dois poemas

À CRÍTICA GENÉTICA

Houve Há mais camadas no porvir correr do texto,
que não se pode nunca compreender;
entender sua história é não saber
que o poeta poema nasceu no ano bissexto.

E a Assim cada papel que foi vai pro cesto
pouco significou significa a quem souber
a interpretação pro cateter que vier
enfiado no cu enlaçado nas malhas do intertexto.

E ainda sempre há gente que se esqueça não reconheça:
por mais que a linha se demonstre reta o pensamento seja reto,
não houve nunca houve nada dentro da cabeça.

Por isso sempre digo: não se meta me meto,
por mais canhestro palavroso e insosso que pareça,
com o que quis quer dizer o teu poeta meu soneto.

Guilherme Gontijo Flores (n. 1984)
poema do livro brasa enganosa, São Paulo : Editora Patuá, 2013

eu durmo comigo

eu durmo comigo/ deitada de bruços eu durmo
comigo/ virada pra direita eu durmo comigo/ eu
durmo comigo abraçada comigo/ não há noite tão
longa em que não durma comigo/ como um trovador
agarrado ao alaúde eu durmo comigo/ eu durmo
comigo debaixo da noite estrelada/ eu durmo comigo
enquanto os outros fazem aniversário/ eu durmo
comigo às vezes de óculos/ e mesmo no escuro sei que
estou dormindo comigo/ e quem quiser dormir comigo
vai ter que dormir do lado.

Angélica Freitas (n. 1973)
poema do livro Um útero é do tamanho de um punho, São Paulo : Cosac Naify, 2012

uma resposta à imprensa

PERGUNTA: Falaí, senhor Nepomuceno, parece que o senhor não conhece muito bem música brasileira, hein, senhor Nepomuceno, hein? Falaí. Parece que não, hein? Parece que o senhor não é moderno não, hein, Nepomuceno? É antigo, hein? És chatola europa, não? Não sabe a música, hein?

RESPOSTA: Em geral a nota característica da musica popular brazileira são as indicativas de suas origens ethnicas – indigena, africana e peninsular – tal como na poesia popular foi verificado pelos nossos folkloristas, como Sylvio Romero, Mello Moraes Filho e outros. E’ de notar que no elemento peninsular são factores de importancia o mouro e o cigano. Infelizmente a parte musical nos estudos do folklore brazileiro ainda não foi estudada, provavelmente por ser a technica musical uma disciplina que escapa ao conhecimento dos investigadores do assumpto.

Nunca me dediquei a esses estudos, mas possúo, como diletante, uma colleção de uns oitenta cantos populares, e danças, e procuro sempre augmental-a. Acham-se quasi todos estudados e classificados, e, nesse trabalho, verifiquei uma modalidade que não é regional, pois que se encontra em cantos recolhidos no Pará, no Ceará e no interior do E. do Rio e que – parece-me não tem ligação com nenhum dos elementos ethnicos acima citados. Essa modalidade, de ordem melodica e harmonica, é produzida pelo abaixamento do setimo gráo sempre que o canto tenda para o sexto, como funcção do 2° ou do 4° gráos.

Outra modalidade caracteristica verificada em grande numero de cantos é a nota final ser o 3° gráo e por vezes, o 5°, ou o 2° como função do 5° o que da logar, na harmonisação desses cantos, ao emprego das cadencias finaes do terceiro e setimo modos gregorianos, respectivamente. Não é esta a unica afinidade que encontrei com o canto-chão. Nos aboiados – cantos tristes que os vaqueiros entôam á frente do gado para reunil-o – o vaqueiro, segundo as circumstancias, amplia o seu aboiar com vocalizes que lembram os do canto-chão. Os aboiados são usados em todos os Estados criadores do Nordeste, e segundo estou informado, em Minas e Goyaz.

