um sonho

outra noite sonhei que visitava o imf. assim chamavam a universidade brasileira, enfim a primeira. uma garota me conduziu brevemente a visita, depois me soltou foi cuidar de… disse tratamos aqui basicamente de desenho cremos ser o desenho a força complementar do desígnio desse modo ao formarmos melhor desenhadores deles nascerão mais ricos frutos. então conforme andei, sozinho pelo edifício, vi turmas batucando disciplinas, orientadas por projetos de muitos lugares chegadas, chegando de mansinho quem sabe às virtudes naturais, universais e específicas dum desenho brasileiro. não sei dizer tratar a sigla imf de instituto millôr fernandes. revendo seus textos, suas falas e desenhos, entretanto, achei ué. será se…

dois poemas: valter hugo mãe

a virgindade de amélia
primeiro ano, curso de direito, univ. moderna,
porto, noventa

aceita este livro diria mais bonito
do que os outros encontrarás nele
imagens que talvez te surpreendam
mas não te assustes tantas vezes to peço
não te assustes repara na natureza das coisas
em como é tão comum depararmo-nos
com estas ideias e talvez entendas

há uma pornografia erudita feita para
gente como nós uma coisa entre o
querer fazer a aflição espiritual
e o amor eterno

depois vem cá ter juro-te
que às cinco em ponto da tarde não há
ninguém na casa dos meus pais

– – –

caxinas, um

as garças já não passam por
aqui o frio impede a rotação da
imagem um silvo enche os
ouvidos como o canto das
raparigas espalha a sobrevivência em
redor do peixe

os velhos morrem à
tardinha espevitados pelo sol
vejo-lhe as viúvas como
travessões largos nos passeios
enquanto os putos ameaçam as
ondas e quantas vezes os pais
irreconhecíveis de encontro às
rochas os corações convocados e o
sino a distribuir a morte severamente

gente do frio o cobertor
pelas costas no fundo do dia a
noite e a oração deus nos
perdoe a ferocidade a dor tão
profunda a comida mal servida e
desperdiçada o vocabulário dos
filhos a virtude e o cheiro
das raparigas o asseio da páscoa a
pressa do terço e a maldição do seu
nome

depois dormem pedras fechadas
tombadas no silêncio como em sustento
e juram que na fome dos lençóis
chegam virgens à luz do dia

por vezes a areia vem à estrada acordam
com o despiste dos forasteiros chamam as
ambulâncias e obreiras brotam das
portas a entristecer como
boca fora do peixe o fôlego o mata

gemem para dentro dos xailes à espera
que lhes digam que o mar está bravo
não haverá saída mais quentes as casas
mais fundo o estômago e tão impossível
a vida de sempre

os forasteiros mortos chegam ao
céu feitos de ruído à noite e certamente
não terão voz que a isso se sobreponha para
explicarem ao que vão é normal que
o céu não entenda nada do que se
passa numa terra tão alagada de
água onde pela morte se trocam
instintivos segredos uma recatada
robustez que dentro das portas de verdade
faz com que as viúvas segurem os telhados
mãos erguidas no ar

e os forasteiros não são ninguém senão
uma maior nave de areia que
bateu à porta no temporal e nada de novo
o frio a imagem de sempre

* * *
do livro Publicaão da mortalidade (2018)
* * *

dois poemas: hilda hilst

Sem heroísmo nem queixa, ofereço-vos
Minha mão aberta. Agora vos pertence.
Queimada de uma luz tão viva
Como se ardesse viva sob o sol. Olhai se possível
A mão que se queimou de coisas limpas.
E se souberdes o que em vós é justiça
Podereis refazê-la como a vossa mão. E depois igualada
Aproveitá-la. A cada hora, a cada hora
E para vosso pão.

* * *
Do livro Iniciação do poeta (1963–1966)
* * *

Poeta, os homens manipulam a matéria.
Artífices do grande sonho dão-se as mãos
E é o meu canto o fruto dessa espera.
Canto como quem risca a pedra. Te celebro
Na mais alta metamorfose da minha época.

