filosofia fotográfica

No meu primeiro post aqui citei como herói da teoria fotográfica o artista Joan Fontcuberta, autor, entre muitos outros, dos livros no Brasil editados, O Beijo de Judas e A Câmera de Pandora. Neles Fontcuberta trata do seu tema principal, a mentira (ou a verdade) na fotografia.

Mas os heróis da filosofia na fotografia são muitos, assim como muitos são os títulos sobre o assunto. Buscando apenas na minha biblioteca particular, selecionei alguns títulos, uns mais, outros menos óbvios, para trazer um tanto extra de luz (uma superexposição!) para reflexão. Vamos a eles:

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Sobre a Fotografia, Susan Sontag, 1977 (Companhia das Letras)
Um clássico do gênero. Nos seis ensaios do livro, a autora trata do mundo em que as relações humanas passaram a ser mediadas por imagens, dissertando não só sobre a história da fotografia como também pela história vista pela fotografia.
“Sofrer é uma coisa; outra é viver com as imagens fotografadas do sofrimento, que não necessariamente fortalecem a consciência e a habilidade de ter compaixão. Isso também pode corromper. Uma vez que alguém vê esse tipo de imagem, surge a vontade de ver mais – e mais. Imagens hipnotizam. Imagens anestesiam.”

 

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A Câmera Clara (Notas sobre a Fotografia), Roland Barthes, 1980 (Edições 70)
Outro clássico, onde Barthes vai além da reflexão sobre a imagem, meditando sobre a vida e a morte.
“Por fim – ou no limite – para se ver bem uma fotografia, é melhor desviar o olhar ou fechar os olhos. ‘A condição necessária para uma imagem é a visão,’ Janouch disse para Kafka; e Kafka sorriu e respondeu: ’Nós fotografamos coisas para tirá-las de nossas mentes. Minhas estórias são uma forma de fechar meus olhos.”

 

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Ensaio Sobre a Fotografia (Para Uma Filosofia da Técnica), Vilém Flusser, 1983 (Relógio D’Água)
Nesse resumo de aulas e conferências, Flusser metaforicamente abre a câmera fotográfica para relatar duas revoluções, a escrita, em meados do segundo milênio a.C., e a atual, imagética.
“… A fotografia não é instrumento, como a máquina, mas ‘brinquedo’ como as cartas do baralho. No momento em que a fotografia passa a ser um modelo de pensamento, muda a própria estrutura da existência, do mundo e da sociedade. Não se trata, nesta revolução fundamental, de substituir um modelo por outro. Trata-se de saltar de um tipo de modelo para outro (de paradigma em paradigma). Sem circunlocuções: a filosofia da fotografia trata de recolocar o problema da liberdade em parâmetros inteiramente novos.”

 

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O Fotográfico, Rosalind Krauss, 1990 (Editorial Gustavo Gili)
A professora de história de arte moderna da Universidade de Columbia “ataca” a maneira de se escrever sobre fotografia, e particularmente, a sua história.
“Hoje, em todo lugar, tenta-se desmantelar o arquivo fotográfico, quer dizer, o conjunto das práticas, instituições, relações de onde surgiu inicialmente a fotografia do século XIX, para reconstruí-lo no quadro das categorias já constituídas pela arte e pela história. Não é difícil imaginar quais os motivos de semelhante operação, mas o que é mais difícil de entender é a indulgência para com o tipo de incoerência que isso produz.”

 

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O Ato Fotográfico e Outros Ensaios, Philippe Dubois, 1990 (Papirus Editora)
Mais um grande tratado filosófico sobre a fotografia além da imagem.
“Como a intenção de Baraduc é apenas apreender melhor a própria essência das forças ‘invisíveis’, tudo o que se refere às condições de visibilidade ‘normal’ vai desaparecer aos poucos de seu trabalho. Em primeiro lugar, ele aprende a dispensar a luz do dia. por exemplo, após os histéricos e as crianças, pôs-se a fotografar um abade. Fotografou-o durante o sono, no escuro, colocando o aparelho acima da cabeça. Resultado: uma ‘nuvem negra’ complexa, um fantasma da noite, que interpretou com seus critérios como ‘aura de um pesadelo’. Seguiram-se outros fantasmas auraculares noturnos, que assinalam o recolhimento (branco horizontal), a vontade (cintilação perolada) etc.”