Esses elementos ainda não estão incorporados ao patrimonio artistico dos nossos compositores. Sera por culpa da nossa educação musical européa, refinada, que impede a aproximação do artista-flôr de civilisação – e a alma simples dos sertanejos, que ate hoje – por criminosa culpa dos governos – não passam de retardatarios, segundo a classificação justa de Euclydes da Cunha; ou será por não ter ainda apparecido um genio musical sertanejo, imbuido de sentimentos regionalistas, que, segregando-se de toda influencia estrangeira, consiga crear a musica brazileira por excellencia, sincera, simples, mystica, violenta, tenaz e humanamente soffredora, como são a alma e o povo do sertão.

Verdade que tanto a modernidade quanto a “verdadeira” brasilidade de Nepomuceno foram questionadas. A resposta acima, de 1917, também é verdade. Nada menos que um dos muitos inventores do samba, Alberto foi quem levou seu conterrâneo Catulo da Paixão Cearense para mostrar à elite carioca o que fazia um violão nacional. Foi quem abriu as portas para Ernesto Nazareth, quem divulgou um ainda jovem Villa-Lobos, quem forjou o belo canto não mais em italiano, mas em português brasileiro (para horror da crítica). Com efeito, todo o mergulho não só do Villa, mas também do Mario de Andrade, nas raízes da alma brasileira, existiram porque, antes, existiu Nepomuceno, que por sua vez percebeu a ideia da valorização da música de um país na gente do país com os franceses da Société Nationale. Natural do Ceará mas vivido, dos oito aos vinte, em Recife, na época de ouro da Faculdade de Direito e dos batutas dos ’70, Nepomuceno pode privar com a Princesa mesmo sendo republicano e abolicionista (como?).

Para curtir Nepomuceno, duas opções colhidas en passant no youtube.

Handy Zine n.1

Está inaugurada a série The Handy Zines, livretos de 12 lâminas em papel kraft com dimensões de 11 x 14 cm. São peças únicas montadas manualmente, interessadas em tocar o ‘hoje’ com alta eficácia semiótica e populismo sensorial. O idealizador do projeto e autor da primeira edição, Guilherme Coube, afirma em nota esperar um leve quem sabe rebuliço no mercado, apesar do preço “praticamente inacessível”. Novos artistas serão chamados a manufaturar as edições subsequentes, “desde que entreguem alta eficácia semiótica e populismo sensorial, isto é, desde que toquem, com denso e matador minimalismo, os discursos tópicos correntes e fabulem uma assembleia fruível com delícia”, explica. A presente edição, intitulada ‘O So Con & Troub’, fala segundo Coube das “dualidades inseparáveis do fazer e do poder”.

THZS-n1

dois recortes de coluna

A economia internacional modernizou o agronegócio brasileiro obrigando-o a respeitar padrões de qualidade. Contudo, quando operam no mundo do poder brasileiro, os empresários fogem do século 21 e aninham-se na primeira metade do 20, quando seus antecessores administravam matadouros.

A Operação Carne Fraca começou com um lastimável grau de amadorismo megalômano e espetaculoso da Polícia Federal, mas isso não convida empresários, mandarins e ministros a adotarem a postura arrogante dos empreiteiros no nascedouro da Lava Jato. Como ensina um velho provérbio napolitano, “seja honesto, até mesmo por esperteza”.

– Elio Gaspari hoje na FSP

PLANA 17 | sacola

É difícil dizer se o mix da sacola nossa será deveras representativo, pois a pergunta a seguir seria: representativo de quê? Ora, de um nosso rolê, se tanto, pelas frestas de tempinho n’algazarra do market. Foi o que deu para fazer, no entanto, seria dizer pouco. Digamos assim: nossa, nossa sacola trouxe as marcas de gravuras quasi-orgânicas, trouxe essa questão do simulacro-game, trouxe o simulacro meta-metá da (na/por/pela/sob/sobre/entre/em) filosofia dos filósofos, muito humor, remixed literature, o neo-portrait cptm, brindes e delírios. Valeu.
plana_17 sacola

uma portaria

PORTARIA Nº 886, DE 20 DE ABRIL DE 2010

Institui a Farmácia Viva no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS).

