dois sambas do adoniran

Epítome do caipira paulista clownesco a desafiar a civilização urbana, Adoniran Barbosa, pseudônimo de João Rubinato (1910-1982), filho de italianos natural de Valinhos, começa a carreira artística, depois de inumeráveis fracassos, graças à voz, potente e versátil, e à habilidade autodidata de cronista. Consegue emprego na rádio, com que citava e dava voz aos muitos tipos paulistanos em suas aflições afetivas e infortúnios materiais. Quando nota que cantar por acaso daria ainda mais ibope que a comédia, resolve compor suas próprias canções, e emenda uma centena de pérolas que o firmariam como um dos patrões do samba paulista, famoso pela dicção estampa de uma cidade que reiventava o português brasileiro. Adoniran canta e conta dos sabores e das durezas da vida do caipira presa ao que Antonio Candido diz “mínimos sociais e vitais”, os mínimos de quem perde padrões europeus para improvisar táticas de sobrevivência de forma rústica e não raro primitiva numa São Paulo de pobres indignos. A seguir, ‘Conselho de mulher’ e, numa roda com Elis, ‘Iracema’.

dois sambas do salgueiro

A seguir, duas belas faturas da escola tijucana e xangoniana Acadêmicos do Salgueiro: Bahia de todos os deuses (1967), e Do Yorubá à luz, a aurora dos deuses (1978), tendo este brindado a escola com o Estandarte de Ouro. O Salgueiro, que nos anos 1970 e 1980 ficou conhecido por resgatar e difundir a cultura afro-brasileira, teve, segundo a pesquisa de Mussa e Simas, “papel fundamental na popularização do samba de enredo”, sendo suas composições rapidamente assimiladas, memorizadas e cantadas pelas gentes nos morros e ruas do Rio.

Me agradam nestes dois exemplos, o andamento, cadenciado entre 130 e 140 bpm, as melodias, emocionantes sem pieguice, alegres sem melação, e sofisticadas sem maluquice, e, principalmente, as imagens e histórias que invocam seus textos, por despertarem minha curiosidade e fazerem-me aprender uma tantinho a mais da formação cultural do país.

dois poemas: poças falcão & ascher

o corpo, pobre corpo
esta choupana

e uma luz lá dentro
que o ama
que o ama

– Carlos Poças Falcão (1951). Poema do ‘Pequeno livro azul’, reunido no volume Arte Nenhuma (Poesia – 1987-2012), Opera Omnia, 2012

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Proibida de fazer amor outrora,
a mulher, livre (graças à vitória
feminista) daquele pesadelo,
pode hoje livremente não fazê-lo.

– Nelson Ascher (1958). Poema do livro Parte Alguma, Companhia das Letras, 2005

assim, o absoluto nessas ciências não é apenas dado ‘conteudisticamente’ – nenhuma ciência poderia operar se seu conteúdo não lhe fosse trazido de fora –, mas sua fonte é totalmente terrena e positiva, o que em termos epistemológicos equivale a dizer: demonstrável numa base lógico-positivista; é a ‘personalidade humana em máxima abstração’. o conteúdo dessa abstração pode variar – desde o ‘ato de ver enquanto tal’ ao ato de contar enquanto tal e à operação lógica enquanto tal. isso não significa que o homem com todas as propriedades do corpo, alma e mente tenha se tornado a medida de todas as coisas, mas sim que o homem, na medida em que não é senão sujeito cognitivo, o suporte dos atos de cognição, é a fonte do absoluto. a origem do absoluto, em sua validade absoluta, necessária e obrigatória, pertence a este mundo

