

gente do frio o cobertor
pelas costas no fundo do dia a
noite e a oração deus nos
perdoe a ferocidade a dor tão
profunda a comida mal servida e
desperdiçada o vocabulário dos
filhos a virtude e o cheiro
das raparigas o asseio da páscoa a
pressa do terço e a maldição do seu
nome

depois dormem pedras fechadas
tombadas no silêncio como em sustento
e juram que na fome dos lençóis
chegam virgens à luz do dia

por vezes a areia vem à estrada acordam
com o despiste dos forasteiros chamam as
ambulâncias e obreiras brotam das
portas a entristecer como
boca fora do peixe o fôlego o mata

gemem para dentro dos xailes à espera
que lhes digam que o mar está bravo
não haverá saída mais quentes as casas
mais fundo o estômago e tão impossível
a vida de sempre

os forasteiros mortos chegam ao
céu feitos de ruído à noite e certamente
não terão voz que a isso se sobreponha para
explicarem ao que vão é normal que
o céu não entenda nada do que se
passa numa terra tão alagada de
água onde pela morte se trocam
instintivos segredos uma recatada
robustez que dentro das portas de verdade
faz com que as viúvas segurem os telhados
mãos erguidas no ar

e os forasteiros não são ninguém senão
uma maior nave de areia que
bateu à porta no temporal e nada de novo
o frio a imagem de sempre

* * *
do livro Publicação da mortalidade (2018)
* * *

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