dois poemas: meireles & baq

APRESENTAÇÃO DO BOM PRESSÁGIO [trecho]

Olhando bem para o fundo da memória, vimos que éramos prisioneiros, e vimos que éramos também a prisão. E desejamos liberdade, como um último sorvo de ar para um resto de vida.

Foi quando reconhecemos no fundo de nós mesmos, depois de todos os desencantos e além de todas as misérias, aquele vulto gêmeo que ninguém pode ver, e que ninguém compreendeu nem amou. O que existiu por si, magoadamente. Que teve sempre glória: que foi arrependimento, que foi perdão, que foi um profundo suspiro para domínios mais puros e que, cercado de portas fechados, teve a forma com que as angústias limitam o tamanho das ansiedades.

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Cecília Meireles (1901–1964). Poema em prosa do livro Episódio Humano, Editora Batel / Desiderata, 2007
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Alguém sentado no escuro
sentiu a presença de Alguém.
Se um pintasse o outro,
os auto-retratos unidos
dariam meu rosto também.

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bobby baq. Poema do livro Nébula, Riacho, 2016
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lendo os novos: noite dentro da noite

Se eu fosse um resenhista, batizaria-o com um nome brasileiro corriqueiro, de preferência associado às camadas mais populares da sociedade. Um resenhista, formado no arcabouço de humanas das poucas Universidades brasileiras, afinal, tende a ser mais respeitável conforme se alie às perspectivas esquerdizantes da crítica, contra os antigos donos do poder, pelo poder aos novos poderosos, quem sabe inexistentes.

Na minha coluna de hoje, iniciada no dia 2 de julho de 2017, diria, em nome de meu heterônimo carismático, que principiei o dia, um domingo fresco, quieto, digno, demorando-me na figura ‘Os jogos e os enigmas’, estampada à página 2 da Ilustríssima. Óleo de Maria Leontina (1917 – 1984), a tela anuncia exposição numa galeria da cidade. O sólido plano configurado por níveis ou camadas de tons quentes lembra um edifício, destacado e coeso, contra o fundo escuro, praticamente negro. Sua luz viaja de dentro das cores andares. Suas portas e paredes vazadas são cores.

Publicada com meu nome verdadeiro mas dita em nome do resenhista popular, o texto lembraria que a pintora realmente existiu, viveu, sofreu, superou, comungou, isolou-se, publicou, exibiu-se e exibiu, meditou e refreou, negou e resgatou, afastou e atraiu, um mundo de coisas. Ela associa-se involuntária e desesperançosamente a um movimento cujo nome mais correto me escapa, a nós, como o faz o Joca Terron neste livro ao grande romance de formação latino-americano – Jogo de Amarelinha e Detetives Selvagens. O autor não comenta, mas esta é uma tradição guardada pelas duas colunas da fantasia escrita na América ibérica, Jorge Luis Borges e Gabriel Garcia Márquez.

Sem muitos rodeios, lembraria que, ainda hoje, antes de submeter minha resenha à editora, viverei o importante evento de quem sabe cozinhar um inhame, cortá-lo em rodelas, refogá-lo na mesma frigideira de sempre, acompanhado de alho-poró, curry, quem sabe shoyo. Dizendo, ou, constatando a previsão, é como se eu já a vivesse, a experiência dita, recontada, imaginada presa quando todos fogem e se escondem. É como, também, eu já vivesse abrir o jornal na Ilustríssima há quase três meses, deparando-me com a composição concreta e harmoniosa, enxuta indecisa entre o solene e o lúdico, de Maria Leontina. E seguiria, com a licença do leitor, lembrando a ele e a mim que uma resenha não se alonga, ou só não mais que o necessário. Certas coisas, entretanto, a gente precisa contar. Pois quando conhecermos melhor o homem por trás dele, dele e do resenhista por trás da leitura do livro do Joca Terron, aproveitaremos melhor essa parte da vida que é ler a resenha por trás dos livros que leremos ou não leremos, a depender de um mundo de coisas.

O homem por trás do resenhista imagina o resenhista desinteressado pelo homem por trás de si. Não por desprezo, mas por impessoalidade analítica, desde que possa ele, quem sabe conosco, ao acessar este domingo, 2 de julho de 2017, ao acessar e remontar um hoje passado e redivivo, enterrado e ressurreto em reação, viver de um ponto de vantagem a utilidade simbólica, a utilidade significante, dos eventos ali iniciados, quando se inicia e se encerra, no cair da noite, a leitura de Noite dentro da noite, livro de autoria de Joca Terron cuja resenha empregará os sintomas por assim dizer originais do homem homem Eu, passivo e consequente manipulador da equivocidade da heteronímia produtiva, tratada e manifesta, recriadora e ativadora se mnemopropulsora dos dias de leitura que seguiram o início da leitura, aos 2 de julho de 2017, no cair da noite dentro da qual rasgará, e com efeito rasga, resenhista à frente, tal e qual fazem as luzes de Leontina, a forma edifício do óleo vibrante da pintora este homem num fundo negro praticamente escuro.

Ora, diz o resenhista, ao que o homem baixa o livro. Você, diz, do centro escondido de seu nome popular e resenhista, ora lembra de Jogos de Amarelinha, às vezes de Detetives Selvagens, mas devo intervir e alertar: não, não é correto, e você não há de diminuir a análise assim, aditando desbragado um referencial afetivo antes das citações canônicas, compartilhadas pelas fortunas correntes, criteriosas, depuradas em conjunto aberto e cotejado. Depois, ao comentar ou detalhar virtudes técnicas da criação, o leitor provavelmente desconfiará, sem deixar de amá-la, sua resenha de resto adorável, da adequação da exposição, da competência do resenhista, e logo da sua, e assim, por indução forçada, e desagradavelmente, da dele, ou minha, final e inicial leitor. Ele diz, perguntará o leitor, referindo-se a mim, portanto ao resenhista a cujo homem deve a pedra e a fonte, a terra e o passar das sombras, desde o umbigo ou desde um sólido manancial?

Como num jogo de sombras, dança de escuros delimitada por recortes e compostos da paleta leontina, algo de rico correrá em pressentimento neste embate tensionado entre corpos. Vez que outra, a depender das posições, os corpos, pelo indistinguível que abarcam em sua condição de sombras, perfazem novas, cronoenfermas e insuspeitas unidades. Corpos novos e assombrados sem embate. O resenhista, e isso dizemos agora porque já dissera, ele a mim e eu a ele, antes mesmo de se dar, seu nome pulular e a nossa rica relação ceder, eu a eu e a eu ninguém, ergue em baile alternativo um enquadrar, da Noite dentro da noite, dentro de um vivo movimento literário contemporâneo, internacional, gênero-hibridista, escola atual da produção romanesca capaz de adensar o papel velho da ficção compondo-a junto às fibras rejuvenescedoras da biografia de si e dos próximos, aos contextos, costumes e motivações e consequências políticas da reportagem histórica, ao desafio associativo e divertido do meta-discurso, político e não político. É menos intrusivo, diria, como dirá, ainda que mais profissional, menos presunçoso e mais didático. O relho na mão da crítica, pensa-se, é incapaz de idealizar senão à exaustão.

Mas sendo genealógico e orientado por camadas, Noite dentro da noite hierarquiza apenas o bastante para fazer despespegar a narração dum ethos unívoco, mantendo aberto e lépido o jogo de transmutações e enigmas narrativos (quem? depende para quem; o quê? depende de quem conta; por quê? depende do que vem antes; como? depende de quem quê; para onde? para onde mesmo quando? etc), não deixando clara uma sua heráldica. A cozinha onde já posso ver o inhame a descansar, encascado e bojudo nas marolas encriptadas do alguidar mineiro, é pequena, não passa dos seis metros quadrados, e disputam tamanha exiguidade a barulhenta geladeira do tempo de casado, talvez, a pia íntima dum rajado e praticamente negro granito, o fogão de duas bocas amigas, se pereclitantes, o pequeno mas amplamente útil gabinete suspenso, despensa e cristaleira sem cristais. Um nada. Pois mais vasta é nossa dúvida: que sabe o resenhista do que nos conta a impressão demorada neste óleo sobre tela, pintura de Maria Leontina, o homem por detrás da intenção da resenha, e assim do resenhista ele mesmo, sua voz ainda a fímbria imaginada do fio d’água, nascente, margem infanta do que sai mas não jorra nem estanca, à qual não nos furtaremos de abarcar, tratar, consumir e processar?

