COMUNICADO IMPORTANTE

a fofa da Lucila quer ser mestre

Este comunicado importante visa tranquilizar a cadeia produtiva na qual se insere a Touro Bengala Livros Fictícia, de autores a papeleiros e feirantes. Nossa funcionária do mês de abril, Lucila, vinha chateando alguns gestores por sair, bem ou mal, no horário combinado. Se ia ou não ia parcelar no cartão peças da zara depois, sinceramente não nos compete. Deixa a Lucila.

Ontem de madrugada ela ligou e tive que por duas vezes que ela não falasse como secretária, mas como filha, amiga e principalmente irmã, princesa da baia não justo do lado, mas três baias para lá. Eis o drama. A moça quer licença remunerada para mestrar-se na baixada fluminense. Eu ri. Lucila, disse, mestrar é possível, sempre é, tanto mais se for possível. Mas com a uninove aqui ao lado, há que ir àquelas serras indistintas? E ela, Você não entende. Eu reviso seus contratos por email, qual o problema? Bem, Lucila teve amnésia pois é ela quem me traz o cacau e o papaya desidratado da rua santa rosa, coisas que não vivo sem. Certo, Lucila (ela tem 22 anos, a rádio peão insiste que é amplamente virgem), você prefere mestre ou mestra? Ela desligou. Uma razoável funcionária talvez, neste momento, vai caindo pelos dedos de seu role model paterno, espôsico e artesanal. Que vá? Horas depois, eu sem dormir por confundir no escuro a ulmária com o ginko, brota um email da engraçada. Não vou comentar. Vocês avaliem, por favor.

Assuntos urgentes da seara da Lucila podem, desde já, ser encaminhados à Ramira Casablanca no email casa@tourobengala.com

Desculpem a bagunça.

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from.. Lucila Java
to.. “bossy-grumpy-daddy”
assunto.. Projeto de Mestrado

Glee, seguinte. vou aplicar em 74 instituições da baixada. numa vai dá certo. segue o one page do projeto

bsous, v se dorme queridoooOOoooO,,,

xLoCxLo

 

PROJETO DE MESTRADO

por Lucila Java, 22, amerínda castanha, solteira

TÍTULO

A Gueixa e Hilda Hilst, Alice de Carroll e Roberto Piva, Mafalda e Pagu, Liza Simpson e Cecília Meirelles, Riot Girls e Ana Cristina César: princesas populares e seus duplos literários, rosas-dos-ventos solteiras.

MÉTODO

– O duplo literário é um convite à suspensão da descrença.
[o corpus de texto universo de cada personagem é considerado literatura em bruto, enquanto a obra de seus duplos a projeção polida da mesma expressão, dos mesmos desejos e do mesmo ser]
– Música e rosto, ave e silêncio — uma cabala particular.
[o ferramental tradicional e esquivo da arte cabalística opera nas ligaduras entre os caracteres do corpus e da poesia dos duplos, assim como é torque analítico dos contornos arquetípicos, transformações, mitografia e impacto das princesas populares em nossos espaços. do Leste (I), a música faz eixo com Oeste (III), seu rosto e irmão. do Norte (II) a ave é mãe que se afasta do Sul (IV), onde reside o pai em silêncio. cada uma das cinco princesas populares é e não é senão relação com, cada um dos quatro vetores principais da rosa-dos-ventos].

OBJETIVO

Esborçar, a partir do corpus atribuído a cada princesa popular (folclore para a Gueixa, romance para Alice, Banda desenhada para Mafalda, TV para Liza e performance politica disponível em registo digital na internet para as Riot Girls) e de excertos avulsos de seus duplos literários (os autores brasileiros Hilda Hilst, Roberto Piva, Pagu, Cecília Meirelles e Ana Cristina César), cinco estratégias de reconhecimento, singulares e complementares a uma vez, face às ruturas do feminismo e a morte do indivíduo contemporâneo.

BIBLIOGRAFIA PRECOCE

a obra dos cinco duplos
a crise da filosofia messiânica de oswald de andrade
o antiédipo de deleuze
o estranho de freud
las trampas de la fe de octavio paz
obras herméticas, oculistas, indexadas e neoplatônicas
o tarô
o circuito dos afetos de safatle
metafísicas canibais de viveiros de castro
demasiado humado de nietzsche
modos de existência de latour
a obra de john keats

não achei uma imagem decente na rede
da melhor pintura do museu coleção berardo
studio e paesaggio, pincel renato guttuso
tudo o que antecede, aquela arte toda
gritante ou idiotizante arte recente em diante
contra o tempo, portando, voltando
às ditas escolas do XX
escolas que só depois amalgamam
na forja da pedagogia
superpreocupada mas tarada em explicar
a suverção a rutura
a invenção o ready made
a experimentação o movimento
presos textos, presas amassadas em saletas
dilui o pratoganismo de paris o grupo CoBrA
emerge joan mitchel na esteira
do expressionismo abstrato
faz-se irredutível ad reinhart
pois morre o além na cega ultimate painting
rasga os cartazes raymond hains
e lourdes acorda ao pé dum saco de christo
plácidos ressoam os cítricos das sete cores da ironia
são as pop brit art e americana a dar fome
mas discretos cy twomby e jaques villeglé aparecem
antepastos do disciplinado espaço, seitas e claustros
até sorrir em paz o visitante, eremita imparável e lento
à mesa do italiano comunista, farta de simples a oficina
pêndulo fumante beckettiano, leitor hegeliano
juno artista amante de bequinhos e tortos telhados
espremem-se se tudo se coloca para nada mais caber
eis a vitória das gentes que sobem
agora posso ver a pluralidade do chumbo
as faces do ocre, do preto antepassados, terras e quintas magentas
arremates em destras brancuras
aval a desprezar loucuras
primárias, marcam ilhotas e pouco aparecem
pois nada do que vibram é em sério
carimbos de alegria forçada, esquecimento
assinados o verde, o amarelo, o azul clarinho e o vermelho

studio e paesaggio abre o súbito do reino peão
foca no seu alimento
sem vergonha esta dor, amplo este alento
não há jogar ali veneno, mãozadas de lixo
goste-se ou não de vento
é que tudo se compõe sem falha, e humildemente

a segunda e última peça que sem lágrimas resgataríamos
do de resto fatal incêndio
é a prisca e tenebrosa figura em bronze la mante
kafka e trash eretos, gaia e et a um tempo
mãos mulher germaine richier, sombra viva do giacomo
cria do guigues
dileta do bourdelle
imiga do bispo mas em verdade
benévola inseta, mansa replicante
nela as fases da lua cantam
se fásicas as luas dançam
carcassa mineral, ossos de lança
na cara igénua e branca
daquele querido e bel davi

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lendo a crítica: A espiritualidade clandestina de José Saramago

No que diz respeito aos dois pecadilhos reiterados e felinos do de resto amplamente estimulante ensaio A espiritualidade clandestina de José Saramago, composto por Manuel Frias Martins e exibido em 2014, não será repisá-los aqui mais urgente que um breve apontá-los equipados acaso nós desde o robótico interesse dos bandeirinhas do futebol. Cabe anotar porém que se no campo são as partes do objeto interessado (o mais avançado jogador no campo de ataque) sob escrutínio escusadas não avançarem a linha limítrofe e imaginária do positivismo chamemos euclidiano do auxiliar, aqui serão gatilhos de acusação justamente o que se viu aquém da provada elasticidade do ensaísta, tanto mais ruidosas tais protuberâncias em potência suculenta mas em desenvolvimento atrofiadas soem-nos e soam conforme atravessasse-nos a dedicada e delicada construção. São mesmo dois, pois agora refizemos as contas.

O primeiro trata do desprezo superficial de Caim pelo instituo do Milagre no romance Caim. Ele o personagem saramaguiano cita, conforme excerto destacado, e mistura a seu sopão de maldades por que se persegue o autoritarismo divinoso, o milagre como mais um estratagema de persuasão encantatória apenas indireta, relatada e não vivida, desditosa empresa da conquista d’almas. Mas a raiva de Caim não resolve o problema do milagre, e tampouco Martins solidariza-se com a fértil e inexplorada frente de cultivo poético e epistêmico que a larga fenomenologia do invisto, do inaudito, mesmo do impensável e dos espantosos achados deste ponto onde entendemos a dinâmica quântica menos e menos como a suspeitada indiferença quântica.

Milagres podem ser as imagens das comunicações interdimensionais como podem ser índice de nossa vida virtual, isto é, subproduto da realidade inatingível mas ~manifestável, um jogo ou dança de sombra ao pé do fogo projeta-se à parede e deixa nela a gravação queimada de uma sua idêntica silhueta, da sombra em dança ou jogo, três lebres trespassam para trás um muro baixo enquanto ímpias sincronias assentes tão somente nas peculiaridades da dilatação de uma viga de madeira numa certa manhã mediterrânea tombam antes o vagão de pinhão e salvam a vida do jumentinho que salvará do afogamento na corrente do rio o filho do agricultor nove anos mais tarde, que quando Senador impedirá uma guerra estúpida e assim nove mil mortos inocentes. Pronunciasse simplesmente que por ali há modos de ir e que entretanto hoje não irei. Mas perde-se a oportunidade e nós seguimos em frente.

O segundo é exagerar a invocação dos mortos em nome de Deus, como se o problema da mortandade geral tivesse qualquer coisa que ver com Deus, seu nome ou qualquer coisa sua. Nós modernos simplesmente não conhecemos volumosas mortandades em nome de Deus, não de modo a torná-las fundamentos de um escárnio violento, de modo que o argumento pela subversão interpelativa das certezas do Senhor no bojo de uma luta maior contra a indignidade humana nada ganha de sustância se acusamos antes dos maus iogurtes, maus carros e maus ônibus em autoestradas amalucadas, a indústria da arma de fogo, o individualismo exclusivamente concorrencial das pressões no trabalho derretido na infusão do Capital no caldo da lógica, os crimes passionais, as disputas por petróleo e território, os distúrbios advindos de comércios ainda lamentavelmente relativizados como ilegais, a devassa de Gaia baixo a cruz do Antropoceno e a influência arquitetônico-cultural das potências imperialistas na Guerra Fria o ex-machina do Bebé Gigante. Sem tônus e ainda assim repetido, dóem como sofismáticas e ligeiras impressões tais articulações, e um chega a perder a concentração. O romance de Saramago é atual mas, hoje, não se mata em nome de Deus. Não adere, a suspeita. De que fala e o que trará de útil pois o canto deste grito?

