uma resposta à imprensa

PERGUNTA: Falaí, senhor Nepomuceno, parece que o senhor não conhece muito bem música brasileira, hein, senhor Nepomuceno, hein? Falaí. Parece que não, hein? Parece que o senhor não é moderno não, hein, Nepomuceno? É antigo, hein? És chatola europa, não? Não sabe a música, hein?

RESPOSTA: Em geral a nota característica da musica popular brazileira são as indicativas de suas origens ethnicas – indigena, africana e peninsular – tal como na poesia popular foi verificado pelos nossos folkloristas, como Sylvio Romero, Mello Moraes Filho e outros. E’ de notar que no elemento peninsular são factores de importancia o mouro e o cigano. Infelizmente a parte musical nos estudos do folklore brazileiro ainda não foi estudada, provavelmente por ser a technica musical uma disciplina que escapa ao conhecimento dos investigadores do assumpto.

Nunca me dediquei a esses estudos, mas possúo, como diletante, uma colleção de uns oitenta cantos populares, e danças, e procuro sempre augmental-a. Acham-se quasi todos estudados e classificados, e, nesse trabalho, verifiquei uma modalidade que não é regional, pois que se encontra em cantos recolhidos no Pará, no Ceará e no interior do E. do Rio e que – parece-me não tem ligação com nenhum dos elementos ethnicos acima citados. Essa modalidade, de ordem melodica e harmonica, é produzida pelo abaixamento do setimo gráo sempre que o canto tenda para o sexto, como funcção do 2° ou do 4° gráos.

Outra modalidade caracteristica verificada em grande numero de cantos é a nota final ser o 3° gráo e por vezes, o 5°, ou o 2° como função do 5° o que da logar, na harmonisação desses cantos, ao emprego das cadencias finaes do terceiro e setimo modos gregorianos, respectivamente. Não é esta a unica afinidade que encontrei com o canto-chão. Nos aboiados – cantos tristes que os vaqueiros entôam á frente do gado para reunil-o – o vaqueiro, segundo as circumstancias, amplia o seu aboiar com vocalizes que lembram os do canto-chão. Os aboiados são usados em todos os Estados criadores do Nordeste, e segundo estou informado, em Minas e Goyaz.

Esses elementos ainda não estão incorporados ao patrimonio artistico dos nossos compositores. Sera por culpa da nossa educação musical européa, refinada, que impede a aproximação do artista-flôr de civilisação – e a alma simples dos sertanejos, que ate hoje – por criminosa culpa dos governos – não passam de retardatarios, segundo a classificação justa de Euclydes da Cunha; ou será por não ter ainda apparecido um genio musical sertanejo, imbuido de sentimentos regionalistas, que, segregando-se de toda influencia estrangeira, consiga crear a musica brazileira por excellencia, sincera, simples, mystica, violenta, tenaz e humanamente soffredora, como são a alma e o povo do sertão.

Verdade que tanto a modernidade quanto a “verdadeira” brasilidade de Nepomuceno foram questionadas. A resposta acima, de 1917, também é verdade. Nada menos que um dos muitos inventores do samba, Alberto foi quem levou seu conterrâneo Catulo da Paixão Cearense para mostrar à elite carioca o que fazia um violão nacional. Foi quem abriu as portas para Ernesto Nazareth, quem divulgou um ainda jovem Villa-Lobos, quem forjou o belo canto não mais em italiano, mas em português brasileiro (para horror da crítica). Com efeito, todo o mergulho não só do Villa, mas também do Mario de Andrade, nas raízes da alma brasileira, existiram porque, antes, existiu Nepomuceno, que por sua vez percebeu a ideia da valorização da música de um país na gente do país com os franceses da Société Nationale. Natural do Ceará mas vivido, dos oito aos vinte, em Recife, na época de ouro da Faculdade de Direito e dos batutas dos ’70, Nepomuceno pode privar com a Princesa mesmo sendo republicano e abolicionista (como?).

Para curtir Nepomuceno, duas opções colhidas en passant no youtube.

Handy Zine n.1

Está inaugurada a série The Handy Zines, livretos de 12 lâminas em papel kraft com dimensões de 11 x 14 cm. São peças únicas montadas manualmente, interessadas em tocar o ‘hoje’ com alta eficácia semiótica e populismo sensorial. O idealizador do projeto e autor da primeira edição, Guilherme Coube, afirma em nota esperar um leve quem sabe rebuliço no mercado, apesar do preço “praticamente inacessível”. Novos artistas serão chamados a manufaturar as edições subsequentes, “desde que entreguem alta eficácia semiótica e populismo sensorial, isto é, desde que toquem, com denso e matador minimalismo, os discursos tópicos correntes e fabulem uma assembleia fruível com delícia”, explica. A presente edição, intitulada ‘O So Con & Troub’, fala segundo Coube das “dualidades inseparáveis do fazer e do poder”.

THZS-n1

dois recortes de coluna

A economia internacional modernizou o agronegócio brasileiro obrigando-o a respeitar padrões de qualidade. Contudo, quando operam no mundo do poder brasileiro, os empresários fogem do século 21 e aninham-se na primeira metade do 20, quando seus antecessores administravam matadouros.

A Operação Carne Fraca começou com um lastimável grau de amadorismo megalômano e espetaculoso da Polícia Federal, mas isso não convida empresários, mandarins e ministros a adotarem a postura arrogante dos empreiteiros no nascedouro da Lava Jato. Como ensina um velho provérbio napolitano, “seja honesto, até mesmo por esperteza”.

– Elio Gaspari hoje na FSP

PLANA 17 | sacola

É difícil dizer se o mix da sacola nossa será deveras representativo, pois a pergunta a seguir seria: representativo de quê? Ora, de um nosso rolê, se tanto, pelas frestas de tempinho n’algazarra do market. Foi o que deu para fazer, no entanto, seria dizer pouco. Digamos assim: nossa, nossa sacola trouxe as marcas de gravuras quasi-orgânicas, trouxe essa questão do simulacro-game, trouxe o simulacro meta-metá da (na/por/pela/sob/sobre/entre/em) filosofia dos filósofos, muito humor, remixed literature, o neo-portrait cptm, brindes e delírios. Valeu.
plana_17 sacola

uma portaria

PORTARIA Nº 886, DE 20 DE ABRIL DE 2010

Institui a Farmácia Viva no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS).

O MINISTRO DE ESTADO DA SAÚDE, no uso das atribuições que lhe confere o inciso I, parágrafo único, do art. 87, da Constituição, e

Considerando a Portaria nº 971/GM/MS, de 3 de maio de 2006, que aprova a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC) no Sistema Único de Saúde (SUS);

Considerando o Decreto nº 5.813, de 22 de junho de 2006, que aprova a Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos e dá outras providências;

Considerando a Portaria Interministerial nº 2.960, de 9 de dezembro de 2008, que a prova o Programa Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos e cria o Comitê Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos;

Considerando que compete à direção nacional do SUS identificar os serviços estaduais e municipais de referência nacional para o estabelecimento de padrões técnicos de assistência à saúde, conforme disposto no inciso XI do art. 16 da Lei nº 8.080, de 19 de setembro de 1990;

Considerando a Resolução nº 338, do Conselho Nacional de Saúde, de 6 de maio de 2004, que aprova a Política Nacional de Assistência Farmacêutica; e

Considerando a necessidade de ampliação da oferta de fitoterápicos e de plantas medicinais que atenda à demanda e às necessidades locais, respeitando a legislação pertinente às necessidades do SUS na área, resolve:

Art. 1º Fica instituída, no âmbito do Sistema Único de Saúde -SUS, sob gestão estadual, municipal ou do Distrito Federal, a Farmácia Viva.