À página 382:

Ao ouvir a história que Hugo lhe contava, você lembrou do som de um trovão distante que bem poderia ter sido o estrondo de seu primeiro passo no interior de um pesadelo habitado por bugios que arremessavam bosta fervente de cima das árvores, enquanto atravessava um desfiladeiro vegetal, uma bosta que o despertava, deixando-o mais lúcido. Surgiu então, mas disso você já não tem tanta certeza, o vulto de um índio emoldurado pela janela, talvez o kadiwéu albino visto pela rata naquela noite de muitos anos atrás no hospital de Medianeira em que você se encontrava inconscientemente, ou quem sabe na viagem através do pântanos ao lado de Karl Reiners logo depois do sequestro fracassado do embaixador alemão.

Os arames da cerca eram uma pauta musical que o vento regia na campina lá fora, uma música poderosa como um furacão entortando palmeiras e varrendo o que estivesse sob a tempestade.

Você, lembra o dizer de si ao resenhista o leitor como quem atravessa um espelho apenas para desviar e concentrar a viatura do homem falante num percurso fecundo e incerto, autor e porventura resenhista, se lembra dos trabalhos de Joca Terron na Ciência do Acidente, pequena e admirável editora do início do século, e de poemas e postagens infernais, e despautérios ante às fraudes de autorias tantas, e das tantas e tão malemolentes resenhas, resenhistas à frente, cozinha por habitar, fogo e água num tubérculo falante, e tempos quantos nomes e tempos, heim, em ciclotímica, deveras enferma condição, atados, da curva proverbial dum rio sujíssimo, paisagens e breus suscitados, ociosidades venturosas ou prosaicas de um Brasil profundamente gaucho e impossivelmente gauche.

Hoje, um hoje deveras enfermo por que poroso e produto, recordante e realejo, pressagista e cartográfico, utópico e desabrido, Joca Terron emprega a imbricação multívoca, a pluralidade genética e cirandista do contar, a retidão elíptica ou este pacto na e pela memória da flor do equívoco ou da ficção, tempo este que é ora de um… e justo de tantos, latrina e sanatório dos lugares, scroll de estratos em rebuçadas retículas, ecoantes efeitos, reverberantes, dissonantes, outra vez e ainda inconclusivos efeitos, quem sabe, é difícil dizer, mas suspeito, suspeito que faz hoje assim por dar potência de verdade ao mar de vozes que abarca o crânio mesmo, crânio do mesmo, furor dáctil e motor de um maturado, túrgido escriba.

Ao campear o intercâmbio trapezista no desvelo de rico e quase insone e alguergado enredo, Joca Terron pinta e prove um largo e organizado Maria Leontina, decerto em fundo escuro, mas lídimo no que ecoa e reverbera, assunta e destempera o domingo quando tudo começou, fim e recomeço da memória bando, lá quando se se caía a noite, lido o jornal e consumida a sopa quente, seria seguir e dormitar as ausências, quente e forte de picante e termogênica, e seu quadro evoca o timbre e a virtude do incerto, caos que só se rende à poesia curada, ao enigma nem tão aberto quanto prenhe, tragado e urdido na solícita juventude dos números, à vida vivida e ao medo superado. Invadir com noite a noite é errar, quando ruma fonte nova ao fogo lento, no tempo brevíssimo que nos mostra ou faz erguer a outra casa do sol.

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Noite dentro da noite
de Joca Reiners Terron
Companhia das Letras, 2017
464 páginas
R$ 53,90

três pérolas da elizeth

Elizeth Cardoso parou de estudar no terceiro ano primário para começar a trabalhar. Foi balconista, cabeleireira, porta-bandeira de rancho, dançarina, crooner, até que cantou, meio que por acaso, numa festinha frequentada por altos bambas cariocas. Jacob do Bandolim ouviu e levou-a para o programa Suburbano, na Rádio Guanabara. Não parou mais, e tornou-se uma das maiores gravadoras de discos do Brasil.

Rigoroso, seu pai chegou a lhe bater uma só vez, com vara de marmelo, ao saber que a filha namorava o craque Leônidas. Colecionadora de apelidos, Divina foi também Noiva do Samba-canção, Machado de Assis da Seresta, Magnífica, Enluarada, Saliente do São Jorge, Feiticeira da Vila, 1a Dama da MPB, Faxineira das Canções, Mulata Maior, Lady do Samba, Rainha dos Músicos. Unha e carne com Grande Otelo, chegou a fazer black face em apresentações de comédia com o ator, antes da carreira de cantora engatar. Estrelou a estreia de Tom e Vinicius em disco, aprendeu a batida da bossa com João Gilberto e nos apresentou Paulinho da Viola.

Portelense e flamenguista, Elizeth percorreu todos os gêneros do cancioneiro brasileiro, mas é lembrada principalmente como alta fadista do samba-canção. Por quê?

Dois motivos explicam: primeiro, samba-canção era o que estava saindo, na época.

Sua predisposição, entretanto, que encantava os músicos e maestros, vinha da época de dançarina. No clube onde trabalhava, ela e suas colegas faziam as vezes de acompanhantes, na pista, a cavalheiros solitários, traídos, viúvos, esquecidos, desejosos de uma dança. Ganhava mil e quinhentos cruzeiros por dança. Certa feita, descobriram que ela cantava. Encantados, os cavalheiros passaram então a furar o bilhete da Elizeth como se com ela tivessem dançado, uma, duas, três vezes, mas abriam mão da vez em troca de ouvir seus dotes, junto à orquestra, e pediam aquela música, aquela e aquela — todas do repertório meloso e romântico da era de ouro. Para bem servir, ela decidiu decorar as canções mais solicitadas pelos pobres senhores. Quando deixou para trás a vida de táxi-dancing e foi para as rádios, parecia conhecer com a própria alma a dor daqueles homens. Vivera de perto o abandono deles, tão frágeis, saudosos e dependentes.

É difícil escolher, entre tantas, três pérolas da Elizeth. Depois perca tempo na internet investigando a vasta e rica trilha desta artista tão singular.

lendo os novos: nunca houve tanto fim como agora

O poeta português Herberto Helder e a brasileira Hilda Hilst são alguns dos convivas do narrador. Salvo pela mais nova namorada, ele deixa o despautério do Relento e vem contar o que viveu. Na casa nova, tudo é avesso ao descaso. Há, por exemplo, uma quem sabe obsoleta estante de livros. Daí que, mesmo sem dispor de intimidade com a cultura letrada, o narrador imita a leitura de que gosta e arrisca escrever. Resultado? Fôlego breve, demasiado repetitivo. Adorno neobarroco, não raro. Mais enforma que informa, o narrador.

Mas que era a vida do narrador no Relento? Miríade de infortúnios. Vida orgânica, patética, sofrida, sem fim. Isso quando sorte. Quando azar, não era, seu corpo, menos que cátedra do desconsolo. Entre humilhação e ignomínia, sem posse sequer de um nome certo, o circuito afetivo mnemônico do principiante na escrita só não nos leva às lágrimas por ser demasiado repetitivo, num fôlego breve que remete à maneira neobarroca do fazer.

Faz rir? Às vezes, pela ingenuidade. Mas logo o leitor se policia. Recobra tratar o papel de um ortodoxo do abandono. A rua, vemos nós da elite, soergue-se, se tanto, em ranho e ramela. Constrange, o avatar consciente do desvalido. No entanto, isso ocorre na mesma cidade capaz de violentar a inteligência de seus rios. Rir? Menos e cada vez menos.

À página 144:

Se o amor fosse o que é a rosa, e eu fosse feito uma folha, as nossas vidas cresceriam juntas no tempo sombrio ou no tempo de uma canção, nos campos ventosos ou nos cercados floridos, no prazer verde ou na dor sombria. Se o amor fosse o que é a rosa e eu fosse como uma folha. Se eu fosse o que são as palavras e o amor fosse como uma melodia com um duplo som e um único deleite, confundir-se-iam os nossos lábios com alegres beijos como são os pássaros que procuram a suave chuva do meio-dia. Se eu fosse o que são as palavras e o amor fosse como uma melodia.

