Retórica filosófica rende mais no Direito

A modernidade, período entre a revolução da Idade Média e a internet caracterizado pela cessão, da Religião à Organização, da fábrica dominante de vocabulários e valorações, pôs três desafios à filosofia: tratar da saúde mental com a psicanálise, desmistificar a política com a sociologia, simplificar o Direito.

As duas primeiras tarefas estão resolvidas. Muito do que era problema mental passou à materialidade da terapêutica preventiva. Paralelo, muito do entulho ideológico rendeu-se à organização empresarial da agência pública.

O desafio diante de nós, desde as profundas raízes filosóficas até seus duvidosos semblantes, agora, é a codificação da vida comum.

Vale a pena ler, em Cinco Nomes Brasileiros, a visão da personagem Gonçalves Ledo sobre a evolução jurídica. Não vou me repetir, mas numa casca de noz sua tese é a de que um Direito que nasce belicoso, adensa-se natural e matura contratualista, pode rumar, tecnologicamente, ao lugar novo do ‘universalismo estimulante’.

Cansado das ineficiências do prestidigitacionismo e do punitivismo (as fraquezas da fala que teme muitos erros e fantasia punições), esta importante ferramenta que garante a prosperidade na complexidade pode exercitar a possibilidade de, sem deixar de balizar, estimular em primeiro lugar.

É importante entretanto que a ânsia não se imponha à espera aplicada.

Pendularmente falando, será ora mais da ponta escolástica da exegese católica que a cadência virá. Ou, mais natureza e ecologia, menos cidade e economia.

A retórica, produto citadino, é um dos objetos que saem perdendo para viver.

O que era um desafio, assim (largar os vícios da psicanálise e da sociologia), viram dois (largar os vícios da psicanálise e da sociologia + fazer sucesso com o filho do Homer Simpson). Não porque de repente ele é capaz de ameaçar, mas pela oportunidade aceleracionista inoculável conforme aproximações felizes aos fluxos hipertextuais.

A perda maior da fala filosófica é a ironia. Toda e cada ambiguidade inoperante assim as acusam bandeiradas graças à prevalência da maior inteligência nas redes neurais.

A segunda perda advém da intolerância deste Espírito Santo que se tornou a inteligência nas redes neurais. Está castrador viver fora do camelô, numa casca de noz.

Então, quando anunciam coordenação de espelhos no espaço para mensurar a massa escura, ou quando pousam robôs em cometas, cada homem e mulher questiona à noite em sua solidão tremenda e bela no milagre da vida o que o camelô teve que ver com tais façanhas.

Nosso poder tocaria projetos tão difíceis? Influenciar estudos de décadas e bilhões nas mãos de poucos, é coisa nossa?

• • •

A fixação pelo poder de não morrer e prosperar (grandes achados da psicanálise e da sociologia) fez a gente confundir, graças ao Direito defensivo demais de um mundo que cresceu, no temor das diferenças, conquistando, soberania do sujeito com chance de submeter: será pela decadência do outro que restarei eu contente.

A culpa é da fala do Direito, cuja maturação em má postura talhou a transgressão à imagem do desejo.

Não é segredo para ninguém que num país como o Brasil, ou se segue as leis certinho, ou se tem muito dinheiro. Nenhuma das duas coisas não dá.

Tal clichê é sintoma da inoperância (erro, excesso, ou bug) deste incesto: as leis são a sala de espera do mercado.
De tudo o que a cultura inventou, o mercado escolheu a menos imaginativa das falas para desenhar seu círculo de giz. Dentro, pode brincar conosco. Fora, vença-nos. Por quê?

Porque quando herdou o mundo religioso, a organização econômica comprou, na lebre da influência, o gato do militarismo.

Este ‘fora’, enquanto ‘fora da lei’, não raro sucede, em nosso imaginário, no ferramental militar da execução, da sujeição e da conquista.

O Direito, guarita da vida na cidade, dá forma aos sofrimentos do medo radical de morrer e de ser passado para trás na tensão reta e binária, hierárquica e sumária, entre gozo e transgressão.

Fecha-se, assim, a tríade marmórea, ou material da arte filosófica moderna.

