um jogo

No Mundaparede™ v1, o objetivo é transportar um seu mundo para a parede perto do sono
no Mundaparede™ v1, vence quem plasmar o lúdico-prático deste um mundo na parede perto do sono


Atenção, pois as regras a seguir são importantes:
as regras a seguir são tudo o que temos

Será que posso ver a evolução da correção
as quase perfeitas massas atmosféricas sopradas
se por nada por diferenças de pressão; você sabia
que não existe um exato instante em que a atmosfera acaba
e o espaço sideral começa?
o que existe, todavia, é uma convenção
graças a elas, cosmólogos e engenheiros podem
trocar e revisar papéis uns dos outros

um lar chegado ao chão, água e fogo dentro
quem não quer?

quero e vou salvaguardar o luxo
de poder olhar em tantas nossas caras
visitas às casas da rua

no Mundaparede™ v1, perde quem não perde
por esperar

se à noite viajamos de autocarro e ele faz uma curva e se olhamos nessa altura para a parte da frente dele (que não se move em relação aos passageiros), acreditamos que o ‘vemos’ fazer a curva. Sentimos, claro, que o veículo faz a curva e é possível também um sinal disso pela escuridão exterior, que ainda vemos, ainda que inconscientemente, pelo canto do olho. Mas queremos dizer que vemos a parte da frente do veículo descrever a curva e que ‘ao mesmo tempo’, naturalmente, não se move em relação a nós

dois kästner por drummond

CARTA A MEU FILHO

Afinal, eu quisera ter um filho
Forte e inteligente como essas crianças de hoje.
Só uma coisa me falta para esse menino.
Falta-lhe apenas a mãe.

Não é qualquer moça que serve para esse fim.
Há longos anos eu a estou procurando.
A felicidade é mais rara que os feriados,
E tua mãe nada sabe ainda de nós, meu filho.

Mas um belo dia começas a existir,
E já me alegro por isso.
Aprendes a correr, aprendes a viver,
E o que daí resulta chama-se: uma existência.

A princípio, apenas gritas e gesticulas,
Até passares a outros atos,
Até que teu corpo e teus olhos cresçam
E compreendas o que é preciso compreender.

Quem começa a compreender já não entende mais nada
E olha estarrecido para o teatro do mundo.
No começo, criança necessita muito da mãe.
Mas quando ficares maior, precisarás de teu pai.

Quero levar-te às minas de carvão.
Quero mostrar-te os parques com palácios de mármore.
Tu me fitarás, sem compreender.
Mas eu vou te esclarecer, criança, e me calarei.

Quero ir contigo a Vaux e a Ypres
E lá olhar o mar de cruzes brancas.
Ficarei quieto, nada insinuando.
Mas quando chorares, meu filho, eu estarei de acordo.

Não quero te dizer como vão as coisas,
Quero te mostrar como a coisa é.
Pois a razão só pode vencer por si mesma.
Quero ser teu pai, e não um profeta.

Se entretanto fores um homem como a maioria,
Apesar de tudo que te fiz ver,
Um homem como qualquer outro, fabricado em série,
Então jamais serás o que deves ser: meu filho.

POR ASSIM DIZER, NO ESTRANGEIRO

Estava sentado na grande cidade de Berlim,
Junto à pequena mesa.
A cidade era grande, mesmo sem ele.
Não fazia falta à cidade, bem percebia.
E em seu redor havia veludo.

Pessoas amontoavam-se em cacho,
Apesar disso, estava só.
E no espelho, para onde olhava,
Todos se amontoavam outra vez,
Como se assim devesse ser.

A sala, pálida de tanta luz,
Cheirando a perfume e bolos.
Sério, fita rosto após rosto.
O que ele vê não lhe agrada,
E, triste, desvia o olhar.

Alisa a branca toalha,
Olha no fundo do copo.
Já meio farto da vida!
Que queria dessa cidade,
Ali, sentado, sozinho?

Então se levanta, na cidade de Berlim,
Daquela mesa pequena.
Ninguém o conhece,
Mas começa a tirar o chapéu para todos.
A necessidade nos torna inventivos.