 

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Proust e a Fotografia, Brassaï, 1997 (Jorge Zahar Editor)
O fotógrafo traça um paralelo do livro Em Busca do Tempo Perdido com a grande paixão do seu autor, a fotografia.
“Mas é definitivamente a cena do beijo que fornece as chaves da inspiração do relativismo proustiano: ‘As últimas aplicações da fotografia – que deitam aos pés de uma catedral todas as casas que nos parecem tão frequentemente de perto, quase tão altas quanto as torres,… e num fundo pálido e dégradé são capazes de encaixar um horizonte imenso sob o arco de uma ponte… – não vejo como isso possa, assim como o beijo, fazer surgirem, do que acreditamos uma coisa de aspecto definido, as cem outras coisas que ela não deixa de ser, já que cada uma delas é relativa a uma perspectiva não menos legítima.’”

 

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The Ongoing Moment, Geoff Dyer, 2005 (Vintage Books)
O autor escreve romances e ensaios, além de ser um dos editores de John Berger, que por não tratar especificamente de fotografia não se encontra nessa lista. (mas estará no rodapé 🙂
Nesse livro, Geoff afirma que os fotógrafos consagrados (Walker Evans, André Kertész, Dorothea Lange, Diane Arbus, entre outros) se “encontram constantemente” através dos assuntos similares fotografados por eles: barbearias, mãos, ruas.
“Na fotografia não há o enquanto. Há apenas aquele momento e agora este momento e entre eles não há nada. A fotografia, de certa forma, é a negação da cronologia.”

 

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Photography After Frank, Philip Gefter, 2009 (Aperture)
O editor de fotografia do New York Times apresenta ensaios sobre a fotografia contemporânea após o lançamento do livro The Americans, de Robert Frank, um marco na história, mostrando de onde a fotografia veio e para onde ela está caminhando.
“No final, uma foto pode gravar um fato, mas sem estrutura os fatos não são mais que evidências. O que eu procuro são evidências com observação.”

 

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Bending The Frame (photojournalism, documentary and the citizen), Fred Ritchin, 2013 (Aperture)
Ritchin
é professor do Departamento de Fotografia e Imagem da Tisch School of Arts da Universidade de Nova Iorque, e também co-diretor do Programa de Fotografia e Direitos Humanos. Nesse livro ele examina os usos históricos e contemporâneos da fotografia e mídias relacionadas para inspirar mudanças sociais.
“Se o último século foi o século da Fotografia, este é o da Imagem – nas marcas, na vigilância, na monitoração, no posicionamento geográfico, no sexo (manda nudes), nos selfies, no jornalismo do cidadão, nas imagens médicas, video games, snapchat e, dentro de tudo isso, a fotografia.”

 

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Como Ler Uma Fotografia , Richard Salked, 2014 (Editorial Gustavo Gili)
(em inglês; Reading Photographs – An Introduction to the Theory and Meaning of Images)
Apesar do título simplório na versão em português, este é o livro mais didático de todos. Cada capítulo (leitura de sinais – verdades e mentiras – identidade – estética, etc) traz exemplos fotográficos (de fotógrafos consagrados) que dão suporte para as explicações. Sem dúvida a melhor maneira de se passar de iniciante a estudioso.

 

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Photography Speaks – 150 photographers on their art, Brooks Johnson, 2004 (Aperture)
Aqui uma raridade. Como o título diz, o livro traz uma micro biografia, uma foto e um texto dos próprios fotógrafos, desde o início da fotografia (1800 e tantos – Talbot, Nadar, etc) até os dias de hoje (Mary Ellen Mark, Cindy Sherman, Christian Boltanski, a lista é imensa). Pra ficar na cabeceira.

PS: alguns desses livros podem ser encontrados online em formato pdf.

PS2: Para ir além no objeto olhar, é importante ler ao menos dois livros do historiador e crítico de arte John Berger: Modos de Ver, 1972 (Rocco) e Sobre o Olhar, 1980 (Editorial Gustavo Gili). No Youtube também encontramos a série Modos de Ver em vídeo.

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