filosofia fotográfica

No meu primeiro post aqui citei como herói da teoria fotográfica o artista Joan Fontcuberta, autor, entre muitos outros, dos livros no Brasil editados, O Beijo de Judas e A Câmera de Pandora. Neles Fontcuberta trata do seu tema principal, a mentira (ou a verdade) na fotografia.

Mas os heróis da filosofia na fotografia são muitos, assim como muitos são os títulos sobre o assunto. Buscando apenas na minha biblioteca particular, selecionei alguns títulos, uns mais, outros menos óbvios, para trazer um tanto extra de luz (uma superexposição!) para reflexão. Vamos a eles:

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Sobre a Fotografia, Susan Sontag, 1977 (Companhia das Letras)
Um clássico do gênero. Nos seis ensaios do livro, a autora trata do mundo em que as relações humanas passaram a ser mediadas por imagens, dissertando não só sobre a história da fotografia como também pela história vista pela fotografia.
“Sofrer é uma coisa; outra é viver com as imagens fotografadas do sofrimento, que não necessariamente fortalecem a consciência e a habilidade de ter compaixão. Isso também pode corromper. Uma vez que alguém vê esse tipo de imagem, surge a vontade de ver mais – e mais. Imagens hipnotizam. Imagens anestesiam.”

 

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A Câmera Clara (Notas sobre a Fotografia), Roland Barthes, 1980 (Edições 70)
Outro clássico, onde Barthes vai além da reflexão sobre a imagem, meditando sobre a vida e a morte.
“Por fim – ou no limite – para se ver bem uma fotografia, é melhor desviar o olhar ou fechar os olhos. ‘A condição necessária para uma imagem é a visão,’ Janouch disse para Kafka; e Kafka sorriu e respondeu: ’Nós fotografamos coisas para tirá-las de nossas mentes. Minhas estórias são uma forma de fechar meus olhos.”

 

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Ensaio Sobre a Fotografia (Para Uma Filosofia da Técnica), Vilém Flusser, 1983 (Relógio D’Água)
Nesse resumo de aulas e conferências, Flusser metaforicamente abre a câmera fotográfica para relatar duas revoluções, a escrita, em meados do segundo milênio a.C., e a atual, imagética.
“… A fotografia não é instrumento, como a máquina, mas ‘brinquedo’ como as cartas do baralho. No momento em que a fotografia passa a ser um modelo de pensamento, muda a própria estrutura da existência, do mundo e da sociedade. Não se trata, nesta revolução fundamental, de substituir um modelo por outro. Trata-se de saltar de um tipo de modelo para outro (de paradigma em paradigma). Sem circunlocuções: a filosofia da fotografia trata de recolocar o problema da liberdade em parâmetros inteiramente novos.”

 

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O Fotográfico, Rosalind Krauss, 1990 (Editorial Gustavo Gili)
A professora de história de arte moderna da Universidade de Columbia “ataca” a maneira de se escrever sobre fotografia, e particularmente, a sua história.
“Hoje, em todo lugar, tenta-se desmantelar o arquivo fotográfico, quer dizer, o conjunto das práticas, instituições, relações de onde surgiu inicialmente a fotografia do século XIX, para reconstruí-lo no quadro das categorias já constituídas pela arte e pela história. Não é difícil imaginar quais os motivos de semelhante operação, mas o que é mais difícil de entender é a indulgência para com o tipo de incoerência que isso produz.”

 

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O Ato Fotográfico e Outros Ensaios, Philippe Dubois, 1990 (Papirus Editora)
Mais um grande tratado filosófico sobre a fotografia além da imagem.
“Como a intenção de Baraduc é apenas apreender melhor a própria essência das forças ‘invisíveis’, tudo o que se refere às condições de visibilidade ‘normal’ vai desaparecer aos poucos de seu trabalho. Em primeiro lugar, ele aprende a dispensar a luz do dia. por exemplo, após os histéricos e as crianças, pôs-se a fotografar um abade. Fotografou-o durante o sono, no escuro, colocando o aparelho acima da cabeça. Resultado: uma ‘nuvem negra’ complexa, um fantasma da noite, que interpretou com seus critérios como ‘aura de um pesadelo’. Seguiram-se outros fantasmas auraculares noturnos, que assinalam o recolhimento (branco horizontal), a vontade (cintilação perolada) etc.”

 

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Proust e a Fotografia, Brassaï, 1997 (Jorge Zahar Editor)
O fotógrafo traça um paralelo do livro Em Busca do Tempo Perdido com a grande paixão do seu autor, a fotografia.
“Mas é definitivamente a cena do beijo que fornece as chaves da inspiração do relativismo proustiano: ‘As últimas aplicações da fotografia – que deitam aos pés de uma catedral todas as casas que nos parecem tão frequentemente de perto, quase tão altas quanto as torres,… e num fundo pálido e dégradé são capazes de encaixar um horizonte imenso sob o arco de uma ponte… – não vejo como isso possa, assim como o beijo, fazer surgirem, do que acreditamos uma coisa de aspecto definido, as cem outras coisas que ela não deixa de ser, já que cada uma delas é relativa a uma perspectiva não menos legítima.’”