§ 1º A Farmácia viva, no contexto da Política Nacional de Assistência Farmacêutica, deverá realizar todas as etapas, desde o cultivo, a coleta, o processamento, o armazenamento de plantas medicinais, a manipulação e a dispensação de preparações magistrais e oficinais de plantas medicinais e fitoterápicos.

§ 2º Fica vedada a comercialização de plantas medicinais e fitoterápicos elaborados a partir das etapas mencionadas no parágrafo primeiro.

Art. 2º A Farmácia Viva fica sujeita ao disposto em regulamentação sanitária e ambiental específicas, a serem emanadas pelos órgãos regulamentadores afins.

Art. 3º Esta Portaria entra em vigor na data de sua publicação.

PLANA 17 | relatório

As relações públicas da editora concluiu agora pela manhã o relatório final, conclusivo, do evento deste final de semana. Impresso e dobrado ao meio, ele se torna facilmente uma publicação independente. Confira.

UPDATE: O leitor Augusto Trindade informa o glitch não voluntário da reportagem: as dimensões mais acuradas do Pavilhão da Bienal seriam ‘um décimo de milésimo do estado do Piauí‘. Obrigado, Augusto!

relat-plana-17

um trecho de análise de partitura

A inspirada e perspicaz brasilidade de Villa-Lobos manifesta-se através de figurações rítmicas baseadas em danças populares e em ostinatos que ajudam a criar um ambiente sonoro denso e dinâmico que permeia toda a obra e sustenta o discurso musical, unificando as seções.

Nos Choros nº. 5, o suporte rítmico baseia-se em duas estruturas simples (Ex.5) e contrastantes que criam tanto uma atmosfera de embalo, de suave balanço, na seção A e na seção B, quanto de intenso dinamismo, no Desenvolvimento. Estas estruturas rítmicas são constituídas pela célula 3 + 3 + 2, e por uma figuração que Mário de Andrade vê como marcha: “A marchinha central … foi criticada por não ser brasileira. Quero só saber o porquê”. (ANDRADE, 1939/91, p.25)

A respeito da postura de Villa-Lobos em relação à grafia de ritmos, torna-se interessante transcrever um trecho de um delicioso diálogo ocorrido entre Mário de Andrade e Elsie Houston, em 10 de Junho de 1943:

– Mas qual é a teoria do Villa?
– Ele lá tem teoria! Mas garante que o cantador se move estritamente dentro do compasso.
– Eu sei. Já ouvi ele dizer isso, jurando que é possível grafar todo e qualquer ritmo. Veja os Choros nº 5.
– Não seja idiota, Mário. Então você acha que a execução estrita da grafia rítmica do Villa pode dar o movimento – eu falo movimento, hein! – da alma brasileira? (apud COLI, 1998, p.44, 229)

O aspecto mais interessante da obra reside justamente nessa necessidade de grafar a espontaneidade da defasagem que ocorre entre melodia e acompanhamento, tão comum na música cantada. Assim, a complexidade que Villa-Lobos estabelece ao mesclar o ritmo sincopado da primeira seção com a melodia em tercinas do primeiro tema, estabelecendo diferentes planos sonoros, torna a execução deste trecho particularmente difícil do ponto de vista técnico. Além disso, a figura se expande e cria uma aceleração na seção de Desenvolvimento, num ritmo que lembra o maracatu, o samba, o batuque e até o cateretê, imprimindo dinamismo e vigor a toda a estrutura.

– do artigo Fatores de coerência nos Choros nº 5 (“Alma brasileira”), de H. Villa-Lobos, de Carlos Alberto Assis, publicado em 2009

duas florestas

Hoje algo incomum se passou. Nada menos que meu ideal de floresta, na pintura, foi abalado. Eu tinha um ideal que julgava difícil, por motivos em miríade, ser superado por outra obra. As florestas de Segall, que tive a chance de quase encostar o nariz certa feita numa exposição no Rio, seriam não trespassáveis também por aquele ponto ótimo de abstração em que a figura se desmonta sem desmontar a sensação, a floresta sai da figura mas você não sai da floresta. Tal façanha é complicada. A razão de ser do movimento de abstração, enterrar a estrela e despertar o designer nos pintores, foi pronto confundido por estudantes que julgavam enterrar a figura apenas para fazer rebrotarem-se estrelas sem desenho, e tamanha traição atrasou demais a nossa história. A floresta crepuscular de Segall, datada de 1956, vivia em mim como um desses marcos que colhemos ao fruir atentamente os objetos de arte que nos agradam, seduzem e fazem pensar, comparar. Bola pra frente, eu dizia, se a floresta mais boa foi pintada em 56, pintemos outras coisas, ou pintemos mesmo outras florestas sem pretensão, façamos de nossas florestas estampas de almofadas, ou deixemos que computadores componham por nós impensáveis, belas e assombradas florestas. Um desses problemas gostosos de ter, não é? O esgotamento da floresta na pintura em Segall?

floresta segall

Doce inocência, suave engano. Hoje dediquei parte da tarde ao folhear tedioso de um imenso livro de Gustav Klimt. Klimt? Que sei eu de Klimt? O homem do amor entre um homem e uma mulher, o homem dos mosaicos dourados e pretos, dos quase perfeitos brotos fractais, do beijo e do boato de que andava sem cueca. Pois. Indo indo a folhear o grande livro, enfrentando lá suas pinturas apenas razoáveis que valem unhas de Monet, pelinhos de Münch e

birch forest

dou com ESTA floresta. Que há de mais nessa floresta? Antes de pensar, ouça isso: eu pensei em ecto-glitch art. No que dei com os troncos, a relação numa palavra absurda entre musgo e revelação descascada, verde túrgido escuro e cinza computacional plasmático, não pude crer que aquele homem era, no fundo, um palhaço. Agora pense. Procure o que te espanta e então enfrente, nos troncos da floresta de Klimt, a vertigem das turquesas gêmeas, do tapete preto e dourado, das faces assombradas, do ecto-glitch orgânico, pintada em 1903.

Touro Bengala Printa

Oferta pública da peça Compostura & PacMan, arte digital realizada em fevereiro de 2017 por Guilherme Coube. Impressão de alta qualidade em fibra de algodão, 37x32cm, entregue na moldura. Cinco unidades numeradas e assinadas pelo artista. Para mais detalhes, escreva para casa@tourobengala.com

compostura&pacman2017

dois poemas

Fotografia

As frutas quando caem
amadurecem vermes
nas nossas barrigas.

Como são tristes as horas
se não são janela
interrompendo o bairro.

Queria compor um poema
todo hiatos e risos
(todo infância, águas mudas).

Queria, irmã, compor-te luz
e não guardar essa noite.
Teimo, porém, e componho

mãos

de lenta lida de amor
que devagar irrigam
as nossas fotografias.