O MINISTRO DE ESTADO DA SAÚDE, no uso das atribuições que lhe confere o inciso I, parágrafo único, do art. 87, da Constituição, e

Considerando a Portaria nº 971/GM/MS, de 3 de maio de 2006, que aprova a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC) no Sistema Único de Saúde (SUS);

Considerando o Decreto nº 5.813, de 22 de junho de 2006, que aprova a Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos e dá outras providências;

Considerando a Portaria Interministerial nº 2.960, de 9 de dezembro de 2008, que a prova o Programa Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos e cria o Comitê Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos;

Considerando que compete à direção nacional do SUS identificar os serviços estaduais e municipais de referência nacional para o estabelecimento de padrões técnicos de assistência à saúde, conforme disposto no inciso XI do art. 16 da Lei nº 8.080, de 19 de setembro de 1990;

Considerando a Resolução nº 338, do Conselho Nacional de Saúde, de 6 de maio de 2004, que aprova a Política Nacional de Assistência Farmacêutica; e

Considerando a necessidade de ampliação da oferta de fitoterápicos e de plantas medicinais que atenda à demanda e às necessidades locais, respeitando a legislação pertinente às necessidades do SUS na área, resolve:

Art. 1º Fica instituída, no âmbito do Sistema Único de Saúde -SUS, sob gestão estadual, municipal ou do Distrito Federal, a Farmácia Viva.

§ 1º A Farmácia viva, no contexto da Política Nacional de Assistência Farmacêutica, deverá realizar todas as etapas, desde o cultivo, a coleta, o processamento, o armazenamento de plantas medicinais, a manipulação e a dispensação de preparações magistrais e oficinais de plantas medicinais e fitoterápicos.

§ 2º Fica vedada a comercialização de plantas medicinais e fitoterápicos elaborados a partir das etapas mencionadas no parágrafo primeiro.

Art. 2º A Farmácia Viva fica sujeita ao disposto em regulamentação sanitária e ambiental específicas, a serem emanadas pelos órgãos regulamentadores afins.

Art. 3º Esta Portaria entra em vigor na data de sua publicação.

PLANA 17 | relatório

As relações públicas da editora concluiu agora pela manhã o relatório final, conclusivo, do evento deste final de semana. Impresso e dobrado ao meio, ele se torna facilmente uma publicação independente. Confira.

UPDATE: O leitor Augusto Trindade informa o glitch não voluntário da reportagem: as dimensões mais acuradas do Pavilhão da Bienal seriam ‘um décimo de milésimo do estado do Piauí‘. Obrigado, Augusto!

relat-plana-17

um trecho de análise de partitura

A inspirada e perspicaz brasilidade de Villa-Lobos manifesta-se através de figurações rítmicas baseadas em danças populares e em ostinatos que ajudam a criar um ambiente sonoro denso e dinâmico que permeia toda a obra e sustenta o discurso musical, unificando as seções.

Nos Choros nº. 5, o suporte rítmico baseia-se em duas estruturas simples (Ex.5) e contrastantes que criam tanto uma atmosfera de embalo, de suave balanço, na seção A e na seção B, quanto de intenso dinamismo, no Desenvolvimento. Estas estruturas rítmicas são constituídas pela célula 3 + 3 + 2, e por uma figuração que Mário de Andrade vê como marcha: “A marchinha central … foi criticada por não ser brasileira. Quero só saber o porquê”. (ANDRADE, 1939/91, p.25)

A respeito da postura de Villa-Lobos em relação à grafia de ritmos, torna-se interessante transcrever um trecho de um delicioso diálogo ocorrido entre Mário de Andrade e Elsie Houston, em 10 de Junho de 1943:

– Mas qual é a teoria do Villa?
– Ele lá tem teoria! Mas garante que o cantador se move estritamente dentro do compasso.
– Eu sei. Já ouvi ele dizer isso, jurando que é possível grafar todo e qualquer ritmo. Veja os Choros nº 5.
– Não seja idiota, Mário. Então você acha que a execução estrita da grafia rítmica do Villa pode dar o movimento – eu falo movimento, hein! – da alma brasileira? (apud COLI, 1998, p.44, 229)

O aspecto mais interessante da obra reside justamente nessa necessidade de grafar a espontaneidade da defasagem que ocorre entre melodia e acompanhamento, tão comum na música cantada. Assim, a complexidade que Villa-Lobos estabelece ao mesclar o ritmo sincopado da primeira seção com a melodia em tercinas do primeiro tema, estabelecendo diferentes planos sonoros, torna a execução deste trecho particularmente difícil do ponto de vista técnico. Além disso, a figura se expande e cria uma aceleração na seção de Desenvolvimento, num ritmo que lembra o maracatu, o samba, o batuque e até o cateretê, imprimindo dinamismo e vigor a toda a estrutura.

– do artigo Fatores de coerência nos Choros nº 5 (“Alma brasileira”), de H. Villa-Lobos, de Carlos Alberto Assis, publicado em 2009

duas florestas

Hoje algo incomum se passou. Nada menos que meu ideal de floresta, na pintura, foi abalado. Eu tinha um ideal que julgava difícil, por motivos em miríade, ser superado por outra obra. As florestas de Segall, que tive a chance de quase encostar o nariz certa feita numa exposição no Rio, seriam não trespassáveis também por aquele ponto ótimo de abstração em que a figura se desmonta sem desmontar a sensação, a floresta sai da figura mas você não sai da floresta. Tal façanha é complicada. A razão de ser do movimento de abstração, enterrar a estrela e despertar o designer nos pintores, foi pronto confundido por estudantes que julgavam enterrar a figura apenas para fazer rebrotarem-se estrelas sem desenho, e tamanha traição atrasou demais a nossa história. A floresta crepuscular de Segall, datada de 1956, vivia em mim como um desses marcos que colhemos ao fruir atentamente os objetos de arte que nos agradam, seduzem e fazem pensar, comparar. Bola pra frente, eu dizia, se a floresta mais boa foi pintada em 56, pintemos outras coisas, ou pintemos mesmo outras florestas sem pretensão, façamos de nossas florestas estampas de almofadas, ou deixemos que computadores componham por nós impensáveis, belas e assombradas florestas. Um desses problemas gostosos de ter, não é? O esgotamento da floresta na pintura em Segall?

floresta segall

Doce inocência, suave engano. Hoje dediquei parte da tarde ao folhear tedioso de um imenso livro de Gustav Klimt. Klimt? Que sei eu de Klimt? O homem do amor entre um homem e uma mulher, o homem dos mosaicos dourados e pretos, dos quase perfeitos brotos fractais, do beijo e do boato de que andava sem cueca. Pois. Indo indo a folhear o grande livro, enfrentando lá suas pinturas apenas razoáveis que valem unhas de Monet, pelinhos de Münch e

birch forest

dou com ESTA floresta. Que há de mais nessa floresta? Antes de pensar, ouça isso: eu pensei em ecto-glitch art. No que dei com os troncos, a relação numa palavra absurda entre musgo e revelação descascada, verde túrgido escuro e cinza computacional plasmático, não pude crer que aquele homem era, no fundo, um palhaço. Agora pense. Procure o que te espanta e então enfrente, nos troncos da floresta de Klimt, a vertigem das turquesas gêmeas, do tapete preto e dourado, das faces assombradas, do ecto-glitch orgânico, pintada em 1903.

Touro Bengala Printa

Oferta pública da peça Compostura & PacMan, arte digital realizada em fevereiro de 2017 por Guilherme Coube. Impressão de alta qualidade em fibra de algodão, 37x32cm, entregue na moldura. Cinco unidades numeradas e assinadas pelo artista. Para mais detalhes, escreva para casa@tourobengala.com

compostura&pacman2017

dois poemas

Fotografia

As frutas quando caem
amadurecem vermes
nas nossas barrigas.