• • •

Dissociar o Direito de seu quadrado romano, porém, não será apenas regredir a conversa ao encantamento da intelectualidade mística, por mais voga que essa contracultura hoje cultue. Será, inclusive, ler nas utopias contemporâneas os futurismos esforçados em fazer mais com menos.

Método, disciplina, mensuração, controle, eclodem dos mosteiros à burguesia mas aqui esmaecem. Por quê? Porque vulgarizam-se quando associados às ansiedades?

O romance, quando equivalente ao Netflix, nasceu didático e não resistiu à decadência e à autoimplosão. Sua jornada tão rica pode ser lida também como sintoma: a tristeza do poeta (o espírito do tempo) diante da apropriação econômica da nobreza das campanhas de conquista de mercados e aculturação via consumo era uma traição militar. Por isso recolheu-se à símile da loucura e do abandono, o romance, até sumir.

O que nem os poetas, no entanto, poderiam imaginar naquela altura, é que a nobreza do Cruzado se safava naquilo tudo o que, em verdade, precedia as campanhas mas nunca as acompanhava. Aquilo tudo que São Inácio vê quando pendura as armas e vai à obra: proceder é

com ordem e concerto, e com a faculdade íntegra para fazermos constituições entre nós, segundo nosso modo de viver julgar mais conveniente

Para que entendamos a importância de se aplicar hierarquia não nas distrações, mas naquilo que importa, leiamos com calma o que diz São Inácio.

Ordem e concerto são o princípio desta recomendação, recolhida de correspondência pessoal datada de 1539, quando nascia a Companhia de Jesus. Conceitos indisputáveis a qualquer razão, ordem e concerto frequentam os cumes da relevância ocidental e também eurasiática e oriental — prova de um universalismo, pretendido ou não, real.

Em seguida, predicado e verbo indicam as duas colunas do engenho civilizacional: apenas o discernimento ideal tirará da ação o bom fruto.

Por fim, um misterioso açular, também confundido, mas sem inoperância, com a facilitação ou o estímulo: nem final, nem teórico, o moralismo do dia a dia é sobretudo contextual.

Lembremos: apontar um sítio não é chegar lá. Jornada é gozo contínuo, mas confronto tende ao elogio da burla.

A espera a que nos guardará a revolução do Direito na era da internet será esta de passos rumo à bioconstrução dos códigos universais, termo a termo, linha a linha, Estado nacional a Estado nacional.

_ _ _

Quem do barro é pulso e carta
Lacrada na cera canto
Hélice debruada no sol
Calor, feitiço aro e sorvo
Libra de rádio decente
Cúspide escada fremente
Laivo cão, felino esforço
Cosme rastilho sem áspide
Voga Damião sem repente
Rente dum Cosme sem rafa
Tato yá Doum sá y semente

— — —
Poema de Samba de Pombo, livro a sair pela Touro logo mais.

Weissbrod

Mais uma daquelas breves e maciças pestanas no meão da tarde. Cinza do céu guardado na friagem, ventre da casa em silêncio, ciência que regressa ao corpo débil sem pressa e desembarca a alma da imparidade onírica. Não sei dizer quanto estive aqui, não vejo tão fácil as cifras da convenção neste cômodo, estância da vida infantil, canto de cidade esquecida. Arrasto das meias os pés até as amplas janelas ao sul, cruzo com trêmulos abraços egoístas a saleta de jogos. Seco de capim, fuligem de queima de cana, poeira de cerrado, trilho duros e deslembrados da saudosa Noroeste lá no vale. Coisa rara ver um trem passando ali, tão bom quando acontece. O sino batendo sonso, o lapso modorrento da máquina, mistério quem saberá tenebroso dos vagões de carga tão grandes e vazios, de carga e de portas vazios de teto e de marcas, vazios de guarda, razão de ser e funduras. A mente se recompõe quando contemplo. Distância sobre-humana. Pontos múltiplos pensares do terreno agudizado, revide das noções e sem pressa da pessoa as memórias se encaixam afloram assistidas por um ser que saberá o que todos e tão mais vastos outros souberam divinizaram supuseram saber do inscrito que legou tanto pensar. Ontem, aula de piano. Hoje, quarta-feira.

