dois poemas: edimilson de almeida pereira

DA CERA

a proibição deu-se a ver escrita. antes era tudo conversa de inocentes. agora a escrita fala no corpo que ruiu sob os estrados. um livro se escreve agreste e quem o fala regressa do garimpo apenas com a garimpagem. a capanga em que recolheu o melhor do dia, rompeu-se; sobre ela o infortúnio atira seus mascates. a mina e a língua cultivam uma cabeça para habitar os corpos que maduram nas árvores.

* * *

JOÃO. DE DEUS

João de deus não vive
do seu.
Vive do alheio.
Para dar, em graça,

um assobio de barro,
um pião.
Seu ouro,
sem arca, é para os

pobres.
Ele diferente deles,
e dos ricos,
arca com o mistério.

Labor sem causa
de quem,
não tendo casa, vai
à caça

pelos outros:
um boi rosado, uma
linha
entre bordados.

João. De deus
se nutre
e sua forma não cessa.
Junta-se

à farsa da vida,
aos farsantes de cepa.
João, menos
que nome,

uma letra.
Faz-se em graça. Para
si retira
o último coringa.

* * *
do livro qvasi (2017)
* * *

Boquinha versus corpo

No informativo e bonito documentário Yoga – Arquitetura da paz, deparamos com aspectos estarrecedores do estilo de vida desses mestres da mente e do corpo. Ultrapassam os cem anos sem qualquer complicação de saúde, desejos e vontades sob o controle estrito da renúncia enriquecida pela meditação. Em verdade, chegam aos cento e poucos anos enxutos, fortes, em plena comunhão espiritual com a matéria, sem reclamar das miudezas de poder e frustração que tanto dano causam à fortuna do antigo ocidente. Um ocidente envergonhado que nos deu o aspirador de pó e os aparelhos de laser disc, mas sobretudo as guerras modernas, que confundem virilidade com a colonização do outro.

No capítulo dois, seção cinco, do meu mais recente livro, escrevo:

Homens e mulheres brilhantes, honestos, dedicados à família e ao trabalho muitas vezes passavam da juventude à vida adulta sem sequer um dia parar para cuidar da respiração e da alimentação como um adepto em busca do Ser. Julgavam-se ligados graças a gadgets e aparelhinhos, mas não estavam ligados coisa nenhuma; estavam, se tanto, presos. Você pode correr vinte minutos numa esteira ouvindo lambada enquanto pensa no seu patrão ou na sua amante, mas isso não será, nem por decreto, cuidar da respiração. No médio e no longo prazo, dirá o adepto, este sujeito não saberá dizer se vive a vida alegre e sem arroubo dos seres ligados, ainda que seus índices de colesterol estejam na média e sua rede social bombe de amigos.

Planos de saúde, consultórios de psicanálise, tabelas de performance, medicação psiquiátrica, hábitos deselegantes, gastos que geram mais gastos, consumos exibicionistas, produção de lixo, desprezo ambiental, hipocrisia familiar, não raro, seriam os reais sucessos de uma sociedade despreocupada em cogitar, profunda e autenticamente, a disciplina crítica da força motriz dos desejos. Lembremos o farmacêutico mineiro tão discreto e assertivo, poeta cuja inspiração e realização casaram-se, na história da literatura brasileira, como a aliança quase perfeita da eficácia semiótica, humildade na partida, e impacto na chegada, Carlos Drummond de Andrade, em seu manifesto iogue tão famoso e estudado chamado ‘Máquina do Mundo’. Neste poema, ponto alto do brilhantemente irregular livro Claro Enigma, ao deparar-se com a abertura do ‘reino augusto’ da máquina do mundo, sorte de aleph moderno, Drummond diz,

baixei os olhos, incurioso, lasso,
desdenhando a colher a coisa oferta
que se abria gratuita a meu engenho.

A treva mais estrita já pousara
sobre a estrada de Minas, pedregosa,
e a máquina do mundo, repelida,

se foi miudamente recompondo,
enquanto eu, avaliando o que perdera,
seguia vagaroso, de mãos pensas.

Quando repele a máquina do mundo, o poeta revela, em gesto, a alma que, porque soube renunciar, está agora disposta à recomposição miúda.