 

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The Ongoing Moment, Geoff Dyer, 2005 (Vintage Books)
O autor escreve romances e ensaios, além de ser um dos editores de John Berger, que por não tratar especificamente de fotografia não se encontra nessa lista. (mas estará no rodapé 🙂
Nesse livro, Geoff afirma que os fotógrafos consagrados (Walker Evans, André Kertész, Dorothea Lange, Diane Arbus, entre outros) se “encontram constantemente” através dos assuntos similares fotografados por eles: barbearias, mãos, ruas.
“Na fotografia não há o enquanto. Há apenas aquele momento e agora este momento e entre eles não há nada. A fotografia, de certa forma, é a negação da cronologia.”

 

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Photography After Frank, Philip Gefter, 2009 (Aperture)
O editor de fotografia do New York Times apresenta ensaios sobre a fotografia contemporânea após o lançamento do livro The Americans, de Robert Frank, um marco na história, mostrando de onde a fotografia veio e para onde ela está caminhando.
“No final, uma foto pode gravar um fato, mas sem estrutura os fatos não são mais que evidências. O que eu procuro são evidências com observação.”

 

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Bending The Frame (photojournalism, documentary and the citizen), Fred Ritchin, 2013 (Aperture)
Ritchin
é professor do Departamento de Fotografia e Imagem da Tisch School of Arts da Universidade de Nova Iorque, e também co-diretor do Programa de Fotografia e Direitos Humanos. Nesse livro ele examina os usos históricos e contemporâneos da fotografia e mídias relacionadas para inspirar mudanças sociais.
“Se o último século foi o século da Fotografia, este é o da Imagem – nas marcas, na vigilância, na monitoração, no posicionamento geográfico, no sexo (manda nudes), nos selfies, no jornalismo do cidadão, nas imagens médicas, video games, snapchat e, dentro de tudo isso, a fotografia.”

 

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Como Ler Uma Fotografia , Richard Salked, 2014 (Editorial Gustavo Gili)
(em inglês; Reading Photographs – An Introduction to the Theory and Meaning of Images)
Apesar do título simplório na versão em português, este é o livro mais didático de todos. Cada capítulo (leitura de sinais – verdades e mentiras – identidade – estética, etc) traz exemplos fotográficos (de fotógrafos consagrados) que dão suporte para as explicações. Sem dúvida a melhor maneira de se passar de iniciante a estudioso.

 

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Photography Speaks – 150 photographers on their art, Brooks Johnson, 2004 (Aperture)
Aqui uma raridade. Como o título diz, o livro traz uma micro biografia, uma foto e um texto dos próprios fotógrafos, desde o início da fotografia (1800 e tantos – Talbot, Nadar, etc) até os dias de hoje (Mary Ellen Mark, Cindy Sherman, Christian Boltanski, a lista é imensa). Pra ficar na cabeceira.

PS: alguns desses livros podem ser encontrados online em formato pdf.

PS2: Para ir além no objeto olhar, é importante ler ao menos dois livros do historiador e crítico de arte John Berger: Modos de Ver, 1972 (Rocco) e Sobre o Olhar, 1980 (Editorial Gustavo Gili). No Youtube também encontramos a série Modos de Ver em vídeo.

dois pensares

Outra nudez já tinha surgido no horizonte cultural da Europa, com o aparecimento do homem americano. E se houve um ponto de encontro entre a Renascença e o Humanismo, esse se deu no entusiasmo comum pela natureza que a Idade Média difamava.

Era, porém, tão terrível e grosseiro o preconceito que aureolava o mundo helênico que, quando com as Cartas de Vespúcio e pelas Utopias se divulgou a existência de uma super-humanidade perdida do outro lado da terra, se perguntava a respeito dessa gente: – Serão gregos? Ou pelo menos mediterrâneos? O cristianismo dólico-louro trabalha e deforma tudo. Petrarca protesta contra a ideia de que Cícero pudesse ter ido para o inferno, pelo desconhecimento do Cristo. Ele e Sócrates são tidos como “colaborantes do cristianismo”.

A Cícero e a Sócrates, que são considerados deístas, incorpora-se então uma legião de sub-humanistas católicos que têm, hoje, nomes inteiramente esquecidos. É tão grave a deformação cristianizante que a mitologia pagã passa a ser uma teologia velada, as Metamorfoses de Ovídio são a Gênese. Até Homero é um pronunciador de mistérios católicos.

(…)

A Renascença modela e disciplina grandes assuntos. Sempre o seu triunfo técnico se sobrepõe ao tema, à inspiração e ao sentimento. Enquanto isso, o Humanismo dá o estofo das Utopias futuras. Ele cria o Direito Natural. Ele produz, na longínqua América, a primeira experiência de uma sociedade nova – a República Comunista Cristã do Paraguai. No século XVIII, ele dá os fundamentos da Filosofia das Luzes e realiza a Revolução Francesa. No século XIX consegue o abalo sísmico das agitações liberais. E hoje, mais do que nunca, é no Humanismo e na sua tradição revolucionária que se fundamenta a conquista de uma vida melhor para todos os povos.