Rafael Zacca (1984)
(poema da coleção Kraft, Cozinha Experimental, 2014)

––

o erro

não, eles não podem me culpar se meu erro foi, apenas,
ter comido meu próprio uniforme
e ter rascunhado 54 vezes as arestas
de uma única saída para a praia

haver crido que éramos presos
tê-lo escrito com meu sangue
em lençóis azuis
e perseguido, em um sonho, uma cadeira sagrada
com etiqueta e um nome
e ter plantado o eterno em jardins suspensos
cujos mecanismos das sementes
eu mesmo parafusei

se meu erro foi, percebendo que saía leite de meu peito,
bebê-lo e me esquecer
das papoulas

Sarah Valle (1990)
(poema da coleção Kraft, Cozinha Experimental, 2014)

três sambas de escola de 1972

1. Martim Cererê – Imperatriz Leopoldinense

Foi um ano marcante para a Imperatriz Leopoldinense, e de carnavalesca fortuna. Era a chamada época de ouro dos sambas de escola no regime militar. Zé Katimba emplacou com Gibi um enredo simpático e nacionalista, baseado na epopeia cosmogônica ingênua ‘Martim Cererê’, do modernista de direita Cassiano Ricardo. A melodia é uma das mais belas do samba brasileiro, e o andamento fica no rancho confortável, isto é, abaixo dos 130 bpm. Só assim é possível curtir os timbres da bateria. Acima dos 130, eles se embolam e o charme escorre. A cadência deste samba típico de escola (otimista, de fácil decorado, canônico na apresentação dos elementos atabaque, cavaco, surdo e coro) dá vontade de marchar em sua beleza continente. Acontece que a Rede Globo de Televisão adotou a música, e, pela primeira vez na história, um samba de escola virava trilha oficial de novela. No caso, a novela das 10 ‘Bandeira 2’, escrita por Dias Gomes e dirigida por Daniel Filho e Walter Campos. A trama sobre jogo-do-bicho se passa no bairro de Ramos, zona norte do Rio e nascedouro da escola Imperatriz. No elenco, Paulo ‘Gracindão’ Gracindo em memorável interpretação, Grande Otelo (no papel do próprio Katimba), Ary Fontoura, e os jovens Marília Pêra e José Wilker, que se casam ao fim da gravação.

2. Ilu Ayê – Portela

É um dos primeiros sambas de escola cujo enredo trata poética e etnograficamente a presença negra no Brasil. A letra é primorosa em seus enxertos nagôs e na delicadeza da história que conta. Depois de chorar lamento na senzala, o tempo passa e, “no terreirão da casa grande / negro diz tudo o que pode dizer”

é samba, é batuque, é reza
é dança, é ladainha
negro joga capoeira
e faz louvação à rainha

Clara Nunes gravou o samba Ilu Ayê, mas ficou muito rápido e assim difícil de gostar. Mônica Salmaso gravou com mais vagar no álbum ‘Voadeira’, e resultou elegante.

3. Onde o Brasil aprendeu a liberdade – Unidos de Vila Isabel

Quem sabe é este, o refrão mais bonito dos sambas de escola. Assinado por Martinho da Vila, o enredo presta aceno à Festa da Pitomba, comemoração pernambucana da vitória sobre os invasores holandeses nas batalhas travadas no Morro dos Guararapes. Diz o refrão:

Cirandeiro, cirandeiro ó
a pedra do seu anel
brilha mais do que o sol

É empolgante, justo quando a questão da ciranda (o que é, como faz para entrar/sair) frequenta as dinâmicas dos dispositivos sociolinguísticos em seus contextos variáveis hoje. Martinho da Vila regravou o samba em outras ocasiões e cadências, sendo a mais conhecida em parceria com Beth Carvalho.

por bolsa reversa em tradução

Porque o mercado dos livros carece mais de novidade e oxigenação em todas as suas presenças (ver os 4, 5 ou 7 ‘P’s do marketing em Kotler et al.) que das rotinas de repetição de subsistência dita profissional apenas. Porque o ofício da tradução pode ser decisivo para manter no jogo um autor em potência numa terra que enfrenta a leitura. Porque a formação do tradutor é, antes, a formação do poeta, donde o medo ante a ‘especialização’ limpinha (“neat”) vir coberto de razão. Porque a relação obra-tradutor-obra’ marca e fica e assim se desdobra e floresce mais intensamente quando é matéria de episódios afetivos difíceis de prever, mapear, travar, encomendar, e esta é uma barreira (estará o tradutor mais certo para a obra tal longe das evidências?) mas também uma oportunidade (não foi fácil achá-lo mas agora a obra traduzida pesa tanto quanto ou mais ou diferente que a original, não é uma sua mera licencinha (“its timid proxy”) e o editor se vê premiado e não apenas pago, deu seis horas, fui (“when all of a sudden he dropped his pen”)). Na bolsa reversa, as editoras listam as obras que pretendem traduzir e os tradutores dão seus lances. Um lance pode ser um documento composto: excertos exemplares da obra querida, pretensões de cachê-cronograma, justificativa from : to, por que eu? Expansão meritocrática e falação (“buzz”) a respeito desse novo modo-operação no curto prazo, incremento da qualidade poética das obras traduzidas no médio, fortalecimento do arsenal de tradutores e da cultura geral de tradução no longo, as consequências.

dois poemas

A partir das águas

No tempo em que
        o saber vivia à beira d’água
O homem estava bem,
        na indolência agradável de um prado
                com ensinamentos azuis-celestes.
Seu pensar seguia o voo dos pássaros.
Seu pulso batia com o pulso das árvores.
Ele seguia o tratado das papoulas.
As ondas da extensa correnteza
        batiam no abismo de suas palavras.
O homem
        adormecia
                no colo dos elementos.
Pouco antes do nascer do medo
                        ele despertou.

Mas às vezes
Ele transformava
        a estranha canção do crescer
                no pulso terno da alegria.
O joelho da ascensão
        afundava-se no pó.
Outrora
O dedo da evolução estava
                Só
                 Na exata geometria do sofrer.

– Sohrâb Sepehri, Irã (1928–1980), tradução Juliana P. Perez
(poema publicado na revista Poesia Sempre n. 32, FBN, 2009)

Passo um ninho de andorinhas
Duas ou três cosmogonias
Minhas pílulas contraceptivas
Não sei quantas obras-primas
Uma merencória mordida
Minha gravata minha camisa
Passo umas carícias esquisitas
Minha frota submarina
Uma viagem só de ida
Não sei quantas semanas de turista
Meu miligrama de ternura
Uma tarde só neblina
Aquela luz daquele dia
Aquela luz daquele dia
Aquela luz daquele dia

Danilo Bueno, Mauá, SP (1979)
(poema do livro ‘Para viver automaticamente’, Córrego, 2016)

dois pensares

Decerto a história do socialismo europeu, ao longo de seus quase 200 anos, é o maior e melhor exemplo da esperança por justiça posta em prática. Mas há uma diferença entre essa história e Marx. Eu concordo com Kolakowski quando ele diz

O apocalipse da crença na consumação da história, a inevitabilidade do socialismo, e a sequência natural das ‘formações socialistas’; a ‘ditadura do proletariado’, a exaltação da violência, a fé no efeito automático da indústria nacionalizante, as fantasias de uma sociedade sem conflito e uma economia sem dinheiro – tudo isso não tem nada em comum com a ideia do socialismo democrático. O propósito deste último é criar instituições capazes de gradualmente reduzir a subordinação da produção ao lucro, eliminar a pobreza, reduzir as desigualdades, remover barreiras às oportunidades de educação, e minimizar, ante as liberdades democráticas, a ameaça do estado burocrático e das seduções do totalitarismo.