*

Quarta dia crucial. Perdê-la este erro de novo e de novo sofrido se o bom é dobrar a semana com quatro no mínimo dias de prática. Às quartas, não só mais frescas a explicação das lições e a urdidura das peças mas as mãos vão bem melhores mais quentes e destras graças à tutela de ontem.

*

Querer praticar o piano sem piano em casa é transtorno que precoce dizima inúmeras esperanças. Dá entretanto às que persistem chance exangue de criar, entre incômodos e escusas mais ou menos inconvenientes, um arranjo capaz de garantir bilhete, ainda que de segunda classe, nos veios mais ou menos triunfais daquela busca. Comigo aconteceu quando diversas demoras e trocas fecundaram entre agregados e entes a revelação inesperada de um meio irmão da mãe da ex-esposa do padrasto, cepa distante e fortuita nas assembleias sanguíneas, mas de inequívoca e diria mesmo abençoada conexão espiritual. Chamavam-no Pai Antúrio.

*

Aos dez anos sabia o piano para mim habitar a estranheza doméstica do pé ante pé estranheza dentro às terças e às terças na casa da Rute. Estimulado por sequer haver cogitado tão íntimos outros e proximamente alheios interiores aos dez anos as idades de portas e plantas em vasos adventícios e pesados escolhas de pisos tapetes odores de cores tão distantes quem sabe crises de laços rupturas afastamentos temporários lacrimosas reconciliações e se era outra e tão entranhada em si cada casa que não fosse a minha quanto trabalho adivinhar o caráter do que via e tocava o olhar. Leve é o intruso amestrado jaguar até que assente, casa de Rute às terças, edícula do Pai Antúrio quando desse, o aluno que lhe cobram. Nesta um velho piano alemão de armário resiste afinado, visitado pelo século e nada mais. Outro esforço entre a caminhada até sua casa, pasta azul debaixo do braço, e a travessia dos números Czernys, escalas, minuetos e cirandas brasileiras na prudência inabalável do invasor quiçá bem-vindo, largamente adstringente quando tantos vasos inopinados, pisos remotos, maçanetas burlescas ao repertório interpunham-se solícitas como pontos na lição de uma língua sem verbo, língua da pura dureza do toque nas formas e motivos que a custo bailariam pontuais e familiares na vida de um ser de dez anos ao piano.

*

A pasta azul de polietileno sanfonado fechada em elásticos pretos resistiu por oito anos de prática indo e voltando em meu colo quando era a mãe quem à casa da Rute levava e lá na maior parte das terças às duas da tarde eu chegava dormindo, despertando suavemente quando o carro estacionava e sua voz, Força, filho, suave e dócil. Meu corpo renovado e alegre do transporte nem sempre cumprira os quatro dias mínimos desejados de estudo, e tal cincada atormentava o ânimo, angustiada contrição pois tanto era trair a benevolência escrupulosa e interessada da tutora, manchar com a ilusão de um ruído moroso a semana, moroso e sem valor, relapso e vadio, obtuso e desalentador, eis os passos do carro da mãe ao piano, cruzando da Rute a imensa garagem cujo portão restava aberto à espera dos alunos, lajotas de argila abrasiva num piso amiúde molhado, folhas caídas secas não restassem também elas molhadas pelas lavagens talvez diárias, como saber se só as terças-feiras conheci daquela casa? Manejo portanto sem duras provações ou pressões ou trancos na pasta aplainada, oito anos indo e voltando em meu colo na Belina preta e então no Vectra marinho, em contraste com as ó tão atribuladas caminhadas da casa dos pais perto do vale ao lugar do Pai Antúrio, dois quilômetros de tensões afetações latidos misturados aos tenso rebuliço e desgaste alongado, dois que pareciam seis, quinze quilômetros e junta pegada no corpo a pasta azul piscina, broquel sanfonado e boia de um menino esgatanhado surrealismo dentro seus pretos elásticos aos poucos bambeando menos hirtos semana depois de semana em que não ter um piano e cursar dignamente a iniciação musical no instrumento faziam dessa breve travessia da casa dos pais à edícula o lúdico jogral esmerilhado e distorcido e acirrado em que o que se alterava e bulia na mente deformava-se na pasta.

