se à noite viajamos de autocarro e ele faz uma curva e se olhamos nessa altura para a parte da frente dele (que não se move em relação aos passageiros), acreditamos que o ‘vemos’ fazer a curva. Sentimos, claro, que o veículo faz a curva e é possível também um sinal disso pela escuridão exterior, que ainda vemos, ainda que inconscientemente, pelo canto do olho. Mas queremos dizer que vemos a parte da frente do veículo descrever a curva e que ‘ao mesmo tempo’, naturalmente, não se move em relação a nós

dois kästner por drummond

CARTA A MEU FILHO

Afinal, eu quisera ter um filho
Forte e inteligente como essas crianças de hoje.
Só uma coisa me falta para esse menino.
Falta-lhe apenas a mãe.

Não é qualquer moça que serve para esse fim.
Há longos anos eu a estou procurando.
A felicidade é mais rara que os feriados,
E tua mãe nada sabe ainda de nós, meu filho.

Mas um belo dia começas a existir,
E já me alegro por isso.
Aprendes a correr, aprendes a viver,
E o que daí resulta chama-se: uma existência.

A princípio, apenas gritas e gesticulas,
Até passares a outros atos,
Até que teu corpo e teus olhos cresçam
E compreendas o que é preciso compreender.

Quem começa a compreender já não entende mais nada
E olha estarrecido para o teatro do mundo.
No começo, criança necessita muito da mãe.
Mas quando ficares maior, precisarás de teu pai.

Quero levar-te às minas de carvão.
Quero mostrar-te os parques com palácios de mármore.
Tu me fitarás, sem compreender.
Mas eu vou te esclarecer, criança, e me calarei.

Quero ir contigo a Vaux e a Ypres
E lá olhar o mar de cruzes brancas.
Ficarei quieto, nada insinuando.
Mas quando chorares, meu filho, eu estarei de acordo.

Não quero te dizer como vão as coisas,
Quero te mostrar como a coisa é.
Pois a razão só pode vencer por si mesma.
Quero ser teu pai, e não um profeta.

Se entretanto fores um homem como a maioria,
Apesar de tudo que te fiz ver,
Um homem como qualquer outro, fabricado em série,
Então jamais serás o que deves ser: meu filho.

POR ASSIM DIZER, NO ESTRANGEIRO

Estava sentado na grande cidade de Berlim,
Junto à pequena mesa.
A cidade era grande, mesmo sem ele.
Não fazia falta à cidade, bem percebia.
E em seu redor havia veludo.

Pessoas amontoavam-se em cacho,
Apesar disso, estava só.
E no espelho, para onde olhava,
Todos se amontoavam outra vez,
Como se assim devesse ser.

A sala, pálida de tanta luz,
Cheirando a perfume e bolos.
Sério, fita rosto após rosto.
O que ele vê não lhe agrada,
E, triste, desvia o olhar.

Alisa a branca toalha,
Olha no fundo do copo.
Já meio farto da vida!
Que queria dessa cidade,
Ali, sentado, sozinho?

Então se levanta, na cidade de Berlim,
Daquela mesa pequena.
Ninguém o conhece,
Mas começa a tirar o chapéu para todos.
A necessidade nos torna inventivos.

Poemas de Erich Kästner traduzidos por Carlos Drummond de Andrade reunidos no livro Poesia Traduzida, Cosac Naify, 2011

Muitos escritores – especialmente os poetas – preferem ter entendido que compõem por meio de uma espécie de sutil frenesi, de intuição extática, e positivamente estremeceriam, ante a ideia de deixar o público dar uma olhadela, por trás dos bastidores, para as rudezas vacilantes e trabalhosas do pensamento, para os verdadeiros propósitos só alcançados no último instante, para os inúmeros relances de ideias, que não chegam à maturidade da visão completa, para as imaginações plenamente amadurecidas e repelidas em desespero como inaproveitáveis

Performance e literatura na cidade do Recife

O que existe entre?
Nada e muita coisa.
Os limiares sob os limites.
Esse nada, talvez, tão importante e crucial.
– Kuniichi Uno

A ideia de falar um pouco sobre literatura e performance germinava, antes mesmo do convite de Guilherme Coube para os dias melhores do blog da Touro Bengala. Desde que cheguei à cidade de Recife, há apenas 5 meses, a poesia pernambucana em sua performatividade já me atravessava, sem que eu a procurasse.

