Nota sobre o novo do del Toro

And hide not thy face from thy servant; for I am in trouble: hear me speedily.
(Salmo 69, 17, AKJV)

Perto do clímax da bela fita vencedora do Leão de Ouro (Veneza, 2017), The Shape of Water, o militar Strickland (Michael Shannon) vive uma anagnórisis: a súbita revelação de que o Homem Anfíbio (Doug Jones) é, na verdade, um Deus.

Cai o mundo de Strickland e ele nos dá a entender, olhos estupefatos diante do falso inimigo, que todo esse tempo defendera um mero simulacro, um castelo de areia, e não a verdade.

A verdade – a divindade, e assim a intocabilidade do Homem Anfíbio – quem a defende na narrativa do diretor de O Labirinto do Fauno (Hugo Award, 2007), Guillermo del Toro (n. 1964) é Elisa Esposito (Sally Hawkins), órfã, muda, solteira e faxineira de um laboratório secreto do governo Norte Americano.

O ano é 1962. Em plena Guerra Fria, Esposito desafia a segurança para resgatar o Homem Anfíbio, alvo de um experimento obscuro, e devolvê-lo às águas. O faz por amor, obstinada e ingênua, mas antes que o pior aconteça.

Não quer Esposito trair os EUA em proveito da União Soviética. O infantilismo geopolítico sequer habita a cabeça da simplória. No entendimento da funcionária, a humanidade do suposto monstro apenas supera a ambição exclusivista do experimento. Ou: aquilo que haveria de aprender a ciência com a destruição do Homem Anfíbio importa menos que sua graça em vida: lições de força e cura, sensibilidade e juízo.

Quem é Homem Anfíbio? Ou, nos termos sulcados no escudo do Arcanjo Miguel, QVIS VT DEVS? A referência religiosa não está lá. Mas não se trata de uma aproximação forçada. The Shape of Water atualiza o mito do herói que aniquila a besta interior e afirma: ninguém será mestre de um escravo outro. Quem é Deus? Eu, no fio da minha espada, contra o medo e a servidão.

Na cena do pôster estamos num instante após o clímax, bela e fera afundam, salvas, e Esposito perde um dos sapatos antes de aprender a respirar na novidade aquosa. Quem notou ali a alusão ao episódio dos argonautas acertou.

No início da famosa aventura grega, quando um barco aparece pela primeira vez na história da ficção literária, o comandante perde uma das sandálias para o mar antes de reunir a trupe e singrar as águas. Sua missão é recuperar o velocino dourado – alegoria da fé, ensinada por Esposito ao Homem Anfíbio quando leva a mão ao coração do monstro assustado.

fala e água: ao chocarem-se
em continentes de carência,
o conteúdo dita a forma.

diz o apropriado poema Carta aos anfíbios. Esposito e H.A., abraçados afundando, são a perfeita aliança da estrutura helicoidal dos cromossomos da jornada heroica do homem e da mulher no cosmo. Sem fala, a faxineira dá ao mundo o testemunho do alicerce volúvel mas de firme sentido quando escolhe rejeitar a crueldade desentranhada de razão.

The Shape reafirma a destreza original de del Toro para efeitos in camera, esforços formais teimosamente artesanais, à semelhança do colega contemporâneo Michel Gondry (n. 1963). Nos dois casos, faturas maestras excêntricas e atuais da arte, a teimosia perderia o porquê amparada não fosse por tão trabalhado argumento: a potência mercurial da mensagem, órgão pleno e certeiro da construção do mundo, perene através de ricas reinvenções do mito, prescreve o talhe do objeto, e sopra vida à imaginação.

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