inferno provisório

A edição definitiva de Inferno Provisório, publicado em 2016, destoa do padrão comercial da editora por três motivos: as dimensões licenciosas, em 16 por 23 centímetros, o corpo diminuto da tipografia, que na página mais larga torna as linhas um bocado alongadas, e a capa, uma capa ruim para qualquer livro, e especialmente ruim para Inferno Provisório. Por diversão, fiz três opções de capas mais condignas.

Luiz Ruffato trabalhou quase vinte anos nos cinco volumes que compõem, agora revisados, delicioso catatau. O livro versa a vida dura de umas gentes, sempre as mesmas, desensofrendo entre os derredores de Rodeiro e o beco do Zé Pinto, em Cataguases, cidadezinhas brasileiras em Minas Gerais.

Trata-se de um experimento formal de meticulosa urdidura, um cuja análise, aqui apenas superficial e de ocasião, consumirá deveras e para muitos frutos as novas mentes das comparações acadêmicas, por anos e anos além. Cá, nossa tese abrupta achegaria a trama fina de Ruffato ao empenho táctil contra a linguagem, propondo: Ruffato predispõe a escritura de uma língua brasileira buscada na víscera mas desenformada na harpa.

Deixemos a questão sociológica para estudos mais cumpridores. Antes calar que pecar no leviano, ou se o tempo não é de vigília e processinhos… Cumpro aqui contudo um constatar em nada oblíquo, pois sentido no físico mesmo após descaprichada a trilha sucosa e chicletosa da leitura: é Inferno Provisório um daqueles estágios da arte literária, por mais que condescendamos e façamos rememoradíssimas listas de escritores, inclusive obscuros, com suas dezenas e dezenas dezenas de livros cada um, inclusive os obscuros, pois é um daqueles estágios da arte literária em que a substância se equilibra, reinaugurando a língua, entre matéria alfabética e figuração virtual. Perseguição moderna, tal é um cânone mais estreito que o buraco de uma agulha. Costuma ser cruzado por poetas campeões de longeva consistência, e, na prosa imaginativa, reconhecível por aqui, para ficarmos no casal maior, em Rosa e Lispector.

A substância equilibrada, buscada na víscera mas desenformada na beleza culta e complexa, apta e sutil, da harpa sinfônica, persegue-a todo autor que escreve do que viveu, transformando a experiência fenomenal em arte sensorial. Ela é tanto mais saborida em Inferno Provisório, porém, porque materializa a fala incomum do brasileiro marginal comum, isto é, pobre e familiar, lutador e decente apesar dos muitos sofrimentos e irregularidades de caráter, figurando, junto a essa fala – difícil de fazer mas fácil de ler –, uma virtualização a um tempo seminal e delicada, de cinematógrafo atento afeito a close-ups, deselegâncias discretas das coisas, beatitudes insuspeitas dos soslaios, montagem atualíssima que sobrepõe sugestões e deixas às surpresas enredistas e às  pespeguices do plot.

Eu tinha dezoito, dezenove anos, a roça não dava mais sustento pra todo mundo, a gente estava passando um aperto danado, aí meu irmão mais velho, o Valentim, mudou pra Ubá, conseguiu emprego numa fábrica de móveis e acabou me carregando com ele. A gente morava nos fundos da casa da dona Maria Bettio, de uma família conhecida nossa lá de Rodeiro. Eu arrumei trabalho numa oficina de lanternagem, aprendiz de pintor, e as coisas iam caminhando bem. Aí comecei a sair com a filha caçula da dona Maria. A Arlete andava com todo mundo, tinha uns quinze anos, mas era muito avançada, ela, assim, facilitava bastante, não sei se entende… E vai que um dia ela apareceu grávida e começou a me pressionar pra assumir o filho. Sinceramente não sei se era verdade ou não, mas meu irmão me convenceu de não casar com ela de jeito nenhum, ele falava que ela era uma vagabunda e que ia me botar chifre com a cidade inteira, e que toda a gente ia rir da minha cara, porque eu era um ingênuo, um capiau… Eu fiquei intimidado, outra época, outros costumes, isso dava cadeia, dava morte… Aí a Arlete amarrou uns panos na cintura e escondeu o inchaço até não poder mais. E no dia que ela desmaiou na rua, e descobriram tudo, fugi pro Rio de Janeiro. Fiquei lá um ano, morrendo de medo, sem contato com ninguém… Achava que logo-logo o episódio ia ser esquecido, e as coisas voltariam aos eixos. Mas…

O tempo de trabalho dedicado, o volume de texto (se diagramado com generosidade, o catatau suplantaria as 800 páginas), a consistência de estilo e a satisfação arquitetônica – sentimental e temática – do projeto, somados à marcante novela de curtas Eles eram muitos cavalos (2004), indicam, ou asseguram, nessas páginas, escolha de artífice, consciente e refletida. A invocação da letra é experimental mas firme, e metódica, reapresentando-se de novo e de novo nos micromotivos, torneios desenhísticos, distrações voluntárias, vinhetas, molduras, pórticos e mesmo ruídos e chapiscos. Elegante na concentração e nos inúmeros negaceios às meras possibilidades, a obra logra a vastidão sólida da arte ativa, eticamente implicada.

O caminho da singularidade artística, e logo da resistência no tempo, lemos para aprender, estará menos na opção por esta ou aquela solução, contra ou a favor de uma ou outra corrente formal, mas na medida em que a fatura ela mesma se nos deixa adivinhar, sem prefácios, a pré-ponderação e o discernimento que caminharam o escritor à solução com que depara o leitor, este com ela em mãos, remoendo-a, ruminando-a, depurando-a, para então predicá-la, tomá-la para si, misturá-la aos outros molhos e usá-la contra o mundo.

Ler Inferno Provisório confere a nós, além da satisfação de colidir obra madura, e o consequente orgulho de partilhar uma língua vivíssima no léxico, na semântica, na gramática e no discurso, façanhuda caixa de ferramentas para compreender e trafegar melhor no amosaicado Brasil atual.

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