Dito isso, devo recobrar, desdas margens onde pisaram Eulálio Carpeaux Gilda e Antonio tanto quanto Andrade e Andrade, margens daquela desgraçada mas conhecida periferia do iluminismo onde ecoávamos as modas francesas então norte-americanas então alemãs de operar a crítica, meu verdadeiro deslumbre ao devorar tão urgente e elegante trabalho de análise literária sobre o tema da espiritualidade, já que nada sei da crítica portuguesa, sua tradição, mas usei-me no novo capim novo da américa pobre a catar dentro do ensaísmo sem escola dos professores artistas que mantêm viva a ilusão de uma universidade brasileira preciosidades da mais singular marca da generosidade intelectual que é o exercício da análise sobre autores que por pouco passavam como loucos inúteis. Um livro por demais acessível e iluminado, humoroso e sério, ainda que chancelado pela fundação que leva o nome do autor estudado e Nobel ele mesmo, o que nos haveria de meter em sítio como que de pé atrás. Mas tudo passa bem e equilibra-se, e mesmo quando o crítico empilha em seu chapéu o chapéu chapéu do advogado para não dizer o chapéu chapéu chapéu do publicista, entedemos que por mais decantada, a paixão do analista pelo objeto seria o de novo e de novo eletrocutada, e isto pode dizer energizada, pela oportunidade política de ir além da descrição referenciada de procedimentos e escolhas estéticas até botar quem sabe os pingos nos is no nome de um artista desprezado e agredido em seu país, censurado em 1993, apontado como mero ateu preguiçoso e assim odiado e mais recentemente revogado da condição de baptista de uma praça na cidade do Porto. Certo catolicismo português, e talvez confluente aos espíritos da fruição literária nacional e sobre ela influente, não percebeu vantagem no engolir do Saramago e deu a insultar o escritor, e tal registro de recepção, se incomodou Martins, é porque passou do ponto da simples recusa para aquele da impostura. A história, entendeu o ensaísta, estava ainda mal contada, ou mal recontada, e empenhar um esforço extra por isso, por levantar quanto pudesse Saramago de seus limbos imerecidos, era unir-se a um combate necessário. Sobram chapéus mas eram seis quando paramos de contar.

Martins debruça no que apresenta tal “romances bíblicos” de Saramago, ‘O Evangelho Segundo Jesus Cristo’ e ‘Caim’, para tentar esboçar uma figura da espiritualidade do novelista português. Ele leva nossas mãos tão longe quanto estabelece que ela, a espiritualidade, dá-se ali onde Cria, o espírito, mas a floresta do que ser o espírito, essa Martins não anima conosco. Fato é a ação do livro apreciar a PRODUÇÃO de/em uma diversão (a espiritualidade), e não sua norma. Espiritualidade “enraizada na interrogação” atinente “ao amor e à compaixão, à tolerância e ao perdão, à responsabilidade e à harmonia” que incita o espírito motriz a vociferar dentro da possibilidade mesma do entendimento. Pintar de verde o céu como Tom Zé e USÁ-LO (caps nossas) para enxugar lágrimas. Comunicar, um seu ofício diuturno e dialógico, no que sai no salto e volta ao chão a base de perna e contraperna que move e sustenta um homem em meio a tantos, um nome de muitos, os muitos nomes de um.

Se toma tantas páginas o artifício romanesco da participação de um sujeito que o escreva, será bom tratar o tomo de grandes e complicadas coisas. Ou isso ou ler as tantas sagas dos moreiras dos anos oitenta ou qualquer coisa que o valha se quedaria impraticável. Mas tal lembra Martins que Saramago faz, pois deforma e testa as normatizações do estado disciplinador e de seus abusos o autor. É claro que um comunista daria num artista engajado, mas não era tão óbvio que miraria e arquearia setas duras de respeito contra tão fundamentalmente estruturais parcelas das culturas globais do ocidente, ao que parece com primazia na tática de falar por Jesus e ortogonalmente capaz seara romanesca fora, criando de mais a mais a “multiplicidade de mundos” que apenas espera-se.

A leitura-diagnóstico também da recepção como se indicou preocupadamente alarmante de Martins (no fundo era outra coisa, etc) aposta que um ateu declarado, desde que fale por mais si, chegará antes e mais que o crente perto de Deus se, por exemplo, renunciar aos erros da Igreja. Seria, numa tradução livre e rápida, encarnar a santidade que é viver longe dos pecados da autointitulada esposa de um profeta rebelde que a nunca em verdade conheceu, não custa lembrar. Claro que dá-se o rebuliço dizer isso em qui, cujas raízes de uma socialização clerical submetida ao Vaticano pimparam ou dificultaram os frutos dos encontros desde as artes da malícia e da perversidade. Aí um tentáculo da turba em seus escritórios arranja-se à velha moda da caça ao Hamellin e chora-se e nascem medalhas que fundam fundações que imprimem este atenorado grito de resgate à complexa e delicada meada de uma obra e de uma vida compatriotas, mas também de um fluido legado internacional de mais ou menos eloquentes leituras compartilhadas.

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Estruturalmente, olhamos para um arco cuja tese é vetor que paira nítido, enquanto atravessa, sobre catorze capítulos eles em si pílulas ensaísticas capazes de submergir rapidamente, em poucas páginas, funduras dentro vários elementos de preocupação do filósofo ficcionista. Se lembrar das famosas suítes de Frankfurt, centradas e abrangentes a um só tempo, tabuleiros de redes de parágrafos vincados e torcidos, o leitor terá somente a si a creditar. Um dos elementos a preocupar o filósofo ficcionista, por exemplo, é o sexo. Diz no capítulo dedicado ao sexo Martins que

“Recusar a morte e optar pela vida e pelo mundo humano também significa para o Jesus lawrenciano fruir finalmente os prazeres que o corpo tem para oferecer, e que o narrador enuncia deste modo:

‘Ressuscitados de entre os mortos, acabava de compreender que também havia no corpo a maior vida, para além da pequena vida. Era virgem para evitar a pequena vida, a vida cúpida do corpo. Mas ficava agora a saber que a virgindade é uma forma de cupidez, e quando o corpo volta a levantar-se, fá-lo para dar e obter, para obter e dar sem cupidez. Compreendia que tinha ressurgido para a mulher ou as mulheres que conhecem a maior vida do corpo, sem cupidez na dádiva, sem cupidez na obtenção, com as quais o seu corpo podia misturar-se.’

‘Era virgem para evitar a vida pequena, a vida cúpida do corpo’, diz-nos D. H. Lawrence. E virgem terá de ser Caim, filho de Adão e Eva, antes de partir para as intermitências temporais de errância terrena por que o romancista português o levará até aos prazeres do corpo de Lilith. Mas tal só acontecerá depois de Caim ter experimentado a surpresa da ereção, a significância do ímpeto lascivo e o fulgor do seu olhar masculino perante o seu próprio esperma nos rostos e nas bocas de algumas escravas que para isso aí foram colocadas pelo narrador saramaguiano numa espécie de espermodrama intempestivo:

‘Conduzidos por elas a um quarto separado, caim foi despido e logo lavado dos pés à cabeça com água tépida. O contacto insistente e minucioso das mãos das mulheres provocou-lhe uma ereção que não pôde reprimir, supondo que tal proeza seria possível. Elas riram e, em resposta, redobraram de atenção para com o órgão ereto, a que, entre novas risadas, chamavam flauta muda, o qual de repente havia saltado nas suas mãos com a elasticidade de uma cobra. O resultado, vistas as circunstâncias, era mais do que previsível, o homem ejaculou de repente, em jorros sucessivos que, ajoelhadas como estavam, as escravas receberam na cara e na boca. […] As escravas pareciam não ter pressa, concentradas agora em extrair as últimas gotas do pénis de caim que levavam à boca na ponta de um dedo, uma após a outra, com delícia.’

Jesus e Caim unidos pelos meandros da conversação artística entre dois escritores maiores. Jesus e Caim geminados pela sexualização da experiência do mundo oferecida a ambos como derradeira opção existencial.” Martins exalta o enfrentamento de tão poluta via do comportamento por Lawrence e Saramago, neste capítulo, por crer merecerem suas “atitudes criativas” nossa atenção, uma vez firmarem-se prenhes da coragem de “não querer separar a sexualidade do sagrado nem, ao mesmo tempo, do fundo mitológico de uma religião que dele parece estar cada vez mais carente.”

Assim faz Martins, observação equipada de muitas lentes, categorizador a lançar mão de um selecionado, contido ferramental idealógico disponível na biblioteca mundial contemporânea para enfim reafirmar, no que cedia à impressão centrípeta de aprofundamento, a fuga em mola firme ao rabo do vetor do arco original para dizer algo como

“É nesta teia de sexo e morte que o efeito espiritual do romance volta a confirmar-se. Através de Caim, o rancor contra Deus atinge aqui um paroxismo impressionante. Mas Caim é uma espécie de justiceiro que contraria a cegueira da procriação a qualquer preço, designadamente o preço da indiferença moral que é exigida por Deus. Contra ela Caim (e a humanidade com ele) ergue a plenitude erótica, o mistério, a experiência profunda da sexualidade, a vida e a morte, elevando moralmente todas elas a alturas dignas da verdade. Isso é feito através de ações insensatas, é certo, e de um modo brutal, violento, selvagem mesmo. Mas o Caim da ficção saramaguiana, lembremo-lo, é humano, demasiado humano.”

A “potencialidade subversiva” de um autor que “não tem medo de falar com Deus” será função da “diferença solitária” do escritor Saramago e atrairá mais e mais este público afeito às sensações associadas “ao inesperado, ao não familiar, ao estranho, ao indecidível, ao mitológico e, é claro, também ao espiritual”, confia Martins, apenas porque o romancista fincou bandeira nas próprias condições de condução de uma voz crítica e fez a contento seu trabalho de “impugnar aquela cisão entre ética, moral, política e literatura” onde os Modernos por destemperança e aflição especialista situaram-se. Viveremos, porém e agora, o que fizermos do momento da espiritualidade, qual seja, viveremos os modos de fazer de que são capazes os libertos modos de existir, ou não viveremos.

TRANSFUSÃO & LETARGIA

Será o homem o último animal capaz de fabricar toda uma indústria em redor desta ideia simples, a melodia.

Hoje temos isso, músicos apaixonados ou resignados com a rabeira do colapsado processo radiofônico/discos de platina, ou aos cantos de viés, vestidos de preto e portadores de meta- arroubos assim ninguém os entenda.

