dois poemas: wei & chamie

RESPOSTA A MEU IRMÃO ZHANG WU

Minha humilde casa
   dá para as montanhas do sul.
Faz tempo que ninguém me visita,
   por isso a porta sempre fechada.
Sem preocupações ao longo do dia,
   aprecio meu longo repouso.
Pego minha vara de pescar
   e tranquilamente esvazio
   o odre de vinho.
Se quiser me visitar,
   venha, será um prazer.

* * *
Wang Wei (701–761), praticante do budismo chan. Poema reunido no volume Poemas clássicos chineses, com tradução e organização de Sérgio Capparelli e Sun Yuqi, L&PM, 2012
* * *

FOGO NO CÉU DA BOCA

Não faço o papel
de quem bate à porta
e espera a sua hora.
Esta é a palavra do profeta:
não troco os papéis
nem os rumos de vossa rota.
Vou por mim
sem a graxa da demora.
Caminho a pé no labirinto
que me ampara
e nem me escoro
na escora da memória.
Não forço as minhas rótulas
nesse passo.
Lentas, desfilo as cenas
do vosso agouro
em minha câmara.
Não faço o que disfarço.
Não corto os fios do telégrafo,
nem rompo os nervos
de nossa têmpera.
O que anuncio
no lacre desta mensagem
são os chifres do dilema
que faz de mim
outro profeta
entre o podre de vossa tâmara
e o mel de nossa abelha.
O que trago à tua porta,
nossa e vossa,
não são os frutos desta época.
São os ácidos
de meus açúcares
na palavra de teu déspota.

* * *
Mário Chamie (1933–2011), praticante da poesia-práxis. Poema do livro A Quinta Parede, Nova Fronteira, 1986
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