Fui assaltada, quando assistia a minha primeira sessão no maravilhoso cine São Luiz, pelos Atentados Poéticos de Jonard Muniz de Britto, cujo caráter de performance foi o que mais me surpreendeu. Era poesia, era filosofia, mas antes de tudo era performance. E antes mesmo de fazer qualquer investigação, anotando todas as referências, Bruna Rafaella Ferrer me apresenta o poeta performer do Recife: Miró da Muribeca.

Com tudo isso em mãos, ou melhor, no pensamento, Guilherme me traz o fio que faltava ao comentar sobre os ‘romances de barbante’ que chegavam no interior de Pernambuco, e onde um dos poucos da vila que soubesse ler, lia-os para todos os moradores, em voz alta, interpretando os cordéis com gestos.

Em seu poema ‘Descoberta da literatura’, do livro Escola das facas (1975-1980), João Cabral apresenta, entre 44 poemas que falam de Pernambuco e suas paisagens de coqueiros e canaviais, engenhos, personagens políticos e figuras históricas, não somente os temas consagrados em sua poesia – o rio, o sertão, o povo e o canavial – mas sobretudo antigas memórias de criança, colocando-se pela primeira vez como personagem.

Descoberta da literatura

No dia-a-dia do engenho,
toda a semana, durante,
cochichavam-me em segredo:
saiu um novo romance.
E da feira do domingo
me traziam conspirantes
para que os lesse e explicasse
um romance de barbante.
Sentados na roda morta
de um carro de boi, sem jante,
ouviam o folheto guenzo,
a seu leitor semelhante,
com as peripécias de espanto
preditas pelos feirantes.
Embora as coisas contadas
e todo o mirabolante
em nada ou pouco variassem
nos crimes, no amor, nos lances,
e soassem como sabidas
de outros folhetos migrantes,
a tensão era tão densa,
subia tão alarmante,
que o leitor que lia aquilo
como puro alto-falante,
e, sem querer, imantara
todos ali, circunstantes,
receava que confundissem
o de perto com o distante,
o ali com o espaço mágico,
seu franzino com o gigante,
e que o acabassem tomando
pelo autor imaginante
ou tivesse que afrontar
as brabezas do brigante.
(E acabariam, não fossem
contar tudo à Casa-grade:
na moita morta do engenho,
um filho-engenho, perante
cassacos do eito e de tudo,
se estava dando ao desplante
de ler letra analfabeta
de corumba, no caçanje
próprio dos cegos de feira,
muitas vezes meliantes.)

‘Descoberta da literatura’ fala de seu contato com a literatura de cordel, ainda menino, quando lia as histórias em voz alta aos empregados do engenho. Cabral nesse caso não é somente o personagem, mas desde o começo, o performer, aquele que desenrola os “romances de barbante”. O performer da palavra.

Nesse poema, o poeta não apenas dança com as palavras, mas parece pegar com a mão a palavra tecendo movimento puro. O “nobre artesanato” que João Cabral cria com as palavras não se faz a partir da melodia, mas do ritmo. Ritmo sintático. Um ritmo visual, intelectual, que é um ritmo sintático.

João cria paisagens afetivas em movimento:

“o de perto com o distante

o ali com o espaço mágico,

seu franzino com o gigante”

É nessa captura do acontecimento, no ponto convergente entre literatura e performance, onde cada qual através das linguagens (corporal e escrita) que lhes são próprias deixará se expressar em acontecimento, seja na composição de emoções e percepções, seja na criação de lugares e paisagens para as palavras.

A Performance por si só, inúmeras vezes, se constitui como esse corpo em ação, em função do pensar ou no caso da literatura, da escrita. Richard Schechner, um teórico da performance, aponta que a performance não se limita a nenhuma linguagem em especial, pois ela se constitui como:

um “amplo espectro” ou “contínuo” de ações humanas que são variações de rituais, jogos… da representação do social, profissional, gênero, raça, classe e papéis, e para a cura (do xamanismo à cirurgia), a mídia e a internet.

Sendo assim, podemos pensar que a performance é a escrita e o próprio pensamento em movimento, nem mais, nem menos. No qual o cruzamento entre performance e literatura nos revela inquietações estéticas, éticas e de linguagem, isto é, filosóficas.

Dentre as questões envolvidas podemos apontar: presença, agência, incorporação e evento.