É lícito dizer que a vida do iogue, tal e qual exibida no documentário, será um bocado difícil de realizar neste atual estado de distrações e tentações. Mas os exemplos e as lições de vida servem não como algoritmos dogmáticos de performance, mas como inspiração para melhorarmos um pouquinho. Um pouquinho todos os dias, recusando, via raciocínio e dados, os hábitos arraigados pela ignorância e pelo comodismo frouxo. Hábitos que tornaram as grandes cidades circos entristecidos de consumo impulsivo, manadas zumbis e aculturação pelo supérfluo e pelo esquecimento.

Se a respiração, treinada e exercitada, é o primeiro passo para o reencontro do corpo com o Ser (termo corrente num dos pilares do hinduísmo, os Upanishads), o outro passo, tão importante quanto, é a alimentação, repensada em suas virtudes energéticas e processuais.

Hoje, a alimentação comum sofre da inércia empobrecida que corrompeu o século XX com a lógica imoral do domínio mercante, quando a assim dita praticidade empurrou-nos, literalmente goela abaixo, as falsas gostosuras das besteiras processadas e as falsas recompensas da gastronomia luxuriante.

_

Reverter prejudicial postura exigirá novos paradigmas na ponta da produção, cultivo e comércio. Mas a indústria, escorada na busca insensível do lucro, dificilmente dará o braço a torcer sem a pressão pública e informada na ponta do consumo. Nós, sentados à mesa ou no chão, comendo com garfos ou com a fabulosa pinça dos dedos, ditaremos o progresso da indústria da comida, negando e acusando disciplinada e coletivamente os maus alimentos, as más práticas e as seduções que nos pretendem fazer crer que a comida acaba na boquinha. Não. A comida se come com todo o corpo. O que parece irresistível à boquinha pode ser, ao fim e ao cabo, uma traição contra os órgãos, células, tecidos e sistemas sanguíneo, ósseo, digestório e nervoso.

Cá no Bistrô Bengala, comemos com o corpo. Conversamos com a comida, apresentamos os ingredientes uns aos outros como novos coleguinhas de classe e temperamos, no colorido doce e picante das muitas manhãs que florescem dia adentro para despertar, aquecer e ativar o corpo, nutrindo sem pesar nem condená-lo à leseira arrependida.

Nosso Berço de broto tropical leva:
– Broto de alfafa fresco
– Abacaxi
– Figo
– Raspa de limão
– Azeite extra virgem

Nossa Bala de coco leva:
– Lascas de coco
– Flocos de aveia
– Uvas-passa
– Goiabas desidratadas
– Páprica picante
– Gengibre ralado
– Cacau em pó
– Amendoim
– Mel de laranjeira
– Tudo empapado na infusão de canela

Bom apetite!

Nota sobre o novo do del Toro

And hide not thy face from thy servant; for I am in trouble: hear me speedily.
(Salmo 69, 17, AKJV)

Perto do clímax da bela fita vencedora do Leão de Ouro (Veneza, 2017), The Shape of Water, o militar Strickland (Michael Shannon) vive uma anagnórisis: a súbita revelação de que o Homem Anfíbio (Doug Jones) é, na verdade, um Deus.

Cai o mundo de Strickland e ele nos dá a entender, olhos estupefatos diante do falso inimigo, que todo esse tempo defendera um mero simulacro, um castelo de areia, e não a verdade.

A verdade – a divindade, e assim a intocabilidade do Homem Anfíbio – quem a defende na narrativa do diretor de O Labirinto do Fauno (Hugo Award, 2007), Guillermo del Toro (n. 1964) é Elisa Esposito (Sally Hawkins), órfã, muda, solteira e faxineira de um laboratório secreto do governo Norte Americano.

O ano é 1962. Em plena Guerra Fria, Esposito desafia a segurança para resgatar o Homem Anfíbio, alvo de um experimento obscuro, e devolvê-lo às águas. O faz por amor, obstinada e ingênua, mas antes que o pior aconteça.

