Mania e má consciência dão os tons de ‘Trama fantasma’

Quando vai começando, em seu terceiro ato, a bifurcar a vereda central de seu enredo, a irmã governanta pergunta ao herói: devo mandá-la embora? O herói nega. A forma (interpretação e direção) é entretanto complexa o bastante para não esclarecer se ele hesita porque quer, ou hesita porque não quer.

Cada nova musa, entende a irmã, é despachada quando o herói, casado com a obra, pretende a companheira exaurida, embora bela e quase perfeita. Só não faça dela um fantasma, reclama a gestora. Ele silencia.

Imaginamos sucessivas, as mui afins modelos consortes do artista tombando, recusadas, contra tão solene e amarga muralha. Por que não param?

“Tanto a salvação quanto a punição do homem”, diz Tolstoi, “jaz no fato de que se ele viver no erro, pode iludir-se a fim de não ver a miséria de sua própria posição.”

Posição. Um passinho à direita? Um passinho para trás? Três dedos menos de barra? Situação, postura e navegação são os temas da fita velazquiana na forma e machadiana no conteúdo Trama fantasma, escrita, dirigida e co-fotografada por Paul Thomas Anderson (Punch Drunk Love).

Na tocante e deslumbrante peça de câmara, Daniel Day-Lewis (Sr. Woodcock) e Vicky Krieps (Alma) encenam a agrura do equilíbrio no espaço do cinema. O casal tombará, outra vez, em extrativismo e abandono? Ou para em pé e dá frutos?

Discreto nos gestos e ciclópico na psicologia, o drama remete aos pares românticos da literatura do XIX, e aos avós e à tradição da elegância difícil. Difícil porque costurada, nas fímbrias da nobreza e da decadência, à Arte e à fragilidade em estado de polida maioridade.

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Quem lembra Tolstoi é José Luiz Passos em seu Romance com pessoas, fértil investigação, e de muitas faces, sobre a obra de Machado. O ganho de consciência do homem no erro do russo pode nunca vir, tornando sua “denegação ruinosa” colapso contundente, seja na ilusão do poder sobre o outro, seja na ilusão da submissão a alguém. Do objeto do romance do XIX para o XX, diz Passos que

parece ter sido a formação e a deformação da pessoa moral, que delibera, evoca, julga e acaba por compor, diante do leitor, um retrato complexo da relação que o sujeito mantém consigo e com a comunidade. Oferecer, pela linguagem, o rumo de uma experiência humana particular e cambiante, no momento mesmo em que ela acontece, é a contribuição mais fundamental deste gênero.

Alma e Woodcock, quando encontram-se, vivem a inércia de um encaixe fortuito. Vinham de sítios e em dinâmicas distintas mas suficientemente compatíveis para encetar dança passageira. À perda do torque, aponta e preocupa o desequilíbrio que martelará caso os corpos não despertem para a nova situação. Novas posturas e táticas de navegação haverão de seguir se o sentido for o fruto.

Na sintaxe fílmica, a graça e a destreza com que se dá tal ajuste é mérito de uma direção que tira do jogo de cena sugestivo e lacônico, da direção de arte de pintura acadêmica, e das atuações transparentes e livres de imperfeições, a boa e velha, mas sempre refrescante, fatura dos clássicos. Faz Anderson em Trama… cinema contido, discreto – mesmo tratando da pujante moda milionária – belo e de sagaz humor.

Perceber Machado de Assis num filme de 2017 que se passa na Inglaterra dos anos 1950 não deixa de ser curioso. Para isso também serve nossa exposição aos objetos de arte: ligá-los de modo insuspeito e aprender com surpresa sobre a vida no mundo. “Na literatura brasileira”, segue Passos,

a consciência moderna nasce quando o primeiro dos seus heróis [Brás Cubas] é incapaz de solucionar a dúvida sobre os motivos da conduta alheia. Se não prestarmos atenção a esse estratagema, perdemos de vista o veio mais sutil da nossa primeira modernidade literária. E para tentar responder à minha própria pergunta sobre como podemos, e às vezes devemos, tratar personagens de ficção como pessoas, proponho que voltemos a um tema que marca sua produção como romancista desde o início: a representação da consciência atribulada pela desconfiança, ou melhor, o herói ameaçado pela própria imaginação da malícia. Aqui se encontra a desunião da pessoa consigo.

O ponto alto da literatura de Anderson é incutir, indo além de Machado, a mania e a má consciência, em doses e expressões variadas, tanto no herói quanto em sua musa-coluna. Este herói, moderno porque concentrado num ofício, seguirá consertando o mundo conquanto seja consertado. Woodcock e Alma superam a desconfiança ao ficarem fiéis a suas substâncias essenciais ou vetores de contingência mas cederem, em impulsos aparentes porque maquinados de provocação e redenção, naquilo que os poderia desunir mas não desune: ele e ela amam, apesar de se usar pouco, nada menos que um leão.

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