lendo os novos: noite dentro da noite

Se eu fosse um resenhista, batizaria-o com um nome brasileiro corriqueiro, de preferência associado às camadas mais populares da sociedade. Um resenhista, formado no arcabouço de humanas das poucas Universidades brasileiras, afinal, tende a ser mais respeitável conforme se alie às perspectivas esquerdizantes da crítica, contra os antigos donos do poder, pelo poder aos novos poderosos, quem sabe inexistentes.

Na minha coluna de hoje, iniciada no dia 2 de julho de 2017, diria, em nome de meu heterônimo carismático, que principiei o dia, um domingo fresco, quieto, digno, demorando-me na figura ‘Os jogos e os enigmas’, estampada à página 2 da Ilustríssima. Óleo de Maria Leontina (1917 – 1984), a tela anuncia exposição numa galeria da cidade. O sólido plano configurado por níveis ou camadas de tons quentes lembra um edifício, destacado e coeso, contra o fundo escuro, praticamente negro. Sua luz viaja de dentro das cores andares. Suas portas e paredes vazadas são cores.

Publicada com meu nome verdadeiro mas dita em nome do resenhista popular, o texto lembraria que a pintora realmente existiu, viveu, sofreu, superou, comungou, isolou-se, publicou, exibiu-se e exibiu, meditou e refreou, negou e resgatou, afastou e atraiu, um mundo de coisas. Ela associa-se involuntária e desesperançosamente a um movimento cujo nome mais correto me escapa, a nós, como o faz o Joca Terron neste livro ao grande romance de formação latino-americano – Jogo de Amarelinha e Detetives Selvagens. O autor não comenta, mas esta é uma tradição guardada pelas duas colunas da fantasia escrita na América ibérica, Jorge Luis Borges e Gabriel Garcia Márquez.

Sem muitos rodeios, lembraria que, ainda hoje, antes de submeter minha resenha à editora, viverei o importante evento de quem sabe cozinhar um inhame, cortá-lo em rodelas, refogá-lo na mesma frigideira de sempre, acompanhado de alho-poró, curry, quem sabe shoyo. Dizendo, ou, constatando a previsão, é como se eu já a vivesse, a experiência dita, recontada, imaginada presa quando todos fogem e se escondem. É como, também, eu já vivesse abrir o jornal na Ilustríssima há quase três meses, deparando-me com a composição concreta e harmoniosa, enxuta indecisa entre o solene e o lúdico, de Maria Leontina. E seguiria, com a licença do leitor, lembrando a ele e a mim que uma resenha não se alonga, ou só não mais que o necessário. Certas coisas, entretanto, a gente precisa contar. Pois quando conhecermos melhor o homem por trás dele, dele e do resenhista por trás da leitura do livro do Joca Terron, aproveitaremos melhor essa parte da vida que é ler a resenha por trás dos livros que leremos ou não leremos, a depender de um mundo de coisas.

O homem por trás do resenhista imagina o resenhista desinteressado pelo homem por trás de si. Não por desprezo, mas por impessoalidade analítica, desde que possa ele, quem sabe conosco, ao acessar este domingo, 2 de julho de 2017, ao acessar e remontar um hoje passado e redivivo, enterrado e ressurreto em reação, viver de um ponto de vantagem a utilidade simbólica, a utilidade significante, dos eventos ali iniciados, quando se inicia e se encerra, no cair da noite, a leitura de Noite dentro da noite, livro de autoria de Joca Terron cuja resenha empregará os sintomas por assim dizer originais do homem homem Eu, passivo e consequente manipulador da equivocidade da heteronímia produtiva, tratada e manifesta, recriadora e ativadora se mnemopropulsora dos dias de leitura que seguiram o início da leitura, aos 2 de julho de 2017, no cair da noite dentro da qual rasgará, e com efeito rasga, resenhista à frente, tal e qual fazem as luzes de Leontina, a forma edifício do óleo vibrante da pintora este homem num fundo negro praticamente escuro.

Ora, diz o resenhista, ao que o homem baixa o livro. Você, diz, do centro escondido de seu nome popular e resenhista, ora lembra de Jogos de Amarelinha, às vezes de Detetives Selvagens, mas devo intervir e alertar: não, não é correto, e você não há de diminuir a análise assim, aditando desbragado um referencial afetivo antes das citações canônicas, compartilhadas pelas fortunas correntes, criteriosas, depuradas em conjunto aberto e cotejado. Depois, ao comentar ou detalhar virtudes técnicas da criação, o leitor provavelmente desconfiará, sem deixar de amá-la, sua resenha de resto adorável, da adequação da exposição, da competência do resenhista, e logo da sua, e assim, por indução forçada, e desagradavelmente, da dele, ou minha, final e inicial leitor. Ele diz, perguntará o leitor, referindo-se a mim, portanto ao resenhista a cujo homem deve a pedra e a fonte, a terra e o passar das sombras, desde o umbigo ou desde um sólido manancial?