Não quer Esposito trair os EUA em proveito da União Soviética. O infantilismo geopolítico sequer habita a cabeça da simplória. No entendimento da funcionária, a humanidade do suposto monstro apenas supera a ambição exclusivista do experimento. Ou: aquilo que haveria de aprender a ciência com a destruição do Homem Anfíbio importa menos que sua graça em vida: lições de força e cura, sensibilidade e juízo.

Quem é Homem Anfíbio? Ou, nos termos sulcados no escudo do Arcanjo Miguel, QVIS VT DEVS? A referência religiosa não está lá. Mas não se trata de uma aproximação forçada. The Shape of Water atualiza o mito do herói que aniquila a besta interior e afirma: ninguém será mestre de um escravo outro. Quem é Deus? Eu, no fio da minha espada, contra o medo e a servidão.

Na cena do pôster estamos num instante após o clímax, bela e fera afundam, salvas, e Esposito perde um dos sapatos antes de aprender a respirar na novidade aquosa. Quem notou ali a alusão ao episódio dos argonautas acertou.

No início da famosa aventura grega, quando um barco aparece pela primeira vez na história da ficção literária, o comandante perde uma das sandálias para o mar antes de reunir a trupe e singrar as águas. Sua missão é recuperar o velocino dourado – alegoria da fé, ensinada por Esposito ao Homem Anfíbio quando leva a mão ao coração do monstro assustado.

fala e água: ao chocarem-se
em continentes de carência,
o conteúdo dita a forma.

diz o apropriado poema Carta aos anfíbios. Esposito e H.A., abraçados afundando, são a perfeita aliança da estrutura helicoidal dos cromossomos da jornada heroica do homem e da mulher no cosmo. Sem fala, a faxineira dá ao mundo o testemunho do alicerce volúvel mas de firme sentido quando escolhe rejeitar a crueldade desentranhada de razão.

The Shape reafirma a destreza original de del Toro para efeitos in camera, esforços formais teimosamente artesanais, à semelhança do colega contemporâneo Michel Gondry (n. 1963). Nos dois casos, faturas maestras excêntricas e atuais da arte, a teimosia perderia o porquê amparada não fosse por tão trabalhado argumento: a potência mercurial da mensagem, órgão pleno e certeiro da construção do mundo, perene através de ricas reinvenções do mito, prescreve o talhe do objeto, e sopra vida à imaginação.

Variação sobre o arroz com feijão – I

Um bom dicionário de português brasileiro não mostrará menos que 150 entradas para o verbete feijão. Feijão-baru, feijão-congo, feijão-corda, feijão-cru, feijão-peludo, feijão-mula. A lista impressiona.

No entanto, um mercado comum não disporá além de duas ou três variedades em suas gôndolas, sendo em larga e curiosa onipresença o preto, o carioca e o fradinho a graçar.

Outro dia, achei num mercadinho expresso um saco do encarnado. Sorri e comprei. Foi ‘o’ assunto na fila do caixa. Trago amiúde o branco, parrudo e pedidor de mais alento no pré-molho. Aqui aliás a dica. Ninguém precisa de panela de pressão para fazer feijão. Basta ser generoso no pré-molho.

Fato é que anda o espectro do feijão demasiado estreito, estigmatizado por certas presenças monopolizantes. Por ser caractere fundamental da comida brasileira, estranha não se ouvir falar em sart-ups de feijão. A ideia, simples mas charmosa, poderia contar com a seguinte formatação:

Um ponto comercial aberto no nível da calçada chamado por exemplo Três Feijões. A ironia é essa: entrando, o consumidor dá não com três mas com centenas. De onde, então, viria o três?

Seria a start-up conduzida, desde a traseira do fogaréu a lenha, pela tradição de três cozinheiras, também pilares da mesa atlântica e sertaneja: uma das Minas Gerais, uma da Bahia, uma caipira. Três modos à brasileira de abordar o feijão, com suas peculiares picâncias, texturas, temperos, acompanhamentos e acabamentos.

No mix de produtos da loja, feijões para comer na hora, em diversas formas, mas principalmente para levar para casa, congelados em porções para um, dois, três ou quantos forem.

