a espiritualidade clandestina de José Saramago

No que diz respeito aos dois pecadilhos reiterados e felinos do de resto amplamente estimulante ensaio A espiritualidade clandestina de José Saramago, composto por Manuel Frias Martins e exibido em 2014, não será repisá-los aqui mais urgente que um breve apontá-los equipados acaso nós desde o robótico interesse dos bandeirinhas do futebol. Cabe anotar porém que se no campo são as partes do objeto interessado (o mais avançado jogador no campo de ataque) sob escrutínio escusadas não avançarem a linha limítrofe e imaginária do positivismo chamemos euclidiano do auxiliar, aqui serão gatilhos de acusação justamente o que se viu aquém da provada elasticidade do ensaísta, tanto mais ruidosas tais protuberâncias em potência suculenta mas em desenvolvimento atrofiadas soem-nos e soam conforme atravessasse-nos a dedicada e delicada construção. São mesmo dois, pois agora refizemos as contas.

O primeiro trata do desprezo superficial de Caim pelo instituo do Milagre no romance Caim. Ele o personagem saramaguiano cita, conforme excerto destacado, e mistura a seu sopão de maldades por que se persegue o autoritarismo divinoso, o milagre como mais um estratagema de persuasão encantatória apenas indireta, relatada e não vivida, desditosa empresa da conquista d’almas. Mas a raiva de Caim não resolve o problema do milagre, e tampouco Martins solidariza-se com a fértil e inexplorada frente de cultivo poético e epistêmico que a larga fenomenologia do invisto, do inaudito, mesmo do impensável e dos espantosos achados deste ponto onde entendemos a dinâmica quântica menos e menos como a suspeitada indiferença quântica.

Milagres podem ser as imagens das comunicações interdimensionais como podem ser índice de nossa vida virtual, isto é, subproduto da realidade inatingível mas ~manifestável, um jogo ou dança de sombra ao pé do fogo projeta-se à parede e deixa nela a gravação queimada de uma sua idêntica silhueta, da sombra em dança ou jogo, três lebres trespassam para trás um muro baixo enquanto ímpias sincronias assentes tão somente nas peculiaridades da dilatação de uma viga de madeira numa certa manhã mediterrânea tombam antes o vagão de pinhão e salvam a vida do jumentinho que salvará do afogamento na corrente do rio o filho do agricultor nove anos mais tarde, que quando Senador impedirá uma guerra estúpida e assim nove mil mortos inocentes. Pronunciasse simplesmente que por ali há modos de ir e que entretanto hoje não irei. Mas perde-se a oportunidade e nós seguimos em frente.

O segundo é exagerar a invocação dos mortos em nome de Deus, como se o problema da mortandade geral tivesse qualquer coisa que ver com Deus, seu nome ou qualquer coisa sua. Nós modernos simplesmente não conhecemos volumosas mortandades em nome de Deus, não de modo a torná-las fundamentos de um escárnio violento, de modo que o argumento pela subversão interpelativa das certezas do Senhor no bojo de uma luta maior contra a indignidade humana nada ganha de sustância se acusamos antes dos maus iogurtes, maus carros e maus ônibus em autoestradas amalucadas, a indústria da arma de fogo, o individualismo exclusivamente concorrencial das pressões no trabalho derretido na infusão do Capital no caldo da lógica, os crimes passionais, as disputas por petróleo e território, os distúrbios advindos de comércios ainda lamentavelmente relativizados como ilegais, a devassa de Gaia baixo a cruz do Antropoceno e a influência arquitetônico-cultural das potências imperialistas na Guerra Fria o ex-machina do Bebé Gigante. Sem tônus e ainda assim repetido, dóem como sofismáticas e ligeiras impressões tais articulações, e um chega a perder a concentração. O romance de Saramago é atual mas, hoje, não se mata em nome de Deus. Não adere, a suspeita. De que fala e o que trará de útil pois o canto deste grito?

