duas falas* do piva

O ritmo do jazz é inseparável da minha poesia. Aliás, agora que está na moda badalar o Chet Baker, você observa que em 1963 eu já falo dele em um verso meu. Agora ele está na moda, descobriram o cara quando ele está em uma ruína, quando está em franca decadência, está democrático, convidando uns caras do Rio de Janeiro, um pessoal que não sabe nem o que diz nem o que toca, para tocar com ele. Ele democratizou essa sua energia, e daí perdeu todo o pique. Atualmente ele é um cara totalmente sem aquele pique, aquela genialidade, sem aquela energia de transformação e de invenção que ele tinha, a ponto de influenciar a nossa bossa nova. E todo esse balanço da bossa é o balanço da minha poesia. Uma poesia sem música, sem jogo de cintura, é uma poesia rígida, dos comunistas, dos marxistas, uma poesia absolutamente trancada dentro de um túmulo que é o túmulo do leninismo, que já está fedendo. É claro que o rock também me influenciou, mas não teve a mesma importância que o jazz, o cool jazz. Mas há evidentemente alguma influência do rock, uma vez que pessoas como Jim Morrison, Bob Dylan, Frank Zappa são excelentes poetas. Então o rock me influenciou também, e até mesmo antes do jazz. Eu fui, por exemplo, um dos caras que em 1957 foi receber o Bill Haley, com um grupo de jovens, lá na Praça do Patriarca, onde ele se hospedou. Fomos fazer uma manifestação de carinho, de afeto. Posteriormente o jazz me influenciou e, logo em seguida, a bossa nova. Eu fui apaixonado pela bossa nova. Então essas três correntes – o rock, a bossa nova e principalmente o jazz – são uma constante da influência musical na minha obra.

– em entrevista a Floriano Martins, publicada em O começo da busca, Escrituras, 2001

Poesia=xamanismo=técnicas arcaicas do êxtase. Xamã: sacerdote-poeta inspirado que, em transe extático, percorre o inframundo, florestas, mares, montanhas e sobe aos céus em “viagens”. Dante foi um xamã cabalista que conheceu, em sua viagem pelos três mundos, os orixás travessos da sombra. Deixe a visão chegar. É a hora da despedida dos deuses do deserto & da chegada dos deuses da vegetação. Minha poesia é magmática, de magma: como Dante, sou exilado em minha própria pátria. Como Dante, sou monarquista e reacionário. Como diria Pasolini, sou uma força arcaica, um bárbaro. & não sou um homem normal, isto é, um racista, um colonialista. Ecologia da linguagem: os poetas brasileiros têm que deixar de ser broxas para serem bruxos. Estados alterados de consciência. Há quem disseca os versos, mas não conhece o êxtase, que é a alma dos versos (Mckenna / Gordon Wasson). O caminho do poeta/xamã é o caminho do coração. “e parve di costoro / quelli che vince, nos colui che perde.” Dante, Inferno, canto XV.

– em depoimento à revista Poesia Sempre, FBN, 1997

* ambas coletadas no volume Encontros | Roberto Piva, Azougue, 2009

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