dois sambas de sinhô


José Barbosa da Silva (1888 – 1930), mulato magro, regular em gafieiras, pianista e flautista, foi uma das pontes entre a pompa europeizada das valsas e polcas harmônicas e a simpleza rueira do choro logo samba, nascendo este graças à informação melódica daquele mais o ímpeto percussivo afro e ameríndio e as agruras comuns da urbe precária, num movimento que seguiria em novas maneiras de usar os instrumentos do velho mundo mais o improviso marcador da cozinha nossa. Sinhô foi poeta encaixador e moteteiro, criador de verdadeiros hinos da primeira geração do samba, com Pixinguinha, Donga, China e outros. Narigudo e desdentado, diz o pesquisador Jair Severiano, “compensava a feiúra com uma lábia prodigiosa”. Namorador, teve cinco esposas e problemas com dinheiro. Abaixo, Mario Reis (seu aluno de violão) canta ‘Sabiá’ e Dorival Caymmi ‘Gosto que me enrosco’.

sobre uma instalação não realizada

Infelizmente, a Torre da Canção toca a música louca, língua de Babel, mas a Maison Dieu do Tarot não deixa de ser também uma caixa de música carrolliana, máquina de colagem, caça-níqueis de fonemas, trocando as figuras, a cada lance de escadas. O que era ruído de fundo, rangido inorgânico, no patamar seguinte, subindo ou descendo, vira voz principal de um oráculo: efeito sonoro de um almanaque enciclopédico de sons, clipes-espectros, música de entonações e ritmos, conjuntos de timbres, trilha de um desenho animado infinito. Este gigantesco realejo de nove andares mimetiza a nossos ouvidos uma imensa nostalgia do século XX, saudades daqueles sons da impressora matricial e da fita crepe, que levaram o artista a compor no século XXI suas músicas com materiais de escritório, remixadas a lindos gemidos e vozes de macacos e seres humanos. Na pintura de Comparini já vimos esse mesmo empenho híbrido, etnográfico na abordagem e iconográfico na fatura. Nos trabalhos sonoros com o Grivo, nos esquemas e croquis incorporados à obra. O que a ciência da loucura chamou de pareidolia – enxergar figuras onde há apenas o acaso – ou witzelsucht – a compulsão doentia à piada – neste novo trabalho é adotado como procedimento artístico fundamental diante de um amplo acervo de vozes do passado. Acidentalmente, não há, contudo, como não ver aqui nessa vertigem de possibilidades aflitivas uma crítica radical ao cinismo com que o sistema da arte contemporânea, a serviço da valorização do capital, neutraliza os extremos do trágico e do cômico, da barbárie do mercado, reivindicando para si as chaves da decifração da experiência humana como um todo. Deliberadamente, Comparini flerta com a derrisão, com o sarcasmo e a ironia, sem emitir no entanto nenhuma afirmação autoral previamente validade; a sintaxe é aleatória, sugerida pelo movimento, dadaísta no corte. Depois do tempo do inferno da modernidade, a pós-modernidade corresponderia à montanha esboroada do purgatório, da qual escalamos os escombros, em sobe-desce constante, pelas escadas de emergência de um edifício público.

dois poemas

FÁBULA

Um pensamento pensado
até a total exaustão
termina por germinar
no mesmo lugar exato
sua exata negação.

Enquanto isso, uma ideia
trauteada numa flauta
faz uma cidade erguer-se –
é claro, sem alicerces,
mas ninguém dá pela falta.

Paulo Henriques Britto (1951). Poema do livro Formas do nada, Companhia das Letras, 2012

RESSACA

Também os barcos bêbados
sentem a ressaca.
Estrelas afogadas
acesas como sóis
espelham
inexatas
os olhos
dos faróis.
Entre sereias mudas
amores sem rota
navegam
sua carga
de derrota.

