Na boa Bahia de 1900 que eu tenho uma pena enorme de não ter conhecido, pois foi talvez a melhor e mais completa das Bahias, na plena pompa de sua maturidade matriarcal de cultura urbana harmonizada com a paisagem do trópico – as igrejas, os sobrados, as Nossas-Senhoras, os Meninos-Deus, as iaiás brancas, os doutores pálidos, as negras velhas, as gameleiras, o arcebispo primaz, o governador, os portugueses ricos, os frades, os cônegos, os bolos, as laranjas, os cocos, as empadas, quase tudo gordo e como que saído do mesmo massapê, do mesmo ventre ou do mesmo forno, cozido pelo mesmo sol, sombreado pelos mesmos mistérios, temperado pelo mesmo azeite de dendê, fortalecido pelo mesmo óleo de baleia, amolecido pelos mesmos pecados, adoçado pelo mesmo clima, tocado pelas mesmas graças de civilizações antigas e de combinações novas de sangue e de cultura.

Se no século XVIII o progresso podia aparecer em sua potência de desmistificação contra o encantamento da natureza, agora que as consequências problemáticas da submissão integral da natureza à técnica são evidentes e redutoras, isso não terá mais lugar. Dessa forma, ser fiel ao espírito antimitológico do progresso exige uma crítica à mitologia do progresso. Reversão possível, porque a atualização do conceito em uma situação sócio-histórica determinada nunca equivale ao esgotamento completo do mesmo. Há de se perguntar, e esta é uma pergunta dialética por excelência, sobre o que fica apenas em latência quando o conceito é atualizado em uma situação. A dialética aqui consiste em afirmar que a realização do progresso não consiste na simples melhora da consolidação dos ideais normativos em operação em nossas formas sociais presentes, formas essas constituídas em nome do progresso. Ela consiste na destituição de tais formas através de uma crítica capaz de produzir uma transformação estrutural em tais ideais. Essa transformação, feita em nome da crítica do progresso, é a verdadeira realização do progresso. Se o verdadeiro progresso só começa lá onde ele termina é porque a consciência do fracasso do progresso, até o momento atual, é a condição para dar corpo ao que até agora foi impossível.

Pode haver homens que, em todo caso, não cheguem nunca ao mais fundo de si mesmos, e, por isso, não só não alcançam jamais a plenitude de seu ser, a formação completa de sua alma no sentido de sua determinação essencial, mas que nem sequer logram uma primeira posse “provisional” de si mesmos, que é condição para a posse completa e que se alcança já durante uma instância passageira na profundidade: um saber – ao menos de uma maneira obscura – sobre o sentido de seu ser e a força para trabalhar por si mesmo com um fim intencionado, assim como o compromisso de alcançar o fim. Tal saber traz consigo a “iluminação” das profundidades durante os acontecimentos da própria vida. Mas essa luz pode também ser transmitida pelo ensinamento intelectual (e, em primeiro lugar, pela doutrina da fé, que define, nesse sentido, a vida humana). Esses dois aspectos são chamados à alma para incitá-la a “voltar-se a si mesma” e a viver a vida do ponto de vista de sua interioridade mais profunda.