*

Empurrva o portão encostado da casa térrea de sete metros de frente por cerca de vinte de fundo e cruzava a garagem de porcelanato ocre rabiscado por folículas de samambaia sem vestígio de frequência de automóvel quando interceptou-me Dona Benta, pele escura como a de um jatobá e polpuda em seus sessenta anos de firmeza, pano claro na cabeça e sorriso fácil, largo e averiguador, que passasse, menino, que o menino passasse, deixasse ali no quartinho a pasta e pronto lavasse as mãos, antes sequer de abrir o piano, tocasse o quanto quisesse. Lá no fundo Antúrio não teria como ouvir, pois se dorme aquele um é porque dorme que nem pedra não que nem montanha e não tem zoada que o acorde, dorme desse tamanho desde pequitico miúdo campestre, de criança lá em Assis pergunta quantas vezes a mãe não teve que levar a cria na Zoraia feiticeira dos bálsamos se não foi só as que eu vi de estar lá pra mais de vinte isso de criança que depois no seminário fez que fez e que dormiu tamanha dormilança até ser bem expulso, diziam lá os rapazes dominicanos que o que dormia o homenzinho era colosso, sentado dormiu, dormiu ajoelhado em pé andando, ceando no bancão das mesas dormiu jardinando era tum caía com a fuça na terra fofa e na hora carpindo dormiu estudando passando leitura instruindo dormiu cantando no banho marchando em procissão defumando imagem dormiu nas mais delicadas horas dos missais e não tinha quem por aventura o acordasse, não sabiam condição neurológica genética ou picada de mosquito ou mais bem deixar ele cafungar uns cajus que era isso só isso que acordava o cristão, fruta sua amiga dessas datas até hoje vai ver lá na fruteira tem caju e sonho de valsa, o senhor querendo já sabe mexer já no piano? Querendo e não souber a gente entra pra dentro e eu levo lá meio caju no fundo último quarto ele tum, cafunga e acorda desdizendo de contrário os sonhos e você tira o que tiver de dúvida de mexer nos mecanismos do instrumento, que quer tocar o piano você é por própria vontade sua? Era a própria bruma da fuga da lua da rua, a desgraça, marido dormiu nas jantas nas núpcias em um e cada um de todos os partos nas reuniões de família dormiu Antúrio em uma e cada uma das sessões de conversa de casal que o juiz mandou e depois em uma e cada uma das assembleias do divórcio na frente dos advogados ela uma santa falante o marido tum tum tum dormiu queixo na mão orelha no ombro mais ela testa no braço mais ela barriga na coxa envergonhando a senhora nos bailes nas jantas nos saraus nos hotéis nas viagens e municipais, o menino desse um tamanho não gostou do futebol? Ou não levou jeito? Quando vi, Dona Benta lavava meus bracinhos arranhados num cacto enquanto fugia minutos atrás de uma matilha lazarena com odor de rosas da Phebo e esfregava de que era dentro e fora remexendo aprumando circulando e espalhando o gostoso no corpo de reflexo, como fosse dela o filho o braço o risco do arranhão conjurando medicina e natureza Dona Benta esquentando tateando relaxando o menino eu que dali alguns segundos sentaria no Weissbrod preto 1908 do Antúrio a fim de dedilhar os primeiros exercícios. A edícula, tecnicamente, era um puxadinho frontal, quarto novo de nove metros quadrados acarpetado em que o Weissbrod preto 1908 encaixava-se insular e magnífico entre as colunas chão a teto de livros velhos álbuns Manchetes catálogos e partituras, toalhinhas de crochê matriciando nacos multicoloridos das mais diversas pedras brasileiras.