Não cantarei em vão.

* * *
Do livro Pequenos funerais cantantes ao poeta Carlos Maria de Araújo (1967)
* * *

política distrital; alucinações parciais; parrésia

1 •]

acredito nas unidades federativas como guardas da cultura regional. um tempero paraense, um vatapá capixaba, uma moda de viola paulista e assim por diante. mas cada estado ter assembleia legislativa própria, polícia própria, receita própria, judiciário próprio, parece confusão e desperdício. nem cidade nem união, os estados estão mais para entidades inalcançáveis, entrepostos, lugares de burocracia dobrada, redundante, atrapalhada, irrelevante. ou os costumes da civilidade mineira seriam assim tão específicos a ponto de uma força policial e um judiciário mineiros serem necessários? as escolas públicas estaduais não seriam melhor geridas se unificadas às municipais? e as universidades estaduais não dariam menos vergonha se unificadas às federais? resta, ao fim e ao cabo, uma sorte de escada para governadores alçarem voos maiores, para partidos montarem feudos e seguirem seus jogos de conquista. o impacto dos estados, quebrados quase todos, acaba sendo o de uma guerra fiscal abandonada, atabalhoando a tributação e claudicando o custo brasil; de instituições distanciadas, carentes da força nacional e do orgulho e da presença locais. a desejada competitividade entre estados tão particulares em suas histórias que pudessem mostrar uma quase-nacionalidade, como aconteceu mais ou menos nos eua, nunca se deu por aqui. basta lembrar. das treze capitanias que inauguraram o país, duas, se tanto, vingaram. somos calmos, misturados e gerais o bastante para estarmos fadados a uma brasilidade amalgamante, solidária às regras em uníssono e às especificidades localíssimas. isso implica: união alerta, enxuta e simples, mais municipalidades bravias na condução dos assuntos dos dias. vejo ainda mais específico: gestão distrital dos assuntos assentados no cotidiano comum. mobilidade, postos de saúde, educação, litígios, urbanismo, meio ambiente. se a união fornece a constituição e os códigos, paga a infraestrutura, os funcionários, e os repasses, proporcionais à arrecadação da atividade econômica e da renda distrital, daí em diante a deliberação das prioridades pode ocorrer no mais local local possível, em assembleias presenciais e fóruns digitais. o dia a dia da política se resume a uma discussão na internet, e nela uma lista de coisas importantes, cuidadas pelo dinheiro dos impostos e pela força pública, acontece no seu bairro.

se você mora num distrito e trabalha em outro, há algo de errado na cidade. alguém mora no méxico e trabalha na bélgica? pois. para a política distrital prosperar, o município deve ter igualdade regional. emprego, renda, equipamentos, estrutura, negócios etc. quantos bairros de são paulo não têm sala de cinema? quantas pessoas moram e trabalham no mesmo distrito? a reconstrução passa, necessariamente, por mapeamento das carências e investimento no desenvolvimento policêntrico. as consequências podem ser belíssimas para o bem estar. o turismo distrital, por exemplo. saio num domingo para visitar o adorável sacomã com a família. conheço a igreja, o mercadão, o centro cultural, como no restaurante de uma família tradicional do bairro, vou a uma peça, compro um artesanato e volto para casa como se tivesse viajado a outro país.

2•]

é o equivalente a um cometa, visível de pertinho e sem a ajuda de aparelhos, a atual programação do instituto tomie ohtake. o carro chefe é a exibição-escola alucinações parciais, em parceria com o centro cultural pompidou. a esperta curadoria mostra considerável elasticidade em poucas obras, e a seleção brasileira é tenaz a ponto de não nos tocar com vira-latismo, exotismo ou favor. o ponto alto, no entanto, é a justaposição destes dois pedaços de mau caminho:

obras atribuídas a um kandinsky e a um picasso distando tão pouco mas tão largamente distintos é coisa que a história da europa explica, no que a consultemos, sem pressa, por que sobre reflexão.