Poemas de Erich Kästner traduzidos por Carlos Drummond de Andrade reunidos no livro Poesia Traduzida, Cosac Naify, 2011

Muitos escritores – especialmente os poetas – preferem ter entendido que compõem por meio de uma espécie de sutil frenesi, de intuição extática, e positivamente estremeceriam, ante a ideia de deixar o público dar uma olhadela, por trás dos bastidores, para as rudezas vacilantes e trabalhosas do pensamento, para os verdadeiros propósitos só alcançados no último instante, para os inúmeros relances de ideias, que não chegam à maturidade da visão completa, para as imaginações plenamente amadurecidas e repelidas em desespero como inaproveitáveis

Performance e literatura na cidade do Recife

O que existe entre?
Nada e muita coisa.
Os limiares sob os limites.
Esse nada, talvez, tão importante e crucial.
– Kuniichi Uno

A ideia de falar um pouco sobre literatura e performance germinava, antes mesmo do convite de Guilherme Coube para os dias melhores do blog da Touro Bengala. Desde que cheguei à cidade de Recife, há apenas 5 meses, a poesia pernambucana em sua performatividade já me atravessava, sem que eu a procurasse.

Fui assaltada, quando assistia a minha primeira sessão no maravilhoso cine São Luiz, pelos Atentados Poéticos de Jonard Muniz de Britto, cujo caráter de performance foi o que mais me surpreendeu. Era poesia, era filosofia, mas antes de tudo era performance. E antes mesmo de fazer qualquer investigação, anotando todas as referências, Bruna Rafaella Ferrer me apresenta o poeta performer do Recife: Miró da Muribeca.

Com tudo isso em mãos, ou melhor, no pensamento, Guilherme me traz o fio que faltava ao comentar sobre os ‘romances de barbante’ que chegavam no interior de Pernambuco, e onde um dos poucos da vila que soubesse ler, lia-os para todos os moradores, em voz alta, interpretando os cordéis com gestos.

Em seu poema ‘Descoberta da literatura’, do livro Escola das facas (1975-1980), João Cabral apresenta, entre 44 poemas que falam de Pernambuco e suas paisagens de coqueiros e canaviais, engenhos, personagens políticos e figuras históricas, não somente os temas consagrados em sua poesia – o rio, o sertão, o povo e o canavial – mas sobretudo antigas memórias de criança, colocando-se pela primeira vez como personagem.

Descoberta da literatura

No dia-a-dia do engenho,
toda a semana, durante,
cochichavam-me em segredo:
saiu um novo romance.
E da feira do domingo
me traziam conspirantes
para que os lesse e explicasse
um romance de barbante.
Sentados na roda morta
de um carro de boi, sem jante,
ouviam o folheto guenzo,
a seu leitor semelhante,
com as peripécias de espanto
preditas pelos feirantes.
Embora as coisas contadas
e todo o mirabolante
em nada ou pouco variassem
nos crimes, no amor, nos lances,
e soassem como sabidas
de outros folhetos migrantes,
a tensão era tão densa,
subia tão alarmante,
que o leitor que lia aquilo
como puro alto-falante,
e, sem querer, imantara
todos ali, circunstantes,
receava que confundissem
o de perto com o distante,
o ali com o espaço mágico,
seu franzino com o gigante,
e que o acabassem tomando
pelo autor imaginante
ou tivesse que afrontar
as brabezas do brigante.
(E acabariam, não fossem
contar tudo à Casa-grade:
na moita morta do engenho,
um filho-engenho, perante
cassacos do eito e de tudo,
se estava dando ao desplante
de ler letra analfabeta
de corumba, no caçanje
próprio dos cegos de feira,
muitas vezes meliantes.)

‘Descoberta da literatura’ fala de seu contato com a literatura de cordel, ainda menino, quando lia as histórias em voz alta aos empregados do engenho. Cabral nesse caso não é somente o personagem, mas desde o começo, o performer, aquele que desenrola os “romances de barbante”. O performer da palavra.

Nesse poema, o poeta não apenas dança com as palavras, mas parece pegar com a mão a palavra tecendo movimento puro. O “nobre artesanato” que João Cabral cria com as palavras não se faz a partir da melodia, mas do ritmo. Ritmo sintático. Um ritmo visual, intelectual, que é um ritmo sintático.

João cria paisagens afetivas em movimento:

“o de perto com o distante

o ali com o espaço mágico,

seu franzino com o gigante”

É nessa captura do acontecimento, no ponto convergente entre literatura e performance, onde cada qual através das linguagens (corporal e escrita) que lhes são próprias deixará se expressar em acontecimento, seja na composição de emoções e percepções, seja na criação de lugares e paisagens para as palavras.

