longa vida à longa exposição

No dia 3 de fevereiro de 2015 o Esquadrão Anti Bombas de Atlanta explodiu uma caixa selada com fita adesiva colocada na ponte da 14th Ave. Ela era uma das 19 caixas de pinhole espalhadas pela cidade que faziam parte de um projeto artístico de solargrafia da Universidade Estadual da Georgia.

Solargrafia é um processo onde uma câmera pinhole expõe o papel fotográfico por dias ou até meses, tendo como característica as marcas deixadas pelo movimento do sol.

Justin-Quinnell_Solargraphsolargrafia de Justin Quinnell – exposição de 6 meses (entre dezembro de 2007 e junho de 2008)

Mas a fotografia em longa exposição não é um hype dos anos 2000, muito pelo contrário, e como ratifica o fotógrafo Marcos Vilas Boas, um pesquisador desses processos desde 1995, “a fotografia nasceu na longa exposição”.

duane-michals2

retrato de Andy Warhol, Duane Michals

Além da paisagem* como objeto de desejo; profissionais, artistas e fotógrafos amadores “brincam” com a longa exposição em retratos e cenas do cotidiano e fantasias**.

troy-paiva-night-photography-08

Light painting de Troy Paiva na série Lost America, Pearsonville, 2008

michaelwesely

Michael Wesely constrói/desconstrói o urbano

Afim de demonstrar a variedade nesse campo, escolhi para encorpar esse texto imagens de duas vertentes opostas; nas “luzes lentas” do cineasta Marco Del Fiol, que tem na fotografia em longa exposição um hobby que certamente o leva a refletir sobre outras questões, e na série Meio-Dia (que vai na contramão do padrão longa exposição = noite) do supracitado Marcos Vilas Boas. Ambos falaram sobre o assunto. (clicar nas fotos para ver os detalhes)

1. Quando você começou a fotografar com longa exposição? Por que?
MVB : Por volta de 1994, 1995… fotografando natureza morta em estúdio, experienciando diferentes fontes artificiais de luz e usando longa exposição na maior parte do tempo, já que se tinha uma mania louca de fotografar com diafragma F45 para ter foco em tudo. Muito parecido com essa patologia do sharpen nos dias de hoje. Essas experiências se juntaram às derivas noturnas e solitárias em frente ao mar e pelos lugares vazios à beira mar.
MDF : Minha sogra tem uma casa no sul de Minas, bem no meio do mato. À noite as estrelas aparecem com tudo. Fica aquela coisa desmesurada de grande sobre a cabeça. Achei que dariam boas fotos.

5_1312

Marcos Vilas Boas, meio-dia, 2015

noite_IMG_9480

Marco Del Fiol, noite

2. Qual é o seu ritual para fotografar com longa exposição?
MVB : Sempre que possível gosto de enquadrar a cena durante o dia, avaliar algumas questões, grau de periculosidade, e se der fazer uma marcação para as pernas do tripé.
MDF : Tem um silêncio interno que vai se encontrando com a paisagem. Quando eu fui para o Fish River Canyon na Namíbia senti que o lugar era muito forte e veio uma vontade de conhecer o “síndico” dali. Acredito que cada espaço tem uma espécie de entidade responsável pela sua manutenção. À noite veio uma tempestade elétrica impressionante, e foi lindo porque chovia em toda a volta, mas não onde estávamos.

2_1311

Screen-Shot-2017-04-10-at-9.54.03-AM

3. Existe ansiedade/expectativa no processo? Você imagina qual vai ser o resultado?
MVB : Resposta na questão abaixo!
MDF : O mais legal é a expectativa porque mesmo fazendo testes com o ISO mais alto pra ver o quadro, não dá pra saber qual vai ser o resultado final com o ISO baixo e a exposição mais longa.

3_1314

noite_IMG_1143

3. Além do equipamento, do tempo de preparação e da exposição em si, o que difere a fotografia de longa exposição da fotografia normal?
MVB : Acho que o tal do “Instante Certo” não existe nesse tipo de experiência fotográfica, o que pode tornar a coisa muito interessante porque você fica com a imagem processando no cérebro por bastante tempo, até olhar as folhas de contato no laboratório.
MDF : O mistério. De noite é o momento que o visível se recolhe e o invisível vai passear.

1_1319

samuel-6861

4. Como você escolhe o seu assunto?
MVB : Existe ali algo interessante e com uma luz particular.
MDF : Gosto de paisagem, do lugar como personagem. Com o tempo comecei a brincar de mexer a câmera, fazer tilts, pans, zooms durante a exposição. De certa forma me libertei do plano fixo do Sugimoto e fui para o Kentridge, no sentido de manter o rastro do movimento. É como se cada foto fosse a somatória de um filminho de 1 minuto.

5. O que mais lhe atrai no resultado final?
MVB : Somente após repetir muitas vezes, fotografando em situações parecidas com variáveis semelhantes, percebi que estava resumindo em 1 único frame, um filme que assisti de 5, 10, 20 minutos de duração.
Voltar pra casa após algumas horas com apenas 3,4 ou 5 fotogramas, é um pacificador de ansiedade.
MDF : A luz da noite sobre a paisagem é sempre muito mágica.

7_1312

Untitled-1

6. Quando fotografando à noite, que diferenças as luas (ou a falta dela no campo de visão) proporcionam às imagens?
MVB : A Luz da lua cheia se assemelha à de um sol de verão, é tão dura quanto, ajuda a ressaltar o contraste e as cores, se essa for a intensão. Além de ajudar para ter enquadramento mais preciso, diminui drasticamente o tempo de exposição necessário.
MDF : A lua cheia brilha tanto que esconde as estrelas, mas dá volume às nuvens. A crescente tem luz mais delicada. Cada fase tem suas graça, tem que aproveitar o que elas oferecem.

7. O clichê diz que nas fotografias de longa exposição a gente vê o mundo como a gente não o enxerga. Então o que a gente vê?
MVB : A intensidade de luz noturna às 19:00h é bem maior do que às 24h numa noite normal sem lua; sol vai se distanciando cada vez mais e a noite já escura vai ficando cada vez mais escura. Talvez se tivéssemos a pupila de um felino, qua dilata algumas vezes mais que a nossa, perceberíamos que o breu absoluto não existe.
Agora, quem pode definir o que é longa exposição e o que não é? Quanto tempo? Qualquer foto com mais de 1 segundo? 1 minuto?
MDF : O tempo.

sugimoto

Curiosamente, ao solicitar referências bibliográficas aos fotógrafos, entre outros, ambos sugeriram o trabalho do artista Hiroshi Sugimoto. E não é que mais tarde, ao chegar na casa de uma amiga, de cara encontrei o poster acima. Sei lá, tem mesmo alguma coisa no ar 🙂

Site Marcos Vilas Boas

Tumblr Marco Del Fiol

* Para maiores reflexões filosóficas e estéticas sobre a paisagem, ler A Invenção da Paisagem, Anne Cauquelin

** site sobre light painting

Deixe uma resposta

Post Navigation