Como são tristes as horas
se não são janela
interrompendo o bairro.

Queria compor um poema
todo hiatos e risos
(todo infância, águas mudas).

Queria, irmã, compor-te luz
e não guardar essa noite.
Teimo, porém, e componho

mãos

de lenta lida de amor
que devagar irrigam
as nossas fotografias.

Rafael Zacca (1984)
(poema da coleção Kraft, Cozinha Experimental, 2014)

––

o erro

não, eles não podem me culpar se meu erro foi, apenas,
ter comido meu próprio uniforme
e ter rascunhado 54 vezes as arestas
de uma única saída para a praia

haver crido que éramos presos
tê-lo escrito com meu sangue
em lençóis azuis
e perseguido, em um sonho, uma cadeira sagrada
com etiqueta e um nome
e ter plantado o eterno em jardins suspensos
cujos mecanismos das sementes
eu mesmo parafusei

se meu erro foi, percebendo que saía leite de meu peito,
bebê-lo e me esquecer
das papoulas

Sarah Valle (1990)
(poema da coleção Kraft, Cozinha Experimental, 2014)

três sambas de escola de 1972

1. Martim Cererê – Imperatriz Leopoldinense

Foi um ano marcante para a Imperatriz Leopoldinense, e de carnavalesca fortuna. Era a chamada época de ouro dos sambas de escola no regime militar. Zé Katimba emplacou com Gibi um enredo simpático e nacionalista, baseado na epopeia cosmogônica ingênua ‘Martim Cererê’, do modernista de direita Cassiano Ricardo. A melodia é uma das mais belas do samba brasileiro, e o andamento fica no rancho confortável, isto é, abaixo dos 130 bpm. Só assim é possível curtir os timbres da bateria. Acima dos 130, eles se embolam e o charme escorre. A cadência deste samba típico de escola (otimista, de fácil decorado, canônico na apresentação dos elementos atabaque, cavaco, surdo e coro) dá vontade de marchar em sua beleza continente. Acontece que a Rede Globo de Televisão adotou a música, e, pela primeira vez na história, um samba de escola virava trilha oficial de novela. No caso, a novela das 10 ‘Bandeira 2’, escrita por Dias Gomes e dirigida por Daniel Filho e Walter Campos. A trama sobre jogo-do-bicho se passa no bairro de Ramos, zona norte do Rio e nascedouro da escola Imperatriz. No elenco, Paulo ‘Gracindão’ Gracindo em memorável interpretação, Grande Otelo (no papel do próprio Katimba), Ary Fontoura, e os jovens Marília Pêra e José Wilker, que se casam ao fim da gravação.

2. Ilu Ayê – Portela

É um dos primeiros sambas de escola cujo enredo trata poética e etnograficamente a presença negra no Brasil. A letra é primorosa em seus enxertos nagôs e na delicadeza da história que conta. Depois de chorar lamento na senzala, o tempo passa e, “no terreirão da casa grande / negro diz tudo o que pode dizer”

é samba, é batuque, é reza
é dança, é ladainha
negro joga capoeira
e faz louvação à rainha

Clara Nunes gravou o samba Ilu Ayê, mas ficou muito rápido e assim difícil de gostar. Mônica Salmaso gravou com mais vagar no álbum ‘Voadeira’, e resultou elegante.