Em São Paulo, cidade de estudantes, iniciantes, aventureiros em quitinetes, casais nas primeiras horas, a loja teria, creio, um bom giro, retornando o investimento em menos de um ano. Além disso, toda uma miríade de modismos e experimentos, bem à moda do orgulho max-min da geração digital, carregaria o feijão às possibilidades lúdicas da rica leguminosa, formando tira-gostos, doces, quitutes profanas, invencionices k-pops, neo-glitch, proto-grunge, sertafunk, glitter, dark, pós-punk, etc.

Uma loja de feijão. No Brasil. {{ NSSP }}

Neste arroz com feijão, usei:
– Feijão preto
– Bifun (macarrão de arroz)
– Batata-doce
– Munguzá (canjica amarela)
– Missô
– Linguiças de soja

Temperei com:
– Cúrcuma in natura
– Seu irmão (da Cúrcuma), o Gengibre, in natura
– Um pau de canela
– Três bagos de pimenta cumari
– Páprika picante
– Shoyo
– Curry

Bom apetite!

inferno provisório

A edição definitiva de Inferno Provisório, publicado em 2016, destoa do padrão comercial da editora por três motivos: as dimensões licenciosas, em 16 por 23 centímetros, o corpo diminuto da tipografia, que na página mais larga torna as linhas um bocado alongadas, e a capa, uma capa ruim para qualquer livro, e especialmente ruim para Inferno Provisório. Por diversão, fiz três opções de capas mais condignas.

Luiz Ruffato trabalhou quase vinte anos nos cinco volumes que compõem, agora revisados, delicioso catatau. O livro versa a vida dura de umas gentes, sempre as mesmas, desensofrendo entre os derredores de Rodeiro e o beco do Zé Pinto, em Cataguases, cidadezinhas brasileiras em Minas Gerais.

Trata-se de um experimento formal de meticulosa urdidura, um cuja análise, aqui apenas superficial e de ocasião, consumirá deveras e para muitos frutos as novas mentes das comparações acadêmicas, por anos e anos além. Cá, nossa tese abrupta achegaria a trama fina de Ruffato ao empenho táctil contra a linguagem, propondo: Ruffato predispõe a escritura de uma língua brasileira buscada na víscera mas desenformada na harpa.

Deixemos a questão sociológica para estudos mais cumpridores. Antes calar que pecar no leviano, ou se o tempo não é de vigília e processinhos… Cumpro aqui contudo um constatar em nada oblíquo, pois sentido no físico mesmo após descaprichada a trilha sucosa e chicletosa da leitura: é Inferno Provisório um daqueles estágios da arte literária, por mais que condescendamos e façamos rememoradíssimas listas de escritores, inclusive obscuros, com suas dezenas e dezenas dezenas de livros cada um, inclusive os obscuros, pois é um daqueles estágios da arte literária em que a substância se equilibra, reinaugurando a língua, entre matéria alfabética e figuração virtual. Perseguição moderna, tal é um cânone mais estreito que o buraco de uma agulha. Costuma ser cruzado por poetas campeões de longeva consistência, e, na prosa imaginativa, reconhecível por aqui, para ficarmos no casal maior, em Rosa e Lispector.

A substância equilibrada, buscada na víscera mas desenformada na beleza culta e complexa, apta e sutil, da harpa sinfônica, persegue-a todo autor que escreve do que viveu, transformando a experiência fenomenal em arte sensorial. Ela é tanto mais saborida em Inferno Provisório, porém, porque materializa a fala incomum do brasileiro marginal comum, isto é, pobre e familiar, lutador e decente apesar dos muitos sofrimentos e irregularidades de caráter, figurando, junto a essa fala – difícil de fazer mas fácil de ler –, uma virtualização a um tempo seminal e delicada, de cinematógrafo atento afeito a close-ups, deselegâncias discretas das coisas, beatitudes insuspeitas dos soslaios, montagem atualíssima que sobrepõe sugestões e deixas às surpresas enredistas e às  pespeguices do plot.