Oswald de Andrade, no artigo A marcha das Utopias I, publicado n’O Estado de São Paulo aos 5/7/1953, e reunido no volume A utopia antropofágica, Globo, 2001

Alguém é um pai apenas porque existe outrem de quem ele é o pai: a paternidade é uma relação, ao passo que a peixidade ou a serpentitude é uma propriedade intrínseca dos peixes e cobras. O que sucede no perspectivismo, entretanto, é que algo também só é peixe porque existe alguém de quem este algo é o peixe.

Mas se dizer que os grilos são os peixes dos mortos ou que os lameiros são a rede das antas é realmente como dizer que Nina, filha de minha irmã Isabel, é minha sobrinha, então, de fato, não há nenhum relativismo envolvido. Isabel não é uma mãe para Nina, do ponto de vista de Nina, no sentido usual, subjetivista, da expressão. Ela é a mãe de Nina, ela é real e objetivamente sua mãe, e eu sou de fato seu tio. A relação é interna e genitiva – minha irmã é a mãe de alguém, de quem sou tio, exato como os grilo dos vivos são os peixes dos mortos –, e não uma conexão externa, representacional, do tipo “X é peixe para alguém”, que implica que X é apenas representado como peixe, seja lá o que for “em si mesmo”. Seria absurdo dizer que, desde que Nina é filha de Isabel mas não minha, então ela não é uma “filha” para mim – pois de fato ela o é, filha de minha irmã, precisamente. Em Process and reality, Whitehead observa: “a expressão ‘mundo real’ é como ‘ontem’ ou ‘amanhã’ – ela muda de sentido conforme o ponto de vista” (apud Latour 1994). Assim, um ponto de vista não é uma opinião subjetiva; não há nada de subjetivo nos conceitos de “ontem” e “amanhã”, como não há nos de “minha mãe” ou “teu irmão”. O mundo real das diferentes espécies depende de seus pontos de vista, porque o “mundo” é composto das diferentes espécies, é o espaço abstrato de divergência entre elas enquanto pontos de vista: não há pontos de vista sobre as coisas – as coisas e os seres é que são pontos de vista (Deleuze 1969). A questão aqui, portanto, não é saber “como os macacos veem o mundo” (Cheney; Seyfarth 1990), mas que mundo se exprime através dos macacos, de que mundo eles são o ponto de vista.

(…)

O sangue dos humanos é o cauim do jaguar exatamente como minha irmã é a esposa do meu cunhado, e pelas mesmas razões. Os numerosos mitos ameríndios que põem em cena casamentos interespecíficos, demorando-se nas difíceis relações entre os genros ou cunhados humanos e seus sogros ou cunhados animais, não fazem senão combinar as duas analogias em uma só. Vemos assim que o perspectivismo tem uma relação estreita com a troca. Ele não apenas pode ser tomado como uma modalidade de troca, mas a troca mesma deve ser definida nestes termos – como troca de perspectivas.

Eduardo Viveiros de Castro, no ensaio-fundição Perspectivismo e Multinaturalismo na América Indígena, reunido no volume A inconstância da alma selvagem, Cosac Naify, 2001; Ubu, 2017

certa genealogia de ‘Ponteio’

em1967, com Marilia Medalha e Edu Lobo

em 1967, com Quarteto Novo

em 1968, com Sérgio Mendes

em 1968, com Paul Mauriat

em 1969, com a Woody Herman Orchestra

em 1969, com Pat Williams

em 1970, com Edu Lobo

em 1971, com Astrud Gilberto e Stanley Turrentine

em 1972, com Elis Regina

em 1973, com Sivuca

em 1977, com Edu Lobo

em 1992, com Zizi Possi

em 1995, com Alceu Valença

em 2003, com Da Lata

em 2007, com Silvana Malta

em 2009, com Leila Pinheiro

em 2009, com sexteto Caraivana

em 2010, com Ulisses Rocha

em 2011, com San Juan Coral

em 2012, com Coral Parthenon

em 2013, com Grooveria

em 2014, com Jessica Davey e Ben Modley

em 2014, com Mauro Senise

em 2014, com Trio Baru

em 2015, com Renato e Adriana Godoy e Sérgio Belo

longa vida à longa exposição

No dia 3 de fevereiro de 2015 o Esquadrão Anti Bombas de Atlanta explodiu uma caixa selada com fita adesiva colocada na ponte da 14th Ave. Ela era uma das 19 caixas de pinhole espalhadas pela cidade que faziam parte de um projeto artístico de solargrafia da Universidade Estadual da Georgia.

Solargrafia é um processo onde uma câmera pinhole expõe o papel fotográfico por dias ou até meses, tendo como característica as marcas deixadas pelo movimento do sol.

Justin-Quinnell_Solargraphsolargrafia de Justin Quinnell – exposição de 6 meses (entre dezembro de 2007 e junho de 2008)

Mas a fotografia em longa exposição não é um hype dos anos 2000, muito pelo contrário, e como ratifica o fotógrafo Marcos Vilas Boas, um pesquisador desses processos desde 1995, “a fotografia nasceu na longa exposição”.