Como muitos de nós social-democratas anglófonos, Kolakowski não considera Marx o epítome do socialismo, mas uma sua distração. Não só porque Marx era deslumbrado pela filosofia, nem porque ele teve o azar de ser usado como volante de toda uma galeria de tiranos sanguinários, mas sim porque ele não explica muito bem como criar instituições que possam dar conta das diversas tarefas em aberto. A talvez única sugestão construtiva de Marx, a abolição da propriedade privada, foi tentada. Não deu certo. Agora é pois difícil achar aquilo que Derrida chamava de ‘imperativo político’ em Marx – seja este um imperativo mais específico ou mais inovador que a velha, velha necessidade de impedir que os ricos sigam roubando os pobres.

Richard Rorty, trecho do ensaio ‘Um espectro ronda os intelectuais: Derrida sobre Marx’ (in Philosophy and Social Hope, Penguin, 1999), tradução minha

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Penso que dar à gente que clama por liberdade o poder de organizar-se é bem diferente de aumentar o poder de organização daqueles que só querem controlar (geralmente porque já estão no controle).

Quando a gente sem poder ganha poder, nasce uma diferença de modo. Quando os poderosos ganham poder, há uma diferença de grau. Poder onde não havia poder é bem diferente de um pouquinho a mais de poder onde o poder já estava concentrado.

Não acho que o fim dessa história possa ser predeterminado. Em dias ruins, fico gelado só de pensar até onde poderia um déspota usar a tecnologia para espionar sem falhas e coordenar sem falhas um exército de bandidos.

Mas mesmo nesses dias ruins, acredito que a melhor resposta a este medo seja a posse dos meios de informação e a garantia de que os benefícios da tecnologia sejam distribuídos a todos, não só aos poderosos. A recusa a se engajar com (ou proteger) a tecnologia não implica que os bad guys não vão usá-la–mas que os good guys vão acabar desarmados nas lutas por vir.

Edward Snowden, nossa autoridade solitária e confiável no que diz respeito ao poder das agências de espionagem, afirma que a criptografia funciona. Tecnologias de rede boas e seguras permitem que a gente no dia a dia possa falar entre si com tal grau de segurança que mesmo as mais poderosas e aptas agências de vigilância do mundo falham ao tentar espionar. Qualquer coisa que consiga manter fora os espiões também pode manter fora os golpistas, os voyeurs e outros esquisitinhos.

Noutras palavras, é a primeira vez na história da humanidade que a gente comum consegue coordenar entre si o que deve e pode ser feito sem se preocupar com intrusos na comunicação a corromper ou atrapalhar. Tal é o benefício da tecnologia, além de qualquer preço, um tesouro cujo valor não tem precedência na história.

Mas tal benefício será nosso conquanto a infraestrutura seja livre e justa. Será nosso somente se superarmos a narrativa Hollywood-versus-Google, se resistirmos a que nossa produção seja parasitada a serviço da censura, da espionagem e do controle.

Cory Doctorow, trecho do livro ‘Information Doesn’t Want to Be Free’ (McSweeney’s, 2015), tradução e ênfases minhas

COMUNICADO IMPORTANTE

a fofa da Lucila quer ser mestre

Este comunicado importante visa tranquilizar a cadeia produtiva na qual se insere a Touro Bengala Livros Fictícia, de autores a papeleiros e feirantes. Nossa funcionária do mês de abril, Lucila, vinha chateando alguns gestores por sair, bem ou mal, no horário combinado. Se ia ou não ia parcelar no cartão peças da zara depois, sinceramente não nos compete. Deixa a Lucila.

Ontem de madrugada ela ligou e tive que por duas vezes que ela não falasse como secretária, mas como filha, amiga e principalmente irmã, princesa da baia não justo do lado, mas três baias para lá. Eis o drama. A moça quer licença remunerada para mestrar-se na baixada fluminense. Eu ri. Lucila, disse, mestrar é possível, sempre é, tanto mais se for possível. Mas com a uninove aqui ao lado, há que ir àquelas serras indistintas? E ela, Você não entende. Eu reviso seus contratos por email, qual o problema? Bem, Lucila teve amnésia pois é ela quem me traz o cacau e o papaya desidratado da rua santa rosa, coisas que não vivo sem. Certo, Lucila (ela tem 22 anos, a rádio peão insiste que é amplamente virgem), você prefere mestre ou mestra? Ela desligou. Uma razoável funcionária talvez, neste momento, vai caindo pelos dedos de seu role model paterno, espôsico e artesanal. Que vá? Horas depois, eu sem dormir por confundir no escuro a ulmária com o ginko, brota um email da engraçada. Não vou comentar. Vocês avaliem, por favor.

Assuntos urgentes da seara da Lucila podem, desde já, ser encaminhados à Ramira Casablanca no email casa@tourobengala.com

Desculpem a bagunça.

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from.. Lucila Java
to.. “bossy-grumpy-daddy”
assunto.. Projeto de Mestrado

Glee, seguinte. vou aplicar em 74 instituições da baixada. numa vai dá certo. segue o one page do projeto

bsous, v se dorme queridoooOOoooO,,,

xLoCxLo

 

PROJETO DE MESTRADO

por Lucila Java, 22, amerínda castanha, solteira

TÍTULO

A Gueixa e Hilda Hilst, Alice de Carroll e Roberto Piva, Mafalda e Pagu, Liza Simpson e Cecília Meirelles, Riot Girls e Ana Cristina César: princesas populares e seus duplos literários, rosas-dos-ventos solteiras.

MÉTODO

– O duplo literário é um convite à suspensão da descrença.
[o corpus de texto universo de cada personagem é considerado literatura em bruto, enquanto a obra de seus duplos a projeção polida da mesma expressão, dos mesmos desejos e do mesmo ser]
– Música e rosto, ave e silêncio — uma cabala particular.
[o ferramental tradicional e esquivo da arte cabalística opera nas ligaduras entre os caracteres do corpus e da poesia dos duplos, assim como é torque analítico dos contornos arquetípicos, transformações, mitografia e impacto das princesas populares em nossos espaços. do Leste (I), a música faz eixo com Oeste (III), seu rosto e irmão. do Norte (II) a ave é mãe que se afasta do Sul (IV), onde reside o pai em silêncio. cada uma das cinco princesas populares é e não é senão relação com, cada um dos quatro vetores principais da rosa-dos-ventos].

OBJETIVO

Esborçar, a partir do corpus atribuído a cada princesa popular (folclore para a Gueixa, romance para Alice, Banda desenhada para Mafalda, TV para Liza e performance politica disponível em registo digital na internet para as Riot Girls) e de excertos avulsos de seus duplos literários (os autores brasileiros Hilda Hilst, Roberto Piva, Pagu, Cecília Meirelles e Ana Cristina César), cinco estratégias de reconhecimento, singulares e complementares a uma vez, face às ruturas do feminismo e a morte do indivíduo contemporâneo.

BIBLIOGRAFIA PRECOCE

a obra dos cinco duplos
a crise da filosofia messiânica de oswald de andrade
o antiédipo de deleuze
o estranho de freud
las trampas de la fe de octavio paz
obras herméticas, oculistas, indexadas e neoplatônicas
o tarô
o circuito dos afetos de safatle
metafísicas canibais de viveiros de castro
demasiado humado de nietzsche
modos de existência de latour
a obra de john keats

a espiritualidade clandestina de José Saramago

No que diz respeito aos dois pecadilhos reiterados e felinos do de resto amplamente estimulante ensaio A espiritualidade clandestina de José Saramago, composto por Manuel Frias Martins e exibido em 2014, não será repisá-los aqui mais urgente que um breve apontá-los equipados acaso nós desde o robótico interesse dos bandeirinhas do futebol. Cabe anotar porém que se no campo são as partes do objeto interessado (o mais avançado jogador no campo de ataque) sob escrutínio escusadas não avançarem a linha limítrofe e imaginária do positivismo chamemos euclidiano do auxiliar, aqui serão gatilhos de acusação justamente o que se viu aquém da provada elasticidade do ensaísta, tanto mais ruidosas tais protuberâncias em potência suculenta mas em desenvolvimento atrofiadas soem-nos e soam conforme atravessasse-nos a dedicada e delicada construção. São mesmo dois, pois agora refizemos as contas.