Eu tinha dezoito, dezenove anos, a roça não dava mais sustento pra todo mundo, a gente estava passando um aperto danado, aí meu irmão mais velho, o Valentim, mudou pra Ubá, conseguiu emprego numa fábrica de móveis e acabou me carregando com ele. A gente morava nos fundos da casa da dona Maria Bettio, de uma família conhecida nossa lá de Rodeiro. Eu arrumei trabalho numa oficina de lanternagem, aprendiz de pintor, e as coisas iam caminhando bem. Aí comecei a sair com a filha caçula da dona Maria. A Arlete andava com todo mundo, tinha uns quinze anos, mas era muito avançada, ela, assim, facilitava bastante, não sei se entende… E vai que um dia ela apareceu grávida e começou a me pressionar pra assumir o filho. Sinceramente não sei se era verdade ou não, mas meu irmão me convenceu de não casar com ela de jeito nenhum, ele falava que ela era uma vagabunda e que ia me botar chifre com a cidade inteira, e que toda a gente ia rir da minha cara, porque eu era um ingênuo, um capiau… Eu fiquei intimidado, outra época, outros costumes, isso dava cadeia, dava morte… Aí a Arlete amarrou uns panos na cintura e escondeu o inchaço até não poder mais. E no dia que ela desmaiou na rua, e descobriram tudo, fugi pro Rio de Janeiro. Fiquei lá um ano, morrendo de medo, sem contato com ninguém… Achava que logo-logo o episódio ia ser esquecido, e as coisas voltariam aos eixos. Mas…

O tempo de trabalho dedicado, o volume de texto (se diagramado com generosidade, o catatau suplantaria as 800 páginas), a consistência de estilo e a satisfação arquitetônica – sentimental e temática – do projeto, somados à marcante novela de curtas Eles eram muitos cavalos (2004), indicam, ou asseguram, nessas páginas, escolha de artífice, consciente e refletida. A invocação da letra é experimental mas firme, e metódica, reapresentando-se de novo e de novo nos micromotivos, torneios desenhísticos, distrações voluntárias, vinhetas, molduras, pórticos e mesmo ruídos e chapiscos. Elegante na concentração e nos inúmeros negaceios às meras possibilidades, a obra logra a vastidão sólida da arte ativa, eticamente implicada.

O caminho da singularidade artística, e logo da resistência no tempo, lemos para aprender, estará menos na opção por esta ou aquela solução, contra ou a favor de uma ou outra corrente formal, mas na medida em que a fatura ela mesma se nos deixa adivinhar, sem prefácios, a pré-ponderação e o discernimento que caminharam o escritor à solução com que depara o leitor, este com ela em mãos, remoendo-a, ruminando-a, depurando-a, para então predicá-la, tomá-la para si, misturá-la aos outros molhos e usá-la contra o mundo.

Ler Inferno Provisório confere a nós, além da satisfação de colidir obra madura, e o consequente orgulho de partilhar uma língua vivíssima no léxico, na semântica, na gramática e no discurso, façanhuda caixa de ferramentas para compreender e trafegar melhor no amosaicado Brasil atual.

Sem sal e sem fermento, pão de milho é nutritivo e ‘culturalmente correto’

Em seu Caminhos e fronteiras (1957), leitura obrigatória e sorte de Velho Testamento do paulista secular, Sérgio Buarque de Holanda dedica um capítulo aos usos do milho na região.

O autor anota e explica por que a canjica é o prato do estado por excelência, desde quando o sal faltava e a caminhada exigia. E também por que, para mais garboso efeito, havia de ser mascado o grão de milho, antes de cozido, por uma mulher velha.

Lembra da triste difamação do alimento, tratado nos brasis como bobeia de animais e escravos. E por aí, talvez, explica-se o vilipêndio do milho ante o arroz. Lembra quando acusavam as cervejas brasileiras de levarem milho? Verdade ou mentira, pronunciavam o nome ‘milho’ com incontido escárnio. Aqui em casa, entra semana e sai semana, é milho com feijão que se deita ao prato.

Tratei do desamparo da mandioca na mesa da família brasileira, cegamente enamorada da batata. Somo agora o do milho, escanteado pelo arroz. Não são urgências nacionais, mas a correção, cedo ou tarde, engrenará.