Dito isso, devo recobrar, desdas margens onde pisaram Eulálio Carpeaux Gilda e Antonio tanto quanto Andrade e Andrade, margens daquela desgraçada mas conhecida periferia do iluminismo onde ecoávamos as modas francesas então norte-americanas então alemãs de operar a crítica, meu verdadeiro deslumbre ao devorar tão urgente e elegante trabalho de análise literária sobre o tema da espiritualidade, já que nada sei da crítica portuguesa, sua tradição, mas usei-me no novo capim novo da américa pobre a catar dentro do ensaísmo sem escola dos professores artistas que mantêm viva a ilusão de uma universidade brasileira preciosidades da mais singular marca da generosidade intelectual que é o exercício da análise sobre autores que por pouco passavam como loucos inúteis. Um livro por demais acessível e iluminado, humoroso e sério, ainda que chancelado pela fundação que leva o nome do autor estudado e Nobel ele mesmo, o que nos haveria de meter em sítio como que de pé atrás. Mas tudo passa bem e equilibra-se, e mesmo quando o crítico empilha em seu chapéu o chapéu chapéu do advogado para não dizer o chapéu chapéu chapéu do publicista, entedemos que por mais decantada, a paixão do analista pelo objeto seria o de novo e de novo eletrocutada, e isto pode dizer energizada, pela oportunidade política de ir além da descrição referenciada de procedimentos e escolhas estéticas até botar quem sabe os pingos nos is no nome de um artista desprezado e agredido em seu país, censurado em 1993, apontado como mero ateu preguiçoso e assim odiado e mais recentemente revogado da condição de baptista de uma praça na cidade do Porto. Certo catolicismo português, e talvez confluente aos espíritos da fruição literária nacional e sobre ela influente, não percebeu vantagem no engolir do Saramago e deu a insultar o escritor, e tal registro de recepção, se incomodou Martins, é porque passou do ponto da simples recusa para aquele da impostura. A história, entendeu o ensaísta, estava ainda mal contada, ou mal recontada, e empenhar um esforço extra por isso, por levantar quanto pudesse Saramago de seus limbos imerecidos, era unir-se a um combate necessário. Sobram chapéus mas eram seis quando paramos de contar.

Martins debruça no que apresenta tal “romances bíblicos” de Saramago, ‘O Evangelho Segundo Jesus Cristo’ e ‘Caim’, para tentar esboçar uma figura da espiritualidade do novelista português. Ele leva nossas mãos tão longe quanto estabelece que ela, a espiritualidade, dá-se ali onde Cria, o espírito, mas a floresta do que ser o espírito, essa Martins não anima conosco. Fato é a ação do livro apreciar a PRODUÇÃO de/em uma diversão (a espiritualidade), e não sua norma. Espiritualidade “enraizada na interrogação” atinente “ao amor e à compaixão, à tolerância e ao perdão, à responsabilidade e à harmonia” que incita o espírito motriz a vociferar dentro da possibilidade mesma do entendimento. Pintar de verde o céu como Tom Zé e USÁ-LO (caps nossas) para enxugar lágrimas. Comunicar, um seu ofício diuturno e dialógico, no que sai no salto e volta ao chão a base de perna e contraperna que move e sustenta um homem em meio a tantos, um nome de muitos, os muitos nomes de um.

Se toma tantas páginas o artifício romanesco da participação de um sujeito que o escreva, será bom tratar o tomo de grandes e complicadas coisas. Ou isso ou ler as tantas sagas dos moreiras dos anos oitenta ou qualquer coisa que o valha se quedaria impraticável. Mas tal lembra Martins que Saramago faz, pois deforma e testa as normatizações do estado disciplinador e de seus abusos o autor. É claro que um comunista daria num artista engajado, mas não era tão óbvio que miraria e arquearia setas duras de respeito contra tão fundamentalmente estruturais parcelas das culturas globais do ocidente, ao que parece com primazia na tática de falar por Jesus e ortogonalmente capaz seara romanesca fora, criando de mais a mais a “multiplicidade de mundos” que apenas espera-se.

A leitura-diagnóstico também da recepção como se indicou preocupadamente alarmante de Martins (no fundo era outra coisa, etc) aposta que um ateu declarado, desde que fale por mais si, chegará antes e mais que o crente perto de Deus se, por exemplo, renunciar aos erros da Igreja. Seria, numa tradução livre e rápida, encarnar a santidade que é viver longe dos pecados da autointitulada esposa de um profeta rebelde que a nunca em verdade conheceu, não custa lembrar. Claro que dá-se o rebuliço dizer isso em qui, cujas raízes de uma socialização clerical submetida ao Vaticano pimparam ou dificultaram os frutos dos encontros desde as artes da malícia e da perversidade. Aí um tentáculo da turba em seus escritórios arranja-se à velha moda da caça ao Hamellin e chora-se e nascem medalhas que fundam fundações que imprimem este atenorado grito de resgate à complexa e delicada meada de uma obra e de uma vida compatriotas, mas também de um fluido legado internacional de mais ou menos eloquentes leituras compartilhadas.

