Exame de convivência

Do século 20 ao 17 antes da era cristã seriam as edubbas esta instituição escolar na Babilônia Antiga. O que a pesquisa arqueológica traz é pobre, fragmentos que incluem cartas de advertência (não vá o aluno zanzar quando deve estudar), um mestre a tachar um discípulo de incompetente, súplicas à deusa Nisaba que a redação fique boa etc. Não é fácil nem rápido compor a suposta mecânica escolástica de um dos mais antigos berços da prática, do cultivo e do ensino da escrita, mas não é errado supor que muito material soterrado ainda virá à tona.

O assunto da escola babilônica causa febre no meio dos grafólogos. Parece contudo aliado inconteste de uma resfriada frustração, tão antiga quanto a busca. Uma equipe é destacada, incentivada, equipada, vai a campo e passa anos no labor minucioso de sondar e desentranhar os membros de uma família narrativa que não nos supôs e não nos suporá deveras; mas quiçá saibamos nela perceber um veio direcional da grande cultura – eis a mão na massa da história. A frustração documentada é: o time acredita ter achado uma escola, faz o cartaz, a notícia cativa interessados, mas não se confirma. Não era uma escola.

Um caso famoso está numa sala do Palácio de Mari. A presença de bancos paralelos bastaram para que o arqueólogo anunciasse o achado de mais uma edubba. Mas bancos paralelos para o estudo seriam novidade na tradição referencial do que indica ou não indica uma escola babilônica. Além do que, o espaço entre um banco e outro seria demasiado estreito, e aos alunos caberia mais o contorcionismo que a leitura e a escrita.

Conhecido como a pseudo-escola de Mari, o sítio ganhou a atribuição mais provável de depósito de vinhos. Entre o que seriam bancos, guardava-se jarros largos da bebida. As poucas tábuas encontradas não exibiam diálogos entre mestre e aprendiz, exercícios ou lições, mas um monótono controle de estoque. Pode ser, como a frustração de Mari ensinou, que escolas nunca houve em palácios babilônicos. Mesmo as edubbas, pensadas institucionalmente, talvez sejam wishful thinking modernizante, e os achados se restringissem a casas de escribas a ensinar o ofício a pupilos capazes interessados nos poderes de exorcismo, da divinação e da influência régia.

O caso consta em Lire et Écrire à Babylone, uma das muitas fontes que nos botam a pensar na virtude do vírus da escrita. Se a língua é viva, se ainda grafamos o latim transmutado e colecionador, se a profecia é tão atraente quanto a planilha apesar de indisponível às máquinas, por que não escrevemos para a Covid-19, perguntamos o que quer ela compor conosco, em vez de brindá-la com o medo da pandemia?

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