*

Pouco ou nada vi do Pai Antúrio nas primeiras semanas. Igualmente pouco ou nada vi do Pai Antúrio nas semanas seguintes, e nas seguintes e conseguintes semanas daquele ano de 1988 quando novíssimas conexões sinápticas alterariam para sempre a estrutura deste um ser em movimento, da percepção em contato com o têxtil real do mundo, motricidade empenhada em tocar os toques do topos parir ritmos reconhecer padrões, 1988 que abre caminho ou diverge, no ninho jornada da prece da crescida vida os quinhões do não instrumentista à dita graciosa do instrumentista, conhecedor do pensar musical e da potência calada e plantada no fundo das fortunas sonoras. Fiando-se quem sabe duns acasos fenecidos de malogro, sortes cabais e tênues, coragens trombudas ainda que em corpos de cristal e azar, ter de no diário do erguer-se para se dar em prova e bênção ao mundo seria de 1988 em diante erguer-se para se dar em prova e bênção mundo estrelas, mundo formas prenhes e naturas de clarões números estrépitos porosas linhas fraseadas firmas de fugas e afãs por amor de desenhos caprichosos complexidades e harmonias repensadas, alargadas, sustentadas, picadas, distendidas. Quando finda o corpo e o tudo ou nada do jogo e da leitura começam os dedos perfariam de 1988 em diante o reinício de um fabrico de auspícios cruzadores e fronteiras formadoras, volteios e restituições de desovas, cálculos e esquecimentos de treinos e perdas, certezas e brancos que dão. Digo pouco ou quase nada porque do banco em frente ao Weissbrod preto 1908 em que sentava por duas às vezes três horas mediando a leitura, traduções das notações do pentagrama em movimentos de esguelha fisguei, anzóis dos olhos lépidos, a massa móvel densa e volúvel nas penumbras da sala de estar, troncos indo e vindo que na baixa claridade das cortinas descerradas poderiam muito bem ser Pai Antúrio. Ou Dona Benta.

*

Nada nem ninguém me tira do centro daquele canto de um bairro limítrofe da vinda interiorana onde cresci e divergi meu caminho, senda cogitada num temperamento novo e radiante, nem não instrumentista, nunca mais um não instrumentista para quem a música é coisa de palco e comércio e não cadência inescrutável do sangue calado mas pulso do contínuo, amigo fantasmal das horas abertas em adivinhações e demoras mergulhadas em febre sã e vadia. Tampouco um instrumentista oficial, por assim dizer burocrático, encarregado e cobrado por ser a denominação antes da canícula, o sucesso objetivo antes da perdição acolhida em ilhéu num mar de termos nomes trocas e calções verbais e frios. Aquilo, porte-semblante impreciso, tronco subaquático fisgado de quando pelos olhos esguelhados ligeiros do menino ao piano, Pai Antúrio ou Dona Benta sem mais nem menos aportam na moldura dos batentes da porta estreita do quartinho puxadinho numa tarde de denso mormaço de março de 1990 às quase quatro em ponto da tarde corpo tronco todo porte-semblante panos brancos pelos brancos óculos manchados de amarelo sorriso plácido majestoso e afável trato, qual buscasse qualquer coisa na bagunça, licença, levanta e desce pilhas de papéis move pedras e murmúrios, diz enfim, como eu seguisse apreensivo, Bach é mão esquerda, onde está sua mão esquerda, a direita conheço, lá, senta a meu lado a orientar generoso e sintético tardes de estudo performático apontando as mais baixas frequências de que se ocupa a mão esquerda. Sinalizo à direita este som, o baixo, coração do harmônico, tinta interior.

