lendo a crítica: humildade, paixão e morte

Davi Arrigucci Jr.

(Companhia das Letras, 1990)

Humildade, Paixão e Morte tem três partes dedicadas a cada um dos três termos do título, mas a obra não evolui em fases, degraus ou etapas, e sim de modo fluido-espiralado. O dito no início será dito no meio e dito no fim, certo que a partir de vistas e situações sempre novas, mas sem a menor cerimônia de reaparecer. O fôlego atlético dos ensaios, maratonas intertextuais de articulação ligamentosa e cacoetes de infinitude (o sinal de reticências no desfecho do livro sugere um autor a escrevê-lo até hoje, décadas depois da primeira edição), daria, em mãos menos hábeis, num trabalho trevoso de longo e copiosamente redundante. O que ocorre em Humildade, Paixão e Morte, no entanto, é o exato contrário disso.

O livro de Arrigucci, esforço de dezessete anos de pesquisa para a livre-docência, parece um touro virtual, tridimensional e dinâmico cujos liames fatal e humildemente apaixonados pela obra do arquiteto frustrado e rasgador do modernismo em nossa poesia conjuram no crítico o reflexo ou a imitação ou o duplo inspirado do bandeirante estrelado objeto de análise e, em si, reprodutor arguto de touros incontroláveis. O que dissemos portanto de Gilda Mello e Souza em seu livro sobre Macunaíma, vale aqui.

A aula de Arrigucci é sobre a “lição de vida e de poesia” de Bandeira. Com efeito, por ocasião da abertura da Flip 2009, o professor arriscou dizer: um país que nos deu Manuel Bandeira, o homem e o poeta, não terá como dar errado.

Parte o professor de alertar-nos à necessidade constante de reinvenção para superarmos este mar de incertezas que pode ser a vida. “Seguro apenas da própria incerteza e de uma entrega apaixonada à busca”, o artífice criador que habita todos nós precisa, baixo seu próprio esforço, passar “de uma indeterminação máxima à extrema determinação”, ou, do caos da existência à forma pensada e conscientemente trabalhada do produto; no caso de Bandeira, da vida limitadamente livre ao verso esmerado.

Nesta lenta e obstinada operação de abrir-se à vida sem temor, recriá-la desde sã autonomia e a ela retorná-la novos e quem sabe desejados artefatos do gênio humano, narrativa basilar que a todos nos funda, “a difusa matéria do vivido penetra de algum modo na interioridade lírica do poema” ou do produto que for, ao mesmo tempo em que o fazedor ou produtor desentranha, depois de muito viver e aprender, “a matéria preciosa metida na ganga impura do mundo.” No processo, o homem se dá conta de que, sem trabalho, ele é

incapaz de discernir o sentido de uma vida originalmente marcada pelo sentimento de queda e inevitavelmente condenada à morte (…) estigmatizada pelo senso teológico do pecado original e minada pela melancolia, que só reconhece ruínas no palco de uma história gravada com os sinais da transitoriedade na face petrificada da natureza.

Se só a partir do esforço mais sincero, desinteressado e transparente do homem-poeta, ou do fazedor produtor, ele vê um horizonte contrário ao grande hotel abismo da finitude melancólica, resta aproveitarmos a leitura da vida e da obra de Bandeira, e sua ”luta diuturna e vã com as palavras”, como quem aproveitasse os pontos ensinados de uma simples prece secular, e nada vã porque exemplarmente inspiradora, de um longo, pacificamente aterrado e assim sereno aprendizado para a morte.

Os nove poemas de Manuel Bandeira lidos por Arrigucci são pretexto para que o autor repise:

1) a ponte levantada por Bandeira entre toda a lírica ocidental e o Modernismo brasileiro, com seu “verso livre rápido, elástico e certeiro” em que o simples não se confunde com o banal;

2) o “estilo humilde” ou natural de Bandeira, herança da tradição cristã que habilita o escritor a ocultar o sublime nas coisas chãs, “marca de fábrica do poeta e seu maior enigma”;

3) um mínimo de contexto literário da época de cada peça junto a pinceladas biográficas do poeta, da meninice pernambucana ao sanatório europeu, à boemia da Lapa carioca;

4) o artesanato minucioso e musical, rítmico e melódico, da complexa versificação de Bandeira (e aqui a arguição de Arrigucci atinge níveis subatômicos de especificidade sintática, semântica e morfológica, decerto cogitando os versos muito mais que o próprio Bandeira);

5) a “busca apaixonada” de Manuel Bandeira pelo “alvo errante” da poesia ao longo de uma vida inteira, valendo-se para tanto de repetidas alusões ao livro ‘Itinerário de Pasárgada’, “longa e lenta viagem em que o vivido, transmudado em poesia, se revela à luz da consciência que lhe deu forma”;

6) a iniludível vizinhança com a morte, que dá as caras via tuberculose ainda na adolescência para fantasmar-se em rediviva comunhão no cogito criador e exigir do poeta, sem mentir-se com promessas de além-túmulo, encará-la com coragem, pois aquilo que “o tempo impõe inexoravelmente mesmo ao que parecia inacabável como o mundo da infância” são as duras belezas de um arco de vida por nós desenhado e retesado para, um dia, conforme afirme-se em justo legado, concluir-se.

A crise por que passa a literatura, quando certas formas consagradas não convencem ou não interessam tanto, e novas, híbridas, reimaginadas e resgatadas formas vêm rompendo brechas insuspeitas de atenção, exigirá um chacoalhão na identificação, justificação e valoração daquilo que é atual e literário. Mas onde mirar, por referenciação e nortes, quando um trabalho outrora confinado (a crítica literária) liberta-se como ferramenta e atividade da ampla comunidade humana? Decerto em trabalhos de sincero artesanato, refinada atenção, e valiosa matéria. Humildade, Paixão e Morte é um desses trabalhos.

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