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retrato de Andy Warhol, Duane Michals

Além da paisagem* como objeto de desejo; profissionais, artistas e fotógrafos amadores “brincam” com a longa exposição em retratos e cenas do cotidiano e fantasias**.

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Light painting de Troy Paiva na série Lost America, Pearsonville, 2008

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Michael Wesely constrói/desconstrói o urbano

Afim de demonstrar a variedade nesse campo, escolhi para encorpar esse texto imagens de duas vertentes opostas; nas “luzes lentas” do cineasta Marco Del Fiol, que tem na fotografia em longa exposição um hobby que certamente o leva a refletir sobre outras questões, e na série Meio-Dia (que vai na contramão do padrão longa exposição = noite) do supracitado Marcos Vilas Boas. Ambos falaram sobre o assunto. (clicar nas fotos para ver os detalhes)

1. Quando você começou a fotografar com longa exposição? Por que?
MVB : Por volta de 1994, 1995… fotografando natureza morta em estúdio, experienciando diferentes fontes artificiais de luz e usando longa exposição na maior parte do tempo, já que se tinha uma mania louca de fotografar com diafragma F45 para ter foco em tudo. Muito parecido com essa patologia do sharpen nos dias de hoje. Essas experiências se juntaram às derivas noturnas e solitárias em frente ao mar e pelos lugares vazios à beira mar.
MDF : Minha sogra tem uma casa no sul de Minas, bem no meio do mato. À noite as estrelas aparecem com tudo. Fica aquela coisa desmesurada de grande sobre a cabeça. Achei que dariam boas fotos.

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Marcos Vilas Boas, meio-dia, 2015

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Marco Del Fiol, noite

2. Qual é o seu ritual para fotografar com longa exposição?
MVB : Sempre que possível gosto de enquadrar a cena durante o dia, avaliar algumas questões, grau de periculosidade, e se der fazer uma marcação para as pernas do tripé.
MDF : Tem um silêncio interno que vai se encontrando com a paisagem. Quando eu fui para o Fish River Canyon na Namíbia senti que o lugar era muito forte e veio uma vontade de conhecer o “síndico” dali. Acredito que cada espaço tem uma espécie de entidade responsável pela sua manutenção. À noite veio uma tempestade elétrica impressionante, e foi lindo porque chovia em toda a volta, mas não onde estávamos.

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3. Existe ansiedade/expectativa no processo? Você imagina qual vai ser o resultado?
MVB : Resposta na questão abaixo!
MDF : O mais legal é a expectativa porque mesmo fazendo testes com o ISO mais alto pra ver o quadro, não dá pra saber qual vai ser o resultado final com o ISO baixo e a exposição mais longa.

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3. Além do equipamento, do tempo de preparação e da exposição em si, o que difere a fotografia de longa exposição da fotografia normal?
MVB : Acho que o tal do “Instante Certo” não existe nesse tipo de experiência fotográfica, o que pode tornar a coisa muito interessante porque você fica com a imagem processando no cérebro por bastante tempo, até olhar as folhas de contato no laboratório.
MDF : O mistério. De noite é o momento que o visível se recolhe e o invisível vai passear.

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4. Como você escolhe o seu assunto?
MVB : Existe ali algo interessante e com uma luz particular.
MDF : Gosto de paisagem, do lugar como personagem. Com o tempo comecei a brincar de mexer a câmera, fazer tilts, pans, zooms durante a exposição. De certa forma me libertei do plano fixo do Sugimoto e fui para o Kentridge, no sentido de manter o rastro do movimento. É como se cada foto fosse a somatória de um filminho de 1 minuto.

5. O que mais lhe atrai no resultado final?
MVB : Somente após repetir muitas vezes, fotografando em situações parecidas com variáveis semelhantes, percebi que estava resumindo em 1 único frame, um filme que assisti de 5, 10, 20 minutos de duração.
Voltar pra casa após algumas horas com apenas 3,4 ou 5 fotogramas, é um pacificador de ansiedade.
MDF : A luz da noite sobre a paisagem é sempre muito mágica.

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6. Quando fotografando à noite, que diferenças as luas (ou a falta dela no campo de visão) proporcionam às imagens?
MVB : A Luz da lua cheia se assemelha à de um sol de verão, é tão dura quanto, ajuda a ressaltar o contraste e as cores, se essa for a intensão. Além de ajudar para ter enquadramento mais preciso, diminui drasticamente o tempo de exposição necessário.
MDF : A lua cheia brilha tanto que esconde as estrelas, mas dá volume às nuvens. A crescente tem luz mais delicada. Cada fase tem suas graça, tem que aproveitar o que elas oferecem.

7. O clichê diz que nas fotografias de longa exposição a gente vê o mundo como a gente não o enxerga. Então o que a gente vê?
MVB : A intensidade de luz noturna às 19:00h é bem maior do que às 24h numa noite normal sem lua; sol vai se distanciando cada vez mais e a noite já escura vai ficando cada vez mais escura. Talvez se tivéssemos a pupila de um felino, qua dilata algumas vezes mais que a nossa, perceberíamos que o breu absoluto não existe.
Agora, quem pode definir o que é longa exposição e o que não é? Quanto tempo? Qualquer foto com mais de 1 segundo? 1 minuto?
MDF : O tempo.