Em Diferença e Repetição (1994), Deleuze e Guatarri (D&G) localizam as origens do teatro sem representação em uma tradição interna à história da filosofia, exemplificada por autores como Nietzsche e Kierkegaard: ao dar corpo e movimento à metafísica, fizeram dela ação, e esta existe ao propor atos imediatos. Trata-se de produzir, dentro do trabalho, um movimento capaz de afetar a mente fora de toda a representação, de inventar vibrações, rotações, turbilhões, gravitações, danças ou saltos que tocam diretamente a mente.

Tal cruzamento pretende assim dar conta da relação entre representação e presença; corpo e linguagem; a noção de movimento, ou variação, como um processo político e ontológico.

Contudo, a questão que realmente nos interessa ao ler a literatura como performance é a possibilidade de encarar a performatividade da linguagem como um fazer, mais do que uma representação, e as palavras, se quisermos, podem ser compreendidas como expressão de puro movimento.

Aqui a distinção entre língua e fala sugere que há um conjunto de regras ou constantes em relação às quais enunciados específicos são compreendidos como desvios ou anormalidades. Para D&G, qualquer linguagem dada deve ser compreendida como ‘uma multiplicidade de mundos semânticos’, nos quais todas as diferenças possíveis de sentido estarão virtualmente presentes.

Assim se a performance, de um modo geral, englobará tão diferentes artes, por que evitaria a literatura?

Desafio posto, me proponho a, neste mês de maio, falar sobre performance e literatura. E a perguntar, de que modo a poesia de João Cabral, Jonard e Miró será capaz de conciliar, integrar e fazer dançar linguagem e fala em puro movimento? Ou como a escrita, o pensar, a performance, são a fala em movimento.

dois sambas de dona ivone lara

Informa o manual Samba de enredo – história e arte:

Filha de um violonista do Bloco dos Africanos e de uma pastora do Rancho Flor de Abacate, Dona Ivone Lara começou a aprender música no colégio Orsina da Fonseca, na Tijuca, onde estudou como interna após a morte dos pais. Foi aluna de Lucília Villa-Lobos, esposa do grande maestro.

Prima de Mestre Fuleiro, começou a frequentar as rodas de samba da escola Prazer da Serrinha e, posteriormente, do Império Serrano. Ali passou a compor seus primeiros sambas de terreiro, enquanto vivia profissionalmente como enfermeira e assistente social (trabalhou no Serviço Nacional de Doenças Mentais, com a doutora Nise da Silveira).

dias melhores

Vamos falar de outras coisas. Contar depois que abre e abre espaço para dar em incrementos e ventila nossos campos. Atar quando roer é ato-semba se se olha para dentro e dentro fica, por causas, formas, casa&construção.

Em maio, o blog da Touro apresenta Carol Marim como co-editora da categoria dias melhores. Filósofa e bailarina praticante de butô e outros contatos, Carol nasceu em São Paulo, viveu em Florianópolis e hoje leciona Estética na Universidade Federal de Pernambuco. O foco de sua atual pesquisa são os encontros entre a pauta filosófica e as emoções humanas, à luz da performance. Valendo!

dias melhores marim

quando você diz “essa obra não tem nada a ver comigo”, ou quando diz “essa obra é chata/sem sentido/boba/obscura/elitista etc.”, pode estar certo porque o que está à sua frente é um modismo, ou pode estar errado porque a obra ficou tão fora da zona de segurança de sua experiência que, para preservar o próprio mundo intacto, você precisa recusar o outro mundo, o da pintura. essa negação da experiência imaginativa se dá num nível mais profundo que a afirmação de nosso mundo cotidiano. todos os dias, de inúmeras maneiras, você e eu nos convencemos de nós mesmos. a verdadeira arte, quando nos acontece, desafia o “eu” que somos

built mur

dois poemas

estou aqui
a milhares de quilômetros
com um siso inflamado
e o corpo latejando
com um poema medonho de lindo
da Hilda Hilst na cabeça
e você pula na minha tela do Facebook
sem ser convidada
numa foto patética
seguindo o trio elétrico
da Ivete Sangalo em Salvador
agora te odeio muito mais
daria tudo pra tirar seu nome dos meus livros
e do meu cacete de 26 centímetros, mas isto é quase impossível
vai doer
vai sangrar
vou apenas excluir nosso amigo em comum
que trabalha restaurando
quadros falsificados do Van Gogh
num galpão fedorento em Pindamonhangaba

Diego Moraes (1982), em seu livro ‘Eu já fui aquele cara que comprava vinte fichas e falava Eu te amo no orelhão’, Corsário-Satã, 2015