O primeiro trata do desprezo superficial de Caim pelo instituo do Milagre no romance Caim. Ele o personagem saramaguiano cita, conforme excerto destacado, e mistura a seu sopão de maldades por que se persegue o autoritarismo divinoso, o milagre como mais um estratagema de persuasão encantatória apenas indireta, relatada e não vivida, desditosa empresa da conquista d’almas. Mas a raiva de Caim não resolve o problema do milagre, e tampouco Martins solidariza-se com a fértil e inexplorada frente de cultivo poético e epistêmico que a larga fenomenologia do invisto, do inaudito, mesmo do impensável e dos espantosos achados deste ponto onde entendemos a dinâmica quântica menos e menos como a suspeitada indiferença quântica.

Milagres podem ser as imagens das comunicações interdimensionais como podem ser índice de nossa vida virtual, isto é, subproduto da realidade inatingível mas ~manifestável, um jogo ou dança de sombra ao pé do fogo projeta-se à parede e deixa nela a gravação queimada de uma sua idêntica silhueta, da sombra em dança ou jogo, três lebres trespassam para trás um muro baixo enquanto ímpias sincronias assentes tão somente nas peculiaridades da dilatação de uma viga de madeira numa certa manhã mediterrânea tombam antes o vagão de pinhão e salvam a vida do jumentinho que salvará do afogamento na corrente do rio o filho do agricultor nove anos mais tarde, que quando Senador impedirá uma guerra estúpida e assim nove mil mortos inocentes. Pronunciasse simplesmente que por ali há modos de ir e que entretanto hoje não irei. Mas perde-se a oportunidade e nós seguimos em frente.

O segundo é exagerar a invocação dos mortos em nome de Deus, como se o problema da mortandade geral tivesse qualquer coisa que ver com Deus, seu nome ou qualquer coisa sua. Nós modernos simplesmente não conhecemos volumosas mortandades em nome de Deus, não de modo a torná-las fundamentos de um escárnio violento, de modo que o argumento pela subversão interpelativa das certezas do Senhor no bojo de uma luta maior contra a indignidade humana nada ganha de sustância se acusamos antes dos maus iogurtes, maus carros e maus ônibus em autoestradas amalucadas, a indústria da arma de fogo, o individualismo exclusivamente concorrencial das pressões no trabalho derretido na infusão do Capital no caldo da lógica, os crimes passionais, as disputas por petróleo e território, os distúrbios advindos de comércios ainda lamentavelmente relativizados como ilegais, a devassa de Gaia baixo a cruz do Antropoceno e a influência arquitetônico-cultural das potências imperialistas na Guerra Fria o ex-machina do Bebé Gigante. Sem tônus e ainda assim repetido, dóem como sofismáticas e ligeiras impressões tais articulações, e um chega a perder a concentração. O romance de Saramago é atual mas, hoje, não se mata em nome de Deus. Não adere, a suspeita. De que fala e o que trará de útil pois o canto deste grito?

Dito isso, devo recobrar, desdas margens onde pisaram Eulálio Carpeaux Gilda e Antonio tanto quanto Andrade e Andrade, margens daquela desgraçada mas conhecida periferia do iluminismo onde ecoávamos as modas francesas então norte-americanas então alemãs de operar a crítica, meu verdadeiro deslumbre ao devorar tão urgente e elegante trabalho de análise literária sobre o tema da espiritualidade, já que nada sei da crítica portuguesa, sua tradição, mas usei-me no novo capim novo da américa pobre a catar dentro do ensaísmo sem escola dos professores artistas que mantêm viva a ilusão de uma universidade brasileira preciosidades da mais singular marca da generosidade intelectual que é o exercício da análise sobre autores que por pouco passavam como loucos inúteis. Um livro por demais acessível e iluminado, humoroso e sério, ainda que chancelado pela fundação que leva o nome do autor estudado e Nobel ele mesmo, o que nos haveria de meter em sítio como que de pé atrás. Mas tudo passa bem e equilibra-se, e mesmo quando o crítico empilha em seu chapéu o chapéu chapéu do advogado para não dizer o chapéu chapéu chapéu do publicista, entedemos que por mais decantada, a paixão do analista pelo objeto seria o de novo e de novo eletrocutada, e isto pode dizer energizada, pela oportunidade política de ir além da descrição referenciada de procedimentos e escolhas estéticas até botar quem sabe os pingos nos is no nome de um artista desprezado e agredido em seu país, censurado em 1993, apontado como mero ateu preguiçoso e assim odiado e mais recentemente revogado da condição de baptista de uma praça na cidade do Porto. Certo catolicismo português, e talvez confluente aos espíritos da fruição literária nacional e sobre ela influente, não percebeu vantagem no engolir do Saramago e deu a insultar o escritor, e tal registro de recepção, se incomodou Martins, é porque passou do ponto da simples recusa para aquele da impostura. A história, entendeu o ensaísta, estava ainda mal contada, ou mal recontada, e empenhar um esforço extra por isso, por levantar quanto pudesse Saramago de seus limbos imerecidos, era unir-se a um combate necessário. Sobram chapéus mas eram seis quando paramos de contar.

Martins debruça no que apresenta tal “romances bíblicos” de Saramago, ‘O Evangelho Segundo Jesus Cristo’ e ‘Caim’, para tentar esboçar uma figura da espiritualidade do novelista português. Ele leva nossas mãos tão longe quanto estabelece que ela, a espiritualidade, dá-se ali onde Cria, o espírito, mas a floresta do que ser o espírito, essa Martins não anima conosco. Fato é a ação do livro apreciar a PRODUÇÃO de/em uma diversão (a espiritualidade), e não sua norma. Espiritualidade “enraizada na interrogação” atinente “ao amor e à compaixão, à tolerância e ao perdão, à responsabilidade e à harmonia” que incita o espírito motriz a vociferar dentro da possibilidade mesma do entendimento. Pintar de verde o céu como Tom Zé e USÁ-LO (caps nossas) para enxugar lágrimas. Comunicar, um seu ofício diuturno e dialógico, no que sai no salto e volta ao chão a base de perna e contraperna que move e sustenta um homem em meio a tantos, um nome de muitos, os muitos nomes de um.

Se toma tantas páginas o artifício romanesco da participação de um sujeito que o escreva, será bom tratar o tomo de grandes e complicadas coisas. Ou isso ou ler as tantas sagas dos moreiras dos anos oitenta ou qualquer coisa que o valha se quedaria impraticável. Mas tal lembra Martins que Saramago faz, pois deforma e testa as normatizações do estado disciplinador e de seus abusos o autor. É claro que um comunista daria num artista engajado, mas não era tão óbvio que miraria e arquearia setas duras de respeito contra tão fundamentalmente estruturais parcelas das culturas globais do ocidente, ao que parece com primazia na tática de falar por Jesus e ortogonalmente capaz seara romanesca fora, criando de mais a mais a “multiplicidade de mundos” que apenas espera-se.