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Curiosamente, ao solicitar referências bibliográficas aos fotógrafos, entre outros, ambos sugeriram o trabalho do artista Hiroshi Sugimoto. E não é que mais tarde, ao chegar na casa de uma amiga, de cara encontrei o poster acima. Sei lá, tem mesmo alguma coisa no ar 🙂

Site Marcos Vilas Boas

Tumblr Marco Del Fiol

* Para maiores reflexões filosóficas e estéticas sobre a paisagem, ler A Invenção da Paisagem, Anne Cauquelin

** site sobre light painting

uma resposta fotográfica para a vigilância

“Que direito têm os governos, corporações e indivíduos de coletar e reter informações sobre suas comunicações diárias? Que ferramentas – tanto hoje como no passado – foram usadas para monitorar suas atividades? Quais são os efeitos imediatos e de longo alcance? Como governos e corporações em todo o mundo expandem seus esforços para rastrear as comunicações e atividades de milhões de pessoas, isso não só ameaça o nosso direito à privacidade, mas também abre a porta para a informação ser recolhida e utilizada de forma repressiva, discriminatória e que ameaça o direito e a liberdade de expressão.”
(introdução de matéria da revista photography-now)(que inspirou o post)

A exposição itinerante Moving Walls 22/Watching You, Watching Me faz parte de um projeto da Open Society Foundations e atualmente se encontra em Berlim (até 2 de julho), trazendo uma compilação inspiradora (às vezes deprimente) do uso da fotografia como instrumento de vigilância.
São 10 artistas tratando do assunto através de visões e mídias das mais ecléticas, seja do ponto de vista governamental, corporativo ou individual.
Abaixo um resumo do que há de mais atual em termos de mundo atual.

Edu Bayer fotografou interiores abandonados do Centro de Vigilância da Internet e da Sede de inteligência do Coronel Muammar al-Qaddafi em Tripoli (agosto de 2011)

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Simon Menner apresenta a série “What does Big Brother see, while he is watching?”, que apresenta uma fração das imagens pesquisadas no arquivo secreto da Stasi (Alemanha Oriental). As fotos de manuais de procedimentos têm títulos como “como dar sinais secretos” ou “como colar um bigode falso”.

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simonmenner3Disguise-Seminar(Seminário de Disfarces)

simonmenner1(Cerimônia de Reconhecimento da Unidade de Vigilância Telefônica)

Josh Begley junta fotografias, mapas e textos de documentos produzidos pela Unidade Demográfica de Departamento de Polícia da Cidade de Nova York na série “Plain Sight Visual Vernacular NYPD Surveillance”.

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(Information of Note, 2014)

Na série “Mission and Task”, Julian Roeder adota a linguagem visual da publicidade para chamar a atenção para as pessoas e máquinas por trás do sistema de vigilância fronteiriça do EUROSUR, que conecta todos os sistemas de controle fronteiriço na União Europeia.

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(Monitoring Zeppelin, 2013)

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(Border Fortification Facilities, Melilla, 2012)

Já em “It’s Nothing Personal”, Mari Bastashevski faz uma instalação combinando suas próprias fotografias com materiais promocionais e documentação corporativa da indústria de vigilância eletrônica.

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(CyberGym Camp, Israel, 2014)

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(colagem com brochuras coletadas pela ONG Privacidade Internacional, onde a artista trabalhou)

Tomas van Houtryve relembra o ataque americano ao Paquistão em 2012, usando um drone para fotografar diferentes localidades nos Estados Unidos na série “Blue Sky Days”.

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(Parque em São Francisco, Califórnia)

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(Carro de bombeiros no Gila River Indian Community, Arizona)

Acessando uma câmera de CCTV desprotegida, Andrew Hammerand destaca a invasão de privacidade que já está em andamento na instalação com 21 fotografias “The New Town”.

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(detalhes de The New Town, 2013)

Na série “Street Ghosts” (2013) Paolo Cirio faz instalações de rua que reinserem as pessoas capturadas pelo Google Street View de volta ao espaço público.

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Em “Dutch Landscapes”, Mishka Henner interfere na paisagem visual do Google Earth na Holanda, destacando com pixels coloridos os locais políticos, militares e econômicos censurados pelo governo.

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Em 2002 o artista e pesquisador Hasan Elahi foi colocado erroneamente em uma lista de observação do FBI. Desde então, Elahi fotografou mais de 70.000 detalhes mundanos de sua vida diária, e enviou semanalmente imagens para o FBI. As fotos se transformaram na série em andamento “A Thousand Little Brothers”, de 2014.