Por que tal estado, música desinteressada à beira, músicos atrás do mel da música e de um colchão excentricizados à maneira do zoo?

Feitio e circulação são o nervo do produto. As escolhas que tomaram os homens e mulheres da indústria fonográfica visaram ganhos de capital antes de riqueza cultural. Foram más escolhas que encadearam em processo maus desenhos de curadoria, reconhecimento, promoção e produção musical e executiva. Maus desenhos só perduram porque homens e mulheres obstinados não entendem más suas escolhas, mas naturais quando é a indústria quem fala. Correto. Não se trata de culpabilizar, apesar de sim tratar-se de imputá-lo, o mau desenho, pois que muito mais urgente venha santa nossa vontade para seguir em frente simplesmente sem repeti-los. Queremos falar mal do grosso do pop porque ele é pobre e feio. Tal é um ato de lógica, ainda que ofenda, construtiva. Posso falar à vontade pelo Brasil, onde Guerra-Peixe é um zé ninguém e abominações incitáveis frequentam a grade da globo e consequentemente as lajes e salões das gentes. Tampouco repiso a passada de pano da preguiça sociológica da esperança a qualqer preço, pia de que num ato de bondade jogará no lixo o compêndio da Estética. Não devia, pois. Nossa música hoje, a mais vivaz pernambucana, paraense, carioca e paulista, ensaia suas frinchas de beleza com a ousadia que cabe a um rato acuado, descrente, magro, enlameado na entulhagem ignóbil de um entorno absolutamente não música, ou pior, um entorno em que dela música foi feito o gato e o sapato da futilidade comercial, valor fugaz e apreensão de mentirinha. Suicidam-se desde os anos 1960 e antes, os músicos.

Infelizmente, a pobreza é tendência maior, mais arcaica mesmo, que a indústria. O que esta fez foi se tanto calcular, corretamente desde sua perigosa ética, os porquês da obsessão formulaica e da exploração artística e intelectual dos outros. Dava lucro e deu. Mas vejamos, antes de pintar a indústria um dragão tão cruel, se não havia no temperamento ocidental a semente mesma de sua letargia, se não nos deixamos encaixotar, adoradores infantilóides de “gêneros”, neles vendo e deles tirando riquezas apenas virtuais, num esquema essencialmente restritivo e estupidamente hierárquico de aceitar tal e tal som como música, tal e tal como não.

Se o som fruído naturalmente por nós nunca deixará de ser o ar em movimento, atente para a hipótese da pergunta, desde um também hipotético pianista Evarildo à cantora imaginada Dorotéia, Dorotéia, você quer ‘Chega de Saudade’ trans… posta em lá menor?’

Falemos um bocado sobre este salto.

Como a simples habilidade de deslocar a massa ubíqua que nos engolfa foi dar em tão específico, ainda que por demais corriqueiro, momento do encontro da prática musical numa randômica e ainda por cima suposta pizzaria imaginada? Artur, o titular, acamado da gripe porcina não pôde vir. Evarildo, amigo de um amigo, vende esparsas aulas de harmonia a iniciantes, despreza sem argumentos convincentes a gastronomia e, no litígio, garfou a quitinete da Mariza, mas nem por um átimo imaginou declinar cobrir a noite de outro músico. O termo do acordo, ainda que o cachê integral de 150 reais caia limpo no colo de Evarildo, foi, de Artur para Evarildo, Quebra essa pra mim. Claro, irmão, Evarildo para Artur. MPB leve, uns oitentas, umas bossas? Risos. Na pasta preta puída de envelopes plásticos, semelhante demais à do próprio Evarildo, ruínas baralhadas daquilo que a gente do meio tem tão carinhosamente por The Real Book. Nem tanto, pois deu como quem visse um desconhecido pelado Evarildo numa ostensiva invasão de Jobins, Linses, Djavans. Já está na ordem, apressa a Téia, vamos indo até o último cliente, aquela cara inevitável gig sucker cansadaça mas em pé de quem quer logo cantar para acabar logo com isso. Abre Evarildo a pasta no primeiro plástico e lê, inclinado em cursiva de canetinha verde do punho do Artur, Téia quer tr p/ Am.

Ora, aquele Korg, aquele microfone, aqueles amplificadores da época ainda do cassino, as louças e talheres e janelas e botões de camisa onde chocar-se-iam cíclicas as miríades de frequências da canção antes do tato estéreo com ouvidos não fosse tudo uma hipótese sequer suspeitam de que há um Lá. Que dirá um Lá menor. Que possam 440 ciclos quaisquer dotarem-se como faraós da hierarquia harmônica deste solar e disciplinado predicado, tônica, vai já uma ciência que aquele Korg, aquele microfone etc, etc, talvez nem mesmo devam perceber. O mesmo todavia não se atribui a nós. Tão blissful ignorance, aqui, já nem como romantismo hauseriano passa mais. Horse? Depende, você precisa de um?

Assim vamos pois, categóricos a dar com pau. Tudo muda entretanto se Evarildo, distraído ou preguiçoso, simplesmente não pergunta e dá azar. Não pergunta e escolhe tendo, no caso, 50% de chance de acertar. Aqui, a Téia já quis transpor, foi logo quando voltou arrependida do Chile, pois lá gastou o arisco dinheiro turista e o namorado já a deixou pela novinha, Periguete para quem, disse o homem no último zap. Isso deu raiva nela, talvez, mas na canção o que se deu foi depressão. Desceu um tom e meio e assim ficou setembro todo, as quatro noites. Em casa, por ter problemas diante dad funcionalidades do Windows 10, sentia frustração e ansiedade quando deparava com as fotos da viagem era certo que as havia deletado. Todo esse tempo, porém, Dulcinéia deletava os anexos, anexos criados na letal confusão que tantos pais e mães e tios e tias nublou, a breve porém marcante vida do clique no botão direito, ou seja, tudo meio sem querer em quatro pastas diferentes nomeadas baixo a turbulência da imperícia de uma não nativa digital em seus quertys tão inúteis ou até inimigos quando o sistema operacional conspira e caçoa dessa gente, jh56.., 2lhj77 e ttttt5.

Claro, as fotos voltavam sempre, e nas piores ocasiões. Ao anexar um ppt para a mãe, ao mandar um currículo porque a gente nunca sabe o dia de amanhã, ao trocar a testeira do face afinal a Dora, a Pati, todas trocaram e parecem felizes. Fantasma ponto jpeg podiam todas se chamar, as fotos, o Otávio rindo, brindando um vinho, braços abertos na bike, paisagem qualquer ao fundo. Eu tinha apagado!

Claro que tinha, Téia.

Hoje à noite não havia quase ninguém, se houvesse a noite. Duas famílias que você bate o olho e percebe a estirpe pelo primogênito. Barbas feitas ambos, tendo um nítida vantagem de desmelanização, isto é, afeitara-se não tem muito mas já há algumas horas, provável assim vivesse longe. Mais ainda, provável que a visita timbrasse as raias da decepção ou derrota. Um recuo? Uma rendição? O pai não  olhava de volta e bebia. Uma família, digamos, feliz a sua maneira, equipada e podendo parcelar camisas polo, talvez calando agora ante a perda da bolsa de estudos do filho mais velho que, egresso do ônibus que o viajou desde São Carlos, talvez cogite,  se o pai der confiança, tocar no assunto daqueles terreninhos em Ourinhos, aqueles que certa feita o velho pai dele mencionou. Lembra? Há, afinal, liquidez? Laços e nós da vida, pizzaria é para isso mesmo. Coisa de três ou quatro meses além, o primogênito acusa leveza ao manter baixos os ombros apesar do incorreto arco cervical e compartilhar imediatamente o motivo de um riso quando dá scroll na telinha. Haha, solta, vocês viram que não sei quem não sei que tem não se que lá, e mostra a telinha, ao que todos também riem e já mudam de assunto. Uma pequena mas certeira amostra do estado de equilíbrio em que se encontra junto ao núcleo sanguíneo, afeitando-se muito provavelmente assim porque assim o bem quer e entende, e não porque clama o protocolo desta ou daquela barganha ou sujeição.

Mas tudo isso pouco ou nada muda nossa tese, ficando aí mais pelo amor de imaginar o índice da insalubridade que é jogar Ialta com uma família sem antes averiguar se se dispõe de outra para que a prática conte com um mínimo jogo de perspectivas que seja.

Téia enfim diz, Não, e coça o nariz. Ao que Evarildo faz OK, e eles tocam e é como se não tocassem, digo, mesmo dentro da absurda realidade que carrega a mera hipótese, mesmo ali onde tudo de melhor pode vir e ser, é como se não tocassem. O pesadelo de Schoenberg, aquele de que ninguém ausculte mais e nunca mais porcaria nenhuma, é uma presença mais e mais totalizante? Um cataclisma sem dúvida, mas também o reflexo espontâneo das first e second lives? A música foi para os fundos de vez? Dizer, Ah, na pizzaria pode, vá, é compactuar com o desprezo. É o mesmo que dizer, Ah, sei lá, tava errada. Se o Korg não desconfia das travas de seus meio-tons, ou de como pode haver tolhimentos tão marcantes e personalistas contrabandeados aos prados de alegria numérica e isenta da física mecânica, também não pode a Téia e se é para dizer todos os nomes também não pode Evarildo e não poderia Artur, estando onde estiver Otávio porque neste ponto ele não se implica, desconfiar que apreço inerte não machuca, mas tem o proverbial poder do lampião suburbano, aceso e sozinho a apagar milhões de estrelas. Mastigam as duas famílias suas pizzas enquanto corre ‘Chega de Saudade’ como um segundo e substituível plano. Areia colorida entre os dedos, pôr-do-sol às costas ou mesmo aquela rápida ida ao banheiro quando passa um meteoro. Acontece.

E nada estranham, e das erucções esquivam, e as contas respectivas acertam aceitando o esforço extra de doar o cpf ao estado em troca de um punhado de reais ao fim do ano. Um agrado por saber um bocadinho mais de nossas vidas. Se são felizes cada uma a sua maneira, também ninguém seria preso se as tomasse, as famílias, por exemplares.

É findo o show. Microfonia e estalos, normal, são da época ainda do cassino. Um chopp para cada músico e o cachê quase completo. O gerente pede o senhor entenda, Evaristo, É Evarildo, Sim, Evarildo, Gomes o gerente pede que o senhor entenda o contexto de crise e a noite fraca hoje teve jogo mais tarde por causa da novela. Evarildo não torce ou tem TV, mas agora tem um problema. O vale de 20 reais a completar os 130 em espécie não chegam para uma brotinho. Ademais, e as palavras são dele, Estou parando com o leite, o queijo. Nossa abobrinha não vai queijo… Mas sai por quanto? 32. Pronto.