A leitura-diagnóstico também da recepção como se indicou preocupadamente alarmante de Martins (no fundo era outra coisa, etc) aposta que um ateu declarado, desde que fale por mais si, chegará antes e mais que o crente perto de Deus se, por exemplo, renunciar aos erros da Igreja. Seria, numa tradução livre e rápida, encarnar a santidade que é viver longe dos pecados da autointitulada esposa de um profeta rebelde que a nunca em verdade conheceu, não custa lembrar. Claro que dá-se o rebuliço dizer isso em qui, cujas raízes de uma socialização clerical submetida ao Vaticano pimparam ou dificultaram os frutos dos encontros desde as artes da malícia e da perversidade. Aí um tentáculo da turba em seus escritórios arranja-se à velha moda da caça ao Hamellin e chora-se e nascem medalhas que fundam fundações que imprimem este atenorado grito de resgate à complexa e delicada meada de uma obra e de uma vida compatriotas, mas também de um fluido legado internacional de mais ou menos eloquentes leituras compartilhadas.

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Estruturalmente, olhamos para um arco cuja tese é vetor que paira nítido, enquanto atravessa, sobre catorze capítulos eles em si pílulas ensaísticas capazes de submergir rapidamente, em poucas páginas, funduras dentro vários elementos de preocupação do filósofo ficcionista. Se lembrar das famosas suítes de Frankfurt, centradas e abrangentes a um só tempo, tabuleiros de redes de parágrafos vincados e torcidos, o leitor terá somente a si a creditar. Um dos elementos a preocupar o filósofo ficcionista, por exemplo, é o sexo. Diz no capítulo dedicado ao sexo Martins que

“Recusar a morte e optar pela vida e pelo mundo humano também significa para o Jesus lawrenciano fruir finalmente os prazeres que o corpo tem para oferecer, e que o narrador enuncia deste modo:

‘Ressuscitados de entre os mortos, acabava de compreender que também havia no corpo a maior vida, para além da pequena vida. Era virgem para evitar a pequena vida, a vida cúpida do corpo. Mas ficava agora a saber que a virgindade é uma forma de cupidez, e quando o corpo volta a levantar-se, fá-lo para dar e obter, para obter e dar sem cupidez. Compreendia que tinha ressurgido para a mulher ou as mulheres que conhecem a maior vida do corpo, sem cupidez na dádiva, sem cupidez na obtenção, com as quais o seu corpo podia misturar-se.’

‘Era virgem para evitar a vida pequena, a vida cúpida do corpo’, diz-nos D. H. Lawrence. E virgem terá de ser Caim, filho de Adão e Eva, antes de partir para as intermitências temporais de errância terrena por que o romancista português o levará até aos prazeres do corpo de Lilith. Mas tal só acontecerá depois de Caim ter experimentado a surpresa da ereção, a significância do ímpeto lascivo e o fulgor do seu olhar masculino perante o seu próprio esperma nos rostos e nas bocas de algumas escravas que para isso aí foram colocadas pelo narrador saramaguiano numa espécie de espermodrama intempestivo:

‘Conduzidos por elas a um quarto separado, caim foi despido e logo lavado dos pés à cabeça com água tépida. O contacto insistente e minucioso das mãos das mulheres provocou-lhe uma ereção que não pôde reprimir, supondo que tal proeza seria possível. Elas riram e, em resposta, redobraram de atenção para com o órgão ereto, a que, entre novas risadas, chamavam flauta muda, o qual de repente havia saltado nas suas mãos com a elasticidade de uma cobra. O resultado, vistas as circunstâncias, era mais do que previsível, o homem ejaculou de repente, em jorros sucessivos que, ajoelhadas como estavam, as escravas receberam na cara e na boca. […] As escravas pareciam não ter pressa, concentradas agora em extrair as últimas gotas do pénis de caim que levavam à boca na ponta de um dedo, uma após a outra, com delícia.’

Jesus e Caim unidos pelos meandros da conversação artística entre dois escritores maiores. Jesus e Caim geminados pela sexualização da experiência do mundo oferecida a ambos como derradeira opção existencial.” Martins exalta o enfrentamento de tão poluta via do comportamento por Lawrence e Saramago, neste capítulo, por crer merecerem suas “atitudes criativas” nossa atenção, uma vez firmarem-se prenhes da coragem de “não querer separar a sexualidade do sagrado nem, ao mesmo tempo, do fundo mitológico de uma religião que dele parece estar cada vez mais carente.”

Assim faz Martins, observação equipada de muitas lentes, categorizador a lançar mão de um selecionado, contido ferramental idealógico disponível na biblioteca mundial contemporânea para enfim reafirmar, no que cedia à impressão centrípeta de aprofundamento, a fuga em mola firme ao rabo do vetor do arco original para dizer algo como

“É nesta teia de sexo e morte que o efeito espiritual do romance volta a confirmar-se. Através de Caim, o rancor contra Deus atinge aqui um paroxismo impressionante. Mas Caim é uma espécie de justiceiro que contraria a cegueira da procriação a qualquer preço, designadamente o preço da indiferença moral que é exigida por Deus. Contra ela Caim (e a humanidade com ele) ergue a plenitude erótica, o mistério, a experiência profunda da sexualidade, a vida e a morte, elevando moralmente todas elas a alturas dignas da verdade. Isso é feito através de ações insensatas, é certo, e de um modo brutal, violento, selvagem mesmo. Mas o Caim da ficção saramaguiana, lembremo-lo, é humano, demasiado humano.”

A “potencialidade subversiva” de um autor que “não tem medo de falar com Deus” será função da “diferença solitária” do escritor Saramago e atrairá mais e mais este público afeito às sensações associadas “ao inesperado, ao não familiar, ao estranho, ao indecidível, ao mitológico e, é claro, também ao espiritual”, confia Martins, apenas porque o romancista fincou bandeira nas próprias condições de condução de uma voz crítica e fez a contento seu trabalho de “impugnar aquela cisão entre ética, moral, política e literatura” onde os Modernos por destemperança e aflição especialista situaram-se. Viveremos, porém e agora, o que fizermos do momento da espiritualidade, qual seja, viveremos os modos de fazer de que são capazes os libertos modos de existir, ou não viveremos.

TRANSFUSÃO & LETARGIA

Será o homem o último animal capaz de fabricar toda uma indústria em redor desta ideia simples, a melodia.

Hoje temos isso, músicos apaixonados ou resignados com a rabeira do colapsado processo radiofônico/discos de platina, ou aos cantos de viés, vestidos de preto e portadores de meta- arroubos assim ninguém os entenda.

Por que tal estado, música desinteressada à beira, músicos atrás do mel da música e de um colchão excentricizados à maneira do zoo?

Feitio e circulação são o nervo do produto. As escolhas que tomaram os homens e mulheres da indústria fonográfica visaram ganhos de capital antes de riqueza cultural. Foram más escolhas que encadearam em processo maus desenhos de curadoria, reconhecimento, promoção e produção musical e executiva. Maus desenhos só perduram porque homens e mulheres obstinados não entendem más suas escolhas, mas naturais quando é a indústria quem fala. Correto. Não se trata de culpabilizar, apesar de sim tratar-se de imputá-lo, o mau desenho, pois que muito mais urgente venha santa nossa vontade para seguir em frente simplesmente sem repeti-los. Queremos falar mal do grosso do pop porque ele é pobre e feio. Tal é um ato de lógica, ainda que ofenda, construtiva. Posso falar à vontade pelo Brasil, onde Guerra-Peixe é um zé ninguém e abominações incitáveis frequentam a grade da globo e consequentemente as lajes e salões das gentes. Tampouco repiso a passada de pano da preguiça sociológica da esperança a qualqer preço, pia de que num ato de bondade jogará no lixo o compêndio da Estética. Não devia, pois. Nossa música hoje, a mais vivaz pernambucana, paraense, carioca e paulista, ensaia suas frinchas de beleza com a ousadia que cabe a um rato acuado, descrente, magro, enlameado na entulhagem ignóbil de um entorno absolutamente não música, ou pior, um entorno em que dela música foi feito o gato e o sapato da futilidade comercial, valor fugaz e apreensão de mentirinha. Suicidam-se desde os anos 1960 e antes, os músicos.