JUST READ MY DIARY

Em nova York use óculos escuros
Lia avisou ao telefone
lá do queens disse:
use óculos escuros no metrô
no central p. na quinta av.
na B.H. em wall street
no moma na victoria’s secret
na casa do Cruz todo mundo usa óculos escuros
em Nova York pronuncie s=t=a=r b=u=c=k=s
sorria para os ratos da pen’station
e repita I’m so sorry
como o camarada Morrissey grunhindo
why ho-ho-ho ha-ha em fairmount
porque quase sem perceber
nós envelhecemos juntos
cantarolando suehead nas
manhãs geladas de um aeroporto
de nova York ou tanto faz
porque quanto vidro
tanto quanto lixo
atrás dos óculos vi o metrô apagar as luzes
e o cara num inglês bizarro
não como no termini em roma
– próxima fermata uscita lado sinistro –
a voz metálica
ah fellini ah Marcelo
ah você camarada morrissey
na banheira
você me olha melancólico enquanto
lê seu Byron de capa vermelha
e james dean jaz
ah mi nueva York você escureceu
sem mim
tão cedo às 4 da tarde
na esquina da “walk c/ a don’t walk”

Jussara Salazar (1959), poema publicado na revista escamandro #02, Editora Patuá, 2016

Aula (Mostra Maio Fotografia no MIS 2017)

mis01

Imperdível a mostra Maio Fotografia no MIS 2017. Como sempre, tem de tudo um pouco, com as inevitáveis coisas “corporativas”, mas no geral, como diz o título acima, uma aula de história da fotografia, desde a primeira foto tirada até os ensaios em celular.

mis02

folha de contato de Robert Frank

 

Das 7 micro-macro exposições dentro da mostra destacam-se 3:

giullia

Logo térreo temos as fotos do projeto Nova Fotografia, que apresenta a série Paisagens da Inocência, de Giullia Paulinelli. Apesar de particularmente não gostar da montagem, o que realmente importa, as fotos, encontram um mix entre a tal inocência (do corpo) e a força (do espaço). É simples mas impactante.

 

mauricio

Na contramão desse universo idílico uma das salas traz a exposição Farida, Um Conto Sírio, do fotógrafo ganhador do Pullitzer, Mauricio Lima. Ali vemos a saga dos refugiados atravessando a zona de guerra em busca de asilo na Europa. O observador desatento vai achar que já viu tudo aquilo antes, o que tem sua verdade, mas há uma diferença marcante entre uma foto isolada numa página de jornal e dezenas de fotos em grande formato criando um universo.

 

koudelka

Josef Koudelka

 

E por fim, o filé mignon da Mostra; a coleção de Allan Porter, que foi editor da mais importante revista de fotografia de todos os tempos, a Camera (1966-1981). Boa parte dos ícones da fotografia estão ali, dos mais populares aos semi-desconhecidos, todos representados por fotografias que marcaram época. (é até sacanagem deixar muitos de fora nas fotos abaixo, mas vamos lá)

diane

Diane Arbus

 

leskrims

Les Krims

 

duane

Duane Michals

 

rod

Alexander Rodchenko

 
MIS
Av. Europa 158
Até 28 de maio
3 (meia) e 6 reais

dois poemas

BENFICA

das guerras que sempre respiram
em algum lugar do mundo,
pousa aqui este
atrito
contra a tarde pronta para
esmurrar meu abraço
na lembrança de você dizendo caminhar
por uma cidade
desconhecida é tomar a vida
de alguém
emprestada,
contra a luz (e seu monólogo,
esta milonga), esta
bela infelicidade a jogar
ligue-os-pontos
com cumeeiras, árvores
e sombras do bairro
unidas sem voz
como em uma
língua
de estátuas

Diego Vinhas (n. 1980), em seu livro Nenhum nome onde morar, 7Letras, 2014

DIZ O AGENTE GENÉRICO ZUMBI DO SISTEMA

  % cidadão % atualize seu pacote germinal d dados móveis p/
novo recenseamento disponível tbm através d coleta sanguínea
em qqr % espaço nave médica % autorizada %
  ao descumprir-se % a pena é de ruptura da sequência (doutro
modo ininterrupta) d todas as suas etapas reprodutivas % e d
sua família % e de sua espécie tbm % involução compulsória
fulminante a ser induzida % % pela Paróqia do Extermínio %