Evarildo dá o vale a Dorotéia e vai embora. Talvez ainda hoje veja um western bem enquadrado no mudo, como tanto fez e faz quando está, assim, neutro, nem triste nem feliz, e bota Gênesis em cima. Gênesis sua banda de sempre, a banda que acompanha westerns bem enquadrados no mudo, ainda que se perca um Moriconi aqui outro ali. Compensa.

É importante entretanto lembrar, se a neutralidade de Evarildo é função de uma hipótese, de pouco ou nada serve que você fique neutro com, por, via, desde, para, contra, ante, sob ou sobre ele. Falamos aqui da trivialização criminosa e pasteurizante empreendida por homens e mulhers mau desenhistas, e não, nunca, jamais, do que sente ou deixa de sentir o pobre músico que tampouco achou guarida matinal no que ao que tudo indica bem intencionado iogurte de soja. Deixa mole igual, o cocô, diz, cabisbaixo mas não sem transmitir certa neutralidade. Tal é a neutralidade que não temos mais momento para ceder a muitas indústrias. Queremos nossas crianças extremamente crackers, a medir com as próprias mãos a febre da Origem. Tapas e pisões, balanço de olhos fechados nas aulas-terreiro para depois, em casa, acordarem os mais velhos dos rincões da mitografia do pulso. É muito mais que aprender com a selvageria, é dar se quisermos à disciplina da Linguagem o meio fértil que ela merece. Quando o século 20 estacou, buscou-se a ironia, a paródia, a desconstrução radical. Foi bom? Foi surpreendente. O que são as cantigas do fauno, do pássaro de fogo, da lulu? Mas e então? Não serão simular um computador, de um lado, e romper com o significado, do outro, saídas sem dúvida sonoras mas poeticamente fatigantes? Não virá quem sabe a inovação forte daquilo que supomos pré-música, já que a música per se a dita música centrifugou-se em motores especulativos vítimas do pêndulo cinismo e transgressão, para não dizer cinismo e agressão? Isto é, dos quandos e ondes da música, dos comos e dos porquês, dos quens da música, suas cúpulas e halls reimaginados mesmo no claustro, mesmo na pobreza, no fundo do mar e na guerra? Ou mesmo na vitória tácita de uma gente sem motivo para celebrar, na conquista de uma minúscula variável no enorme código dos choques estelares? Seu alaúde vertido do entulho, seu oboé roubado a um encanamento precário, seu tamborim o berço inorgânico de uma lasanha veggie processada pela indústria? Por que dançar tornou-se exótico? E agora, números a coletar números, pois é a tal configuração civilizacional que chegamos, ou se dança ou não se dança, e, quem dançar, é melhor que dance bem? Como assim? Somos enfim especialistas e profissionais, mas a que custo? Quanto valeu, afinal, o show?

Já li de músicos sérios (gente, os sérios também transam e sabem troçar, não há que ter receio de se aproximar ou credo cruzes de tentar ser um, e seus salários tendem a ser maiores, se isso acaso interessar) que o bom mesmo seria desaprendermos Bach, pois que foi Bach quem nos engaiolou a todos e ainda não se obteve notícia de fuga.

Foi uma maldição, disse o músico.

Eu concordo em partes. Bach sim foi quem nos engaiolou, e sim se se obteve notícia de fuga ela foi amordaçada pela Grande Imprensa, isto é, tornou-se lenda grímmica, lenda fabulosa. Portanto não houve. Mas discordo que o desaprendamos. Seria demais o esforço para perder três ou quatro objetos que já levaríamos à lua de todo modo.

Um de tais objetos reconhece-se pela missa Paixão de S. Mateus, escrita em vida pelo artesão mestre capeleiro e filho de artesão afinador o cervejeiro não porque anti-itália (inclusive os copiava muito) mas porque sim alemão, solícito pai de muitos, dedicado luterano de fé e atacado pelo mundo nas dores sempre anverso das delícias, muito bem por isso, basta ler diários, cartas e biografias, empoderado desde certa neutralidade, o Bach pai do Christian, viúvo da pequena Ana Magdalena. Não é tanto o caso de jogar fora, mas imbricar e ladear a música que herdamos de Bach, essa toda que se ouve hoje cristalinamente bachiana seja doce ou odiosamente previsível a ocasião, por muitas outras novas e insuspeitas músicas. Da mecânica do som à transposição ao Lá menor, eu preferia que Evarildo amarrasse um fio de cânhamo no dente e apertasse os tornozelos da Dorotéia antes de perguntar isso ou aquilo.

Destaco a ária Erbarme dicht de uma gravação que não é a de Gardiner, da qual peguei gosto, tampouco a de von Karajan, lenta sem ser herege, pois o caso aqui não é a peça tanto quanto a transfusão melódica incólume 400 anos dentro até um produto pop oriental, no seio de um dos mais capazes cinemas plásticos que é o de Kar Wai, prova da gaiola, sim, mas também do limite da beleza dentro dela, e de como tudo necessário nesse mundo estava posto, mas foi reposto e reposto, e não se diz se madrugava já o mundo em que fazíamos e fazíamos, sem por que ou por quem, ou nem se faziam por nós.

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OFERTA PÚBLICA

Orwell e Twain não eram, de humanos, completamente belos. Mas souberam adensar as raivas na fogueira disciplinar da imaginação. Escreveram ambos sobre quão frágil irá a frágil jangada do engenho humano, ante quais ameaças por Ela ou por si, baixo quais e quais símbolos de sorte e contradição. Neste inexato se palpável espírito quer anunciar esta holding seu noviço móbile de confusão lúdica e informação crítica, a Touro Bengala Reportagens S/ Acinte, braço forte que responderá horizontalemte ao manda-chuva mas necessariamente verticalmente no que diz respeito aos segredos de sua biometria, isto é, será um braço que sustenta um guarda-chuva.

Neste contexto de crise, quando dá-se à ambiguidade finalmente um assento depois de tanto palanque, sobe ora ao destaque o suspiro sóbrio de uma razão conhecedora já de máximos e mínimos inúteis como soluções aos problemas circulantes. Numa palavra, e para economizar ainda mais ao citar não interessa quem, a Brasiliana já foi construída. Cabe assim como consequência orgânica à implicação epistêmica da pessoa físico-jurídica dar-se à melhor postura possível, e com isso dizemos não a práticas falidas eoperações infecudas, sim ao escrutínio do desenho, não aos erros fundamentais. São muitos, e que a tempo hão-de ascender livres da culpa em meio a incensos fúnebres. São os corpos a enterrar que o matriarcado prega desde Antígona.

Feitio e circulação são os nervos do produto. Quando empobrecem ou inflamam, fazem doente o organismo sócio-econômico. Empobrecem ou inflamam, agora escapulindo da metáfora, porque homens e mulheres escolheram mal e exageradamente mal más posturas do fazer e do circular. Tais más escolhas, por sua vez, rastreiam-se qual passos largados neste nosso simples mas limpo reboco de desejos paradoxais, já que é como se fossem a um avalizados e patológicos, pacificadores e fascistas. Assim, quando prestes a sérias decisões, o blog insiste cá, observe-se a oportunidade da respiração silenciosa e do humor da renúncia. Elas não te tornarão carentes, elas no máximo te farão razoáveis. Um círculo de vícios é esta sorte de mock up para o experimento do círculo de virtudes. Por se tratar no entanto dum desenho coletivo sem domínio conquistável possível ou pensável, será natural aproveitar sistêmicos afrouxamentos de tensão aqui e ali donde entornar crispadas as boas questões às autoridades instituídas. Produto em fundo e forma de combate não por ser esta mais uma querida opção, mas por medo da patrulha que virá a quem vier a público.

A Touro Bengala Repostagens S/ Acinte, sem pudor frente às vaquinhas, pools, blogosferas, angels, Old Media, parentes, amigos importantes e laboratórios de neuroquímica aplicada que não testam em animais, oferece a seguinte promoção a título de gênese empresarial

– 1 (um) artigo de 2 mil a 5 mil toques acerca da small press portugesa, sua situação estético-processual agora. Em que ponto do torque que foge ao desequilíbrio estarão a poética e o ferramental editorial deste hiperliterário porém bocejante país em verdade pós-industrial, quais mãos e vozes merecem atenção e por que, e como se recebe a produção.

investimento = 800 dólares limpos

bônus (só vale com o pacote) = cobertura da feira de livros de Porto, formato a combinar, de 650 por 400 dólares limpos

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Apresentando Luisa Micheletti

Luisa Micheletti nasceu em 1983 em São Paulo e trabalhou de 2003 a 2010 na MTV Brasil, onde foi produtora, editora e apresentadora. Atriz, integrou montagens de Ibsen, Jean Genet e Roberto Alvim. Tocou baixo por dois anos no femme trio de dance-metal Fantasmina. Nem sofá nem culpa, seleta de contos a ganhar por este selo as falanges do público, sai no primeiro semestre de 2017 e marca a estreia de Micheletti em livro desde predicados próximos de maturidade, ouvido musical, íntegra abertura mística. O trecho a seguir, pinçado de um dos contos, casa bem com a série Mãe,

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Luisa Micheletti diz: Mãe,

Aos treze graus de Sagitário, dilatava rumo aos limites do círculo, claro insulto aos astros mais distantes das orgânicas córneas. Absteve-se de escolher. Determinara que faria parte de tudo e de propósito cravou-se, limiar da primeira, cúspide da segunda; assim, seria ambas. A estreita oposição mercurial em mortífera oito, perspectiva que mais tarde ensinaria a integrar valores ao que é dito, submeteria a fala do bebê vermelho às mais limpas verdades sempre, nesta infinita linhagem de matrioskas honesticidas. O inverno ameno o suficiente para que pudesse descer nua e com três jóias douradas empedradas de Vênus: era assim que posaria no momento de se consumar o retrato da carta nascente.

[…]

Sônia foi mãe três vezes. Dois vingaram. Pioneira em desquite, sol em leão, acelerada, válvula mecânica. Tinta dourada no cabelo, Aldemir Martins na parede, homens do PSDB e suas malas de dinheiro. A praia, ela viu, a novela, o mar. Ter tido um neto médico. Ter sido Shirley Temple. Ria. Ensinou não correr atrás de homem, escolher entre os que vêm e permanecem. Memória em molho netuniano que perpassa carne, bolognesa, sangue. Por dentro as que já foram, encuba, guarda, estão por vir. Em Uberlândia nasceu avó Sônia, lua da minha mãe, caçula de Antonieta poeta, neta de Leopoldina, filha de todas as filhas das matrioskas lunares honesticidas.