Fica clara a pena tacteante, neófita. O narrador, premido a escrever, acaba por se repetir em fôlegos curtos. Confunde amiúde função com enfeite. Neste trecho, não só se lança ao tema interditado na escrita séria como acusa, na candura da metáfora, fatura de bagagem diminuta. Ler a produção contemporânea, entretanto, é dispor-se, por serviçal dever, às vozes que contêm multidões. Depois dizem se presta.

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Nunca Houve Tanto Fim Como Agora

de Evandro Affonso Ferreira
Editora Record, 2017
158 páginas
R$ 37,90

brasil no limiar

É tempo de darmos espaço à urgência do resgate da dimensão política de nossas vidas. Parar um instante com os projetos e atribulações familiares ou profissionais, frear grandes viagens e investimentos. O solo está instável, os ventos confusos.

A dimensão política de nossas vidas amofinou, dissipada pela frustração. Resgatá-la é urgente porque só ela terá a força capaz de reequilibrar o jogo. Jogo que estamos perdendo, e de lavada, para nossa própria incapacidade de comoção diante da história recente.

A arte, a religião, a ciência, o direito, o império dos sentidos, as redes e a economia – tais modos de existir e ver o mundo são importantes, mas aceitar a pobreza da dimensão política de nossas vidas torna cada um desses modos consequentemente mais pobres. Paulatinamente, e sem que percebamos com clareza, viver torna-se mais enjoativo, a felicidade mais artificial, o amor mais cínico. Vamos fugindo de nós, de nossas potências e identidades, para abraçar paraísos inexistentes, fantasias de segregação e perseguição, violências que nada resolvem, gozos e consumos que nada satisfazem.

Resgatar a política é fazer um esforço para que o campo geral da vida volte a conspirar a nosso favor, frutificando nossos sonhos, celebrando nossos diferenciais e as potências de nossa gente.

Mas o que é, a dimensão política de nossas vidas? E por que estaria ela amofinada?

A dimensão política de nossas vidas é a forma com que organizamos e acessamos o poder. Poder para 1) decidir o que é importante, e 2) realizar o que foi decidido. Você é dono de seu corpo e, se tudo correu mais ou menos bem, de sua reserva doméstica, sua casa. Aí, é você quem preside e legisla. Você determina o que é importante, e você realiza o que foi decidido.

A vida, entretanto, acontece no encontro de muitos corpos e casas. Entre os corpos e as casas, existe tudo aquilo que é nosso, que sempre foi e sempre será nosso. As ruas e rios, o pôr e o nascer do sol, a brisa e a paixão. A faculdade de estender a mão a um irmão, de levantar uma festa, de lutar por direitos. O canto dos pássaros, a copaíba e o jatobá, o calor de um abraço, o sorriso de uma coincidência. A vida acontece feliz ou infelizmente graças à dimensão política com que nos ligamos e nos reconhecemos. Se deixarmos esta consciência esmorecer, murchar, enfraquecer, a alternativa será a estupidez nada confiável da lei do mais forte, dos espaços restritos e privados, do acesso à alegria da cidade reinventada apenas a poucos glutões.

Se a lei do mais forte não fosse estúpida, Homero, frágil e cego, jamais cantaria. A palavra de Jesus e de Confúcio jamais teria corrido o mundo e erguido milagres de fé e solidariedade. A escravidão jamais teria sido abolida. Os direitos trabalhistas jamais teriam sido criados e tornados lei. O Brasil jamais teria declarado independência.

Hoje, o poder está mal organizado, e nosso acesso ao poder é praticamente nulo. Tal situação, tensão que só faz aumentar, pede um redesenho republicano que torne os exercícios deliberativos e administrativos do poder mais atinentes às possibilidades e desejos atuais.

O Brasil é uma terra rica e abundante, mas somos um dos países mais desiguais do mundo. Quanto mais desigual o país, mais insignificante é curtir a vida. Eu pretendo curtir a vida. E você?

As urgências especificamente brasileiras, da União e de suas cidades, foram soterradas. Em seu lugar, opera-se nas câmaras legislativas e nos gabinetes executivos um teatro insosso de revezamento partidário, funcional até o momento em que o grande capital monopolista passou a ser ameaçado pela promotoria pública. Mas o grande capital, mesmo o monopolista, colocará sempre a razão na frente do orgulho. Já os partidos políticos, em tempos de convergência abundante e de superação das diferenças, tornaram-se repetidores intrinsicamente orgulhosos e incapazes de despertar confiança. É hora de ocupar o que é nosso, sem o ressentimento da máscara, sem a raiva do ofendido, mas com o orgulho e a força de quem conhece e zela e luta pelo lugar onde nasceu.

Em seu proveitoso livro de intervenção, Só mais um esforço, Vladimir Safatle diz:

Neste momento em que alguns se inclinam a uma posição melancólica diante dos descaminhos do país, há de se lembrar que podemos sempre falar em nome da primeira pessoa do plural, e esta será nossa maior força. Faz parte da lógica do poder produzir melancolia, nos levar a acreditar em nossa fraqueza e isolamento. Mas há muitos que foram, são e serão como nós. Quem chorou diante dos momentos de miséria política que este país viveu nos últimos tempos, que lembre que o Brasil sempre surpreendeu e surpreenderá.

dois poemas: penteado & naud

SOS

Deixei cair meu coração nas pedras
que chegam a gemer e a chorar o
cambalacho imposto ao inocente rio
por onde muitos hão passado,
por onde tantos vão passar!

Avezinhas tristes parecem murmurar
“Coitado! , pobre rio esquecido…” E
o instinto de sobrevivência as leva,
leva-as a brisa a outros ninhos.

Os peixes, ah! … Não têm saída.
Encontra-os a aflição e a morte e,
à tona bóiam suas feridas. Mas,

eis que alguém desperto vem
aos seres desta água poluída,
Ó seres desta água poluída!
Renovando a esperança,

SOS gritando aos ventos e,
entoando aos rios
a CANÇÃO DA VIDA!

* * *
– Marília Azevedo de Barros Penteado. Poema do livro Reconquista de um Oásis, João Scortecci Editora, 1992
* * *

CONTEMPLAÇÃO DA CIDADE

Por
um momento sinto nas tuas letras
a palavra indispensável. Entro
na sua pura significação, elastifico-me,
e te possuo tôda. Não toca a mim
surpreender-te gênero. Toca tanger tua
humanidade, cidade
onde tantos dramas se comprimem na solidão dos edifícios.
Sinto, um momento, a realidade das tuas pedras, de tua gente,
das tuas águas,
a confluência dos conceitos de Deus, de lei, de vida,
boiando em tua essência.
Mais um dia, mais outro, e outro,
não serás já uma cidade, um momento, a memória
de meu estreitamento a ti.
Serás uma lembrança a vogar o sem tempo,
um susto, no que, sem saber, te encontre transposta,
palavra integral no reino íntegro.
Por enquanto — foge o momento de tua captação cabal —
és fragmentada em mim, no dono do bar, no automóvel, no esmoleiro
parado na esquina. Por enquanto és um pouco das vozes,
das palavras guardadas para ocasião propícia, dos dejetos de hotel
farejados pelo cão ou pelo homem, no lixo.
E mais coisas ainda: a igreja aberta;
a noite morta; o pássaro e o gato;
os canos de esgôto,
surdos rios das casas no ventre das ruas.
Mas és,
para vires um dia sinal, despojada
de tudo o que não foi o momento essencial
em que te surpreendi, na palavra.

* * *
– José Santiago Naud. Poema do livro A geometria das águas, Editora Globo, 1963
* * *

esboço a uma teoria de estado, parlamento dinâmico, executivo tecnocrata

Vejo, à esquerda e à direita, oportuno campo comum de descrença na expressão oficial da política. De um e outro lado, irritam-nos as reações pouco pragmáticas e inerciais, afinadas a seus trejeitos históricos, e não à solução.