Infelizmente, a pobreza é tendência maior, mais arcaica mesmo, que a indústria. O que esta fez foi se tanto calcular, corretamente desde sua perigosa ética, os porquês da obsessão formulaica e da exploração artística e intelectual dos outros. Dava lucro e deu. Mas vejamos, antes de pintar a indústria um dragão tão cruel, se não havia no temperamento ocidental a semente mesma de sua letargia, se não nos deixamos encaixotar, adoradores infantilóides de “gêneros”, neles vendo e deles tirando riquezas apenas virtuais, num esquema essencialmente restritivo e estupidamente hierárquico de aceitar tal e tal som como música, tal e tal como não.

Se o som fruído naturalmente por nós nunca deixará de ser o ar em movimento, atente para a hipótese da pergunta, desde um também hipotético pianista Evarildo à cantora imaginada Dorotéia, Dorotéia, você quer ‘Chega de Saudade’ trans… posta em lá menor?’

Falemos um bocado sobre este salto.

Como a simples habilidade de deslocar a massa ubíqua que nos engolfa foi dar em tão específico, ainda que por demais corriqueiro, momento do encontro da prática musical numa randômica e ainda por cima suposta pizzaria imaginada? Artur, o titular, acamado da gripe porcina não pôde vir. Evarildo, amigo de um amigo, vende esparsas aulas de harmonia a iniciantes, despreza sem argumentos convincentes a gastronomia e, no litígio, garfou a quitinete da Mariza, mas nem por um átimo imaginou declinar cobrir a noite de outro músico. O termo do acordo, ainda que o cachê integral de 150 reais caia limpo no colo de Evarildo, foi, de Artur para Evarildo, Quebra essa pra mim. Claro, irmão, Evarildo para Artur. MPB leve, uns oitentas, umas bossas? Risos. Na pasta preta puída de envelopes plásticos, semelhante demais à do próprio Evarildo, ruínas baralhadas daquilo que a gente do meio tem tão carinhosamente por The Real Book. Nem tanto, pois deu como quem visse um desconhecido pelado Evarildo numa ostensiva invasão de Jobins, Linses, Djavans. Já está na ordem, apressa a Téia, vamos indo até o último cliente, aquela cara inevitável gig sucker cansadaça mas em pé de quem quer logo cantar para acabar logo com isso. Abre Evarildo a pasta no primeiro plástico e lê, inclinado em cursiva de canetinha verde do punho do Artur, Téia quer tr p/ Am.

Ora, aquele Korg, aquele microfone, aqueles amplificadores da época ainda do cassino, as louças e talheres e janelas e botões de camisa onde chocar-se-iam cíclicas as miríades de frequências da canção antes do tato estéreo com ouvidos não fosse tudo uma hipótese sequer suspeitam de que há um Lá. Que dirá um Lá menor. Que possam 440 ciclos quaisquer dotarem-se como faraós da hierarquia harmônica deste solar e disciplinado predicado, tônica, vai já uma ciência que aquele Korg, aquele microfone etc, etc, talvez nem mesmo devam perceber. O mesmo todavia não se atribui a nós. Tão blissful ignorance, aqui, já nem como romantismo hauseriano passa mais. Horse? Depende, você precisa de um?

Assim vamos pois, categóricos a dar com pau. Tudo muda entretanto se Evarildo, distraído ou preguiçoso, simplesmente não pergunta e dá azar. Não pergunta e escolhe tendo, no caso, 50% de chance de acertar. Aqui, a Téia já quis transpor, foi logo quando voltou arrependida do Chile, pois lá gastou o arisco dinheiro turista e o namorado já a deixou pela novinha, Periguete para quem, disse o homem no último zap. Isso deu raiva nela, talvez, mas na canção o que se deu foi depressão. Desceu um tom e meio e assim ficou setembro todo, as quatro noites. Em casa, por ter problemas diante dad funcionalidades do Windows 10, sentia frustração e ansiedade quando deparava com as fotos da viagem era certo que as havia deletado. Todo esse tempo, porém, Dulcinéia deletava os anexos, anexos criados na letal confusão que tantos pais e mães e tios e tias nublou, a breve porém marcante vida do clique no botão direito, ou seja, tudo meio sem querer em quatro pastas diferentes nomeadas baixo a turbulência da imperícia de uma não nativa digital em seus quertys tão inúteis ou até inimigos quando o sistema operacional conspira e caçoa dessa gente, jh56.., 2lhj77 e ttttt5.

Claro, as fotos voltavam sempre, e nas piores ocasiões. Ao anexar um ppt para a mãe, ao mandar um currículo porque a gente nunca sabe o dia de amanhã, ao trocar a testeira do face afinal a Dora, a Pati, todas trocaram e parecem felizes. Fantasma ponto jpeg podiam todas se chamar, as fotos, o Otávio rindo, brindando um vinho, braços abertos na bike, paisagem qualquer ao fundo. Eu tinha apagado!

Claro que tinha, Téia.

Hoje à noite não havia quase ninguém, se houvesse a noite. Duas famílias que você bate o olho e percebe a estirpe pelo primogênito. Barbas feitas ambos, tendo um nítida vantagem de desmelanização, isto é, afeitara-se não tem muito mas já há algumas horas, provável assim vivesse longe. Mais ainda, provável que a visita timbrasse as raias da decepção ou derrota. Um recuo? Uma rendição? O pai não  olhava de volta e bebia. Uma família, digamos, feliz a sua maneira, equipada e podendo parcelar camisas polo, talvez calando agora ante a perda da bolsa de estudos do filho mais velho que, egresso do ônibus que o viajou desde São Carlos, talvez cogite,  se o pai der confiança, tocar no assunto daqueles terreninhos em Ourinhos, aqueles que certa feita o velho pai dele mencionou. Lembra? Há, afinal, liquidez? Laços e nós da vida, pizzaria é para isso mesmo. Coisa de três ou quatro meses além, o primogênito acusa leveza ao manter baixos os ombros apesar do incorreto arco cervical e compartilhar imediatamente o motivo de um riso quando dá scroll na telinha. Haha, solta, vocês viram que não sei quem não sei que tem não se que lá, e mostra a telinha, ao que todos também riem e já mudam de assunto. Uma pequena mas certeira amostra do estado de equilíbrio em que se encontra junto ao núcleo sanguíneo, afeitando-se muito provavelmente assim porque assim o bem quer e entende, e não porque clama o protocolo desta ou daquela barganha ou sujeição.

Mas tudo isso pouco ou nada muda nossa tese, ficando aí mais pelo amor de imaginar o índice da insalubridade que é jogar Ialta com uma família sem antes averiguar se se dispõe de outra para que a prática conte com um mínimo jogo de perspectivas que seja.