A Performance por si só, inúmeras vezes, se constitui como esse corpo em ação, em função do pensar ou no caso da literatura, da escrita. Richard Schechner, um teórico da performance, aponta que a performance não se limita a nenhuma linguagem em especial, pois ela se constitui como:

um “amplo espectro” ou “contínuo” de ações humanas que são variações de rituais, jogos… da representação do social, profissional, gênero, raça, classe e papéis, e para a cura (do xamanismo à cirurgia), a mídia e a internet.

Sendo assim, podemos pensar que a performance é a escrita e o próprio pensamento em movimento, nem mais, nem menos. No qual o cruzamento entre performance e literatura nos revela inquietações estéticas, éticas e de linguagem, isto é, filosóficas.

Dentre as questões envolvidas podemos apontar: presença, agência, incorporação e evento.

Em Diferença e Repetição (1994), Deleuze e Guatarri (D&G) localizam as origens do teatro sem representação em uma tradição interna à história da filosofia, exemplificada por autores como Nietzsche e Kierkegaard: ao dar corpo e movimento à metafísica, fizeram dela ação, e esta existe ao propor atos imediatos. Trata-se de produzir, dentro do trabalho, um movimento capaz de afetar a mente fora de toda a representação, de inventar vibrações, rotações, turbilhões, gravitações, danças ou saltos que tocam diretamente a mente.

Tal cruzamento pretende assim dar conta da relação entre representação e presença; corpo e linguagem; a noção de movimento, ou variação, como um processo político e ontológico.

Contudo, a questão que realmente nos interessa ao ler a literatura como performance é a possibilidade de encarar a performatividade da linguagem como um fazer, mais do que uma representação, e as palavras, se quisermos, podem ser compreendidas como expressão de puro movimento.

Aqui a distinção entre língua e fala sugere que há um conjunto de regras ou constantes em relação às quais enunciados específicos são compreendidos como desvios ou anormalidades. Para D&G, qualquer linguagem dada deve ser compreendida como ‘uma multiplicidade de mundos semânticos’, nos quais todas as diferenças possíveis de sentido estarão virtualmente presentes.

Assim se a performance, de um modo geral, englobará tão diferentes artes, por que evitaria a literatura?

Desafio posto, me proponho a, neste mês de maio, falar sobre performance e literatura. E a perguntar, de que modo a poesia de João Cabral, Jonard e Miró será capaz de conciliar, integrar e fazer dançar linguagem e fala em puro movimento? Ou como a escrita, o pensar, a performance, são a fala em movimento.

dois sambas de dona ivone lara

Informa o manual Samba de enredo – história e arte:

Filha de um violonista do Bloco dos Africanos e de uma pastora do Rancho Flor de Abacate, Dona Ivone Lara começou a aprender música no colégio Orsina da Fonseca, na Tijuca, onde estudou como interna após a morte dos pais. Foi aluna de Lucília Villa-Lobos, esposa do grande maestro.

Prima de Mestre Fuleiro, começou a frequentar as rodas de samba da escola Prazer da Serrinha e, posteriormente, do Império Serrano. Ali passou a compor seus primeiros sambas de terreiro, enquanto vivia profissionalmente como enfermeira e assistente social (trabalhou no Serviço Nacional de Doenças Mentais, com a doutora Nise da Silveira).

dias melhores

Vamos falar de outras coisas. Contar depois que abre e abre espaço para dar em incrementos e ventila nossos campos. Atar quando roer é ato-semba se se olha para dentro e dentro fica, por causas, formas, casa&construção.

Em maio, o blog da Touro apresenta Carol Marim como co-editora da categoria dias melhores. Filósofa e bailarina praticante de butô e outros contatos, Carol nasceu em São Paulo, viveu em Florianópolis e hoje leciona Estética na Universidade Federal de Pernambuco. O foco de sua atual pesquisa são os encontros entre a pauta filosófica e as emoções humanas, à luz da performance. Valendo!