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Estruturalmente, olhamos para um arco cuja tese é vetor que paira nítido, enquanto atravessa, sobre catorze capítulos eles em si pílulas ensaísticas capazes de submergir rapidamente, em poucas páginas, funduras dentro vários elementos de preocupação do filósofo ficcionista. Se lembrar das famosas suítes de Frankfurt, centradas e abrangentes a um só tempo, tabuleiros de redes de parágrafos vincados e torcidos, o leitor terá somente a si a creditar. Um dos elementos a preocupar o filósofo ficcionista, por exemplo, é o sexo. Diz no capítulo dedicado ao sexo Martins que

“Recusar a morte e optar pela vida e pelo mundo humano também significa para o Jesus lawrenciano fruir finalmente os prazeres que o corpo tem para oferecer, e que o narrador enuncia deste modo:

‘Ressuscitados de entre os mortos, acabava de compreender que também havia no corpo a maior vida, para além da pequena vida. Era virgem para evitar a pequena vida, a vida cúpida do corpo. Mas ficava agora a saber que a virgindade é uma forma de cupidez, e quando o corpo volta a levantar-se, fá-lo para dar e obter, para obter e dar sem cupidez. Compreendia que tinha ressurgido para a mulher ou as mulheres que conhecem a maior vida do corpo, sem cupidez na dádiva, sem cupidez na obtenção, com as quais o seu corpo podia misturar-se.’

‘Era virgem para evitar a vida pequena, a vida cúpida do corpo’, diz-nos D. H. Lawrence. E virgem terá de ser Caim, filho de Adão e Eva, antes de partir para as intermitências temporais de errância terrena por que o romancista português o levará até aos prazeres do corpo de Lilith. Mas tal só acontecerá depois de Caim ter experimentado a surpresa da ereção, a significância do ímpeto lascivo e o fulgor do seu olhar masculino perante o seu próprio esperma nos rostos e nas bocas de algumas escravas que para isso aí foram colocadas pelo narrador saramaguiano numa espécie de espermodrama intempestivo:

‘Conduzidos por elas a um quarto separado, caim foi despido e logo lavado dos pés à cabeça com água tépida. O contacto insistente e minucioso das mãos das mulheres provocou-lhe uma ereção que não pôde reprimir, supondo que tal proeza seria possível. Elas riram e, em resposta, redobraram de atenção para com o órgão ereto, a que, entre novas risadas, chamavam flauta muda, o qual de repente havia saltado nas suas mãos com a elasticidade de uma cobra. O resultado, vistas as circunstâncias, era mais do que previsível, o homem ejaculou de repente, em jorros sucessivos que, ajoelhadas como estavam, as escravas receberam na cara e na boca. […] As escravas pareciam não ter pressa, concentradas agora em extrair as últimas gotas do pénis de caim que levavam à boca na ponta de um dedo, uma após a outra, com delícia.’

Jesus e Caim unidos pelos meandros da conversação artística entre dois escritores maiores. Jesus e Caim geminados pela sexualização da experiência do mundo oferecida a ambos como derradeira opção existencial.” Martins exalta o enfrentamento de tão poluta via do comportamento por Lawrence e Saramago, neste capítulo, por crer merecerem suas “atitudes criativas” nossa atenção, uma vez firmarem-se prenhes da coragem de “não querer separar a sexualidade do sagrado nem, ao mesmo tempo, do fundo mitológico de uma religião que dele parece estar cada vez mais carente.”

Assim faz Martins, observação equipada de muitas lentes, categorizador a lançar mão de um selecionado, contido ferramental idealógico disponível na biblioteca mundial contemporânea para enfim reafirmar, no que cedia à impressão centrípeta de aprofundamento, a fuga em mola firme ao rabo do vetor do arco original para dizer algo como

“É nesta teia de sexo e morte que o efeito espiritual do romance volta a confirmar-se. Através de Caim, o rancor contra Deus atinge aqui um paroxismo impressionante. Mas Caim é uma espécie de justiceiro que contraria a cegueira da procriação a qualquer preço, designadamente o preço da indiferença moral que é exigida por Deus. Contra ela Caim (e a humanidade com ele) ergue a plenitude erótica, o mistério, a experiência profunda da sexualidade, a vida e a morte, elevando moralmente todas elas a alturas dignas da verdade. Isso é feito através de ações insensatas, é certo, e de um modo brutal, violento, selvagem mesmo. Mas o Caim da ficção saramaguiana, lembremo-lo, é humano, demasiado humano.”

A “potencialidade subversiva” de um autor que “não tem medo de falar com Deus” será função da “diferença solitária” do escritor Saramago e atrairá mais e mais este público afeito às sensações associadas “ao inesperado, ao não familiar, ao estranho, ao indecidível, ao mitológico e, é claro, também ao espiritual”, confia Martins, apenas porque o romancista fincou bandeira nas próprias condições de condução de uma voz crítica e fez a contento seu trabalho de “impugnar aquela cisão entre ética, moral, política e literatura” onde os Modernos por destemperança e aflição especialista situaram-se. Viveremos, porém e agora, o que fizermos do momento da espiritualidade, qual seja, viveremos os modos de fazer de que são capazes os libertos modos de existir, ou não viveremos.

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