Téia enfim diz, Não, e coça o nariz. Ao que Evarildo faz OK, e eles tocam e é como se não tocassem, digo, mesmo dentro da absurda realidade que carrega a mera hipótese, mesmo ali onde tudo de melhor pode vir e ser, é como se não tocassem. O pesadelo de Schoenberg, aquele de que ninguém ausculte mais e nunca mais porcaria nenhuma, é uma presença mais e mais totalizante? Um cataclisma sem dúvida, mas também o reflexo espontâneo das first e second lives? A música foi para os fundos de vez? Dizer, Ah, na pizzaria pode, vá, é compactuar com o desprezo. É o mesmo que dizer, Ah, sei lá, tava errada. Se o Korg não desconfia das travas de seus meio-tons, ou de como pode haver tolhimentos tão marcantes e personalistas contrabandeados aos prados de alegria numérica e isenta da física mecânica, também não pode a Téia e se é para dizer todos os nomes também não pode Evarildo e não poderia Artur, estando onde estiver Otávio porque neste ponto ele não se implica, desconfiar que apreço inerte não machuca, mas tem o proverbial poder do lampião suburbano, aceso e sozinho a apagar milhões de estrelas. Mastigam as duas famílias suas pizzas enquanto corre ‘Chega de Saudade’ como um segundo e substituível plano. Areia colorida entre os dedos, pôr-do-sol às costas ou mesmo aquela rápida ida ao banheiro quando passa um meteoro. Acontece.

E nada estranham, e das erucções esquivam, e as contas respectivas acertam aceitando o esforço extra de doar o cpf ao estado em troca de um punhado de reais ao fim do ano. Um agrado por saber um bocadinho mais de nossas vidas. Se são felizes cada uma a sua maneira, também ninguém seria preso se as tomasse, as famílias, por exemplares.

É findo o show. Microfonia e estalos, normal, são da época ainda do cassino. Um chopp para cada músico e o cachê quase completo. O gerente pede o senhor entenda, Evaristo, É Evarildo, Sim, Evarildo, Gomes o gerente pede que o senhor entenda o contexto de crise e a noite fraca hoje teve jogo mais tarde por causa da novela. Evarildo não torce ou tem TV, mas agora tem um problema. O vale de 20 reais a completar os 130 em espécie não chegam para uma brotinho. Ademais, e as palavras são dele, Estou parando com o leite, o queijo. Nossa abobrinha não vai queijo… Mas sai por quanto? 32. Pronto.

Evarildo dá o vale a Dorotéia e vai embora. Talvez ainda hoje veja um western bem enquadrado no mudo, como tanto fez e faz quando está, assim, neutro, nem triste nem feliz, e bota Gênesis em cima. Gênesis sua banda de sempre, a banda que acompanha westerns bem enquadrados no mudo, ainda que se perca um Moriconi aqui outro ali. Compensa.

É importante entretanto lembrar, se a neutralidade de Evarildo é função de uma hipótese, de pouco ou nada serve que você fique neutro com, por, via, desde, para, contra, ante, sob ou sobre ele. Falamos aqui da trivialização criminosa e pasteurizante empreendida por homens e mulhers mau desenhistas, e não, nunca, jamais, do que sente ou deixa de sentir o pobre músico que tampouco achou guarida matinal no que ao que tudo indica bem intencionado iogurte de soja. Deixa mole igual, o cocô, diz, cabisbaixo mas não sem transmitir certa neutralidade. Tal é a neutralidade que não temos mais momento para ceder a muitas indústrias. Queremos nossas crianças extremamente crackers, a medir com as próprias mãos a febre da Origem. Tapas e pisões, balanço de olhos fechados nas aulas-terreiro para depois, em casa, acordarem os mais velhos dos rincões da mitografia do pulso. É muito mais que aprender com a selvageria, é dar se quisermos à disciplina da Linguagem o meio fértil que ela merece. Quando o século 20 estacou, buscou-se a ironia, a paródia, a desconstrução radical. Foi bom? Foi surpreendente. O que são as cantigas do fauno, do pássaro de fogo, da lulu? Mas e então? Não serão simular um computador, de um lado, e romper com o significado, do outro, saídas sem dúvida sonoras mas poeticamente fatigantes? Não virá quem sabe a inovação forte daquilo que supomos pré-música, já que a música per se a dita música centrifugou-se em motores especulativos vítimas do pêndulo cinismo e transgressão, para não dizer cinismo e agressão? Isto é, dos quandos e ondes da música, dos comos e dos porquês, dos quens da música, suas cúpulas e halls reimaginados mesmo no claustro, mesmo na pobreza, no fundo do mar e na guerra? Ou mesmo na vitória tácita de uma gente sem motivo para celebrar, na conquista de uma minúscula variável no enorme código dos choques estelares? Seu alaúde vertido do entulho, seu oboé roubado a um encanamento precário, seu tamborim o berço inorgânico de uma lasanha veggie processada pela indústria? Por que dançar tornou-se exótico? E agora, números a coletar números, pois é a tal configuração civilizacional que chegamos, ou se dança ou não se dança, e, quem dançar, é melhor que dance bem? Como assim? Somos enfim especialistas e profissionais, mas a que custo? Quanto valeu, afinal, o show?

Já li de músicos sérios (gente, os sérios também transam e sabem troçar, não há que ter receio de se aproximar ou credo cruzes de tentar ser um, e seus salários tendem a ser maiores, se isso acaso interessar) que o bom mesmo seria desaprendermos Bach, pois que foi Bach quem nos engaiolou a todos e ainda não se obteve notícia de fuga.

Foi uma maldição, disse o músico.

Eu concordo em partes. Bach sim foi quem nos engaiolou, e sim se se obteve notícia de fuga ela foi amordaçada pela Grande Imprensa, isto é, tornou-se lenda grímmica, lenda fabulosa. Portanto não houve. Mas discordo que o desaprendamos. Seria demais o esforço para perder três ou quatro objetos que já levaríamos à lua de todo modo.

Um de tais objetos reconhece-se pela missa Paixão de S. Mateus, escrita em vida pelo artesão mestre capeleiro e filho de artesão afinador o cervejeiro não porque anti-itália (inclusive os copiava muito) mas porque sim alemão, solícito pai de muitos, dedicado luterano de fé e atacado pelo mundo nas dores sempre anverso das delícias, muito bem por isso, basta ler diários, cartas e biografias, empoderado desde certa neutralidade, o Bach pai do Christian, viúvo da pequena Ana Magdalena. Não é tanto o caso de jogar fora, mas imbricar e ladear a música que herdamos de Bach, essa toda que se ouve hoje cristalinamente bachiana seja doce ou odiosamente previsível a ocasião, por muitas outras novas e insuspeitas músicas. Da mecânica do som à transposição ao Lá menor, eu preferia que Evarildo amarrasse um fio de cânhamo no dente e apertasse os tornozelos da Dorotéia antes de perguntar isso ou aquilo.

Destaco a ária Erbarme dicht de uma gravação que não é a de Gardiner, da qual peguei gosto, tampouco a de von Karajan, lenta sem ser herege, pois o caso aqui não é a peça tanto quanto a transfusão melódica incólume 400 anos dentro até um produto pop oriental, no seio de um dos mais capazes cinemas plásticos que é o de Kar Wai, prova da gaiola, sim, mas também do limite da beleza dentro dela, e de como tudo necessário nesse mundo estava posto, mas foi reposto e reposto, e não se diz se madrugava já o mundo em que fazíamos e fazíamos, sem por que ou por quem, ou nem se faziam por nós.

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