Reuben da Rocha (n. 1984), fascículo 2 de 6 de Siga os sinais na brasa longa do haxixe

duas falas* do piva

O ritmo do jazz é inseparável da minha poesia. Aliás, agora que está na moda badalar o Chet Baker, você observa que em 1963 eu já falo dele em um verso meu. Agora ele está na moda, descobriram o cara quando ele está em uma ruína, quando está em franca decadência, está democrático, convidando uns caras do Rio de Janeiro, um pessoal que não sabe nem o que diz nem o que toca, para tocar com ele. Ele democratizou essa sua energia, e daí perdeu todo o pique. Atualmente ele é um cara totalmente sem aquele pique, aquela genialidade, sem aquela energia de transformação e de invenção que ele tinha, a ponto de influenciar a nossa bossa nova. E todo esse balanço da bossa é o balanço da minha poesia. Uma poesia sem música, sem jogo de cintura, é uma poesia rígida, dos comunistas, dos marxistas, uma poesia absolutamente trancada dentro de um túmulo que é o túmulo do leninismo, que já está fedendo. É claro que o rock também me influenciou, mas não teve a mesma importância que o jazz, o cool jazz. Mas há evidentemente alguma influência do rock, uma vez que pessoas como Jim Morrison, Bob Dylan, Frank Zappa são excelentes poetas. Então o rock me influenciou também, e até mesmo antes do jazz. Eu fui, por exemplo, um dos caras que em 1957 foi receber o Bill Haley, com um grupo de jovens, lá na Praça do Patriarca, onde ele se hospedou. Fomos fazer uma manifestação de carinho, de afeto. Posteriormente o jazz me influenciou e, logo em seguida, a bossa nova. Eu fui apaixonado pela bossa nova. Então essas três correntes – o rock, a bossa nova e principalmente o jazz – são uma constante da influência musical na minha obra.

– em entrevista a Floriano Martins, publicada em O começo da busca, Escrituras, 2001

Poesia=xamanismo=técnicas arcaicas do êxtase. Xamã: sacerdote-poeta inspirado que, em transe extático, percorre o inframundo, florestas, mares, montanhas e sobe aos céus em “viagens”. Dante foi um xamã cabalista que conheceu, em sua viagem pelos três mundos, os orixás travessos da sombra. Deixe a visão chegar. É a hora da despedida dos deuses do deserto & da chegada dos deuses da vegetação. Minha poesia é magmática, de magma: como Dante, sou exilado em minha própria pátria. Como Dante, sou monarquista e reacionário. Como diria Pasolini, sou uma força arcaica, um bárbaro. & não sou um homem normal, isto é, um racista, um colonialista. Ecologia da linguagem: os poetas brasileiros têm que deixar de ser broxas para serem bruxos. Estados alterados de consciência. Há quem disseca os versos, mas não conhece o êxtase, que é a alma dos versos (Mckenna / Gordon Wasson). O caminho do poeta/xamã é o caminho do coração. “e parve di costoro / quelli che vince, nos colui che perde.” Dante, Inferno, canto XV.

– em depoimento à revista Poesia Sempre, FBN, 1997

* ambas coletadas no volume Encontros | Roberto Piva, Azougue, 2009

filosofia fotográfica

No meu primeiro post aqui citei como herói da teoria fotográfica o artista Joan Fontcuberta, autor, entre muitos outros, dos livros no Brasil editados, O Beijo de Judas e A Câmera de Pandora. Neles Fontcuberta trata do seu tema principal, a mentira (ou a verdade) na fotografia.

Mas os heróis da filosofia na fotografia são muitos, assim como muitos são os títulos sobre o assunto. Buscando apenas na minha biblioteca particular, selecionei alguns títulos, uns mais, outros menos óbvios, para trazer um tanto extra de luz (uma superexposição!) para reflexão. Vamos a eles:

01_susansontag

Sobre a Fotografia, Susan Sontag, 1977 (Companhia das Letras)
Um clássico do gênero. Nos seis ensaios do livro, a autora trata do mundo em que as relações humanas passaram a ser mediadas por imagens, dissertando não só sobre a história da fotografia como também pela história vista pela fotografia.
“Sofrer é uma coisa; outra é viver com as imagens fotografadas do sofrimento, que não necessariamente fortalecem a consciência e a habilidade de ter compaixão. Isso também pode corromper. Uma vez que alguém vê esse tipo de imagem, surge a vontade de ver mais – e mais. Imagens hipnotizam. Imagens anestesiam.”

