lendo as gentes: marighella

Marighella – O guerrilheiro que incendiou o mundo

Mário Magalhães, Companhia das Letras, 2012

Da profusão dos conteúdos digitalizados para cá, é de supor, lê-se cada vez menos, mas lê-se cada vez mais. Lê o leitor cada vez menos horas por semana, havendo como há, como nunca, oportunas variações à diversão intelectual, dos minecrafts da vida à realidade virtual. Mas graças aos métodos pedagógicos a engendrar precocidades de apreensão, e também à diversificação exponencial dos escritores, que desde díspares contingências e vivências despertam novos e nichados interesses, há, a cada semana, cada vez mais leitores.

Uma consequência desta cena, para o mercado de livros, assim enuncia-se: haverá cada vez mais títulos a esgotarem-se em tiragens em média mais e mais baixas. Ainda que restem, claro, vacas leiteiras aqui e ali. Esta posição, conforme observação das listas dos mais vendidos, se nos séculos passados era do romance, será neste século da reportagem e do ensaio de auto-ajuda. Dispondo de menos e menos tempo para ler um livro, lerá o leitor atento os títulos que maximizam a utilidade marginal da leitura – livros instrutivos e terapêuticos. E não se arrogue, a literatice, a reclamar elitismos abstratos de compensações místicas do contato ‘verdadeiro’ com a ‘verdadeira arte’, pois tal presunção, além de anti-literária, não tem lógica.

Cursei há pouco Marighella: O guerrilheiro que incendiou o mundo, de Mário Magalhães. Diverti-me mais que em 90% das séries em audiovisual que vi este ano. Além da diversão, aprendi, sobre a história do Brasil, o equivalente ao que aprende um leigo em cosmologia vendo a série famosa do Carl Sagan. Alta vantagem. De tão animado, planejo encarar, em breve, a saga do Getúlio.

Magalhães entrevistou 256 pessoas nos nove anos de trabalho dedicado ao livro, cuja bibliografia perpassa seiscentos títulos. A redação e a edição do resultado final não logram nenhum assombro literário, e contam decerto com as licenças popularizastes do copidesquismo objetivo informativo, mas são exitosas ao aprontar a narrativa com ganchos, reviravoltas, tramas cruzadas, suspenses, romances e arcos dramáticos entre fatos e dados não raro entre o curiosíssimo e o engraçado, informações capazes de enriquecer nossas conversas de bar ou almoços de família, mas também de tornar lucidamente consciente o brasileiro desinformado.

Tal foi o impacto mais severo, em mim, da leitura. Deixou-me assustado e preocupado, e na dureza do encontro documental, amarrado ao país onde venho escrevendo a minha história. A sensação é um pouco aquela que temos quando vemos um corpo humano por dentro: a delicadeza complexa da máquina viva nos deixa, mais que com repulsa à morte, prenhes de vontade visceral de nos cuidarmos. Mesmo que a vontade passe na próxima esquina, ao acendermos, distraídos, um cigarro. O ponto é justo esse: a sensação de pertença a um país que é também uma obra coletiva em andamento há de ser, para não se esvair, cultivada permanentemente.

Uma chave capaz de apresentar-nos à séria discussão política distanciados do cinismo e das simplificações irresponsáveis é nos expormos, como consumidores de produtos da cultura, aos objetos que nos dão, com força e forma, orgulho ante à comunidade em que foi gerado. Pode-se pertencer a uma miríade de comunidades; mas aqui, uma delas, e pela lógica territorial inescapável grandiosamente açambarcante, será a brasileira. Não se trata de ser anti ou hiperpatriota, nem de ter um mote aclichezado na carteira sobre o ‘afeto’ à ideia nacional, mas de aceitar a informação: vivemos num mundo cheio de ideias, mas indiscutivelmente físico. O feijão, a abobrinha, o transporte coletivo, os tijolos do prédio, o que é aqui usado está aqui, num bairro, numa cidade, neste país. Complicado ignorar, em qualquer debate que tenha por missão hierarquizar ou priorizar os assuntos graves da política, que as mais longínquas diferenças devem, em último caso, encontrar-se na unidade nacional. Não é possível desprezar a existência do Estado quando se toma banho usando a água dos lençóis freáticos sob sua guarda.