Como num jogo de sombras, dança de escuros delimitada por recortes e compostos da paleta leontina, algo de rico correrá em pressentimento neste embate tensionado entre corpos. Vez que outra, a depender das posições, os corpos, pelo indistinguível que abarcam em sua condição de sombras, perfazem novas, cronoenfermas e insuspeitas unidades. Corpos novos e assombrados sem embate. O resenhista, e isso dizemos agora porque já dissera, ele a mim e eu a ele, antes mesmo de se dar, seu nome pulular e a nossa rica relação ceder, eu a eu e a eu ninguém, ergue em baile alternativo um enquadrar, da Noite dentro da noite, dentro de um vivo movimento literário contemporâneo, internacional, gênero-hibridista, escola atual da produção romanesca capaz de adensar o papel velho da ficção compondo-a junto às fibras rejuvenescedoras da biografia de si e dos próximos, aos contextos, costumes e motivações e consequências políticas da reportagem histórica, ao desafio associativo e divertido do meta-discurso, político e não político. É menos intrusivo, diria, como dirá, ainda que mais profissional, menos presunçoso e mais didático. O relho na mão da crítica, pensa-se, é incapaz de idealizar senão à exaustão.

Mas sendo genealógico e orientado por camadas, Noite dentro da noite hierarquiza apenas o bastante para fazer despespegar a narração dum ethos unívoco, mantendo aberto e lépido o jogo de transmutações e enigmas narrativos (quem? depende para quem; o quê? depende de quem conta; por quê? depende do que vem antes; como? depende de quem quê; para onde? para onde mesmo quando? etc), não deixando clara uma sua heráldica. A cozinha onde já posso ver o inhame a descansar, encascado e bojudo nas marolas encriptadas do alguidar mineiro, é pequena, não passa dos seis metros quadrados, e disputam tamanha exiguidade a barulhenta geladeira do tempo de casado, talvez, a pia íntima dum rajado e praticamente negro granito, o fogão de duas bocas amigas, se pereclitantes, o pequeno mas amplamente útil gabinete suspenso, despensa e cristaleira sem cristais. Um nada. Pois mais vasta é nossa dúvida: que sabe o resenhista do que nos conta a impressão demorada neste óleo sobre tela, pintura de Maria Leontina, o homem por detrás da intenção da resenha, e assim do resenhista ele mesmo, sua voz ainda a fímbria imaginada do fio d’água, nascente, margem infanta do que sai mas não jorra nem estanca, à qual não nos furtaremos de abarcar, tratar, consumir e processar?

À página 382:

Ao ouvir a história que Hugo lhe contava, você lembrou do som de um trovão distante que bem poderia ter sido o estrondo de seu primeiro passo no interior de um pesadelo habitado por bugios que arremessavam bosta fervente de cima das árvores, enquanto atravessava um desfiladeiro vegetal, uma bosta que o despertava, deixando-o mais lúcido. Surgiu então, mas disso você já não tem tanta certeza, o vulto de um índio emoldurado pela janela, talvez o kadiwéu albino visto pela rata naquela noite de muitos anos atrás no hospital de Medianeira em que você se encontrava inconscientemente, ou quem sabe na viagem através do pântanos ao lado de Karl Reiners logo depois do sequestro fracassado do embaixador alemão.

Os arames da cerca eram uma pauta musical que o vento regia na campina lá fora, uma música poderosa como um furacão entortando palmeiras e varrendo o que estivesse sob a tempestade.

Você, lembra o dizer de si ao resenhista o leitor como quem atravessa um espelho apenas para desviar e concentrar a viatura do homem falante num percurso fecundo e incerto, autor e porventura resenhista, se lembra dos trabalhos de Joca Terron na Ciência do Acidente, pequena e admirável editora do início do século, e de poemas e postagens infernais, e despautérios ante às fraudes de autorias tantas, e das tantas e tão malemolentes resenhas, resenhistas à frente, cozinha por habitar, fogo e água num tubérculo falante, e tempos quantos nomes e tempos, heim, em ciclotímica, deveras enferma condição, atados, da curva proverbial dum rio sujíssimo, paisagens e breus suscitados, ociosidades venturosas ou prosaicas de um Brasil profundamente gaucho e impossivelmente gauche.

Hoje, um hoje deveras enfermo por que poroso e produto, recordante e realejo, pressagista e cartográfico, utópico e desabrido, Joca Terron emprega a imbricação multívoca, a pluralidade genética e cirandista do contar, a retidão elíptica ou este pacto na e pela memória da flor do equívoco ou da ficção, tempo este que é ora de um… e justo de tantos, latrina e sanatório dos lugares, scroll de estratos em rebuçadas retículas, ecoantes efeitos, reverberantes, dissonantes, outra vez e ainda inconclusivos efeitos, quem sabe, é difícil dizer, mas suspeito, suspeito que faz hoje assim por dar potência de verdade ao mar de vozes que abarca o crânio mesmo, crânio do mesmo, furor dáctil e motor de um maturado, túrgido escriba.

Ao campear o intercâmbio trapezista no desvelo de rico e quase insone e alguergado enredo, Joca Terron pinta e prove um largo e organizado Maria Leontina, decerto em fundo escuro, mas lídimo no que ecoa e reverbera, assunta e destempera o domingo quando tudo começou, fim e recomeço da memória bando, lá quando se se caía a noite, lido o jornal e consumida a sopa quente, seria seguir e dormitar as ausências, quente e forte de picante e termogênica, e seu quadro evoca o timbre e a virtude do incerto, caos que só se rende à poesia curada, ao enigma nem tão aberto quanto prenhe, tragado e urdido na solícita juventude dos números, à vida vivida e ao medo superado. Invadir com noite a noite é errar, quando ruma fonte nova ao fogo lento, no tempo brevíssimo que nos mostra ou faz erguer a outra casa do sol.

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Noite dentro da noite
de Joca Reiners Terron
Companhia das Letras, 2017
464 páginas
R$ 53,90

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