 

02_A-Camara-Clara

A Câmera Clara (Notas sobre a Fotografia), Roland Barthes, 1980 (Edições 70)
Outro clássico, onde Barthes vai além da reflexão sobre a imagem, meditando sobre a vida e a morte.
“Por fim – ou no limite – para se ver bem uma fotografia, é melhor desviar o olhar ou fechar os olhos. ‘A condição necessária para uma imagem é a visão,’ Janouch disse para Kafka; e Kafka sorriu e respondeu: ’Nós fotografamos coisas para tirá-las de nossas mentes. Minhas estórias são uma forma de fechar meus olhos.”

 

03_ENSAIO_SOBRE_A_FOTOGRAFIA

Ensaio Sobre a Fotografia (Para Uma Filosofia da Técnica), Vilém Flusser, 1983 (Relógio D’Água)
Nesse resumo de aulas e conferências, Flusser metaforicamente abre a câmera fotográfica para relatar duas revoluções, a escrita, em meados do segundo milênio a.C., e a atual, imagética.
“… A fotografia não é instrumento, como a máquina, mas ‘brinquedo’ como as cartas do baralho. No momento em que a fotografia passa a ser um modelo de pensamento, muda a própria estrutura da existência, do mundo e da sociedade. Não se trata, nesta revolução fundamental, de substituir um modelo por outro. Trata-se de saltar de um tipo de modelo para outro (de paradigma em paradigma). Sem circunlocuções: a filosofia da fotografia trata de recolocar o problema da liberdade em parâmetros inteiramente novos.”

 

04_rosalind

O Fotográfico, Rosalind Krauss, 1990 (Editorial Gustavo Gili)
A professora de história de arte moderna da Universidade de Columbia “ataca” a maneira de se escrever sobre fotografia, e particularmente, a sua história.
“Hoje, em todo lugar, tenta-se desmantelar o arquivo fotográfico, quer dizer, o conjunto das práticas, instituições, relações de onde surgiu inicialmente a fotografia do século XIX, para reconstruí-lo no quadro das categorias já constituídas pela arte e pela história. Não é difícil imaginar quais os motivos de semelhante operação, mas o que é mais difícil de entender é a indulgência para com o tipo de incoerência que isso produz.”

 

05_ato-fotografico

O Ato Fotográfico e Outros Ensaios, Philippe Dubois, 1990 (Papirus Editora)
Mais um grande tratado filosófico sobre a fotografia além da imagem.
“Como a intenção de Baraduc é apenas apreender melhor a própria essência das forças ‘invisíveis’, tudo o que se refere às condições de visibilidade ‘normal’ vai desaparecer aos poucos de seu trabalho. Em primeiro lugar, ele aprende a dispensar a luz do dia. por exemplo, após os histéricos e as crianças, pôs-se a fotografar um abade. Fotografou-o durante o sono, no escuro, colocando o aparelho acima da cabeça. Resultado: uma ‘nuvem negra’ complexa, um fantasma da noite, que interpretou com seus critérios como ‘aura de um pesadelo’. Seguiram-se outros fantasmas auraculares noturnos, que assinalam o recolhimento (branco horizontal), a vontade (cintilação perolada) etc.”

 

06_brassai

Proust e a Fotografia, Brassaï, 1997 (Jorge Zahar Editor)
O fotógrafo traça um paralelo do livro Em Busca do Tempo Perdido com a grande paixão do seu autor, a fotografia.
“Mas é definitivamente a cena do beijo que fornece as chaves da inspiração do relativismo proustiano: ‘As últimas aplicações da fotografia – que deitam aos pés de uma catedral todas as casas que nos parecem tão frequentemente de perto, quase tão altas quanto as torres,… e num fundo pálido e dégradé são capazes de encaixar um horizonte imenso sob o arco de uma ponte… – não vejo como isso possa, assim como o beijo, fazer surgirem, do que acreditamos uma coisa de aspecto definido, as cem outras coisas que ela não deixa de ser, já que cada uma delas é relativa a uma perspectiva não menos legítima.’”

 

07_theongoingmoment

The Ongoing Moment, Geoff Dyer, 2005 (Vintage Books)
O autor escreve romances e ensaios, além de ser um dos editores de John Berger, que por não tratar especificamente de fotografia não se encontra nessa lista. (mas estará no rodapé 🙂
Nesse livro, Geoff afirma que os fotógrafos consagrados (Walker Evans, André Kertész, Dorothea Lange, Diane Arbus, entre outros) se “encontram constantemente” através dos assuntos similares fotografados por eles: barbearias, mãos, ruas.
“Na fotografia não há o enquanto. Há apenas aquele momento e agora este momento e entre eles não há nada. A fotografia, de certa forma, é a negação da cronologia.”

