mântica

Mântica é um livro de poemas escrito pela Tatiane Vesch, que toca com o João Maia a produtora camaleão. Ano passado, o casal fez a curadoria de um projeto transdisciplinar refletindo obra e processo em Hilda Hilst chamado Antrohh.

A Tati escreve desde uma antiguidade diante da qual é difícil não abrir as mãos.

Há uns meses, ela pariu a Viola; agora, Tatiane e João cuidam da filha e vivem a vivaz mitorritmia do milênio. Isso quer dizer entre outras coisas fazer a comida e não desesperar.

udon

A esta poeta não nos parece faltar tanto o que aprender quanto o que simples esperar. Disturba um pouco o monte de poesia que ali acabou aportando. Agora é ondas, voos de vegetação e passos dados trabalhando sem esforço.

deuxième

Muito natural e colorido, um hábito sócio-literário sem fronteiras com outras práticas, isto é, imiscuído no fruir atento (ela suporta a biomecânica circense) em que permeiam a mãe e a poeta em modo contínuo, é ela contar os sonhos, complexas psicodelias sem mudar o tom de voz. A admissão não exotizante do onírico acusa alcances irreversíveis de percepção.

2 2A

É da beleza de um canto espontâneo que salva e encena e planta o que resta por remar de que fala a Tati.

Neste almoço, em momento algum Viola deixou o contato do corpo da mãe. A filha muitas vezes fixada nas cores, ruídos, aromas à frente: todos os tatos da panela. E a poeta firme operou os fogos; usou mais de quatro panelas e bastantes temperos em compartimentos diferentes (exigindo assim diferentes modos de abrir e fechar), conchas, colheres, garfos, facas, tábuas, pegadores, escorreu a água fervendo e migrou molhos de lá para cá, misturou, misturou e serviu, pedindo desculpa aos convivas porque todas as cumbucas menos uma não existiam mais.

4 5

No poema ‘kort de amuzas’, Tati faz uma graça nas delicadeza e efeito que os críticos costumam atribuir às poetas velhas. Como se vê, um erro:

autre-même
autre-même
autre-même
muita gente no balanço

7

Você consegue um exemplar de Mântica na Feira Plana ou escrevendo para casa@tourobengala.com

marque isso: um brinde pra feira

entre tudo o que pode acontecer
ao marcador
notamos no escritório os nossos
aos poucos perdendo espaço
regredindo a pedaços
menores e menores
quem nasceu
para evitar orelhas livros
de bruço for
çando a espinha
quando some é que aprendeu
a viver mais
de uma vida sem capricho
que a defina
os nossos sumindo
invariavelmente sumindo e terminando
comigo calhou, disse um
do marcador acabar junto com o livro
rá, dissemos, o marcador acabou
junto com o livro, nunca mais
que caso difícil
significa que o livro exigiu na leitura o exato
número de piteiras
disponíveis no marcador

§

Na Feira Plana, os livros da Touro Bengala acompanham um marcador que traz em si a marca, a sugestão processual e diríamos a rota mesma de seu próprio fim. Um marcador para tempos que não passam conforme pensamos.

marcador_3

fotolivro: yui 393

Mais um xamã acessível (lembrando que o xamã, de fato, não há tanto quanto grupos fortuitos onde, do eventual, um ou mais esforços acessam o xamanismo em processo, que virá comunicar e administrar perspectivas cruzadas) na Frei Caneca lá embaixo, aonde vou bastante.

Avaro veio de Córdoba, Argentina, formado nas artes do DJing e da fotografia. Por vários motivos instalou-se em São Paulo onde vive e trabalha há cinco anos.

Não raro, Avaro deixa escapar indignações e desejos utópicos que poderiam ser ditos, sem tirar nem por, por mim mesmo. É um tanto espantoso o quanto, às vezes quando encontramos, as falas das bocas orbitam conceitos e percepções que não podemos chamar de próprias, mas de plenamente compartilhadas.

Isso, é claro, quando se pode a mínima complexidade na articulação (para excluir eventos ~meramente catárticos, por exemplo), ou seja, quando é possível abrir espaço para a produção de novos ou para a visita crítica de conhecidas percepções e conceitos não interessadas senão na direção da Verdade.

Há pouco, por uns quatro ou cinco dias, Avaro foi visitado pela enorme mariposa Canthela, nome de trabalho. Não há dúvida, Canthela não era só uma mariposa. Avaro diz que ela o seguia, que se aquietavam ambos quando queriam, e também que se agitavam concomitantes, passando da cozinha à sala e da sala ao banheiro. Eu disse: Avaro,

há pesquisa entre as mariposas, elas levam pranchetas mentais e ali esquadrinham sua ciência. Ela só queria uns dados. Rimos, mas sabemos: sob a máscara animal de Canthela, há, de fato, uma forma humana capaz de ver Avaro como um deslocado rinoceronte de cativeiro ou, mesmo, como uma mera mariposa.