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(A Thousand Little Brothers, com aproximadamente 32 mil fotos)

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(detalhe de A Thousand Little Brothers)

Para saber mais detalhes sobre as obras, os artistas e a exposição, clique nos nomes (vale muito a pena) e também aqui.

dois poemas

PEQUEÑO POEMA INFINITO

Equivocar el camino
es llegar a la nieve
y llegar a la nieve
es pacer durante varios siglos las hierbas de los cementerios.
Equivocar el camino
es llegar a la mujer
la mujer que no teme a la luz
la mujer que mata dos gallos en un segundo
la luz que no teme a los gallos
y los gallos que no saben cantar sobre la nieve.
Pero si la nieve se equivoca de corazón
puede llegar el viento Austro
y como el aire no hace caso de los gemidos
tendremos que pacer otra vez las hierbas de los cementerios.
Yo vi dos dolorosas espigas de cera
que enterraban un paisaje de volcanes
y vi dos niños locos
que empujaban llorando las pupilas de un asesino.
Pero el dos no ha sido nunca un número
porque es una angustia y su sombra
porque es la guitarra donde el amor se desespera
porque es la demostración del otro infinito que no es suyo
y es las murallas del muerto
y el castigo de la nueva resurrección sin finales.
Los muertos odian el número dos
pero el número dos adormece a las mujeres
y como la mujer teme la luz
la luz tiembla delante de los gallos
y los gallos sólo saben volar sobre la nieve
tendremos que pacer sin descanso las hierbas de los cementerios.

Federico García Lorca (1898 – 1936). Poema de Terra y Luna, escrito entre 1929 e 1930

 Mi Amado las montañas,
los valles solitarios nemerosos,
 las ínsulas estrañas,
 los ríos sonorosos,
el silvo de los ayres amorosos,

 la noche sosegada
en par de los levantes del aurora,
 la música callada,
 la soledad sonora,
la cena que recrea y enamora.

 Caçadnos las raposas,
questá ya florescida nuestra viña,
 en tanto que de rosas
 hazemos una piña,
y no parezca nadie en la montiña.

 Detente, cierço muerto;
ven, austro, que recuerdas los amores,
 aspira por mi huerto,
 y corran tus olores,
y pacerá el Amado entre las flores.

San Juan de la Cruz (1542 – 1591). Estrofes 14 a 17 do poema Cántico (~ Sevilla, 1703)

Fotografo, logo existo *

thames-hudson

Faz nem um mês visitei a casa de um amigo recém falecido. Quando lá cheguei encontrei a família, entre lágrimas e risos e silêncios, selecionando as fotografias que continuariam a fazer parte da memória particular de cada um. Como esse amigo era um idoso, eram fotos e mais fotos de épocas diferentes: retratos retocados coloridos em cores impossíveis, os bons e velhos pretos e brancos e cinzas, polaroids, 3x4s e as clássicas dos anos 70, mais desbotadas ou mais contrastadas. Duas curiosidades: o desprendimento com que os familiares se desfaziam do “material” e o fato de que logo perguntaram se eu queria algumas daquelas fotos. Naquele momento meus olhos brilharam.

IMG_7213(foto 1: casa da tia Paulina e tia Nené – foto 2: desconhecido)

“Toda fotografia constitui uma promessa de eternidade, ao custo de nos revelar como futuros cadáveres: a imagem permanece enquanto o corpo desvanece. E, se para Barthes a fotografia mata, para Kracauer o que ela realmente pretende é desterrar a lembrança da morte.” (Joan Fontcuberta, em A Câmera de Pandora)

Há algum tempo coleciono fotografias “encontradas”. Tudo começou num mercado de pulgas europeu, quando comprei mais de mil slides visando achar caminhos para o desenvolvimento do meu próprio trabalho. E de certa forma encontrei uma saída. As fotos dos velhinhos em viagem pela Suiça nos anos 50/60 serviram de suporte para um evento que participei em 92 e até hoje procuro tempo para ir além nessa pesquisa. Já prometi parar de fotografar e virar um curador das imagens existentes. Sem sucesso.

old1(uma das fotos originais dos velhinhos)

old2

old3

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(fotos da série Spoiler, 2016)

Se no começo dos anos 90, sem internet, eu achava que havia descoberto a roda, hoje sei que a fotografia encontrada é objeto de culto já faz um tempo. Só pesquisando para aprofundar – um pouco – esse texto descobri um ensaio instigante  (The Found Photograph and the Limits of Meaning, Barry Mauer) e grupos de colecionadores; um deles, na Argentina, com mais de 22 mil integrantes (negativos encontrados – facebook). Também descobri a existência de um documentário sobre o assunto, Other People’s Pictures, de 2004.

Mas é no campo das artes que as coisas se confundem (bem, o que não se confunde nas artes?). Ali, com a presença da imagem digital, teóricos e artistas debatem se a fotografia é arte (isso é bem mais antigo), se coisas encontradas são arte (isso também) e, pelo andar da carruagem, se a arte é arte. Novamente, autores mais estudados discorrem sobre o assunto, o que não é a pretensão desse texto, até porque assunto infinito.

Hans-Peter Feldmann

(Hans-Peter Feldmann)

Joan Fontcuberta (nosso herói aqui hoje), conclui que o artista Joachim Schmid “condena a sacralização excessiva da história e de seus vestígios; nem a memória deveria ser um grande cemitério nem os museus deveriam funcionar como mausoléus que só glorificam o passado. Pelo contrário, a história deve poder regenerar o presente e incentivar o futuro.”

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(Joachim Schmid)

Schmid é radical, seu lema é “fotógrafos do mundo, uni-vos e detende vossa produção excessiva e insensata, reciclai o que já existe!”