Certa feita, na serra de Mogi, provei de uma estupenda aguardente de milho elaborada por famílias agricultoras advindas do Japão. O produto lembra um bom malte à moda escocesa, mas infelizmente não tem circulação. Mesmo bares chiques da cidade não dispõem dessa delícia alcoólica. Holanda aponta o fato da bebida, chamada então aluá, correr secretamente entre os escravos africanos do Brasil colonial. Sempre que encontrada, era apreendida.

Em 1687, o ouvidor-geral de São Paulo dr. Tomé de Almeida e Oliveira proíbe seu comércio “por assim convir ao bem do povo e haver mantimentos”. Os vendedores da “bebida combatida”, diz Holanda, eram multados e encarcerados. O paulista, entretanto, aprendendo junto ao índio, insistia no milho, e mesmo sóbrio fabricava biscoitos, bolos, guizados, canjicas, cuscuzes, broas e pães.

Não só sua versatilidade explicará o sucesso da gramínea indígena nos tempos da expansão paulista, mas sua eficiência nutricional e energética. Em tempos pré-Fapesp, ela era intuída, ou creditada no método tosco da autoexperiência. Hoje, os números provam. O milho é um alimento potente, amigo da terra e da cozinha.

As intrigas, a estigmatização de ‘segunda classe’, e a perseguição judicializada tolheram no entanto uma presença que poderia ser mais bem colocadinha. Nesses bolos de botequins que atravessam as tardes sobre os ovos coloridos dos balcões envidraçados, a chance do paulistano deparar com um bolo de laranja é incrivelmente maior que a de ali dar conta dum bom bolo de milho. Triste!

Meu pão de milho leva uma parte de farinha de milho moída na pedra, a mesma parte de farinha de trigo integral e quatro dedos d’água.

Descansa na cuia de cerâmica 16 horas. Vai 24 minutos ao forno alto, dentro de uma panela quente e tampada (destampada nos cinco minutos finais)

Bom apetite!

Promoção de Carnaval

Leitores!

Na página abaixo, número 230 da primeira edição do livro Da família, um longo ensaio imaginativo, há um curioso enigma na forma de poema. Diz o autor:

Não é bem um enigma na forma de poema, posto ser natural, do poema, uma sua feição enigmática. Mas sim que aludem, as cinco estrofes, a cinco personagens femininos da mitologia grega, das mais famosas, portanto rapidamente vislumbradas por quem nutre-se de elegância. Contudo, o que poderia acabar aí, complica-se. Quem lê o livro e tenta associar as personagens aos cinco arquétipos de Mãe trabalhados no capítulo dois do livro (Mãe Gaia, Mãe África, Mãe Bahia, Mãe Paulista, Mãe Magia), entende que, no poema, acertando-se a relação mãe arquetípica – personagem mitológico, dá-se não na ordem direta das seções de um a cinco, mas numa sorte de baralhamento, um outro jogo-texto e, em si, outro poema-enigma, assim significativo.

Eis no que consiste, o concurso cultural imaginativo: o primeiro leitor que encaminhar a correta atribuição das personagens da mitologia grega às estrofes do poema ao e-mail casa@tourobengala ganha um exemplar do livro, livre de qualquer custo.

Boa pesquisa!

dois poemas: hilda hilst

XIX

As mães não querem mais filhos poetas.

A esterilidade dos poemas.
A vida velha que vivemos.
Os homens que nos esperam sem versos.
O amor que não chega.
As horas que não dormimos.
A ilusão que não temos.

As mães não querem mais filhos poetas.

Deram o grito
desesperado
das mães do mundo.

* * *
do livro Presságio (1950)
* * *

XV

a Carlos Drummond de Andrade

A rosa do amor
perdi-a nas águas.

Manchei meus dedos de luta
naquela haste de espinho.
E no entanto a perdi.
Os tristes me perguntaram
se ela foi vida p’ra mim.
Os doidos nada disseram
pois sabiam que até hoje
os homens
dela jamais se apossaram.

Ficou um resto de queixa
na minha boca oprimida.
Ficou gemido de morte
na mão que a deixou cair.

A rosa do amor
perdi-a nas águas.
Depois me perdi
no coração de amigos.

* * *
do livro Balada de Alzira (1951)
* * *