Ana Martins Marques (1977). Poema publicado na revista Escamandro #02, Editora Patuá, 2016

querido diário

Fica no 33 da antiga Rua São José a redação e a oficina do ‘Farol Paulistano’, primeiro jornal de São Paulo impresso em tipografia. Sai aos 7 de fevereiro de 1827. Antes, aos 22 de setembro de 1823, nascia ‘O Paulista’, manuscrito, redigido por Mestrinho, Antônio Marques, paulistano professor desde os quinze anos. Mestrinho é mais velho Juiz de paz, vereador, deputado provincial e vice-presidente da província. Aos 8 de janeiro de 1823, portaria do Ministro da Fazenda pede que se envie, em nome do Imperador, um prelo antigo da Imprensa Nacional até São Paulo, decisão revogada ante o bafafá da Constituinte. O ‘Farol’ circula até 1833, sendo acusado de abuso em 1829 (sem procedência). Sai, em 31x21cm, duas vezes por semana até 1829, e então três. No editorial de lançamento do farol, outro mestre, José da Costa Carvalho, Chefe dos Ministros do Império quando da promulgação da Lei 581 de 1850 que extingue a importação de escravos e Marquês de Monte Alegre em 1854, chama, em primeira do plural, “tão árdua quanto perigosa” a tarefa nossa da imprensa. Em 1988, sem interesse por diversas atividades, uni-me a outras três crianças e redigimos ‘O Paiolino’, jornal daquela temporada do acampamento montanhês Paiol Grande, para o qual realizei uma reportagem sobre a humilhação de quem deixava, no refeitório, a bandeja cair. Também desenhei um logotipo recusado pelos colegas e liderei o encadernamento e a grampeagem. Conforme vivemos, os jornais estão em servidores vários na internet, e replicamos suas páginas em nossos aparelhos. A redação está difusa: centenas de milhões de jornalistas publicam informação, análise, comentário, arte visual e humor várias vezes ao dia, e são diversos os métodos e ferramentas de que dispõe o leitor para organizar e regular, no tempo, seu consumo. Cada um lê um jornal, que pode sempre mudar, mas pode sempre melhorar. Lemos o que queremos, e lemos o que outros leem. Hoje mais cedo, participando de um seminário sobre ‘fake news’, percebi a ideia ainda pequenina mas, intuo, potente, de que vivemos a necessidade de pensar a descrença e a normalização do cinismo trabalhando junto à, e não duvidando da, inteligência artificial, enxugando e lapidando seus termos fortes (no que ligam e fazem perdurar os objetos caros) e neles insistindo em viva discussão.

o ‘boletim de ariel’ é o marco simbólico que anuncia uma nova geração de ensaístas, esta verdadeiramente notável: lúcia miguel pereira, augusto meyer, eugênio gomes, astrojildo pereira, afonso arinos sobrinho, barreto filho, carlos dante de morais, aires da mata machado filho, moisés velinho. a ela se juntará pouco depois a de álvaro lins, viana moog, cristiano martins, otto maria carpeaux (que a guerra e o exílio tornam escritor brasileiro), afrânio coutinho, brito broca, temístocles linhares, adonias filho, aurélio buarque de holanda, gustavo corção. todos eles, sem excetuar quase nenhum, prosadores que irão preferir como seu meio de expressão uma prosa tersa, quase neoclássica na sua maneira de ser discreta […] único gênero, conforme já se fez notar, que acompanha o gosto do público sem perder a qualidade literária, e, ao contrário, em cada situação nova recria essa qualidade, a tradição brasileira do ‘familiar essay’ persistia muito viva depois de joão do rio [com nomes exponenciais como] bilac, raimundo correia, guimarães passos, artur azevedo, coelho neto

dois poemas

ODOR DE FILHO BRANCO

estamos diante do espelho enorme que há na sala
(aguardou para saber se a equipe ganharia),
vejo com nitidez seu perfil, não vejo o meu

sua demora me confunde, afronta-me,
a tela mostra a taça do penta sendo carregada,
o capitão não esconde o que é nossa infantilidade

seu corpo de mulher branca se interpõe
entre meus olhos e o televisor, a camiseta laranja,
estampa porn star, subtrai o verde do gramado

sua mão estica a passagem para rotterdam,
deixa tudo à mostra (não ousa me chamar de pai),
seus olhos têm um azul que chega a me repugnar

Paulo Scott (1966). Poema do livro Senhor Escuridão, Bertrand Brasil, 2006

––

PARA A MINHA POBRE FRAGILIDADE

Para a minha pobre fragilidade
Olhas, sem dissipar palavras.
Tu és pedra, mas eu canto,
És estátua, mas eu voo levanto.