Fica a dica.

PS: para saber mais desse e outros assuntos sobre a fotografia contemporânea é fundamental ler os dois livros de Joan Fontcuberta: O Beijo de Judas e A Câmera de Pandora.

Outros links
– trabalho dos fotógrafos italianos Arianna Arcara e Luca Santese, do grupo Cesura.
– curta Negativos Encontrados

* título roubado de um capítulo do livro A Câmera de Pandora, de Joan Fontcuberta, Editora G. Gili, 2010

dias melhores

Vamos falar de outras coisas. Contar depois que abre e abre espaço para dar em incrementos e ventila nossos campos. Atar quando roer é ato-semba se se olha para dentro e dentro fica, por causas, formas, casa&construção.

A partir de abril, nosso blog da Touro Bengala abrigará co-editores, que farão que bem entendam na categoria dias melhores. A estreia é do fotógrafo, videomaker, reformado produtor do quarto andar da MTV Brasil (safra 1994), professor, pai e divertido redator Ronaldo Miranda. Valendo!

dias melhores abril 17

um protótipo de dispositivo móvel de bolso

funções: telecomunicação (sic, posto que eu não vou ficar te encostando de língua se eu quero te falar, vou sempre manter uma distância respeitosa, do grego, tele), pagamentos (swipe cash), lista de contatos (swipe biz card), multimedia mash&play (acompanha oclinhos e feijões auriculares), gravação cidadã (deixem a ‘fotografia’ para os fotógrafos, lesks), doutor íntimo (você engole sensores e ele te mantém postado sobre os índices), navegador (que onde quando), chaves (entre onde quer que você possa).

Por que circular? Por causa do universo. Fica melhor na mão, na vista, no bolso, pendurado, na pochetinha (acompanha pochetinha).

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dois poemas

À CRÍTICA GENÉTICA

Houve Há mais camadas no porvir correr do texto,
que não se pode nunca compreender;
entender sua história é não saber
que o poeta poema nasceu no ano bissexto.

E a Assim cada papel que foi vai pro cesto
pouco significou significa a quem souber
a interpretação pro cateter que vier
enfiado no cu enlaçado nas malhas do intertexto.

E ainda sempre há gente que se esqueça não reconheça:
por mais que a linha se demonstre reta o pensamento seja reto,
não houve nunca houve nada dentro da cabeça.

Por isso sempre digo: não se meta me meto,
por mais canhestro palavroso e insosso que pareça,
com o que quis quer dizer o teu poeta meu soneto.

Guilherme Gontijo Flores (n. 1984)
poema do livro brasa enganosa, São Paulo : Editora Patuá, 2013

eu durmo comigo

eu durmo comigo/ deitada de bruços eu durmo
comigo/ virada pra direita eu durmo comigo/ eu
durmo comigo abraçada comigo/ não há noite tão
longa em que não durma comigo/ como um trovador
agarrado ao alaúde eu durmo comigo/ eu durmo
comigo debaixo da noite estrelada/ eu durmo comigo
enquanto os outros fazem aniversário/ eu durmo
comigo às vezes de óculos/ e mesmo no escuro sei que
estou dormindo comigo/ e quem quiser dormir comigo
vai ter que dormir do lado.

Angélica Freitas (n. 1973)
poema do livro Um útero é do tamanho de um punho, São Paulo : Cosac Naify, 2012

uma resposta à imprensa

PERGUNTA: Falaí, senhor Nepomuceno, parece que o senhor não conhece muito bem música brasileira, hein, senhor Nepomuceno, hein? Falaí. Parece que não, hein? Parece que o senhor não é moderno não, hein, Nepomuceno? É antigo, hein? És chatola europa, não? Não sabe a música, hein?

RESPOSTA: Em geral a nota característica da musica popular brazileira são as indicativas de suas origens ethnicas – indigena, africana e peninsular – tal como na poesia popular foi verificado pelos nossos folkloristas, como Sylvio Romero, Mello Moraes Filho e outros. E’ de notar que no elemento peninsular são factores de importancia o mouro e o cigano. Infelizmente a parte musical nos estudos do folklore brazileiro ainda não foi estudada, provavelmente por ser a technica musical uma disciplina que escapa ao conhecimento dos investigadores do assumpto.

Nunca me dediquei a esses estudos, mas possúo, como diletante, uma colleção de uns oitenta cantos populares, e danças, e procuro sempre augmental-a. Acham-se quasi todos estudados e classificados, e, nesse trabalho, verifiquei uma modalidade que não é regional, pois que se encontra em cantos recolhidos no Pará, no Ceará e no interior do E. do Rio e que – parece-me não tem ligação com nenhum dos elementos ethnicos acima citados. Essa modalidade, de ordem melodica e harmonica, é produzida pelo abaixamento do setimo gráo sempre que o canto tenda para o sexto, como funcção do 2° ou do 4° gráos.