A esquerda poetiza ruturas vingativas, exibindo discurso irresponsável ou, no mínimo, tecnicamente falho. A direita aceita mudar a paisagem, pelo amor de suas filhinhas, desde que não perca nada no caminho, enojando assim a ampla população sofrida e trocando união por desconfiança. Fiquemos com a oportuna descrença de parte a parte e desprezemos seus vícios. Os vícios, afinal, não são, neste caso, tanto de personalidade quanto de lesão cognitiva por movimentos repetidos.

O futuro será diferente? Não resta dúvida. O que a gente às vezes esquece é que ninguém o fará diferente por nós. Que repetir um movimento ou tradição não necessariamente significa aproveitamento biomecânico otimista. E que a velocidade da mudança é função direta da força dos nossos compromissos, mesmo quando dizemos Não. Esta breve postagem tem por objeto levar a público um desenho novo de configuração democrática. Precário em sua simplicidade, mas possível mexer.

As repúblicas democráticas não são estágios definitivos da convivência. São um movimento. Hoje expressas em estados-nação, já foram reinos, feudos, guetos, ducados, pântanos, cidades-estado. Tais instrumentos de concreção política, ou de comunhão produtiva das diferenças, assumirão ainda muitas impensadas formas, melhores ou piores que as atuais.

Nossa vigilância e nosso debate servem para manter aquecida e alerta a preocupação com a evolução. Proponho, como plano de fundo a meu desenho, uma teoria bastante simples do Estado. Conquanto mudem as configurações da convivência, creio no Estado como uma ideia conceitual suficiente para restar qual ponto de fuga quase religiosamente permanente. Porto onde sempre voltar antes de amanhecer um novo traço no mar alto das paixões. Neste desenho, o plano de fundo do Estado é um bocado total.

Todos os seres expressam o Estado em sua instância primária, que coincide, não por acaso, com a simples presença. Devemos superar a noção, a meu ver retrógrada, do par insistência estatal / existência cidadã. Nem o Estado deve insistir, nem o cidadão existir. Mas todas as presenças são e dão a ver o Estado em seus bocados totais – favor fractal da vida insólita. Tranquilizadas da antiga tensão entre Organismo Insistente e Numéricos Existentes (não há dentro do Estado / fora do Estado), as presenças deixam de competir os privilégios da alocação, para confluir nos privilégios do estar. É como se não houvesse, mais, um lugar enfim onde chegar, mas apenas circuitos de tantos fluidos sabores.

Dito isso, e lembrando sempre da função de elo de todo desenho que se propõe evolutivo, há que retornar ao cenário atual e construir, paciente e coerentemente, sobre e desde as disposições legais e culturais dadas ou à vista, e nunca ‘do zero’.

Dos três poderes da teoria clássica do Estado, o Judiciário provou-se o mais autorregulável, parecendo hoje o menos adoentado. O Legislativo e o Executivo, fontes reais e mitológicas da presente aversão coletiva pela política oficial, encontram-se entre a sobrevida e a putrefação. Inúmeros intelectuais públicos e especialistas convidados têm se manifestado, pisando o sobredito campo comum da descrença, sobre quetais e senões da problemática da representação, este conceito-chave da república democrática. Comecemos, aproveitando a onda, pelo Legislativo.

Proponho a figura do Parlamento Dinâmico, e a troca dos prepostos ‘direto’ , ‘indireto’, ‘real’ e afins por ‘graus de separação’ no exercício do voto. Um parlamento dinâmico tem por ideia central a vacância permanente dos assentos. Seriam, a título de exemplo, 700 cadeiras completamente vazias. Um Congresso Nacional sem dúvida aberto, mas teimosamente vazio. Uma pauta, digamos, que trate de bioética, ganha o chão da casa: a edição genética dos descendentes feita por empresas particulares deve ser compartilhada com o banco de dados da União? Em alguns segundos, o Congresso Nacional é ocupado por 700 parlamentares credenciados previamente para assumir o grau zero ante esta pauta específica (gente cuja formação e trabalho assim a habilita). Ali, eles discutem, formam times, rivalizam cenários, aprofundam estudos, propõem emendas, vetos, restrições e revisões, criando uma dezena de tópicos passíveis de voto. Em seguida, abre-se a votação. Neste momento, todos os adultos emancipados residentes no território referente àquele Congresso podem e devem votar, resolvendo as eventuais ignorâncias pela guarda da trilha dos graus de separação a um dos 700 parlamentares. A depender de sua situação, você pode estar a um grau de separação de um legislador, o que dará a muitos de seus amigos, familiares e colegas que confiam em suas relações a possibilidade de um segundo grau. Assim por diante, até que todo o território se manifeste sobre o tema e exerça o voto. Em cada votação, registra-se não só a atribuição eleitor–voto, mas também a trilha que o levou ao voto. Por que você disse ‘sim’ a este tema? Porque minha esposa tem uma comadre cuja filha trabalha com o avô de um parlamentar que aconselhou o sim. Todas as trilhas são publicizadas.

Trata-se de uma figura, admito, ainda bastante crua, mas que parte da premissa de que parlamentares fixos, por mais ecléticos, honestos e voluntariosos, são atraso de vida ante as possibilidades atuais. Cada assunto específico merece, no grau zero do Congresso, as melhores cabeças disponíveis. Sem partidos que não os que aquele assunto mereça. Partidos cujos nomes e slogans se formam não previamente, mas em consequência dos dilemas tangíveis e tecnicamente defensáveis. Trocamos o circo do marketing insosso e as representações pétreas com orgulho de clã, pelas disputas concretas do dinamismo útil e do lastro universal da gnose comparada.

Já ao poder Executivo, proponho a configuração fria da tecnocracia meritocrática extrema, sem qualquer espaço para conversinhas, favores, arranjos. Um conselho formado por seis homens e seis mulheres nobelizáveis dos quatro cantos do território, todos entre 65 e infinitos anos – conselho por assim dizer ancião – escolhe, por meio de manhas próprias (que podem incluir mas não se resumir à magia), o Chefe do Executivo, um realizado Gestor, ilibado e disposto a dedicar um período de trabalho voluntário ao país, sem benesses nem privacidade. Este chefe responde pela escolha de quatro Diretores. É, ainda, porta-voz do Conselho Ancião e Secretário das reuniões deste. As quatro Diretorias do Executivo são: Ecologia, Economia, Redes e Educação. A cada uma, uma breve descrição a seguir.

Ecologia: aquilo que dizíamos Defesa, e antes Guerra. Os saberes profundos da casa, as visualizações de todo e cada curso e recurso, em todo e cada mapa imaginável. A cartografia da matéria no bojo e na composição do território. A garantia dos acessos e das liberdades acordadas. A guarda e o resgate, o cuidado e a recuperação. Uma diretoria com alma feminina.

Economia: Fazenda, Tesouro, Títulos, Reservas, Fluxo de capitais, trocas internacionais, bolsas de futuros, derivativos e Regulação. A hierarquia dos nomes da casa, para que não se trate o valoroso como o vagabundo, nem o caro, como barato. Os regimes de trabalho, e os regimes de compensação. As cobranças, e as cobranças das cobranças, pois não há nem deve haver jamais um almoço grátis, na medida mesma em que deve haver graça em toda e cada refeição. Nunca é só a economia, mas é ela a interface a impedir que nos tornemos estúpidos. Uma diretoria de mão masculina.

Redes: Aquilo a que outrora dissemos Infraestrutura, e antes disso Departamento de Obras Públicas. As viabilizações dos movimentos (engenhos), a viabilização das vias, do dado à energia, bem como suas manutenções e renovações. Os fundamentos práticos de toda e qualquer operação no território. Algo fora da rede é algo impraticável. Uma diretoria da ‘Inteligência Artificial’.

Escolas: A estratégia otimista dos saltos geracionais, no que torna a vida sempre melhor, e nunca pior. A escola é una e é pública, obrigatória e quase ditatorial em sua mania de excelência alegre e laboratorial, da tenra idade às pós-especializações. Uma diretoria jovem–anciã.