Eu sei que o maio mais terno
Não é nada, aos olhos do Eterno.
Mas eu sou pássaro – a mal não leve,
Se sobre mim pousou uma lei mais leve.

– Marina Tsvetáieva (1892-1941). Poema traduzido por Aurora F. Bernardini na seleção Indícios Flutuantes, Martins Fontes, 2006

assumindo a forma do ensaio como uma atitude interna na ordem da percepção e, portanto, aceitando a diretiva adorniana de que ensaiar no pensamento é *estranhar* via o uso de repertórios irredutíveis a inércia do conceito, rompendo identidades que nos sufocam na excessiva abstração, dirijo-me agora para um relevo mais especificamente filosófico, mas mantendo no horizonte o ruído das grandes asas negras que assombram as fronteiras internas e externas (lovecraft) típicas da concepção gótica de mundo, cuja função na microdinâmica conceitual deste capítulo é impedir nosso sono (dogmático), e manter a vigília. afinal, do que temos medo?

das cartas a nora

Em ti amei a imagem da beleza do mundo
o mistério e a desgraça da minha raça
as imagens de pureza e piedade
espirituais
em que eu acreditava quando menino

Tua alma, teu nome, teus olhos
têm a beleza estranha das flores selvagens
de um campo encharcado de chuva

Senti tua alma estremecer
ao lado da minha
e pronunciei suavemente
teu nome à noite

Chorei vendo a beleza do mundo
passar como um sonho
no fundo dos teus olhos

uma resenha de resenha

Publicada na revista Quatro cinco um de maio, ‘O’Hara é o cara’, de Sérgio Alcides, merece nossa atenção por conseguir, na meia página em que resenha Frank O’Hara. Meu coração está no bolso, apresentar o autor em suas facetas histórica e artística, relacionar a obra com a sensibilidade do tempo e o autor com produtores contemporâneos em diálogo explícito ou implícito. A “figura” de O’Hara, capaz de ser percebida na “amostra pequena, mas primorosa” da coletânea poética editada pela Luna Parque, tem, para o resenhista, produção “ágil como um ciclista, terna como um bate-papo na hora do almoço, muito urbana e altiva (…) que vai a pé até os grandes temas, como o amor, o desejo e o luto.” Alcides tece com transparência um breve curso biográfico de O’Hara que dá a segura sensação de reconhecimento familiar, e exalta a jornada autônoma do poeta num modernismo que condenaria tanto o isolamento desinformado quanto a filiação obtusa, citando uma observação de John Ashbery, outro epítome da geração da Escola de Nova York dos anos 1950: “Para Ashbery, O’Hara era a síntese daquele momento, por ser ‘muito descolado para os quadrados e muito quadrado para os descolados.'” O poeta nascido em Baltimore em 1926 seria proprietário de referências não necessariamente canônicas, sem entretanto deixar de incorporar o lingo atual e espontâneo “da gíria e dos temas ‘baixos’ de uma cultura industrial”. Para o professor de Letras da UFMG e doutor em História pela USP, O’Hara é “whitmaniano e torrencial”, acena tanto a Rimbaud quanto a Mallarmé, ecoa Pollock na multiplicidade sem amarras do fazer num plano quase infinito, e pode ser lido como “parente próximo de Ana Cristina Cesar ou Francisco Alvim.” ‘O’Hara é o cara’ é uma resenha a um tempo leve e rigorosa, detalhada e acessível, que deixa patente no leitor a vontade de ler mais.