Outra modalidade caracteristica verificada em grande numero de cantos é a nota final ser o 3° gráo e por vezes, o 5°, ou o 2° como função do 5° o que da logar, na harmonisação desses cantos, ao emprego das cadencias finaes do terceiro e setimo modos gregorianos, respectivamente. Não é esta a unica afinidade que encontrei com o canto-chão. Nos aboiados – cantos tristes que os vaqueiros entôam á frente do gado para reunil-o – o vaqueiro, segundo as circumstancias, amplia o seu aboiar com vocalizes que lembram os do canto-chão. Os aboiados são usados em todos os Estados criadores do Nordeste, e segundo estou informado, em Minas e Goyaz.

Esses elementos ainda não estão incorporados ao patrimonio artistico dos nossos compositores. Sera por culpa da nossa educação musical européa, refinada, que impede a aproximação do artista-flôr de civilisação – e a alma simples dos sertanejos, que ate hoje – por criminosa culpa dos governos – não passam de retardatarios, segundo a classificação justa de Euclydes da Cunha; ou será por não ter ainda apparecido um genio musical sertanejo, imbuido de sentimentos regionalistas, que, segregando-se de toda influencia estrangeira, consiga crear a musica brazileira por excellencia, sincera, simples, mystica, violenta, tenaz e humanamente soffredora, como são a alma e o povo do sertão.

Verdade que tanto a modernidade quanto a “verdadeira” brasilidade de Nepomuceno foram questionadas. A resposta acima, de 1917, também é verdade. Nada menos que um dos muitos inventores do samba, Alberto foi quem levou seu conterrâneo Catulo da Paixão Cearense para mostrar à elite carioca o que fazia um violão nacional. Foi quem abriu as portas para Ernesto Nazareth, quem divulgou um ainda jovem Villa-Lobos, quem forjou o belo canto não mais em italiano, mas em português brasileiro (para horror da crítica). Com efeito, todo o mergulho não só do Villa, mas também do Mario de Andrade, nas raízes da alma brasileira, existiram porque, antes, existiu Nepomuceno, que por sua vez percebeu a ideia da valorização da música de um país na gente do país com os franceses da Société Nationale. Natural do Ceará mas vivido, dos oito aos vinte, em Recife, na época de ouro da Faculdade de Direito e dos batutas dos ’70, Nepomuceno pode privar com a Princesa mesmo sendo republicano e abolicionista (como?).

Para curtir Nepomuceno, duas opções colhidas en passant no youtube.

Lançamento 2 de n

Gente lida, viajada e estudada desse brasilzão, assuntíneos, contratíneos, familiares e festeiros, pessoal do bairro e das muitas casas do caralho espalhadas à vontade nesta densa são-rio, é prazer receber as suas graças sorrisos pratas sábado agora dia 8 próximo neste simpático café-restô da Vila Buarque. Os autores os saúdam e dizem que não desadoram adorar, adoram não desadorar, vocês mesmos suas testas mãos e línguas de leitores de tão quentes livros. Sábado agora! dia 8 próximo!

Dispare os cartazes abaixo em seus grupos de zap valeu [submergir] ♥

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Handy Zine n.1

Está inaugurada a série The Handy Zines, livretos de 12 lâminas em papel kraft com dimensões de 11 x 14 cm. São peças únicas montadas manualmente, interessadas em tocar o ‘hoje’ com alta eficácia semiótica e populismo sensorial. O idealizador do projeto e autor da primeira edição, Guilherme Coube, afirma em nota esperar um leve quem sabe rebuliço no mercado, apesar do preço “praticamente inacessível”. Novos artistas serão chamados a manufaturar as edições subsequentes, “desde que entreguem alta eficácia semiótica e populismo sensorial, isto é, desde que toquem, com denso e matador minimalismo, os discursos tópicos correntes e fabulem uma assembleia fruível com delícia”, explica. A presente edição, intitulada ‘O So Con & Troub’, fala segundo Coube das “dualidades inseparáveis do fazer e do poder”.

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dois recortes de coluna

A economia internacional modernizou o agronegócio brasileiro obrigando-o a respeitar padrões de qualidade. Contudo, quando operam no mundo do poder brasileiro, os empresários fogem do século 21 e aninham-se na primeira metade do 20, quando seus antecessores administravam matadouros.

A Operação Carne Fraca começou com um lastimável grau de amadorismo megalômano e espetaculoso da Polícia Federal, mas isso não convida empresários, mandarins e ministros a adotarem a postura arrogante dos empreiteiros no nascedouro da Lava Jato. Como ensina um velho provérbio napolitano, “seja honesto, até mesmo por esperteza”.

– Elio Gaspari hoje na FSP

PLANA 17 | sacola

É difícil dizer se o mix da sacola nossa será deveras representativo, pois a pergunta a seguir seria: representativo de quê? Ora, de um nosso rolê, se tanto, pelas frestas de tempinho n’algazarra do market. Foi o que deu para fazer, no entanto, seria dizer pouco. Digamos assim: nossa, nossa sacola trouxe as marcas de gravuras quasi-orgânicas, trouxe essa questão do simulacro-game, trouxe o simulacro meta-metá da (na/por/pela/sob/sobre/entre/em) filosofia dos filósofos, muito humor, remixed literature, o neo-portrait cptm, brindes e delírios. Valeu.
plana_17 sacola