Eu espero com isso ter contribuído, um pouquinho, com a necessidade premente de novos desenhos a acudir, sem ressentimento, raiva, revanchismo nem malícia, o esgotamento amplamente observado da conjuntura ora disposta.

um diagnóstico: retorno

O texto de ontem [um diagnóstico] não gerou muito impacto de visitas. A geração predominante na internet (pós-gêneros 14 a 24) deu ao post a tag TLDR, abreviação em inglês para ‘Muito Longo, Não Li’, e preferiu passar o olho nas sinopses. Os leitores mais velhos, no entanto, acharam razoável, mas parte expressiva caiu na armadilha que armei bem armada.

Um deles, aposentado que descobriu a militância política tarde na vida mas nem por isso se deixa desmotivar, escreveu ecoando um cacoete bastante desagradável da esquerda formalista, que eu justamente pretendia ver sair da toca: “criticar a corrupção, no fundo, é meio cafona”, escreveu.

Esta esquerda, encantada numa insularidade duplamente antipática (diminuição moral do mercado, de um lado, e nojinho ante a vida comum do trabalhador naturalmente de direita (cioso de suas posses e das leis escritas), do outro), prefere ser conhecida como ainda acidulante a perder os charmes sessentistas missionários da boina preta e dar as mãos pra gente que trabalha e não fala nem faz questão de falar francês.

É uma pena, pois muitas nobres inteligências brasileiras hoje estão assim infectadas sem saber, desvirtuando jovens com pretensões intelectuais. Algo triste: ver um jovem que já foi pobre mas no segundo ano de uma faculdade pública de humanas qualquer se deixa levar pela figura do protótipo do reclamão teórico, quando o que ele deseja, em seus fundilhos, é não pegar no batente para se dedicar à ‘luta’ e aos ‘estudos’.

Pode ser natural, mas é muito irônico, que justo a produção de ideias da esquerda fique, ao fim e ao cabo, mais distante da realidade do trabalhador comum do que 5 minutos de palestra de um vendedor de esquemas pirâmide. Este fato, cujas consequências talvez nem tenhamos começado a ver, adormece o Brasil.

A cafonice de criticar a corrupção sempre existiu na crítica da esquerda. Afinal, a corrupção é, como gostam de dizer desde Rousseau, da hipocrisia da ’natureza humana’, e o importante é vencer o Capital. Mas ela foi exacerbada com os paneleiros canarinhos de 2013, os tais que supostamente derrubaram o PT. Compreensível?

Odiada por ter apenas coletâneas de MPB, e nunca os discos originais do Caymmi, a classe média deste país sofre injustamente na mão das crias da ciência política importada da Europa. Sempre atacada por sua estreiteza estética (o shopping da Barra, as casual fridays da Vila Olímpia, a festa de Barretos, dizer ‘eu fiz Itália, Grécia e Espanha’ e nunca ‘eu fui/estive/viajei a Itália, Grécia e Espanha’ etc), esta classe média tornou-se um alvo-joão bobo, quem sabe inexistente, e passou a constar nas cartilhas como pré-requisito nas manifestações públicas da redação engajada. Prova cabal de que a esquerda conversa entre si, cultivando piadas internas e pagando os dízimos à patrulha, e nunca conosco. Outra ironia: o discurso de transformação social, oriundo da Academia, e nunca das barricadas, hoje tem menos impacto prático do que a fala de qualquer pregador, de qualquer religião, dirigindo-se sinceramente a seus devotos sobre a bondade na vida.

Quando um termo como ‘corrupção’ ganha os holofotes, é importante não se enrolar nele. Uma das tarefas, para tanto, é praticar o distanciamento, saindo dos jornais diários e buscando sua longa duração na história. As duas raízes indo-europeias que o compõem (*kon-, ‘junto’, e *reup-, ‘ruir’) indicam a união para o estrago. Um trabalho coletivo de negação. Seu antônimo preciso é ‘construção’, um trabalho coletivo de afirmação.

Um exemplo bastante autoevidente de corrupção pode ser visto neste esquete dos irmãos Marx:

Ao observar a evolução do emprego dos dois termos, corrupção e construção, no corpus livresco da língua inglesa (não há, ainda, a tecnologia de aferição lusófona, infelizmente), notamos a curiosa figura:

Ora, a tendência parecia boa até 1977, quando morre o Groucho e estreia Star Wars. Daí em diante, ‘construção’ vem caindo e ‘corrupção’ subindo. Mas isto não indica, necessariamente, que a corrupção vem crescendo e a construção diminuindo. Talvez a sociedade, de quem os escritores de livros são antena, esteja mais acostumada, da morte do Elvis e da estreia dos Sex Pistols para cá, com a construção, e mais alerta para a corrupção, donde esta ocupar mais os livros que aquela. Pode ser. O que não explica, mais uma vez, o cacoete da esquerda brasileira a repetir que criticar a corrupção é pactuar com a cafonice dos muambeiros de Miami.

Como eu apontei no diagnóstico de ontem, o Governo deve ser uma empresa exemplar, e não existe absolutamente nada que distinga a gestão pública da gestão não pública. Orçamento é orçamento, custo é custo, recurso é recurso e retorno é retorno, seja ao vender iPhones, seja ao fazer uma ponte. Quando criticamos a corrupção, criticamos, sobretudo, o trabalho voluntariamente pior do que poderia ser. Não se trata, estritamente, do aspecto policialesco da corrupção. O crime de colarinho branco, aliás, é outro fetiche da esquerda intelectual que ela gosta de projetar na classe média trabalhadora, esta que só quer ficar em dia com os impostos, gerar empregos e curtir a vida honestamente. Se entre duas opções de contratação ou compra de materiais, a pior escolha é feita, deu-se corrupção da função gestora-executiva, importando menos se alguém desviou ou foi desviado.

O mercado, o dinheiro e a concorrência são inexpugnáveis da realidade, na medida mesma em que são melhoráveis, quanto menos e menos corrompidos forem a gestão e os processos. Tanto o Governo quanto uma empresa não pública são admitidas em nossa realidade mediante uma razão de ser e um contrato acessível. A integridade das pessoas jurídicas pressupõe a aceitação e o de acordo do organismo social, e toda corrupção é uma forma de traí-lo e sujeitar-se a boicotes, sanções e penas, das cármicas às judiciais.

Limpar a corrupção, para repetir o clichê, é um trabalho sem fim, mas começa cedinho, todo dia, em casa.

dois poemas: pascoaes & hilst

AS PEGADAS (XVIII)

O caminho é uma pegada mais extensa, branquejando através dos panoramas. É o leito do rio por onde correm as ondas vivas do Tempo – as horas que têm figura: o peregrino de Jerusalém, o almocreve de Trás-os-Montes, o António que vai para o Brasil, o doido de Frariz, esse transviado do mundo que não sabe para onde vai, a Gravuna roendo pedras e imprimindo a sua pegada nos lajedos, o faminto, desde Camões àquele velho dos alforges, a Ana viúva, toda de preto, com dois filhinhos ao colo; o senhor padre-cura, nevrótico, transtornado, que passa na rua, como quem vai matar alguém ou deitar-se duma ponte abaixo… o criminoso que vai para o Desterro, o defunto para o cemitério: – sombra caída e levada por quatro sombras de pé…
Vede as horas andantes que deixam a sua pegada na poeira e a sua imagem no ar…

* * *
– Teixeira de Pascoaes (1877–1952). Poema de O Bailado, Assírio&Alvim, 1987
* * *

MEMÓRIA (8)

Ser terra
E cantar livremente
O que é finitude
E o que perdura.

Unir numa só fonte
O que souber ser vale
Sendo altura.

* * *
– Hilda Hilst (1930–2004). Poema de A trajetória poética do ser (I), reunido no volume Da poesia, Companhia das Letras, 2017
* * *

um diagnóstico

Aos 38 anos, tendo convivido, em âmbitos variados, do profissional ao festivo, com as gerações anterior e posterior à minha, com classes de ofício várias, das mais comprometidas com o estabelecimento, às mais sedentas pelo novo, e tendo passado por um treinamento razoável, ainda se autodidata, em coleta etnográfica e organização taxonômica, sinto-me livre e seguro para compartilhar com meus leitores um diagnóstico preocupante.