 

08_gefter_after_frank_ebook

Photography After Frank, Philip Gefter, 2009 (Aperture)
O editor de fotografia do New York Times apresenta ensaios sobre a fotografia contemporânea após o lançamento do livro The Americans, de Robert Frank, um marco na história, mostrando de onde a fotografia veio e para onde ela está caminhando.
“No final, uma foto pode gravar um fato, mas sem estrutura os fatos não são mais que evidências. O que eu procuro são evidências com observação.”

 

09_frame

Bending The Frame (photojournalism, documentary and the citizen), Fred Ritchin, 2013 (Aperture)
Ritchin
é professor do Departamento de Fotografia e Imagem da Tisch School of Arts da Universidade de Nova Iorque, e também co-diretor do Programa de Fotografia e Direitos Humanos. Nesse livro ele examina os usos históricos e contemporâneos da fotografia e mídias relacionadas para inspirar mudanças sociais.
“Se o último século foi o século da Fotografia, este é o da Imagem – nas marcas, na vigilância, na monitoração, no posicionamento geográfico, no sexo (manda nudes), nos selfies, no jornalismo do cidadão, nas imagens médicas, video games, snapchat e, dentro de tudo isso, a fotografia.”

 

10_richard

Como Ler Uma Fotografia , Richard Salked, 2014 (Editorial Gustavo Gili)
(em inglês; Reading Photographs – An Introduction to the Theory and Meaning of Images)
Apesar do título simplório na versão em português, este é o livro mais didático de todos. Cada capítulo (leitura de sinais – verdades e mentiras – identidade – estética, etc) traz exemplos fotográficos (de fotógrafos consagrados) que dão suporte para as explicações. Sem dúvida a melhor maneira de se passar de iniciante a estudioso.

 

11_speaks

Photography Speaks – 150 photographers on their art, Brooks Johnson, 2004 (Aperture)
Aqui uma raridade. Como o título diz, o livro traz uma micro biografia, uma foto e um texto dos próprios fotógrafos, desde o início da fotografia (1800 e tantos – Talbot, Nadar, etc) até os dias de hoje (Mary Ellen Mark, Cindy Sherman, Christian Boltanski, a lista é imensa). Pra ficar na cabeceira.

PS: alguns desses livros podem ser encontrados online em formato pdf.

PS2: Para ir além no objeto olhar, é importante ler ao menos dois livros do historiador e crítico de arte John Berger: Modos de Ver, 1972 (Rocco) e Sobre o Olhar, 1980 (Editorial Gustavo Gili). No Youtube também encontramos a série Modos de Ver em vídeo.

dois pensares

Outra nudez já tinha surgido no horizonte cultural da Europa, com o aparecimento do homem americano. E se houve um ponto de encontro entre a Renascença e o Humanismo, esse se deu no entusiasmo comum pela natureza que a Idade Média difamava.

Era, porém, tão terrível e grosseiro o preconceito que aureolava o mundo helênico que, quando com as Cartas de Vespúcio e pelas Utopias se divulgou a existência de uma super-humanidade perdida do outro lado da terra, se perguntava a respeito dessa gente: – Serão gregos? Ou pelo menos mediterrâneos? O cristianismo dólico-louro trabalha e deforma tudo. Petrarca protesta contra a ideia de que Cícero pudesse ter ido para o inferno, pelo desconhecimento do Cristo. Ele e Sócrates são tidos como “colaborantes do cristianismo”.

A Cícero e a Sócrates, que são considerados deístas, incorpora-se então uma legião de sub-humanistas católicos que têm, hoje, nomes inteiramente esquecidos. É tão grave a deformação cristianizante que a mitologia pagã passa a ser uma teologia velada, as Metamorfoses de Ovídio são a Gênese. Até Homero é um pronunciador de mistérios católicos.

(…)

A Renascença modela e disciplina grandes assuntos. Sempre o seu triunfo técnico se sobrepõe ao tema, à inspiração e ao sentimento. Enquanto isso, o Humanismo dá o estofo das Utopias futuras. Ele cria o Direito Natural. Ele produz, na longínqua América, a primeira experiência de uma sociedade nova – a República Comunista Cristã do Paraguai. No século XVIII, ele dá os fundamentos da Filosofia das Luzes e realiza a Revolução Francesa. No século XIX consegue o abalo sísmico das agitações liberais. E hoje, mais do que nunca, é no Humanismo e na sua tradição revolucionária que se fundamenta a conquista de uma vida melhor para todos os povos.