Inédito de Bruno Galan

Resta cerca de meia dúzia do livro Taco da lôca,  de Bruno Galan, diário repente político-filosófico de um pai e trabalhador em São Paulo que esta Touro deu à luz pública em papel em janeiro passado nas manhãs do Museu da Imagem e do Som quando da Feira Plana agora. Do livro disse a jornalista Vivian Whiteman Muniz que é “câmera-olho vertoviana, cine-olho parado no congestionamento ou gastando solinha de All Star.  O viajante é narrador da guerrilha urbana de memes, desbravador do concreto, um Bilhete Único na mão e uma ideia na cabeça. Chegando em casa, é papai manêro cheio de história pra contar”. O cartunista Adão Iturrusgarai deu like e lembrou o autor é “the king of vila madá, rei de pinheiros, do largo, da batata, teodoro, beatnik da augusta. noites bem vividas e mal dormidas. manhãs ressaquentas. estrelando
o ‘maldito passarinho madrugador dos infernos assoviando o melô do fim do mundo'”. Hoje, publica-se de Galan um inédito para abrir a série autoexplicativa Mãe, novidade aqui do blog que albergará novos inéditos. Aos fãs, adianta-se o autor vem fazendo “testes remotos” para um terceiro livro, Na Bahia todas as sílabas são tônicas.

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Bruno Galan diz: Mãe,

Não conheci Dolores. Foi uma mulher que estudou, cantava, tinha cultura. Ela gostava era de Antônio, mas a obrigaram a casar com José. Fugiram da guerra da Espanha para o Brasil. Já veio casada. José e ela tinham um comércio em São Manuel. Ela tocava a parte do contato com os clientes, homens. José às vezes tomava umas e tentava matar a esposa com uma arma. Analfabeto e machista, morria de ciúmes da esposa por ela tratar com os homens, já que era a culta da relação. Morria de inveja de ela ser culta. Contam que meu avô Mário, de cueca tirou a arma da mão do sogro e salvou a vida da sogra. Um belo dia José se matou, enquanto Dolores conversava com uma turma de homens no armazém. Dolores agarrou um jesus lascado, que passou para sua filha Maria, esposa de Mário, que salvou Dolores de José. Mário, sujeito tranquilo com os demais, mas autoritário e machista como José, teve muitas filhas. A caçula temporã, Maria Ignez, foi a espoleta da família. Não era muito chegada aos dogmas, mais apta ao hedonismo e ao questionamento mesmo. Rompeu com a igreja por volta dos 30 anos, causando grande rebú, estrondo e alvoroço naquela pacata formação familiar casta, culpada e temente ao senhor. Ignez teve dois filhos com João, com quem se divorciou em 1982, causando grande rebuliço, alvoroço e conversinhas de canto de boca por parte das maiores fofoqueiras que o mundo produziu, que são as carolas hipócritas do interior paulista. Saía para dançar e se divertir com as amigas que fumavam aquele cigarro de filtro branco lascado. Ela, a não cristã que acolheu o pai autoritário e repressor em casa, ele que ainda queria reprimir por comprimento da saia depois de adulta e divorciada. Mas isso não a impediu de romper com paradigmas e viver a vida, tocando um foda-se pro machismo e pros dogmas hipócritas da igreja católica. E conseguiu viver sua vida finalmente depois dos 50 anos, sem marido pra mandar, sem pai pra obedecer.

aranha bengala
besoura roubada
circunda no tronco
da logo invernada

aranha bengala
é norte, arrasto
osso de cegueira
milonga de jade

aranha bengala
marieta vem tarde
miramorre na
cera, arde; to

ca meu dedo é re
nasce. sai. não some

aranha bengala
aranha bengala!
aranha bengala!!
– agora casada

tampouquismo, script kids, a falácia da sofrência

São estes os três assuntos a circundar o atual. Folha em queda ou pétla também caída, enxume de enxofre a optar pelo anti-íon e besta praga ética jamais confirmada pelos franciscanos firmes, não lhe tanto interessam quanto a geração de energia local e a ergonomia dos objetos que ao mundo para nos servir, nunca atrapalhar, para ficarmos em apenas dois exemplos do topo de sua cabeça.

Não interessa tanto, no entanto, não basta. Se é para falar a língua iluminada, dirá também que depedram injustificadamente a produtividade resolutiva da atividade. Comprimem a potência, o que já é questionável em si, mas somam ao estrago a ausência vergonhosa de um propósito nobre que seja. E acabam, sempre, num rol de cento e poucos termos – todos, sem exceção, representando a nada excitante altercação binária. É apenas isso. O tampouquismo não é isso. O tampouquismo é outra coisa.

O tampouquismo é uma conversa outra, nobresilenciosa e ancha no que não define. Êhf, você pode dizer, soltando o ar, num modo expressivo avançado. É que o tampouquismo muito antes de ofertá-las em formicas vai a palavra reduzindo à fome. Desnutrindo o conhecido a fome e ainda: sem surpresa. Êhf – você não precisa saber antes que dirá daqui a pouco você não mira em ninguém (tampouco não não mira), mas encosto, aqui, não é partir de cima para atalhar o gostinho do poder; não é, atenção, empurrar o pescador para, então, alertar que caiu o pescador e você não. Assim faz o script kid: ele quer, um dia, programar o mundo que já vai a lhe cansar neste tacanho formato caixa. Mas não pode porque ou não se esforçou ou não quis ele ou a maldita sorte que lhe quis e pode mudar desde fenômenos muitos, a leitura deste post inclusiv se ele ler, e respeitar os mestres: assim o script kid sairá de seu infortúnio patológico ao qual Lacan ele mesmo denotou, em estudo antigo, a partir do caso dos beliscadores a rodar, desnecessário dizer BELISCANDO, quem lhes desse na telha, nos coletivos de Paris.

Paremos com isso, porém, para falar da falácia da sofrência. Vamos ver como dá pra viver sem violência “branca”. Porque não é possível. E porque, cuidado, desarranjar o cosmo é ação seriíssima (e deveria estar reservada). Vamos ver como dá pra governar a atribuição de stress – sem implicar os inocentes em negativíssimos ciclos cármicos que eles tampouco merecem? Vamos ver e vaiar quem otariamente brindar ou submeter-se ao exótico mistério da dor, atenção, ingovernável por quem quer que seja – “regra” (ao modo do teste da dureza entre materiais, ou seja, nem tanto constituída por nós). Pede o poeta a coragem de abandonar do fogo dos foros o apego a termos do meio, abandonar aos montes donde o foco em recrutamento e seleção [você, um possível gênio; ela: acha lâmpada e não mais as brincadeiras da mamãe do imperativo SEMPRE passivo como forma de agradar sendo que agora, é resolver: não há vitória em vista: pequenas vitórias não existem, não carece de uma; tampouco das derrotas de prickster: quem delas precisa?) Necessidades do corpo da pessoa humana e saúde: há entulho nas mandingas, nas alcovas, nos diagnósticos, nas prescrições. Entulho é esse acúmulo de termo do meio que gera ‘Pull Out’, isto é, o leitor mentalmente médio ‘sai’ do texto porque não enxerga, na argumentação da mandinga, da alcova, do diagnóstico, da prescrição – todas entulhadas –, relações muito práticas com os achados mais recentes da casa do saber (é o caso entender ciência aqui não só como a ciência incorporadas, mas também a relevantíssima independente e, ainda também, a marginalizada ela ora sob milícia do bem crescente). Como se trata de necessidades do corpo da pessoa humana e saúde, deveríamos evitar argumentações furadas com ‘Pull Out’ sob o risco de perder e, eventualmente, arrastar uma indústria consigo.

Um dos principais fixadores da falácia da sofrência é a iconografia do fracasso cristão. Via certas bandas, via certo skate, via proto-ocultismo de cuia meia (nem os ‘caras-feias’ riam imunes ao devir-script kid) e outras coisas, ela hoje produz adesivos que incentivam toda sorte de irracionalidade. Uma pena, isso sim é a simplificação simplória do excitante. Não se fala de moléculas, basicamente, ou de ‘zão’ eletromagnético. Qualquer participação, seja em mandinga, seja em alcova, seja em diagnóstico, seja em prescrição, sem tais campos léxico-conceituais iniciados e recomendáveis ao formado mentalmente médio afim apenas para citar dois exemplos do topo etc resulta tosco ruim de improdutiva então a dita.

Não no tampouquismo: não. Tampouco é tão definitivo – tente: veja, se não abre uma m   a  n-d   a-   l  a. Tampouco perderá, vencerá. Tampouco é tão certo, dizem os tampouquistas, e tampouco nunca mais, teu palco é pouco, ah, lindo, lindo é isso do tampouco, tampouco ou quase; ou, antes: tampouco é isso: nunca mais; não mais pois tampouco né? é, beijo. Não é tampouco. Tampouco é quase, poderíamos assumir?, ‘tampouquear’ diria, rindo uma jibóia dentro, como quem brisa à oblíqua sem má-fé, e já no tampouquismo a utopia que havia mineiraram; acabou. Poderíamos, sim, ter todo aquele todo adelliano: o todo de que trata Adelle. Êhf. Tampouco temos, contudo, porque vocês estão brincando. Na polifonia ético-perspectivista dos engendrados no barroco tampouquista, sobra pouco

à dor a venda ao total dela pouco sobra, diz tampouco, vendo, o tampouquista, seu corpo entre dois nortes, para uma sorte de conluio: dá azar dá azar. Tampouco entrega(o). Tampouco deixa de roubar seu dom quando soe-lhe um skito mais zum. Êhf.

cri cr ee (hu) p”

TB Presidente, o senhor se julga ainda a presidir um deblace

LULA Você quer dizer um debacle

TB Não precisa ferir assim

LULA O que você quer saber meu querido

TB Agora, se fosse meu avô eu perguntava vô, onde dói. Mas não sou. Eu queria saber se o lulismo, passar de na percepção do povo um projeto político cujo viés nunca incomodou ninguém além de terranos a uma ridicularização de todo um evento em flagrante equívoco incomoda

LULA Não é eu

TB O que é o senhor, presidente

LULA Eu sou o presidente

TB O senhor quer muito isso não

LULA É o que eu quero

TB Para encabeçar de volta o projeto

notfastor

LULA Isso a reta da vitória o arco do triunfo o ponto da dobra da exceção do plano que rende mais