O diagnóstico diz respeito ao organismo social, corpo sem dono cuja inteligência compomos e compartilhamos a cada e todo instante, mediante cada e todo gesto e fala que produzimos. A inteligência do organismo social não é suprema nem infalível. Mas é tão alta quanto o mais alto de que formos capazes. E cresce, também, conforme crescemos. A viabilidade das conversas incessantes com os ruídos, da fluidez perspectivista, e da atualização ligeira no uso das gírias prova isso.

Não há nada de predestinado no organismo social. Nada fatalmente inscrito. Nosso livre-arbítrio, entretanto, é produto da rede histórica dos desejos de todos os homens. A rede histórica dos desejos de todos os homens, infelizmente, é invisível. Visíveis, graças às ferramentas de manipulação material, são os desenhos dos homens. No começo, éramos poucos. Multiplicamo-nos e formamos uma grande família planetária. Nossos desejos encarnam-se em desenhos, desenhos que hoje constituem e representam o organismo social.

Não há liberdade fora do organismo social, e o organismo social não tirará a liberdade de ninguém. Por que lutamos? Porque sofremos. Por que sofremos? Porque muitos dos desenhos, lá atrás fixados em instituições, em crenças, e em processos, são às vezes garranchos, rascunhos trepidantes, indevidamente aceitos como desenhos finais. Quando sofremos ao constatar uma falha sistêmica aqui e ali, não é, necessariamente, que alguém foi absolutamente malicioso. É que muito desenhamos conhecendo pouco. E a matéria, em sua miríade de durezas, seduz e engana.

Gosto de imaginar que, tal e qual guarda meu corpo um coração, meu bairro guarda minha casa, a cidade guarda meu bairro, e meu país guarda minha cidade. Não ligo para as unidades federativas, a não ser em concursos de sobremesas (um bom doce baiano, um notável doce mineiro etc). Mas sim, o diagnóstico é:

estamos rodeados por problemas reais, difíceis mas não raro gostosos de resolver, dispondo como dispomos destas tantas engenharias. Mas muita gente que encontro prefere desconhecer tais problemas, apenas para criar novos problemas. Muita gente que encontro prefere dar as costas a tais problemas, apenas para ‘jogar o jogo’, como dizem. Os primeiros muitas vezes se dizem revolucionários, quando agem, boa parte do tempo, e em que pese certa elegância tática, como autênticos tapados. Só um tapado para desconhecer um problema real, criar um problema imaginário e espalhar por aí que está mudando o mundo. Os segundos muitas vezes se dizem ‘da ordem e da lei’, quando agem boa parte do tempo, e em que pese certa transparência de raciocínio, como autênticos canalhas. Só um canalha para ignorar um problema real, criar o problema imaginário do medo e da insegurança e espalhar por aí que a ordem e a lei são crias exclusivas do medo e da insegurança.

Peço desculpas pela simplificação. A gente é bem mais variada e diferente do que isso, e decerto temos todos um bocadinho de revolucionário e de jogador da lei e da ordem dentro de nós. O diagnóstico, contudo, é importante. Continua sendo importante. E não deixará de ser importante. Ele pode ser resumido assim, o diagnóstico:

nossa lista de problemas reais, nossa lista de coisas importantes, e para não deixar nenhum querido de fora, vou chamar essa lista, ao menos por enquanto, de lista brasileira (quem estiver a ler desde outro território, sinta-se à vontade para fruir de nossa lista conosco sempre que viajar pra cá, temos ótimas praias e chapadas carregadas de vivacidade mineral), pois, nossa lista de problemas reais, nossa lista de coisas importantes, parece-me bastante atrapalhada. Ou há supostas listas conflitantes, o que seria logicamente incabível, posto que o território brasileiro é único. Prefiro acreditar que é uma lista atrapalhada. Negligenciada. Ou mofada, para usar um termo que ficou célebre na Constituinte de 88.

‘Buraco negro’ foi outro termo celebrizado na Constituinte de 88, a certidão de nascimento da Nova República. Era como apelidava-se uma pauta inalcançável aos dois lados politicamente organizados (‘sistematização’ e ‘centrão’, nomes psicodélicos a tanto revelar nossa falta de rigor categórico).

Os buracos negros de então (o conteúdo e o mérito não importam, pois a Constituição de 88 é formalmente uma lenga-lenga) eram zonas de tensão entre formas de pensar historicamente antagônicas. Naquela Constituinte, gestou-se a polarização que vivemos hoje, informada menos por cálculo que por testosterona de machinhos (entre os quase 600 constituintes de 88, havia míseras, vergonhosas e indesculpáveis 5 mulheres) que se queriam do lado certo e irremediável, sempre.

De uma parte, procurava-se garantir que as traumáticas marcas de uma colonização racista e economicamente ineficaz cedessem à razão da justiça igual e das oportunidades iguais para todos. De outra, procurava-se garantir que a aristocracia improdutiva da ameaça comunista não voltasse a bagunçar o país e ludibriar o povo.

Assim, sabendo-se o bastante de justiça e de bagunça apenas para arrumar desafetos e brigas (acreditem, havia constituinte andando armado), desenhou-se a Constituição de 88, cujo produto essencial é a Nova República.

A Nova República nos brindou com o fim da hiper-inflação, e com o abraço de inédita generosidade da União ao pobre. Mas foi incapaz de iluminar e tratar os vícios coloniais da corrupção e da exploração indevida, com suas muitas formas opressoras de coronelismo, compadrio, mandonismo e filhotismo (aberrações a nos brindar hoje em dia com o mimsafismo e o qualquercoisismo, tópicos de um post futuro).

Eu não quero falar da Constituição de 88 porque ela tenta me explicar e me sujeitar a termos estapafúrdios como o que eu posso ou não ingerir. Mais um pouco, ela tentaria me explicar o que é um pires. Eu não preciso, nem você, nem ninguém. A gente tem o google pra fazer inhame empanado na tapioca e biohacking, sinceramente.

Volto ao diagnóstico, e volto a pedir desculpas por perder nosso tempo com a Constituição de 88, da qual não quero e não pretendo voltar a falar. Outro dia me informaram que não tínhamos computadores na época da Constituição de 88, e que boa parte do pré-projeto foi feito na tesoura e na cola. Mas é mentira. Tínhamos computador sim, e não usamos, eis mais um triste índice do natimortismo da de resto ricamente intencionada Carta. O diagnóstico, se o leitor tiver paciência, eu gostaria, assim, de enunciá-lo:

hoje o brasileiro tem mais motivo de vergonha do que de orgulho de ser brasileiro. Quando um povo tem mais vergonha que orgulho da situação atual de seu território, a conversa política perde calor e cai no cinismo. O debate e a discussão essenciais para elucidarmos os problemas reais e concordarmos numa lista única de coisas importantes cede, de um lado, para lamúrias catastrofistas de uns poucos alarmados sinceros, e, de outro, para os niilismos egoístas e estabanados dos ditos players. No meio, sobram proto-samaritanos esclarecidos a convergir no desperdício triste do silêncio. Depois, os problemas reais, soterrados pelo cinismo e pelo egoísmo, vão piorando. E tudo piora para todos, mesmo para quem acha que está se dando bem. Em 2008, participei da produção desta pequena peça política, como redator e locutor:

Não ouvi falar, passados dez anos, que a qualidade do combustível melhorou. Alguém ouviu? Quem terá, portanto, motivo para celebrar qualquer coisa?

É triste conversar com um jovem hoje que, ao menor sinal de concatenação de um problema real, como a poluição dos dois grandes rios a cruzar a cidade, exibe, no escapismo de suas redes, o fato trágico de que a maioria da população brasileira não confia no Congresso Nacional, onde gestou-se a Constituição de 88. É triste conversar com um empreendedor hoje que, ao menor estímulo a seu orgulho nacional, exibe, no escapismo de suas redes, o fato trágico da desqualificação de nossa força de trabalho, do garrancho de nossas leis fiscais, dizendo não sentir culpa ao comprar tecnologia e fabricação asiáticas, ou exportar as melhores partes da colheita para os europeus.