Mariguella não foi um só. Foi tantos. Poeta, nerd, certinho, travesso, namorador, soldado, apaixonado, engenheiro, arquiteto, pedreiro, salvador, gestor, chefe, leitor, líder, humorista, detetive, editor, crítico, congressista, agitador, conservador, progressista, religioso, corintiano, administrador, baiano, cético, estrategista, missionário, abstêmio, atleta, marido, pai, preso, perseguido, perseguidor, idealista, iludido, inocente, vítima, revoltado, revoltante, obstinado, forte. No colégio, fez fama nacional ao responder uma prova de ciências inteira usando versos rimados. Escondido em Moema, levantou (antes do zap) uma greve de trezentos mil trabalhadores. Cuidou de publicações socialistas oficiais e clandestinas. Redigiu manuais de subversão urbana que rodaram o mundo. Tramou e viabilizou a excursão e a turnê, em plena repressão e censura militar, de dezenas de artistas e intelectuais à União Soviética e à China. Encantado com os sucessos da experiência cubana, julgou possível conquistar justiça social a fórceps num país tão vasto e populoso. Um erro infelizmente retroalimentado pela repressão.

Não foi a luta armada uma batalha da coragem contra a covardia, apenas, mas foi um caso vergonhoso e arrastado de desperdício de talentos e oportunidades de progresso. Nosso Estado respondeu a sanha daqueles jovens idealistas e mal amparados como um irmão violentamente invejoso, e não como a firmeza paterna e a preocupação materna. Piorou o soneto e rendeu-nos páginas horrorosas hoje tratadas em aulas de história. Saí do livro com a impressão de que foi, Marighella, um patriota solidário e teimoso, aqui e ali enfeitiçado, mas dono de muitas habilidades. Não posso imaginar com clareza o que foi viver no contexto em que viveu, entre credos exageradamente utópicos e um status quo à esquerda e à direita esbanjando imaturidade. Uma das desvantagens dos regimes autoritários talvez seja esta, tornar o impacto do ambiente na formação do homem mais relevante que o impacto da formação do homem no ambiente. No Brasil da ditadura, sendo o ambiente desigual, sôfrego, injusto, o autoritarismo paria inimigos poderosos em suas próprias universidades, onde jovens românticos e autônomos consideravam tal inversão absurda.

A leitura de Marighella não pesa, passa rápido, mas deixa a gente humilde por tapar tantas ignorâncias, e às vezes tenso, com medo que descuidem de um país tão judiado e potente. Sugeri à editora uma adaptação aos quadrinhos, um modo de ampliar o acesso a tão caprichada reportagem. Sugiro, aos cineastas, a adaptação para a telona do capítulo oito, ‘Bicão Siderúrgico’, que trata da prisão de Marighella em Fernando de Noronha. Numa mistura bizarra de rebeldes integralistas e socialistas no paraíso de Vespúcio e Darwin, todos presos mas todos soltos numa ilha, jogava-se vôlei, cultiva-se hortas, assava-se pescadas, montava-se bibliotecas, vendia-se artesanatos e ministrava-se oficinas de interesse geral.  Num cenário belíssimo, esta exceção prisional em Noronha, estranhamente humana, civilizada e dramática, foi, como diz o jargão, de cinema.

Em suas páginas mais cruciantes, o livro detalha a metodologia nada honrosa dos interrogatórios da polícia. São páginas diante das quais devemos atentar, por dever cidadão e zelo histórico, em modo menos ressentido que investigativo. Por penosa que seja a disciplina, é mais útil discutir desde quais configurações estruturais, nas leituras psicológica e filosófica, pôde normalizar-se a prática da tortura. Em seguida, acompanhar a evolução dessas configurações aos nossos dias, especulando a forma de seus novos e insuspeitos rebentos. Se a tortura não é hoje prática oficial da Defesa, o degredo e o vilipêndio, a estupidez e a crueldade preconceituosa são cacoetes a rondar os sonhos de nossas razões, fazendo feder o entulho sôfrego de muitos de nossos juízos mais apressados. Policiar é preciso, mas tal verbo se conjuga antes em casa, consigo, no mentar reflexivo do indivíduo diante do espelho.

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