3. Onde o Brasil aprendeu a liberdade – Unidos de Vila Isabel

Quem sabe é este, o refrão mais bonito dos sambas de escola. Assinado por Martinho da Vila, o enredo presta aceno à Festa da Pitomba, comemoração pernambucana da vitória sobre os invasores holandeses nas batalhas travadas no Morro dos Guararapes. Diz o refrão:

Cirandeiro, cirandeiro ó
a pedra do seu anel
brilha mais do que o sol

É empolgante, justo quando a questão da ciranda (o que é, como faz para entrar/sair) frequenta as dinâmicas dos dispositivos sociolinguísticos em seus contextos variáveis hoje. Martinho da Vila regravou o samba em outras ocasiões e cadências, sendo a mais conhecida em parceria com Beth Carvalho.

por bolsa reversa em tradução

Porque o mercado dos livros carece mais de novidade e oxigenação em todas as suas presenças (ver os 4, 5 ou 7 ‘P’s do marketing em Kotler et al.) que das rotinas de repetição de subsistência dita profissional apenas. Porque o ofício da tradução pode ser decisivo para manter no jogo um autor em potência numa terra que enfrenta a leitura. Porque a formação do tradutor é, antes, a formação do poeta, donde o medo ante a ‘especialização’ limpinha (“neat”) vir coberto de razão. Porque a relação obra-tradutor-obra’ marca e fica e assim se desdobra e floresce mais intensamente quando é matéria de episódios afetivos difíceis de prever, mapear, travar, encomendar, e esta é uma barreira (estará o tradutor mais certo para a obra tal longe das evidências?) mas também uma oportunidade (não foi fácil achá-lo mas agora a obra traduzida pesa tanto quanto ou mais ou diferente que a original, não é uma sua mera licencinha (“its timid proxy”) e o editor se vê premiado e não apenas pago, deu seis horas, fui (“when all of a sudden he dropped his pen”)). Na bolsa reversa, as editoras listam as obras que pretendem traduzir e os tradutores dão seus lances. Um lance pode ser um documento composto: excertos exemplares da obra querida, pretensões de cachê-cronograma, justificativa from : to, por que eu? Expansão meritocrática e falação (“buzz”) a respeito desse novo modo-operação no curto prazo, incremento da qualidade poética das obras traduzidas no médio, fortalecimento do arsenal de tradutores e da cultura geral de tradução no longo, as consequências.

dois poemas

A partir das águas

No tempo em que
        o saber vivia à beira d’água
O homem estava bem,
        na indolência agradável de um prado
                com ensinamentos azuis-celestes.
Seu pensar seguia o voo dos pássaros.
Seu pulso batia com o pulso das árvores.
Ele seguia o tratado das papoulas.
As ondas da extensa correnteza
        batiam no abismo de suas palavras.
O homem
        adormecia
                no colo dos elementos.
Pouco antes do nascer do medo
                        ele despertou.

Mas às vezes
Ele transformava
        a estranha canção do crescer
                no pulso terno da alegria.
O joelho da ascensão
        afundava-se no pó.
Outrora
O dedo da evolução estava
                Só
                 Na exata geometria do sofrer.

– Sohrâb Sepehri, Irã (1928–1980), tradução Juliana P. Perez
(poema publicado na revista Poesia Sempre n. 32, FBN, 2009)

Passo um ninho de andorinhas
Duas ou três cosmogonias
Minhas pílulas contraceptivas
Não sei quantas obras-primas
Uma merencória mordida
Minha gravata minha camisa
Passo umas carícias esquisitas
Minha frota submarina
Uma viagem só de ida
Não sei quantas semanas de turista
Meu miligrama de ternura
Uma tarde só neblina
Aquela luz daquele dia
Aquela luz daquele dia
Aquela luz daquele dia

Danilo Bueno, Mauá, SP (1979)
(poema do livro ‘Para viver automaticamente’, Córrego, 2016)

dois pensares

Decerto a história do socialismo europeu, ao longo de seus quase 200 anos, é o maior e melhor exemplo da esperança por justiça posta em prática. Mas há uma diferença entre essa história e Marx. Eu concordo com Kolakowski quando ele diz

O apocalipse da crença na consumação da história, a inevitabilidade do socialismo, e a sequência natural das ‘formações socialistas’; a ‘ditadura do proletariado’, a exaltação da violência, a fé no efeito automático da indústria nacionalizante, as fantasias de uma sociedade sem conflito e uma economia sem dinheiro – tudo isso não tem nada em comum com a ideia do socialismo democrático. O propósito deste último é criar instituições capazes de gradualmente reduzir a subordinação da produção ao lucro, eliminar a pobreza, reduzir as desigualdades, remover barreiras às oportunidades de educação, e minimizar, ante as liberdades democráticas, a ameaça do estado burocrático e das seduções do totalitarismo.