Que fazer, diante de tal diagnóstico? Não sei ao certo, mas estou a investigar. Seria talvez salutar, a partir de um autoexame cauteloso, e com os dois pés no chão, praticarmos a leitura da história em sua longa duração, sem insistir na criancice de que cada dia é um novo mundo de zero a zero. Não é. Há pouco, éramos uma colônia escravagista de exploração latifundiária de monocultura. Por quase 400 anos fomos isso. E temos hoje pouco mais de 500 anos. Sabe o que isso significa? Que hoje, andar livre em roupas gostosas e consultar um smartphone comendo uma boa bisteca e tomando bons drinques é quase um milagre. Um milagre que devemos agradecer SEM PERDER A NOÇÃO do movimento histórico dificílimo que o viabilizou. E por fim entender: o trabalho de maturar a democracia brasileira não só não acabou, como está apenas começando. Neste começo, é crucial conhecer e valorizar cada pequena conquista, cada injustiça resolvida e iniquidade amenizada.

A Constituição de 88 tem muitos méritos. Nunca na história brasileira tanta gente foi ouvida, tanta proposta popular foi colhida dos quatro cantos do país. Houve, de fato, abertura, progresso e disposição positiva naquele Congresso. Formado que sou em Administração, acho que as empresas devem ser as primeiras a dar o exemplo. Toda empresa é um coletivo revolucionário em potencial. Se duas ou mais cabeças pensam e fazem pior do que uma, então era melhor não existir. Se somam inteligências, têm a obrigação de ser melhor que nós, de nos dar o exemplo.

No Brasil, a empresa mais importante é o Governo. Se ele não der o exemplo, uma longa e viciosa cadeia de jeitinhos e escusas seguirá. E teremos de ouvir a arengada, eis o Congresso que a gente merece, os jornais que a gente merece, as quitandas que a gente merece etc. É injusto forçar nossas crianças a escolher entre ‘jogar o jogo’ das planilhas egoístas ou tornar-se um rebelde que nega tudo isso que está aí. Justo seria trabalhar para que elas sentissem orgulho de nossa história e decidissem aqui ficar e estudar para desenhar nossas leis, nossos smartphones, nossos jipes.

Não haverá humanismo eficaz sem a participação lúcida e ativa, nossa, dos problemas brasileiros atuais e urgentes, e não haverá meritocracia sem vergonha, nossa, sem igualdade de oportunidades e de informação.

nota política

A cada nova geração de consumidores do noticiário político, renova-se a necessidade de revisitarmos os conceitos por trás do par esquerda–direita. Revisitar como quem dá uma passadinha, abre as janelas para deixar circular o ar, rega as plantas e tira o pó.

A premissa segue a mesma, a saber, temos TODOS a direita e a esquerda a compor nosso equilíbrio – e mais realizados seremos quanto mais firme e forte nos restar o equilíbrio.

O experimento da Nova República (1985–2017) submeteu ideias da esquerda e da direita às falhas de nosso sistema político, insuficiente em sua representatividade, vicioso em sua gestão. Nem o Legislativo falou por nós, mais interessado em assuntos particulares, nem o Executivo fez a contento, mais interessado em dar à máquina pública imprópria agência eleitoral.

Jovens cabeças boas que poderiam contribuir com a política, diante de um quadro que avexa idealismos sinceros e solidários, foram para a iniciativa privada, para as artes abstratas ou, no caso de cientistas e engenheiros de tecnologia, para o exterior.

Se até o final do século 20 entendia-se a direita como a preferência pelo Estado mínimo, e a esquerda como a esperança no Estado salvador, como estariam, hoje, suas formas?

Considerando as posições ultrapassadas de esquerda e direita como patologias capazes de normalizar a imaturidade institucional, o diagnóstico seria: a direita tinha vergonha do Estado como quem, diante de um parente negligenciado e ‘defeituoso’, preferia escondê-lo das visitas, fingir que não existia, tirar sarro etc; a esquerda era apaixonada pela imagem de um Estado papaizão, tão parrudo quanto possível, enfim capaz de tirar a gente desse sofrimento horrível, sofrimento que só a gente (nunca vocês) sabe que existe.

A direita diminuía o Estado porque, sem um competidor, ele seria um arremedo de gente, antro de preguiçosos, vagabundo que não merece dinheiro. A esquerda inflava o Estado porque, protegido único da traição da selva, só ele teria olhos para as injustiças históricas, para as compensações estruturais, para a saúde contra o consumo sem freio dos vampiros.

Mas eram visões infantis de si mesmas, encarnadas a sério por homens e mulheres poderosos que levaram o planeta à beira da exaustão ambiental e do abismo nuclear.

A atualização das virtudes discursivas da esquerda e da direita pressupõe o alisamento terapêutico destas arestas nostálgicas ou orgulhosas, da lida recalcada com o dinheiro e com a liberdade individual, bem como a cedição irrestrita diante dos ossos da desrazão separatista. Há, em qualquer território cuidado por nós, coisas e práticas a se conservar, e coisas e práticas a se eliminar, lembrando, sempre, da intocabilidade de tudo, pois tudo se transforma conquanto vivamos ao redor.

Nossa direita é mais pródiga em perceber os alvos da conservação, e nossa esquerda, da eliminação. Um governo ideal compõe-se de uma direita forte e de uma esquerda forte, não sendo casado com uma e amante eventual da outra ou vice-versa. Seus compromissos não serão herdados das conjecturas do apartheid irracional da guerra fria, e tampouco da futebolização que infantiliza assuntos importantes, trocando conquistas duradouras por triunfos efêmeros.

Por exemplo: os ativos da União, se sofrerem avaliações esquerdistas (não venda nada) ou direitistas (venda tudo) à moda antiga, darão na repetição lamentável do signo maior da Nova República, a saber, a superação dos interesses nacionais por ideologias pouco pragmáticas, fossem elas ingenuamente, ou maliciosamente, espúrias.

O império do caso a caso, a dureza da avaliação técnica transparente, a conversa pública com as várias instâncias de interesse constantemente acessíveis, um Executivo cujo organograma se assemelhe a uma empresa ágil, aberta, metódica e rigorosa, e um Legislativo que substitua o bem bom carreirista por um quadro apostólico das melhores cabeças disponíveis em nossa geração seriam o começo de uma nova conversa, uma capaz de nos lembrar que somos todos, sem exceção, donos de uma direita e uma esquerda a anunciar, a cada passo da história, o tino insuperável da necessidade.

lendo as gentes: marighella

Marighella – O guerrilheiro que incendiou o mundo

Mário Magalhães, Companhia das Letras, 2012

Da profusão dos conteúdos digitalizados para cá, é de supor, lê-se cada vez menos, mas lê-se cada vez mais. Lê o leitor cada vez menos horas por semana, havendo como há, como nunca, oportunas variações à diversão intelectual, dos minecrafts da vida à realidade virtual. Mas graças aos métodos pedagógicos a engendrar precocidades de apreensão, e também à diversificação exponencial dos escritores, que desde díspares contingências e vivências despertam novos e nichados interesses, há, a cada semana, cada vez mais leitores.

Uma consequência desta cena, para o mercado de livros, assim enuncia-se: haverá cada vez mais títulos a esgotarem-se em tiragens em média mais e mais baixas. Ainda que restem, claro, vacas leiteiras aqui e ali. Esta posição, conforme observação das listas dos mais vendidos, se nos séculos passados era do romance, será neste século da reportagem e do ensaio de auto-ajuda. Dispondo de menos e menos tempo para ler um livro, lerá o leitor atento os títulos que maximizam a utilidade marginal da leitura – livros instrutivos e terapêuticos. E não se arrogue, a literatice, a reclamar elitismos abstratos de compensações místicas do contato ‘verdadeiro’ com a ‘verdadeira arte’, pois tal presunção, além de anti-literária, não tem lógica.

Cursei há pouco Marighella: O guerrilheiro que incendiou o mundo, de Mário Magalhães. Diverti-me mais que em 90% das séries em audiovisual que vi este ano. Além da diversão, aprendi, sobre a história do Brasil, o equivalente ao que aprende um leigo em cosmologia vendo a série famosa do Carl Sagan. Alta vantagem. De tão animado, planejo encarar, em breve, a saga do Getúlio.