TB Este blog não acredita em presidencialismo, presidente. Mas tá o alfinetado aqui é essa sorte de curiosidade

LULA Não vou nem comentar. Você sempre pode ir

TB Ir da onde pra onde fala serio q ninguem te explicou o einstein

LULA explicou resumido. O que quer saber agora o meu querido

TB Se há futuro para a democracia

LULA Há no mesmo tanto que não há

TB O que o senhor faria para reconquistar os não terranos que ficaram chateados com a mesmeci do PT

LULA É mesmice que fala mesmo os jovens deviam dizer mesmice e não mesmici

TB Tire suas mãos de mim por favor

LULA Eu adorava reconquistar os terranos

TB Eles farão de tudo para iludi-lo, presidente. Com certeza tarão perto, Mas não-não como o senhor deseja sempre ao modo “presidencial” dos nuvô-coronéis (nunca foram, os terranos vêem do corcel. esse simples malentendido, que deu no que deu, aprimorou nosso abismo epistêmico, essa mesa de banquete). isso vem bordado em roupões de quando muito chefes de partes de coisas. mas sim. quando gente influente foi comer bife em miami, você determinou novos influentes. os seus

LULA Eu preciso temer

TB Bastante. Eles em volta do Alvorada por exemplo praptopratpra de invisíveis a carga ossada os morcegas dum metro, dois metros e vinte em cestas de brim alimentando a conspiração terrana assustaria até o Stálin o comander in chief o presidente

LULA O que q eu faria sem o PT., Nos amalgamamos demasiado;; eu e uma instituição já sem sentido

TB Já quando o sentido convier lhe pruma al’gradar mais oh será o diabo

LULA É agradar

TB Cuidado

LULA Já o que vem caiu me basta. O cristal do Freud. O lado certo da história. A lucidez da redatora nova da Dilma que eu quero ela para mim imediatamente

TB E se ela for uma rad-femme presidente. Aliás, o senhor tem acompanh\

LULA Olha deuxa eu ser bem sincero com você meu combanheiro eu tenho marqueteiro pra brifar -ficar a par de CTF vai pedir alguém a um dos meus dizer alguém a esquerda latino, a americana é ou não é e eu cito metadiscurso-nóico sem / 100) qualquer aderência com a administração das coisas, e ELA, ela cujas marolas, ela cujos rodapés, ela cujas graxas-margem ‘tava um dia a seção inteira, inteira a enciclopédia, o novo-druísmo agora alguém diz vão, viu, eu sou só mais um, o cruel se tanto no símbolo que obriga nativo a trabalhar, participar de sindicato, fazer o que quem quer que controle a gente queira, eu sinceramente não sei opinar sobre esporte se tem uma coisa que eu aprendi andando no Brasil foi que sim, pode ter lá a rad-femme, a luana, que você bem colocou; foi lindo;; mas tem também amigo e presta atenção que eu vou dizer uma vez só eu tenho ainda hoje que responder por exemplo se janto ou não janto com o pib do maranhão daquilo de falar de assunto depois tem macumba da vitória é muita encomenda o presidente, sou do comércio, vem daí minha revolta, não tive minha loja, deixa eu, tio, olha eu, monta eu, rasga eu, me congela, não fizemos nada essencialmente diferente, mas se foi mal feito tem que pagar, mas tem também o mimo

TB Ou seja né

LULA Ou seja

TB Interessante você tocar nesses compromissos

LULA Que que eu diz de errado dessa vez vou sofre justiçamento criminalizante no cerne da judicialização da política

TB O senhor gosta mesmo duma política desjudicializada né. anarquistinha traíra

LULA Não sou eu esse aí (“bateu”)

TB A gente pensa nossa, que esforço. Toda uma presunção oficiosa para deixar ~legado? não mais duma série de mensagens? nova arte, arte total???

LULA TAMBÉM uma série de mensagens. mas justiça junto. o que é bem diferente de fazer sofrer quem mais precisa

TB Essa presunção em particular irritou certas naves

LULA Por que será

TB Mas aí tudo PODE ser, nesse naquele outro caso hoje cedo ontem isso vira limba, lima, faz assim, isso vira o god win do deixa pra lá, o que corrompe completamente o ofício

LULA Corrompe um pra fortalecer o outro

TB A gente preza a coragem mas não posso dizer isso pra terrano

LULA Se não for né

TB posso ‘vi-los assanhados trazem ossos, de novo rangem lumens na bagaça são hélices, também como o senhor queria, férias, um último gás sem limites para distorcer ainda mais as páginas deles, ninguém precisa de nada., e seriam próximos se desejassem essa química de ser presidentes. Ser lá não sendo para fechar as portas, eles não pedem mais mas ditam nesse momento e desse instante em diante. Sabemos confluir nporem ascemos para ver pelas costas. Eles, eu digo:

LULA Eu não vou ter uma sucessão de idéias boas e vnao ou dar sorte certo você sabe

TB Eu sei de tudo, já, mas a prepotencia é “sua”, os terranos são ignorantes do seu ponto de vista

LULA Qual a pior coisa que eles podem fazer é ir embora

TB Ir embora :

troFéu logrou // touro bengala indie pub // Feira plana 2016

Recomeçamos janeiro dando nossa opinião sobre o bom e o mau, Feira Plana 2016. Como estamos a milhão com a produção de 1 primeira peça teatral (mais), seremos práticos: não falar do descartável sendo claros, indiretos com o que prestou.

Nasci assim Troféu Logrou Touro Bengala Indie Pub, um reconhecimento que também, para prestar, não bastaria dar-se em prêmio e só. Imperativo seria, antes, obter o devido reconhecimento, aquele que cabe a quem deseja instituir um reconhecimento derivado (há, por trás deste troféu, engenharia de material ou mera contingência bruta? Se for esta última, podemos falar de outra coisa enquanto não reconhecemos em absoluto um plágio da “natureza”?)

Pegadinha, contudo: só se obtém reconhecimento na empilhada consistência. Mesmo o falso bipolar só é reconhecido como um bipolar se se mantiver fiel à ilusão da enfermidade. Ele produz a repetição do sintoma para ganhar dos outros um nome que o exima do gesto que as mulheres fortes mães ou não de família chamam segurar o rojão. “Quero me ajeitar fora disso aí…”. Tal é a cilada do capitalismo incentivado por políticos e empresários mal formados a estragar impunemente gerações de inocentes. Pena? Nem tanto. Quando faltar a qualquer coisa que importe, diga, uma das gentes, um dos seres vivos, a autocrítica, atacaremos com invenções de improvável insucesso como o Troféu Logrou. Ainda que não fale a eles, a instituição ajuda a apartar mais e mais o descartável do que presta, o que baba bafafá de vento do que instrui e reforça.

Outra vez a Feira Plana se provou um dos eventos mais consequentes da cultura atual em São Paulo. Amalgamando e desamalgamando viéses, desafiando produtores, confrontando perspectivas, provocando encontros, estimulando a troca, o acesso, a apropriação, a bricolagem e a remistura e, talvez seu maior trunfo, expondo a bem mais que à meia dúzia do bate-cartão das feirinhas e, pouco a pouco, alargando essa meia dúzia, ela fica como quem fica para ficar.

Destacam-se, também, as inovações da residência editorial (amparada pela Cosac e produzida na Ipsis, duas casas de excelência), as mesas, as oficinas, o café e a cachaça. Falta, no entanto, robustez ditatorial à curadoria e revolução radical na ocupação.

O discurso da reunião de expositores sairia menos fraco e difuso se mais contaminado fosse pela obsessão, a loucura do controle, por paradoxal que soe. Um dos mais interessantes sítios onde se jogar hoje é uma curadoria mesm, o que não equivale à chance imediata de tratá-la como, por exemplo, um desenho irônico no mundo pós-desenho. Seu estatuto é o de uma forma expressiva nascente, que mal tem pernas, e que não merece assim a lassidão desinteressada, o suicídio ou o renascimento poliparódico de formas antigas como o desenho. Ainda que tenha sido só um exemplo.

A manifestação espacial da feira é ainda mais complicada, presa que está ao molde baias-anhembi de expositores de aparelhos ortodônticos e auriculares. Não se viu terra, plantas, tendas coloridas no chão, mágicos, animais, narguilés, instrumentos musicais, pufes coloridos, sombras orgânicas, águas, pedras, balanços e redários. Nada disso, infelizmente.

TL-01

A mim, pois, a voz do troféu. Eu digo chegarei à mão de três escolhidxs qual areiazinha molecular invisível, perceptível, porém, no do-inzinho micro-licious. Nelas cairei tornando as entranças das ditas mãos sensíveis à dança do deslize.

§ 3º § FRAGMENTO DE HISTÓRIA FUTURA

por Gabriel Tarde [ trad Fernando Scheibe ]

Sem saber o que ler, estávamos aflitos. O ritmo de três bons livros a cada dois anos não precisava envergonhar ninguém. Ainda assim, acreditamos no conservadorismo das melhores idéias. Cultura e barbárie mostrou parruda a mesa letras e ofertou cadernos inclusive, aparentemente propícios a receber figuras (imagine uma montanha, um sol etc) também. Baita afago.

tl-a

Escritor a influenciar Freud, Tarde estudou o comportamento de grupos e o crime; alertou que não trocávamos tanto serviços quanto reflexos, ou o contrário, ou algo perto disso. Esta parece uma ficção científica de mil oitocentos e tanto; o prefácio seria de H. G. Wells, deveras laudatório. Perceba um trecho do capítulo ‘Luta’:

Com cuidados infinitos, elas foram descidas uma após a outra, caixote depois de caixote, às entranhas da terra. Esse resgate do mobiliário humano se faz em ordem: toda a quintessência das antigas grandes bibliotecas nacionais de Paris, de Berlim e de Londres, reunidas em Babilônia, e depois abrigadas no deserto com todo o resto, e mesmo de todos os antigos museus, de todas as antigas exposições da indústria e da arte, está condensada ali, com incrementos consideráveis. Manuscritos, livros, bronzes, quadros: quanto esforço, quanta dificuldade, apesar da ajuda das forças intraterrestres, para embalar, transportar e instalar tudo isso! Tudo isso deve, no entanto, ser inútil em sua maior parte para aqueles que se entregam a esse trabalho. Eles não o ignoram, sabem-se condenados, provavelmente pelo resto de seus dias, a uma vida dura e material, para a qual sua existência de artistas, de filósofos e de letrados não os preparara. Mas – pela primeira vez – a idéia do dever a cumprir entrou nesses corações, a beleza do sacrifício subjugou esses diletantes. Devotam-se ao desconhecido, ao que ainda não é, à posteridade para a qual se orientam todos os votos de suas almas eletrizadas, como todos os átomos de ferro tendem para o polo. Era assim que, no tempo em que ainda havia pátrias, num momento de grande perigo nacional, um vento de heroísmo soprava sobre as cidades mais frívolas. E, por mais admirável que tenha sido, na época de que falo, essa necessidade coletiva de imolação individual, talvez não devamos nos espantar, sabendo, pelos tratados de história natural que foram conservados, que simples insetos, oferecendo o mesmo exemplo de previdência, empregavam antes de morrer suas últimas forças em reunir provisões inúteis para eles próprios, úteis apenas no futuro a suas recém nascidas larvas.