Como muitos de nós social-democratas anglófonos, Kolakowski não considera Marx o epítome do socialismo, mas uma sua distração. Não só porque Marx era deslumbrado pela filosofia, nem porque ele teve o azar de ser usado como volante de toda uma galeria de tiranos sanguinários, mas sim porque ele não explica muito bem como criar instituições que possam dar conta das diversas tarefas em aberto. A talvez única sugestão construtiva de Marx, a abolição da propriedade privada, foi tentada. Não deu certo. Agora é pois difícil achar aquilo que Derrida chamava de ‘imperativo político’ em Marx – seja este um imperativo mais específico ou mais inovador que a velha, velha necessidade de impedir que os ricos sigam roubando os pobres.

Richard Rorty, trecho do ensaio ‘Um espectro ronda os intelectuais: Derrida sobre Marx’ (in Philosophy and Social Hope, Penguin, 1999), tradução minha

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Penso que dar à gente que clama por liberdade o poder de organizar-se é bem diferente de aumentar o poder de organização daqueles que só querem controlar (geralmente porque já estão no controle).

Quando a gente sem poder ganha poder, nasce uma diferença de modo. Quando os poderosos ganham poder, há uma diferença de grau. Poder onde não havia poder é bem diferente de um pouquinho a mais de poder onde o poder já estava concentrado.

Não acho que o fim dessa história possa ser predeterminado. Em dias ruins, fico gelado só de pensar até onde poderia um déspota usar a tecnologia para espionar sem falhas e coordenar sem falhas um exército de bandidos.

Mas mesmo nesses dias ruins, acredito que a melhor resposta a este medo seja a posse dos meios de informação e a garantia de que os benefícios da tecnologia sejam distribuídos a todos, não só aos poderosos. A recusa a se engajar com (ou proteger) a tecnologia não implica que os bad guys não vão usá-la–mas que os good guys vão acabar desarmados nas lutas por vir.

Edward Snowden, nossa autoridade solitária e confiável no que diz respeito ao poder das agências de espionagem, afirma que a criptografia funciona. Tecnologias de rede boas e seguras permitem que a gente no dia a dia possa falar entre si com tal grau de segurança que mesmo as mais poderosas e aptas agências de vigilância do mundo falham ao tentar espionar. Qualquer coisa que consiga manter fora os espiões também pode manter fora os golpistas, os voyeurs e outros esquisitinhos.

Noutras palavras, é a primeira vez na história da humanidade que a gente comum consegue coordenar entre si o que deve e pode ser feito sem se preocupar com intrusos na comunicação a corromper ou atrapalhar. Tal é o benefício da tecnologia, além de qualquer preço, um tesouro cujo valor não tem precedência na história.

Mas tal benefício será nosso conquanto a infraestrutura seja livre e justa. Será nosso somente se superarmos a narrativa Hollywood-versus-Google, se resistirmos a que nossa produção seja parasitada a serviço da censura, da espionagem e do controle.

Cory Doctorow, trecho do livro ‘Information Doesn’t Want to Be Free’ (McSweeney’s, 2015), tradução e ênfases minhas

COMUNICADO IMPORTANTE

a fofa da Lucila quer ser mestre

Este comunicado importante visa tranquilizar a cadeia produtiva na qual se insere a Touro Bengala Livros Fictícia, de autores a papeleiros e feirantes. Nossa funcionária do mês de abril, Lucila, vinha chateando alguns gestores por sair, bem ou mal, no horário combinado. Se ia ou não ia parcelar no cartão peças da zara depois, sinceramente não nos compete. Deixa a Lucila.