Magalhães entrevistou 256 pessoas nos nove anos de trabalho dedicado ao livro, cuja bibliografia perpassa seiscentos títulos. A redação e a edição do resultado final não logram nenhum assombro literário, e contam decerto com as licenças popularizastes do copidesquismo objetivo informativo, mas são exitosas ao aprontar a narrativa com ganchos, reviravoltas, tramas cruzadas, suspenses, romances e arcos dramáticos entre fatos e dados não raro entre o curiosíssimo e o engraçado, informações capazes de enriquecer nossas conversas de bar ou almoços de família, mas também de tornar lucidamente consciente o brasileiro desinformado.

Tal foi o impacto mais severo, em mim, da leitura. Deixou-me assustado e preocupado, e na dureza do encontro documental, amarrado ao país onde venho escrevendo a minha história. A sensação é um pouco aquela que temos quando vemos um corpo humano por dentro: a delicadeza complexa da máquina viva nos deixa, mais que com repulsa à morte, prenhes de vontade visceral de nos cuidarmos. Mesmo que a vontade passe na próxima esquina, ao acendermos, distraídos, um cigarro. O ponto é justo esse: a sensação de pertença a um país que é também uma obra coletiva em andamento há de ser, para não se esvair, cultivada permanentemente.

Uma chave capaz de apresentar-nos à séria discussão política distanciados do cinismo e das simplificações irresponsáveis é nos expormos, como consumidores de produtos da cultura, aos objetos que nos dão, com força e forma, orgulho ante à comunidade em que foi gerado. Pode-se pertencer a uma miríade de comunidades; mas aqui, uma delas, e pela lógica territorial inescapável grandiosamente açambarcante, será a brasileira. Não se trata de ser anti ou hiperpatriota, nem de ter um mote aclichezado na carteira sobre o ‘afeto’ à ideia nacional, mas de aceitar a informação: vivemos num mundo cheio de ideias, mas indiscutivelmente físico. O feijão, a abobrinha, o transporte coletivo, os tijolos do prédio, o que é aqui usado está aqui, num bairro, numa cidade, neste país. Complicado ignorar, em qualquer debate que tenha por missão hierarquizar ou priorizar os assuntos graves da política, que as mais longínquas diferenças devem, em último caso, encontrar-se na unidade nacional. Não é possível desprezar a existência do Estado quando se toma banho usando a água dos lençóis freáticos sob sua guarda.

Mariguella não foi um só. Foi tantos. Poeta, nerd, certinho, travesso, namorador, soldado, apaixonado, engenheiro, arquiteto, pedreiro, salvador, gestor, chefe, leitor, líder, humorista, detetive, editor, crítico, congressista, agitador, conservador, progressista, religioso, corintiano, administrador, baiano, cético, estrategista, missionário, abstêmio, atleta, marido, pai, preso, perseguido, perseguidor, idealista, iludido, inocente, vítima, revoltado, revoltante, obstinado, forte. No colégio, fez fama nacional ao responder uma prova de ciências inteira usando versos rimados. Escondido em Moema, levantou (antes do zap) uma greve de trezentos mil trabalhadores. Cuidou de publicações socialistas oficiais e clandestinas. Redigiu manuais de subversão urbana que rodaram o mundo. Tramou e viabilizou a excursão e a turnê, em plena repressão e censura militar, de dezenas de artistas e intelectuais à União Soviética e à China. Encantado com os sucessos da experiência cubana, julgou possível conquistar justiça social a fórceps num país tão vasto e populoso. Um erro infelizmente retroalimentado pela repressão.

Não foi a luta armada uma batalha da coragem contra a covardia, apenas, mas foi um caso vergonhoso e arrastado de desperdício de talentos e oportunidades de progresso. Nosso Estado respondeu a sanha daqueles jovens idealistas e mal amparados como um irmão violentamente invejoso, e não como a firmeza paterna e a preocupação materna. Piorou o soneto e rendeu-nos páginas horrorosas hoje tratadas em aulas de história. Saí do livro com a impressão de que foi, Marighella, um patriota solidário e teimoso, aqui e ali enfeitiçado, mas dono de muitas habilidades. Não posso imaginar com clareza o que foi viver no contexto em que viveu, entre credos exageradamente utópicos e um status quo à esquerda e à direita esbanjando imaturidade. Uma das desvantagens dos regimes autoritários talvez seja esta, tornar o impacto do ambiente na formação do homem mais relevante que o impacto da formação do homem no ambiente. No Brasil da ditadura, sendo o ambiente desigual, sôfrego, injusto, o autoritarismo paria inimigos poderosos em suas próprias universidades, onde jovens românticos e autônomos consideravam tal inversão absurda.

A leitura de Marighella não pesa, passa rápido, mas deixa a gente humilde por tapar tantas ignorâncias, e às vezes tenso, com medo que descuidem de um país tão judiado e potente. Sugeri à editora uma adaptação aos quadrinhos, um modo de ampliar o acesso a tão caprichada reportagem. Sugiro, aos cineastas, a adaptação para a telona do capítulo oito, ‘Bicão Siderúrgico’, que trata da prisão de Marighella em Fernando de Noronha. Numa mistura bizarra de rebeldes integralistas e socialistas no paraíso de Vespúcio e Darwin, todos presos mas todos soltos numa ilha, jogava-se vôlei, cultiva-se hortas, assava-se pescadas, montava-se bibliotecas, vendia-se artesanatos e ministrava-se oficinas de interesse geral.  Num cenário belíssimo, esta exceção prisional em Noronha, estranhamente humana, civilizada e dramática, foi, como diz o jargão, de cinema.

Em suas páginas mais cruciantes, o livro detalha a metodologia nada honrosa dos interrogatórios da polícia. São páginas diante das quais devemos atentar, por dever cidadão e zelo histórico, em modo menos ressentido que investigativo. Por penosa que seja a disciplina, é mais útil discutir desde quais configurações estruturais, nas leituras psicológica e filosófica, pôde normalizar-se a prática da tortura. Em seguida, acompanhar a evolução dessas configurações aos nossos dias, especulando a forma de seus novos e insuspeitos rebentos. Se a tortura não é hoje prática oficial da Defesa, o degredo e o vilipêndio, a estupidez e a crueldade preconceituosa são cacoetes a rondar os sonhos de nossas razões, fazendo feder o entulho sôfrego de muitos de nossos juízos mais apressados. Policiar é preciso, mas tal verbo se conjuga antes em casa, consigo, no mentar reflexivo do indivíduo diante do espelho.

dois poemas: bopp & correia

COBRA NORATO – XVI

– Mar fica longe, compadre?
– Fica
São dez léguas de mato e mais dez léguas
– Então vamos

Está começando a escurecer
A tarde esticou a asa vermelha

Toiceiras de capim membeca
escrevem sombras longas nas areias usadas

Uma inhambu se assusta

Ecoa no fundo sem resposta
o grito cansado de um pixi-pixi

Encolhe-se a luz do dia
devagarzinho

– Vou ficar com os olhos entupidos de escuro
– Adeus marreca toicinho!
– Adeus garça morena da lagoa!

Apagam-se as cores Horizontes se afundam
num naufrágio lento

A noite encalhou com um carregamento de estrelas

* * *
– Raul Bopp (1898–1984). Poema reunido em Cobra Norato e outros poemas, Civilização Brasileira, 1976
* * *

O SACRIFÍCIO – VII

Medeia a Revolução fez outro aborto:
muda de nome o asco agora é vasco.
Fandanga a tropa é trampa é um desporto
de Moscovo que abriu um novo tasco.

Aqui até Otelo é laparoto,
a cantar de carrasco é um fiasco.
Do povo unido num gris de rato morto
Judas é presidente. É um engasgo.

O gáudio é de gadanho e de guedelha;
come-se merda só porque é vermelha.
O crime é curial se for esquerdo.

Está o tempo sentado na sentina.
Ó musa és de trapos de cozinha!
Peço-te amor. Dás-me um poema azedo.

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– Natália Correia (1923–1993). Poema do livro Epístola aos lamitas, Publicações Dom Quixote, 1976
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