Infusão de casca de mexerica e grãos torrados de café

O café vem sofrendo, nos bolsões de maior renda das maiores cidades, o impacto da quarta revolução industrial –– esta que descarta a indiferenciação da qualidade e a desumanização processual das baixas margens e grandes volumes da revolução anterior propondo, em seu lugar, alta qualificação informada, intimidade artesanal nas faturas, pequena escala e alto valor social.

Como todo fenômeno econômico novo, não é sem paradoxos que se exibe o movimento. Gentrificação, francesismo que indica a apropriação hostil do tradicionalismo pelo luxo vulgar, propaganda enganosa, a qualificar produtos nem sempre bons em ladainhas publicitárias “narrativas” e identidades visuais chupadas dos compêndios do hemisfério norte, além de inúmeras fachadas desalmadas a servir interesses escusos e emporcalhar nosso pé sujo são algumas das críticas recorrentes associadas à quarta revolução industrial em sua expressão varejista.

O saldo, no entanto, para quem tem coragem de buscar a informação radical, está positivo. Nota-se salutar diversificação de acesso ao que antes era exclusivo ou proibitivo, aproximação insubmissa entre consumidor e cadeias produtivas, e baixa tolerância à enganação e à vantagem indébita.

O café, por ser produto tradicional brasileiro desde o ciclo colonial monocultor, está arraigado nos hábitos, mas restou tempo demais voltado à exportação das melhores safras, e encoberto por uma oferta já moída e não raro desgostosa, competição acomodada, presunção de que o consumidor brasileiro é um povão burro, e baixa circulação de informação.

Desde que comprei um moinho manual, tenho, na medida do possível, tentado diversificar a origem e o produtor dos grãos, experimentando torras, altitudes e climas e tentando descrever seus estímulos em minha condição física e memória afetivo-aromática. O último lote que comprei foi o Café do Mercado, do Espírito Santo, no qual acentuam-se cereja e caramelo.

Hoje, por puro acaso, peguei na mão um restante de grãos que sobrara da moagem matinal de um lote novo mas inexpressivo e, em vez de devolver ao pacote, resolvi participá-los da infusão de cascas de mexerica que corria na chaleira. O resultado surpreendeu paladar e corpo, e assim compartilho aqui o achado improvisado. Estimulante do Anahata (nome derivado do sânscrito para o quarto chacra de energia na tradição medicinal hindu), a infusão recende a fios de ovos, tâmaras e pêssegos frescos. Dispõe a mente em foco e alerta e pode ser sorvido só, após breve meditação e entre as refeições, para ativar no corpo o desejo por alimentos frescos em pequenas porções.

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