Fotografo, logo existo *

thames-hudson

Faz nem um mês visitei a casa de um amigo recém falecido. Quando lá cheguei encontrei a família, entre lágrimas e risos e silêncios, selecionando as fotografias que continuariam a fazer parte da memória particular de cada um. Como esse amigo era um idoso, eram fotos e mais fotos de épocas diferentes: retratos retocados coloridos em cores impossíveis, os bons e velhos pretos e brancos e cinzas, polaroids, 3x4s e as clássicas dos anos 70, mais desbotadas ou mais contrastadas. Duas curiosidades: o desprendimento com que os familiares se desfaziam do “material” e o fato de que logo perguntaram se eu queria algumas daquelas fotos. Naquele momento meus olhos brilharam.

IMG_7213(foto 1: casa da tia Paulina e tia Nené – foto 2: desconhecido)

“Toda fotografia constitui uma promessa de eternidade, ao custo de nos revelar como futuros cadáveres: a imagem permanece enquanto o corpo desvanece. E, se para Barthes a fotografia mata, para Kracauer o que ela realmente pretende é desterrar a lembrança da morte.” (Joan Fontcuberta, em A Câmera de Pandora)

Há algum tempo coleciono fotografias “encontradas”. Tudo começou num mercado de pulgas europeu, quando comprei mais de mil slides visando achar caminhos para o desenvolvimento do meu próprio trabalho. E de certa forma encontrei uma saída. As fotos dos velhinhos em viagem pela Suiça nos anos 50/60 serviram de suporte para um evento que participei em 92 e até hoje procuro tempo para ir além nessa pesquisa. Já prometi parar de fotografar e virar um curador das imagens existentes. Sem sucesso.

old1(uma das fotos originais dos velhinhos)

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(fotos da série Spoiler, 2016)

Se no começo dos anos 90, sem internet, eu achava que havia descoberto a roda, hoje sei que a fotografia encontrada é objeto de culto já faz um tempo. Só pesquisando para aprofundar – um pouco – esse texto descobri um ensaio instigante  (The Found Photograph and the Limits of Meaning, Barry Mauer) e grupos de colecionadores; um deles, na Argentina, com mais de 22 mil integrantes (negativos encontrados – facebook). Também descobri a existência de um documentário sobre o assunto, Other People’s Pictures, de 2004.

Mas é no campo das artes que as coisas se confundem (bem, o que não se confunde nas artes?). Ali, com a presença da imagem digital, teóricos e artistas debatem se a fotografia é arte (isso é bem mais antigo), se coisas encontradas são arte (isso também) e, pelo andar da carruagem, se a arte é arte. Novamente, autores mais estudados discorrem sobre o assunto, o que não é a pretensão desse texto, até porque assunto infinito.

Hans-Peter Feldmann

(Hans-Peter Feldmann)

Joan Fontcuberta (nosso herói aqui hoje), conclui que o artista Joachim Schmid “condena a sacralização excessiva da história e de seus vestígios; nem a memória deveria ser um grande cemitério nem os museus deveriam funcionar como mausoléus que só glorificam o passado. Pelo contrário, a história deve poder regenerar o presente e incentivar o futuro.”

Joachim-Schmid2

(Joachim Schmid)

Schmid é radical, seu lema é “fotógrafos do mundo, uni-vos e detende vossa produção excessiva e insensata, reciclai o que já existe!”

Fica a dica.

PS: para saber mais desse e outros assuntos sobre a fotografia contemporânea é fundamental ler os dois livros de Joan Fontcuberta: O Beijo de Judas e A Câmera de Pandora.

Outros links
– trabalho dos fotógrafos italianos Arianna Arcara e Luca Santese, do grupo Cesura.
– curta Negativos Encontrados

* título roubado de um capítulo do livro A Câmera de Pandora, de Joan Fontcuberta, Editora G. Gili, 2010

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