Deixa

Sentar e escrever, para Homero, consistia liame e despertar de um esforço conjugal em tudo inesperado, inconsulto até nas mais dispendiosas cartomantes, e resistir às tentações de abraçar um litrão de vinho e debulhar o gogó nos versos safos do herói seria imprudente, imprudente seria aferroar-se agora, depois dos anos entrados neste século revisionista, revista Fapesp, Base de Alcântara, ascensão da classe D, aos hábitos acostumados mas antigos, charmosos mas obsoletos da oralidade folgazã que tanto lhe fez ponta e cartaz no teatro de revista, no teatro de arena, na escola de artes dramáticas, na boca do lixo, no teatro brasileiro de comédia, e não foi de outro modo que viveu, querendo comer e comendo tão pouco, querendo ter e ser quais forças de pontual convergência, vagando e orando, errando e tirando seu chapéu surrado, demonstrando e dando as deixas, atento aos pontos e às críticas, formando turmas sucessivas, empenhando-se na varrição, na lavagem da calçada, chegando ao capricho de tirar do próprio bolso uns trocados para eventuais reparos, troca de refletores, latas de lixo, panos pretos, caixotes e maletas dos brechós, pois não foi de outro modo que viveu, dândi e sem teto, enternecido e animado Homero antes do século virar e darem seu corpo e espírito primeiro com os cabelos, então com a abelha visitante, o creme da pele e os modos de mastigar, caindo nas primeiras noites da antiga e tão pequena quitinete ocupada na Rua da Consolação em dúvidas e confusões eu vejo o que vejo porque assim vejo, inquiria-se Homero, todas as mulheres? Mas. Dramaturgias que haveriam de circular gerações, fazer bilheteria, dar na imprensa, receber autoridades, e não era sequer pênsil cair assim um bardo abeirado aos sessenta em tão primário dilema, no que logo se fazia limpo das rotundas distrações, pós-barba e tamborilava sobre as notas das montagens paulistanas resmungando aqui e ali como quem vê não tão de um alto mas decerto um dedo acima os sucessores deslizando antigos erros vendilhadas vitupérios anti-literários benzia-se engolia e pronto partia, ônibus na Consolação, passo até a Praça do Correio, passos até a Líbero e lá o táxi grátis do seu chapa Olavo, viagem ouvindo notícia ou funkanejos, rindo os dois das modas e chegamos, pisca-alerta, escadinha escondida viaduto sem trânsito Avenida do Estado desce e bate um dos moleques sem eira recebe o chefe seu galpão, novo em folha todos os dias as manhãs em leituras, novos aprendendo, balbuciares, solicitando a explicada duns subtextos, as sílabas as vogais, as formas da boca os saltos do palato, refaçam e de novo, vai sozinho almoçar pois que a fome o faz santo e taciturno não fosse o encontro, uma vez, duas e três vezes, e a fantasmática frequência em seus vagares de bamboleio nos sonos, quem é ela um rapto uma força um nós uma dúbia estadia e circunspecta requisição ou que que faço se caço depois do mastigar augusto dos cabelos que chegou a cogitar, estupendo de tão básico, o creme da pele, morango, amoras, salsão, e a indiscreta indisposição a infringir as íntimas e invulgares indiscrições da inconsciência sem balanço nem estirpe, será comigo seu destino, será do meu chevette esta vaguinha, confuso e distraído os prazos as contas a pagar os comentários sobre a Long day’s journey into what se agora está clarividente e nua a plena fundura do alguidar tão sem alhos, tão sem cebolas, e assim que um dia não se aguentou foi lá perguntar Desculpe eu não pude deixar de notar a senhorita não só se recusa a tomar outros assentos que não este em que admira balançar o ipê roxo como escolhe ora cenouras, ora beterrabas, nunca as duas juntas, eu achei engraçado, não quero atrapalhar, mas não seria justo com a poesia prosaica dos dias de um velho poeta furtar a rapariga deste aceno gracioso tenha uma boa tarde, a que Regina Soprano não se fez de sufocada superou um leve engasgo meneando em negação acentuada a cabeça e abrindo um dos braços puxando uma das cadeiras Por favor Homero sente aqui, e eis que ela o conhecia, é cantora cumpriu suplências no Municipal, este mundo é pequeno, seu nome circula e num sem tempo ele deixava metade das caixas de sua vida para trás doava tralhas seguia por viver com Regina numa esquina de curva esbelta no Arouche, o prédio da Portela, como ela diz, Centro Madureira o Tietê é nossa praia interditada, vamos ficando, e apontava o azul branco recém dados, tinos de luz e elegância quantas árvores, já sei porque escolheu aqui, coisa de raiz e balanço, transformam-se nas estações e dançam galhadas, exatamente por isso, e se pouco mudou fora de casa a rotina do diretor do grupo Tens Tração?, dentro ele passou, convencido, numa anedota de fundo bastante sério e mesmo cortante, imposta pela governanta e nova parceira, a de que a poesia grega nasce para valer com os artífices dos epitáfios todos trabalhadores determinados à compostura do varejo, donos de forte aversão a romantismos e servos da lucidez competitiva, seu último texto bem recebido terá sido entregue há vinte e dois anos, Homero, é isso mesmo?, preciso retornar, não viver da velha imagem, sentar e fazer criar com indústria e com jeito ele se encaixa à mesa, há quanto tempo Deus do Céu há quanto tempo este poeta não fazia isso sentado, cotovelo no pinho, eu não sou um Goliardo?, não deixaria um Goliardo me frequentar assim, ela responde, o tempo é outro, o século entrado, a tradição oral da militância não colou, basta olhar, Linha Amarela, Fatecs, ciclofaixas, e riam-se afins de um tempo mais nos trilhos, depois fazes uns sarau, no fim do ano ou no outro, prêmio a teus esforços, senta aqui… e dormitavam, se querendo, Regina Soprano e Homero, diretor do seu teatro.