dias melhores marim

quando você diz “essa obra não tem nada a ver comigo”, ou quando diz “essa obra é chata/sem sentido/boba/obscura/elitista etc.”, pode estar certo porque o que está à sua frente é um modismo, ou pode estar errado porque a obra ficou tão fora da zona de segurança de sua experiência que, para preservar o próprio mundo intacto, você precisa recusar o outro mundo, o da pintura. essa negação da experiência imaginativa se dá num nível mais profundo que a afirmação de nosso mundo cotidiano. todos os dias, de inúmeras maneiras, você e eu nos convencemos de nós mesmos. a verdadeira arte, quando nos acontece, desafia o “eu” que somos

built mur

dois poemas

estou aqui
a milhares de quilômetros
com um siso inflamado
e o corpo latejando
com um poema medonho de lindo
da Hilda Hilst na cabeça
e você pula na minha tela do Facebook
sem ser convidada
numa foto patética
seguindo o trio elétrico
da Ivete Sangalo em Salvador
agora te odeio muito mais
daria tudo pra tirar seu nome dos meus livros
e do meu cacete de 26 centímetros, mas isto é quase impossível
vai doer
vai sangrar
vou apenas excluir nosso amigo em comum
que trabalha restaurando
quadros falsificados do Van Gogh
num galpão fedorento em Pindamonhangaba

Diego Moraes (1982), em seu livro ‘Eu já fui aquele cara que comprava vinte fichas e falava Eu te amo no orelhão’, Corsário-Satã, 2015

JUST READ MY DIARY

Em nova York use óculos escuros
Lia avisou ao telefone
lá do queens disse:
use óculos escuros no metrô
no central p. na quinta av.
na B.H. em wall street
no moma na victoria’s secret
na casa do Cruz todo mundo usa óculos escuros
em Nova York pronuncie s=t=a=r b=u=c=k=s
sorria para os ratos da pen’station
e repita I’m so sorry
como o camarada Morrissey grunhindo
why ho-ho-ho ha-ha em fairmount
porque quase sem perceber
nós envelhecemos juntos
cantarolando suehead nas
manhãs geladas de um aeroporto
de nova York ou tanto faz
porque quanto vidro
tanto quanto lixo
atrás dos óculos vi o metrô apagar as luzes
e o cara num inglês bizarro
não como no termini em roma
– próxima fermata uscita lado sinistro –
a voz metálica
ah fellini ah Marcelo
ah você camarada morrissey
na banheira
você me olha melancólico enquanto
lê seu Byron de capa vermelha
e james dean jaz
ah mi nueva York você escureceu
sem mim
tão cedo às 4 da tarde
na esquina da “walk c/ a don’t walk”

Jussara Salazar (1959), poema publicado na revista escamandro #02, Editora Patuá, 2016

Aula (Mostra Maio Fotografia no MIS 2017)

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Imperdível a mostra Maio Fotografia no MIS 2017. Como sempre, tem de tudo um pouco, com as inevitáveis coisas “corporativas”, mas no geral, como diz o título acima, uma aula de história da fotografia, desde a primeira foto tirada até os ensaios em celular.

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folha de contato de Robert Frank

 

Das 7 micro-macro exposições dentro da mostra destacam-se 3:

giullia

Logo térreo temos as fotos do projeto Nova Fotografia, que apresenta a série Paisagens da Inocência, de Giullia Paulinelli. Apesar de particularmente não gostar da montagem, o que realmente importa, as fotos, encontram um mix entre a tal inocência (do corpo) e a força (do espaço). É simples mas impactante.

 

mauricio

Na contramão desse universo idílico uma das salas traz a exposição Farida, Um Conto Sírio, do fotógrafo ganhador do Pullitzer, Mauricio Lima. Ali vemos a saga dos refugiados atravessando a zona de guerra em busca de asilo na Europa. O observador desatento vai achar que já viu tudo aquilo antes, o que tem sua verdade, mas há uma diferença marcante entre uma foto isolada numa página de jornal e dezenas de fotos em grande formato criando um universo.

 

koudelka

Josef Koudelka

 

E por fim, o filé mignon da Mostra; a coleção de Allan Porter, que foi editor da mais importante revista de fotografia de todos os tempos, a Camera (1966-1981). Boa parte dos ícones da fotografia estão ali, dos mais populares aos semi-desconhecidos, todos representados por fotografias que marcaram época. (é até sacanagem deixar muitos de fora nas fotos abaixo, mas vamos lá)

diane

Diane Arbus

 

leskrims

Les Krims

 

duane

Duane Michals

 

rod

Alexander Rodchenko

 
MIS
Av. Europa 158
Até 28 de maio
3 (meia) e 6 reais