Ontem de madrugada ela ligou e tive que por duas vezes que ela não falasse como secretária, mas como filha, amiga e principalmente irmã, princesa da baia não justo do lado, mas três baias para lá. Eis o drama. A moça quer licença remunerada para mestrar-se na baixada fluminense. Eu ri. Lucila, disse, mestrar é possível, sempre é, tanto mais se for possível. Mas com a uninove aqui ao lado, há que ir àquelas serras indistintas? E ela, Você não entende. Eu reviso seus contratos por email, qual o problema? Bem, Lucila teve amnésia pois é ela quem me traz o cacau e o papaya desidratado da rua santa rosa, coisas que não vivo sem. Certo, Lucila (ela tem 22 anos, a rádio peão insiste que é amplamente virgem), você prefere mestre ou mestra? Ela desligou. Uma razoável funcionária talvez, neste momento, vai caindo pelos dedos de seu role model paterno, espôsico e artesanal. Que vá? Horas depois, eu sem dormir por confundir no escuro a ulmária com o ginko, brota um email da engraçada. Não vou comentar. Vocês avaliem, por favor.

Assuntos urgentes da seara da Lucila podem, desde já, ser encaminhados à Ramira Casablanca no email casa@tourobengala.com

Desculpem a bagunça.

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from.. Lucila Java
to.. “bossy-grumpy-daddy”
assunto.. Projeto de Mestrado

Glee, seguinte. vou aplicar em 74 instituições da baixada. numa vai dá certo. segue o one page do projeto

bsous, v se dorme queridoooOOoooO,,,

xLoCxLo

 

PROJETO DE MESTRADO

por Lucila Java, 22, amerínda castanha, solteira

TÍTULO

A Gueixa e Hilda Hilst, Alice de Carroll e Roberto Piva, Mafalda e Pagu, Liza Simpson e Cecília Meirelles, Riot Girls e Ana Cristina César: princesas populares e seus duplos literários, rosas-dos-ventos solteiras.

MÉTODO

– O duplo literário é um convite à suspensão da descrença.
[o corpus de texto universo de cada personagem é considerado literatura em bruto, enquanto a obra de seus duplos a projeção polida da mesma expressão, dos mesmos desejos e do mesmo ser]
– Música e rosto, ave e silêncio — uma cabala particular.
[o ferramental tradicional e esquivo da arte cabalística opera nas ligaduras entre os caracteres do corpus e da poesia dos duplos, assim como é torque analítico dos contornos arquetípicos, transformações, mitografia e impacto das princesas populares em nossos espaços. do Leste (I), a música faz eixo com Oeste (III), seu rosto e irmão. do Norte (II) a ave é mãe que se afasta do Sul (IV), onde reside o pai em silêncio. cada uma das cinco princesas populares é e não é senão relação com, cada um dos quatro vetores principais da rosa-dos-ventos].

OBJETIVO

Esborçar, a partir do corpus atribuído a cada princesa popular (folclore para a Gueixa, romance para Alice, Banda desenhada para Mafalda, TV para Liza e performance politica disponível em registo digital na internet para as Riot Girls) e de excertos avulsos de seus duplos literários (os autores brasileiros Hilda Hilst, Roberto Piva, Pagu, Cecília Meirelles e Ana Cristina César), cinco estratégias de reconhecimento, singulares e complementares a uma vez, face às ruturas do feminismo e a morte do indivíduo contemporâneo.

BIBLIOGRAFIA PRECOCE

a obra dos cinco duplos
a crise da filosofia messiânica de oswald de andrade
o antiédipo de deleuze
o estranho de freud
las trampas de la fe de octavio paz
obras herméticas, oculistas, indexadas e neoplatônicas
o tarô
o circuito dos afetos de safatle
metafísicas canibais de viveiros de castro
demasiado humado de nietzsche
modos de existência de latour
a obra de john keats