Da família: capítulo II.3

Na seção II, dedicada ao arquétipo da Mãe, o terceiro capítulo (Mãe Bahia) traz um texto dramático sobre a Insurreição Praieira. Como introito e pano de fundo, comentários sobre o poema Auto do frade, de João Cabral de Melo Neto.

LEIA AQUI O CAPÍTULO II.3 do livro Da família: um longo ensaio imaginativo

Da família: capítulo III.5

Neste capítulo, a ideia da escola é retomada com a ajuda do filósofo e educador norte-americano John Dewey. O elemento central, no entanto, não é a Escola, mas a Previdência. Questão longe de resolução no Brasil e no mundo, a perspectiva pública a uma sociedade que aos poucos envelhece merece novas e mais arejadas formas de ser discutida. Proponho, num breve conto de ficção científica, a criação de uma estatal (OZ) que irá empregar os mais experimentados cérebros da sociedade na função objetiva de regulação econômica.

LEIA AQUI O CAPÍTULO III.5 do livro Da família: um longo ensaio imaginativo

Da família: capítulo I.2

Aproveito o clima de transição, em que os assuntos circulam tensionados nas prioridades evidentes, para alimentar a discussão de uma prioridade implícita e não raro carente da devida atenção: a Escola.

No link abaixo, o capítulo I.2 de meu livro-ensaio publicado em 2017 pode ser lido na íntegra. Entre outros assuntos, começo a esboçar a ideia de uma escola pública, a meu ver, atual e possível.

LEIA AQUI O CAPÍTULO I.2 do livro Da família: um longo ensaio imaginativo

uma tradução: samuel beckett

cascando

por que você não foi meu simples desespero
um ocaso de palavras
melhor abortar ou ser infértil?

depois que você foi, as horas se arrastaram
desde cedo
garras fincando cegas a cama do ardor
os ossos que o velho gosta exaltando
choças que seus olhos já ocuparam
sempre tudo melhor cedo do que nunca
pardo desejo espalhado nas caras
dizendo de novo nunca aboiaram nove dias os amados
nem nove meses
nem nove vidas

dizendo de novo
se você não me ensinar eu não aprendo
dizendo de novo há uma última
última das últimas
chances de começar
chance de amar
de fingir não saber não saber
das últimas a última das últimas chances de dizer
se não me amar não serei amado
se eu não te amar nada amarei

a chusma das velhas palavras outra vez no coração
amor amor amor o tranco do velhaco
pilando o inalterável
canto das palavras

de novo é apavorante não amar
de amar mas não você
de ser não mais amado mas por outro
de fingir saber não saber
fingindo

eu e os outros todos que amaremos
você
se eles te amarem

* * *

cascando

why were you not simply what I despaired for
an occasion of wordshed
is it better to abort than be barren

The hours after you are gone are so leaden
they will always start dragging too soon
the grapples clawing blindly the bed of want
bringing up the bones the old loves
sockets once filled with eyes like yours
all always better too soon than never
the black want splashing their faces
saying again nine days never floated the loved
nor nine months
nor nine lives

saying again
if you do not teach me I shall not learn
saying again there is a last
even of last times
last times of begging
last time of loving
of not knowing not knowing pretending
a last even of last times of saying
if you do not love me I shall not be loved
if I do not love you I shall not love

the churn of old words in the heart again
love love love thud of the old plunger
pestling the unalterable
whey of words

terrified again of not loving
of loving and not you
of being unloved and not by you
of knowing not knowing pretending
pretending