Oswald de Andrade, no artigo A marcha das Utopias I, publicado n’O Estado de São Paulo aos 5/7/1953, e reunido no volume A utopia antropofágica, Globo, 2001

Alguém é um pai apenas porque existe outrem de quem ele é o pai: a paternidade é uma relação, ao passo que a peixidade ou a serpentitude é uma propriedade intrínseca dos peixes e cobras. O que sucede no perspectivismo, entretanto, é que algo também só é peixe porque existe alguém de quem este algo é o peixe.

Mas se dizer que os grilos são os peixes dos mortos ou que os lameiros são a rede das antas é realmente como dizer que Nina, filha de minha irmã Isabel, é minha sobrinha, então, de fato, não há nenhum relativismo envolvido. Isabel não é uma mãe para Nina, do ponto de vista de Nina, no sentido usual, subjetivista, da expressão. Ela é a mãe de Nina, ela é real e objetivamente sua mãe, e eu sou de fato seu tio. A relação é interna e genitiva – minha irmã é a mãe de alguém, de quem sou tio, exato como os grilo dos vivos são os peixes dos mortos –, e não uma conexão externa, representacional, do tipo “X é peixe para alguém”, que implica que X é apenas representado como peixe, seja lá o que for “em si mesmo”. Seria absurdo dizer que, desde que Nina é filha de Isabel mas não minha, então ela não é uma “filha” para mim – pois de fato ela o é, filha de minha irmã, precisamente. Em Process and reality, Whitehead observa: “a expressão ‘mundo real’ é como ‘ontem’ ou ‘amanhã’ – ela muda de sentido conforme o ponto de vista” (apud Latour 1994). Assim, um ponto de vista não é uma opinião subjetiva; não há nada de subjetivo nos conceitos de “ontem” e “amanhã”, como não há nos de “minha mãe” ou “teu irmão”. O mundo real das diferentes espécies depende de seus pontos de vista, porque o “mundo” é composto das diferentes espécies, é o espaço abstrato de divergência entre elas enquanto pontos de vista: não há pontos de vista sobre as coisas – as coisas e os seres é que são pontos de vista (Deleuze 1969). A questão aqui, portanto, não é saber “como os macacos veem o mundo” (Cheney; Seyfarth 1990), mas que mundo se exprime através dos macacos, de que mundo eles são o ponto de vista.

(…)

O sangue dos humanos é o cauim do jaguar exatamente como minha irmã é a esposa do meu cunhado, e pelas mesmas razões. Os numerosos mitos ameríndios que põem em cena casamentos interespecíficos, demorando-se nas difíceis relações entre os genros ou cunhados humanos e seus sogros ou cunhados animais, não fazem senão combinar as duas analogias em uma só. Vemos assim que o perspectivismo tem uma relação estreita com a troca. Ele não apenas pode ser tomado como uma modalidade de troca, mas a troca mesma deve ser definida nestes termos – como troca de perspectivas.

Eduardo Viveiros de Castro, no ensaio-fundição Perspectivismo e Multinaturalismo na América Indígena, reunido no volume A inconstância da alma selvagem, Cosac Naify, 2001; Ubu, 2017

certa genealogia de ‘Ponteio’

em1967, com Marilia Medalha e Edu Lobo

em 1967, com Quarteto Novo

em 1968, com Sérgio Mendes

em 1968, com Paul Mauriat

em 1969, com a Woody Herman Orchestra

em 1969, com Pat Williams

em 1970, com Edu Lobo

em 1971, com Astrud Gilberto e Stanley Turrentine

em 1972, com Elis Regina

em 1973, com Sivuca

em 1977, com Edu Lobo

em 1992, com Zizi Possi

em 1995, com Alceu Valença

em 2003, com Da Lata

em 2007, com Silvana Malta

em 2009, com Leila Pinheiro

em 2009, com sexteto Caraivana

em 2010, com Ulisses Rocha

em 2011, com San Juan Coral

em 2012, com Coral Parthenon

em 2013, com Grooveria

em 2014, com Jessica Davey e Ben Modley

em 2014, com Mauro Senise

em 2014, com Trio Baru

em 2015, com Renato e Adriana Godoy e Sérgio Belo