 

§ 2º § CARTELA DE SELOS

por Lola Etelvina

A artista mineira vem explorando os tipos incomuns e usando-os, como é de seu feitio, com a tranquilidade e a leveza de quem garante a dinâmica sismográfica da imagem sem se apoiar na paródia de um tsunami, na paródia de uma samarco, na paródia de uma chernobil ou de uma pé-de-chinelo-friboi. Rir depois do riso crispado do vapor waze, por exemplo, não é tanto um contragolpe quanto uma condição ontológica inquebrantável e desimportante. Daí a leveza e a tranquilidade, apesar da agudeza do comentário e o sacerdócio do sermão.

Aqui estão uma cidade e um estado vermelhos, de onde contarei o que vivo para você que não pôde vir, para você que mora longe mas quem sabe agora sinta algo de delicioso no tocar deste envelope. Em preto eu aproveito e vou: compor quadro, contrastar, impor, contornar, sobrepor, antepor, harmonizar, desafiar, interferir, quebrar, torcer e listar. Este selo agora é seu, preso ao envelope de cujas entranhas fiz páginas de carta desta sorte de saudoso e cavoucado amor.

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§ 1º § UNIVERSO EXPLORATÓRIO

por Cleo Lacoste

Este zine é projeto de conclusão dalgum curso da criadora carioca, inspirada livremente nos conceitos de física elaborados em O universo numa casca de noz, de Stephen Hawkins.

Resulta curiosa, a aposta de Cleo. Um livro poema que remete aos bons websites narrativos e enigmáticos do começo do milênio pode dar num objeto logradamente misturado ao frenesi impresso da baixa tiragem com alta estima sem padecer de insingularidade?

Não é fácil. Neste caso, contudo, acontece de sim.

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Pode ter sido sorte da Cleo. Tanto a autora quanto o objeto, a quem do magma o retira e à calma da canoa o traz, canoa só a deslizar sem pressa na baía, tudo aparenta a fúria da historiadora travestida de riso-chick para humilhar os desavisados. Eu, no entanto, posso estar lendo mal. Ela não é só mais uma riso-tit, ou, ela não é ainda outra riso-freak, nem, antes, uma riso-kitten, esta tão comum. Ela será daqui a pouco, é isto, uma moderadamente cínica so-riso, uma no-riso, uma inclusive pós-riso ou, enfim, uma back-to-the-riso. Então, estarei certo. O quanto antes, não estarei mais.

É do tempo que não passa e da clara colisão que não acabou ainda de que fala a Cleo.

Este objeto, desde já em minhas mãos, por assim dizer funciona melhor a partir de operações simples mas elegantemente vinculadas a certos conceitos do aparato teórico dos corpos e do cosmo. Dobrar aqui ali assim as margens os buracos, o desbastar fruir reter de trechos, os escuros e as explicaçõezinhas des-tacadas/locadas além do riso-charm a permear os spreads fazem do presente zine um objeto não de descarte, mas muito ao contrário de retenção, apesar de tudo quanto é glitch, de tudo quanto é sobra.

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Mântica é um livro de poemas escrito pela Tatiane Vesch, que toca com o João Maia a produtora camaleão. Ano passado, o casal fez a curadoria de um projeto transdisciplinar refletindo obra e processo em Hilda Hilst chamado Antrohh.

A Tati escreve desde uma antiguidade diante da qual é difícil não abrir as mãos.

Há uns meses, ela pariu a Viola; agora, Tatiane e João cuidam da filha e vivem a vivaz mitorritmia do milênio. Isso quer dizer entre outras coisas fazer a comida e não desesperar.

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A esta poeta não nos parece faltar tanto o que aprender quanto o que simples esperar. Disturba um pouco o monte de poesia que ali acabou aportando. Agora é ondas, voos de vegetação e passos dados trabalhando sem esforço.

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Muito natural e colorido, um hábito sócio-literário sem fronteiras com outras práticas, isto é, imiscuído no fruir atento (ela suporta a biomecânica circense) em que permeiam a mãe e a poeta em modo contínuo, é ela contar os sonhos, complexas psicodelias sem mudar o tom de voz. A admissão não exotizante do onírico acusa alcances irreversíveis de percepção.

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É da beleza de um canto espontâneo que salva e encena e planta o que resta por remar de que fala a Tati.

Neste almoço, em momento algum Viola deixou o contato do corpo da mãe. A filha muitas vezes fixada nas cores, ruídos, aromas à frente: todos os tatos da panela. E a poeta firme operou os fogos; usou mais de quatro panelas e bastantes temperos em compartimentos diferentes (exigindo assim diferentes modos de abrir e fechar), conchas, colheres, garfos, facas, tábuas, pegadores, escorreu a água fervendo e migrou molhos de lá para cá, misturou, misturou e serviu, pedindo desculpa aos convivas porque todas as cumbucas menos uma não existiam mais.

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No poema ‘kort de amuzas’, Tati faz uma graça nas delicadeza e efeito que os críticos costumam atribuir às poetas velhas. Como se vê, um erro:

autre-même
autre-même
autre-même
muita gente no balanço

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Você consegue um exemplar de Mântica na Feira Plana ou escrevendo para casa@tourobengala.com

marque isso: um brinde pra feira

entre tudo o que pode acontecer
ao marcador
notamos no escritório os nossos
aos poucos perdendo espaço
regredindo a pedaços
menores e menores
quem nasceu
para evitar orelhas livros
de bruço for
çando a espinha
quando some é que aprendeu
a viver mais
de uma vida sem capricho
que a defina
os nossos sumindo
invariavelmente sumindo e terminando
comigo calhou, disse um
do marcador acabar junto com o livro
rá, dissemos, o marcador acabou
junto com o livro, nunca mais
que caso difícil
significa que o livro exigiu na leitura o exato
número de piteiras
disponíveis no marcador

§

Na Feira Plana, os livros da Touro Bengala acompanham um marcador que traz em si a marca, a sugestão processual e diríamos a rota mesma de seu próprio fim. Um marcador para tempos que não passam conforme pensamos.

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fotolivro: yui 393

Mais um xamã acessível (lembrando que o xamã, de fato, não há tanto quanto grupos fortuitos onde, do eventual, um ou mais esforços acessam o xamanismo em processo, que virá comunicar e administrar perspectivas cruzadas) na Frei Caneca lá embaixo, aonde vou bastante.

Avaro veio de Córdoba, Argentina, formado nas artes do DJing e da fotografia. Por vários motivos instalou-se em São Paulo onde vive e trabalha há cinco anos.

Não raro, Avaro deixa escapar indignações e desejos utópicos que poderiam ser ditos, sem tirar nem por, por mim mesmo. É um tanto espantoso o quanto, às vezes quando encontramos, as falas das bocas orbitam conceitos e percepções que não podemos chamar de próprias, mas de plenamente compartilhadas.

Isso, é claro, quando se pode a mínima complexidade na articulação (para excluir eventos ~meramente catárticos, por exemplo), ou seja, quando é possível abrir espaço para a produção de novos ou para a visita crítica de conhecidas percepções e conceitos não interessadas senão na direção da Verdade.

Há pouco, por uns quatro ou cinco dias, Avaro foi visitado pela enorme mariposa Canthela, nome de trabalho. Não há dúvida, Canthela não era só uma mariposa. Avaro diz que ela o seguia, que se aquietavam ambos quando queriam, e também que se agitavam concomitantes, passando da cozinha à sala e da sala ao banheiro. Eu disse: Avaro,

há pesquisa entre as mariposas, elas levam pranchetas mentais e ali esquadrinham sua ciência. Ela só queria uns dados. Rimos, mas sabemos: sob a máscara animal de Canthela, há, de fato, uma forma humana capaz de ver Avaro como um deslocado rinoceronte de cativeiro ou, mesmo, como uma mera mariposa.

“Vendo os seres não humanos como estes se veem (como humanos)”, diz Eduardo Viveiros de Castro em seu famoso ensaio, “os xamãs são capazes de assumir o papel de interlocutores ativos no diálogo transespecífico; sobretudo, eles são capazes de voltar para contar a história, algo que os leigos dificilmente podem fazer. O encontro ou o intercâmbio de perspectivas é um processo perigoso, uma arte política – uma diplomacia.”

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Avaro é apurado compositor, cioso das decisões que chamaríamos clássicas da operação harmônica. Regras de ouro, a forma clara, a beleza fora do grito, o ruído sequestrado pelo esquadro tanto quanto a dor pelo algorítimo luz, e ainda assim um pórtico, uma ponte entre estranhezas, uma sólida passagem para o espanto.

Em tempos de fotolivros ligeiríssimos, de tutoriais de fast-linguagem, de repetições de errinhos estetizados um tanto além do ponto naquela ociosa chave da frouxidão casual hipster, é salutar apresentar YUI 393, um fotolivro canônico. A seguir, um spread:

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Canônico, atenção, quando as “”rupturas”” disponíveis nos aportam tal qual filtros corretivos pré-programados, enjauladas por muitas e muitas aspas.

Avaro há muito frequentava o ?Parque? Augusta. Milita um tanto discreto, mais no silêncio da reza. No canto da sala do pequeno apê que divide com Gábi, há duas dúzias de vasos de onde sobem os verdes em galhos e folhas variadas. Na parede atrás, uma plaquinha diz: Parque Augusta.

Avaro é também muito grato. Nunca o visitei sem notar, às vezes simplesmente do nada, gestos e falas de gratidão genérica ao planeta e a tudo. É bonito ver.