a seguir, o instituto apresenta, nas galerias frente a frente ao fundo do segundo piso, paulo pasta e cecily brown, num dueto que faz revigorar a crença nesta mídia tão antiga. em dimensões mais próprias à pintura que sobrevive, e também na desfiguração com que usamos perder tempo, em tempo de imagens tão fracas e ligeireza de likes. pasta é conhecido nosso, e suas composições de retilíneos estudos cromáticos frequentam inúmeros blogs e arquivos digitais. vê-las em pessoa, no entanto, muda a experiência e digo mesmo que transfigura a pessoa. é um baque, previsto talvez nos idos da teórica bauhaus, sobre a influência das cores nos humores. coloque-se o visitante na sala, abra-se à luz que bate e volta e reste ali o homem, sem onde chegar e sem querer sair. certa altura, as cores falam umas com as outras, e as telas entre si brincam de empurra, pega e esconde. se puder, use fones. brown faz grandes anti-guernicas em camadas abusivas de falsa abstração. trabalha com humor jovial, sorte ancestral, hiperssaturação em prol da narrativa, animismo terrano e sensualidade entre o escatológico elegante e o parturiente pulsante. cada tela é uma excelsa, quase interminável expedição de aventura elementar, imemorial e híper-dinâmica. se pasta tem masculino e feminino equilibrados, brow tem feminino e masculino assim também, no que eles não casam por recato e precaução civil, falta de exagero, e para quem sabe sentarem gostosos numa mesa para quatro.

3•]

é de março a exortação ‘gaudete et exsultate’. a leitura valeria pela dicção agradável e erudição instigante. resta porém em recomendação mais urgente a pais, pedagogos, professores e cidadãos ligados em geral graças à cativante atualidade com que aborda problemas comportamentais e relacionais em voga. toca o tema da santidade para tecer alertas, recomendar coragem, atentar-nos à vigilância hoje, à alegria, e insistir nas razões do discernimento. o ingresso, em via teológica, do conceito de história, é particularmente interessante, e nos faz pensar se a memória universal pode ser um nome alternativo e adequado ao espírito santo. tão útil é o ensinamento do termo parrésia, “a santidade é parrésia: é ousadia, é impulso evangelizador que deixa uma marca neste mundo.” ano de eleições, ouviremos candidatos ao legislativo e ao executivo falando em campanha por nós. será imperioso distinguirmos, entre as calculadas atitudes, candidatos capazes de incorporar a integridade e a sinceridade quando contrastam os problemas brasileiros com seus programas. a fala sem parrésia é a fala sem vontade sincera e sem ardor, algo impossível de falsear porque é “selo do Espírito, testemunho da autenticidade do anúncio.” no âmbito eleitoral, parrésia pressupõe não só a comunicação clara de programas e ações corajosos face o tamanho da crise política e fiscal. pede também a atitude de não manter marginalizadas, por medo ou falta de compromisso, as lacunaridades brotadas na história das negligências e confusões do estado brasileiro.

Tem em torno de 133 mil palavras o primeiro rascunho de Cinco Nomes Brasieiros, livro na ordem do dia desta oficina. Amanhã começo a divertida auditoria delas todas. Usei palavras demais? Palavras ruins? Faltou palavra? A coisa acontece no papel, leitura atenta anotada a caneta, dicionários e internet à mão. Em seguida, vai ao PC.

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Farei, em eventuais postagens, risos sobre curiosidades catadas no processo.

Se você ainda não leu meu livro anterior, deixe de onda e adquira um exemplar na loja.

Da família é, considerando o renascimento da Touro Bengala em 2017, o TB001. Cinco Nomes será o TB003. Entre eles está Praha, engraçado e breve. Depois deles e de uma novíssima mudinha, Poemas 2009–2016, relançamento dos primeiros passos do poeta. Ambos montados mas na fila da viabilização. Mais detalhes aqui.