I and all the others that will love you
if they love you


* * *
Conforme versão remetida a Seuman O’Sullivan em julho de 1936
publicada em The Letters of Samuel Beckett 1929–1940
* * *

dois poemas: gabriela wiener

Canción de cuna

sucumbo pequeno hijito
pero antes de hacerte dormir
en mi columpio del parque San José
sin niños sucios que empujen a traición
mis zapatos miran al sol

la canción que ahora no escuchas
la conozco bien
a mí logra dormirme
es el himno de mi casa
donde no tuve paz

paz la de tus párpados cansados
azules por sus juegos y caídas
en los patios
en los parques
aves de ensueño sobre ramas

mi paz era mentira
mamá me acostaba en pleno día
ocultaba en su casa amarilla
los patios de la noche
cerraba mis ojos con broches de muñeca
creía en esa manera de estar a salvo
pero nunca me avisó del pelligro:
puntapié, parque desierto, árbol pelado, niño muerto

ahora me mezo en tus manitas
y te veo y trato de cantar alguna canción cierta

no duermas pequeño con esas melodías
despierta si escuchas
un día de ahora o de mañana:
el arrurrú

– – –

Somos pobres

nuestra casa no tiene patio
ni exteriores
solo vivimos
al despertar
a la hora de la comida
al volver
en la noche
quietos
bajo las sábanas
cosidas de sombras
juntamos nuestros cuerpos
al frío de las paredes
hasta desaparecer

una casa es una planta carnívora

* * *
Do livro Ejercicios para el endurecimiento del espírito (2016)
* * *

uma tradução: T. S. Eliot

O hipopótamo

O hipopótamo grandão
Descansa a pança na lama
Se parece assim, firmão
Não passa de carne e sangue

Carne e sangue é fraco e frágil
Ataques de nervos medram
Já a Igreja não falha
Pois é feita sobre pedra

Erra o bicho às vezes débil
Prejuízos remoendo
Já a Igreja é indelével
Somando seus dividendos

O bichano nunca alcança
Na mangueira a manga alta
Mas pêssegos e romãs
Vêm à Igreja do além-mar

A voz do bicho excitado
Trai-se rude e desafina
Mas ouvimos, extasiada
A Igreja, a Deus unida

De dia dorme, o hipopótamo
Só à noite é que ele caça
Deus faz certo em linhas tortas
Dorme e caça a Igreja em Graça

O bichano bateu asas
Ascendendo das savanas
Em redor, anjos cantavam
Glória a Deus, altas hosanas

Sangue do Cordeiro o lave
Braços celestes o tenham
Entre os santos colocado
Harpa dourada tecendo

Branco o lavem como a neve
Virgens mártires ao lado
Ficando a Igreja na terra
Em fumos velhos rodeada

* * *

The hippopotamus

The broad-backed hippopotamus
Rests on his belly in the mud;
Although he seems so firm to us
He is merely flesh and blood.

Flesh-and-blood is weak and frail,
Susceptible to nervous shock;
While the True Church can never fail
For it is based upon a rock.

The hippo’s feeble steps may err
In compassing material ends,
While the True Church need never stir
To gather in its dividends.

The ‘potamus can never reach
The mango on the mango-tree;
But fruits of pomegranate and peach
Refresh the Church from over sea.

At mating time the hippo’s voice
Betrays inflexions hoarse and odd,
But every week we hear rejoice
The Church, at being one with God.

The hippopotamus’s day
Is passed in sleep; at night he hunts;
God works in a mysterious way–
The Church can sleep and feed at once.

I saw the ‘potamus take wing
Ascending from the damp savannas,
And quiring angels round him sing
The praise of God, in loud hosannas.

Blood of the Lamb shall wash him clean
And him shall heavenly arms enfold,
Among the saints he shall be seen
Performing on a harp of gold.

He shall be washed as white as snow,
By all the martyr’d virgins kist,
While the True Church remains below
Wrapt in the old miasmal mist.