Aqui você pode ouvir o set musical mais recente de Avaro:

YUI 393 estará na mesa da Touro Bengala na Feira Plana, de 15 a 17 agora.

todos soltos

À página 66 do livro Todos soltos, o leitor depara com as dezenove linhas de um poema que, nas palavras do poeta,

eu não lembro exatamente o sermão do Vieira que no Carnaval de 2014 eu lia. Mas lá ele dizia, no sermão de que não lembro, das tenças claramente; eu não lembro se eram necessariamente as tenças da segunda; e eu não lembro, também, se eram ou não grossas as tais tenças. Muito hip-hop eu ouvia, muita canção advinda da dor blues apenas quase subjugando a marcha eu consumia nas horas vazias daquela desalmada Brigadeiro, confusa na razão, até que como exatamente, muita confissão eu lia dos tuberculosos, os chamados góticos eu lia, os advindos da dor

. Sem dúvida um poema estranho porém marcado por negação e desamparo. Depois, pessimista. Seu fim, “já não imagina”, é também o bordão do desistente, daquele de quem os sonhos e os ossos pegaram no sono. Assim, numa transmutação goyana, produz-se monstruosidades

e eu acrescentaria ainda que não, parte-se uma bolha de sabão, com sorte, com um dedo, e assim nascem duas menores, duas bolhas menores completamente desinteressadas. Não é o caso neste poema. Aqui há tão somente uma bacia de latão carcomida em parte, demasiado amassada pois vê-se quedas, quinas, dedadas e martelos, toda sorte de pedra se vê e mais chapisco, lascas, resinas, ferrugens e metais e um geral estrago alma da segunda, se assim acreditarmos, ou desde uma compreensão tolerante diante das cruezas da situação. Quem gostaria de ser “infensa por decreto”? Cadê a transparência, ela gritava; “tripas na vitrina”, concluía.

A página não revela outra coisa, apesar de fazer pouca ou nenhuma diferença

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Há um problema na depressão, bastante sintomática no poema, quando dá-se o que a psicanálise chama de “cansaço em expressar a si mesmo”. Ora, nós não podemos esperar nada de sujeitos cuja trajetória de autocriação e reconhecimento tenham sido por esta ou aquela contingência guilhotinada. As últimas linhas são brutais quando aniquilam os trapinhos de autoestima e convocam a guarida da melancolia for good.

Tal seria um problema menor. Acontece que há, na modernidade vigente, uma série de arapucas camufladas de estradas, gaiolas camufladas de automóveis. Não é fácil perceber. Eles dizem: você não precisa articular suas vivências em linguagem compartilhada e tecnologicamente desperta, basta render-se à “hiperexcitação contínua da festa”, e sair correndo, e abraçar a cisma superegóica da promessa do gozo. Vem assim, não por acaso, prescrito o descaso com a ansiedade via quem? ele mesmo: o consumo; do qual, aliás, poucos de nós (os monges, bichos) estaríamos livres ou soltos. O que o mundo tal como o erguemos nos parece pedir, sem vergonha, então, é: anule sua voz e viva o tempo morto de quem trabalha para comprar arapuca por estrada.

É mais difícil do que parece, pois os seres da Organização estão à solta e são gigantes. Um deles, inclusive, pretende “cuidar” de nós os depressivos. E cuidariam, talvez, não fosse um detalhe: quando fazem circular inibidores disto ou daquilo (testados baixo o domínio do Earning Per Share), o que circulam, em verdade, é o discurso mal acabado do “fim da era dos conflitos”, quando nada muito drástico, em esfera alguma, e por mais contraditória, pode ou deve ser incitado. Pare eles, estaria “tudo certo”.

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Reunindo dois anos de produção, Todos soltos é o primeiro cujo nome do autor, Guilherme Coube, vai à capa. Por quê?

Talvez eu tenha amadurecido. Talvez, agora, eu sinta mais firmeza na ideia de fazer circular um livro apenas mais um, sem que o nome do autor tenha medo de aparecer. Mas eu não mandaria ninguém embora se este ninguém dissesse assim mesmo: o que houve foi que regrediu, você, você regrediu. Antes era contido na forma mínima que programa o desterro da autoria, morriam longe tantas influências prosaicas, e víamos ali algo que não se dói desprezar. Agora? Agora você tão somente deseja ser um e só mais um, mais um comum. Você voltou atrás, quando muito…

Todos soltos foi distribuído em residências aleatórias do bairro Bela Vista na semana que passou, infelizmente sem registro fotográfico. Mesmo assim, será lançado entre 15 e 17 de janeiro no Museu da Imagem e do Som de São Paulo por sintonia da edição preto e branco da Feira Plana.

taco da lôca

Um caso a ser seguido em nossa prosa, musicada e imaginada durante uma semana em que o narrador e protagonista insiste no que talvez chamássemos singularidade não constrangedora, isto é, aquela que respeita a platitude segundo a qual o seu desejo tem duas e apenas duas opções: realizar-se sem restringir o desejo do outro OU realizar-se para provar que o desejo do outro, na verdade, não compensa ou até mesmo não existe. Neste livro, os desejos de grandes conglomerados corporativos e políticos profissionais, por exemplo, são atacáveis porque são inválidos, não humanos.  Insiste-se: o autor é paciente com o mau desenho social sem ser acrítico.

a coisa do eu. até as lamas na questão do si. mesmo, no caso. no caos. sobrevivendo no inferno. umbigo, 2 bigo. taxista ouvindo pan, no programa da tarde o ex bbb bam bam. humanista agressivo. os que sentam no corredor e dão meia licença, os que pedem info na porta do busão sem dar uma nesga pra quem quer entrar.

os direitos dizimados um a um, dia a dia. a real humanitik q regaça como todo mundo o xingú e posta brum.
mata uma aldeia a cada carregada do aifone 5. quem nunca? as mortes por selfie, que ultrapassam ataques de tubarão.

o ex de anita. a publicação do tico.
o meme da vez.
prêmio hídrico, jornalismo wando. você não me avisou, amor. podemos tirar se achar melhor. todos estão surdos, todos estão soltos.

ins-galan

Ao contrário, Bruno Galan apresenta, como no trecho acima, a descrição nevrálgica do romancista decantado de mãos dadas com a crítica. Engaja-se, pois. Não abre mão de ser e pensar o político dentro do experimento e entende que um sujeito nunca se esvaziará o suficiente para pronunciar abobrinhas do tipo “não ligo para política”.

No posfácio da presente edição, o editor Guilherme Coube arrisca hipóteses:

Não é só o desejo de ‘ser escritor original’ no pátio de reproduções majoritariamente insossas e inconsequentes do Facebook, mas é, sobretudo, a coragem de ‘mostrar como escrevo’ aquilo que você não perde por esperar.

Isso ou não, o livro passa fincado em nossa época, na forma e no fundo.

Taco da lôca é lançado 15 de janeiro na Feira Plana com esperadas aparições do sr. Galan.

ó lá, mundo

pensamos em começar com esta citação de 1949

Diante de um universo que anseia por compreender, mas cujos mecanismos não domina, o pensamento normal sempre busca o sentido das coisas nelas mesmas, que nada informam. O pensamento dito patológico, ao contrário, transborda de interpretações e ressonâncias afetivas, sempre pronto para aplicá-las sobre uma realidade de outro modo deficitária. Para o primeiro, existe o não verificável experimentalmente, isto é, o exigível; para o segundo, experiências sem objeto, ou o disponível. Na linguagem dos linguistas, diríamos que o pensamento normal sempre sofre de uma deficiência de significado, enquanto o pensamento dito patológico (ao menos em algumas de suas manifestações) dispõe de um excedente de significante. Graças à colaboração coletiva na cura xamânica, chega-se a um meio-termo entre essas duas situações complementares.

TB SIT

Para Lévi-Strauss, então, pode ser grande a força mágico-social na cura de nossos males. Não há aqui ‘um xamã’, mas o evento xamânico que se dá necessariamente a partir das forças e fraquezas de um conjunto.

Neste caso, o mal (ou o ruim, que é o contrário do que deseja a razão) é o hiato ou apartheid corrente em certa modernidade despreocupada com a seriedade da natureza conflituosa do que nos faz agir e escolher e cliva assim brutal o que o capitalismo das farmácias definiu como normal e desejável de um lado, e como doença e assim inoperabilidade e oportunidade de tratamento comercial e/ou intervenção, ostracismo, perseguição e prisão, do outro. Segundo tal modernidade, o caso é mesmo não dar nas mãos da norma nenhum tipo de biruta.

Contra tal rigidez improdutiva e perpetuadora de processos pouco revisados, existe a chance de compreender a experiência do patológico como “instauradora da condição humana e a via privilegiada para conhecermos nossos processos de formação, assim como traços de nossas estruturas de comportamento” (Safatle), isto é, a esperança de que o medo da loucura como casa (ai o hábito do impensável) dissolva-se em realizações normatizantes que simplesmente passem no teste da mágica social, isto é, sejam integradas e não repudiadas no decantar da análise da razão.

Eu acho engraçado a gente administrar o medo assim. Nunca se ameaçou tanto. E nunca fizemos tanta força para respirar a ontologia da escassez. Estamos provavelmente 99% errados.

Percebamos que é do fundo do poço que se vê a lua, claro, mas não deixemos de performar. Não hoje. Não deixemos de performar. Ampliemos essa treta conosco de modo a

amplificar tudo aquilo que não podemos.

Só assim para chamar a atenção dos magos sociais, não? Foi nomeando a si de neurótico e limítrofe que W. Allen e o punk convocaram sua cura. E

uma dimensão fundamental do trabalho analítico consiste não em dissolver os sintomas, mas em dissolver o vínculo do sujeito à identidade produzida pela doença, o que permite aos sintomas perderem certos efeitos, diminuírem intensidades e se abrirem à possibilidade de produção de novos arranjos

Não é pouca coisa fazer desejo e linguagem e não poder conversar com o cérebro. E ter que acreditar na inexistência da inteligência do cérebro. E herdar e repassar o que queremos por vitória e beleza. E trair quem não se importa. Tudo isso no momento em que “o casamento assombroso entre Gaia e Antropoceno” pressiona por duras reordenações de prioridades e desmontes em série. Você está fazendo o quê no bando transicional, exatamente? Tem certeza? Que bom.

Quer saber o que é ser da internet? Ser da internet é dizer sem vergonha e não precisar esconder que não leu Freud nem Marx PORRA NENHUMA. É isso. A Touro Bengala bem como seus sujeitos em sintonia xamânica são da internet. Não lemos Freud nem Marx porra nenhuma. Nosso devir é superar a doença da indeterminação da identidade que recusa a raia fácil da predicação não artística, isto é, a da posse ou repetição destrutiva. Boa sorte tentando seguir a gente.