“Vendo os seres não humanos como estes se veem (como humanos)”, diz Eduardo Viveiros de Castro em seu famoso ensaio, “os xamãs são capazes de assumir o papel de interlocutores ativos no diálogo transespecífico; sobretudo, eles são capazes de voltar para contar a história, algo que os leigos dificilmente podem fazer. O encontro ou o intercâmbio de perspectivas é um processo perigoso, uma arte política – uma diplomacia.”

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Avaro é apurado compositor, cioso das decisões que chamaríamos clássicas da operação harmônica. Regras de ouro, a forma clara, a beleza fora do grito, o ruído sequestrado pelo esquadro tanto quanto a dor pelo algorítimo luz, e ainda assim um pórtico, uma ponte entre estranhezas, uma sólida passagem para o espanto.

Em tempos de fotolivros ligeiríssimos, de tutoriais de fast-linguagem, de repetições de errinhos estetizados um tanto além do ponto naquela ociosa chave da frouxidão casual hipster, é salutar apresentar YUI 393, um fotolivro canônico. A seguir, um spread:

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Canônico, atenção, quando as “”rupturas”” disponíveis nos aportam tal qual filtros corretivos pré-programados, enjauladas por muitas e muitas aspas.

Avaro há muito frequentava o ?Parque? Augusta. Milita um tanto discreto, mais no silêncio da reza. No canto da sala do pequeno apê que divide com Gábi, há duas dúzias de vasos de onde sobem os verdes em galhos e folhas variadas. Na parede atrás, uma plaquinha diz: Parque Augusta.

Avaro é também muito grato. Nunca o visitei sem notar, às vezes simplesmente do nada, gestos e falas de gratidão genérica ao planeta e a tudo. É bonito ver.

Aqui você pode ouvir o set musical mais recente de Avaro:

YUI 393 estará na mesa da Touro Bengala na Feira Plana, de 15 a 17 agora.

todos soltos

À página 66 do livro Todos soltos, o leitor depara com as dezenove linhas de um poema que, nas palavras do poeta,

eu não lembro exatamente o sermão do Vieira que no Carnaval de 2014 eu lia. Mas lá ele dizia, no sermão de que não lembro, das tenças claramente; eu não lembro se eram necessariamente as tenças da segunda; e eu não lembro, também, se eram ou não grossas as tais tenças. Muito hip-hop eu ouvia, muita canção advinda da dor blues apenas quase subjugando a marcha eu consumia nas horas vazias daquela desalmada Brigadeiro, confusa na razão, até que como exatamente, muita confissão eu lia dos tuberculosos, os chamados góticos eu lia, os advindos da dor

. Sem dúvida um poema estranho porém marcado por negação e desamparo. Depois, pessimista. Seu fim, “já não imagina”, é também o bordão do desistente, daquele de quem os sonhos e os ossos pegaram no sono. Assim, numa transmutação goyana, produz-se monstruosidades

e eu acrescentaria ainda que não, parte-se uma bolha de sabão, com sorte, com um dedo, e assim nascem duas menores, duas bolhas menores completamente desinteressadas. Não é o caso neste poema. Aqui há tão somente uma bacia de latão carcomida em parte, demasiado amassada pois vê-se quedas, quinas, dedadas e martelos, toda sorte de pedra se vê e mais chapisco, lascas, resinas, ferrugens e metais e um geral estrago alma da segunda, se assim acreditarmos, ou desde uma compreensão tolerante diante das cruezas da situação. Quem gostaria de ser “infensa por decreto”? Cadê a transparência, ela gritava; “tripas na vitrina”, concluía.

A página não revela outra coisa, apesar de fazer pouca ou nenhuma diferença

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Há um problema na depressão, bastante sintomática no poema, quando dá-se o que a psicanálise chama de “cansaço em expressar a si mesmo”. Ora, nós não podemos esperar nada de sujeitos cuja trajetória de autocriação e reconhecimento tenham sido por esta ou aquela contingência guilhotinada. As últimas linhas são brutais quando aniquilam os trapinhos de autoestima e convocam a guarida da melancolia for good.

Tal seria um problema menor. Acontece que há, na modernidade vigente, uma série de arapucas camufladas de estradas, gaiolas camufladas de automóveis. Não é fácil perceber. Eles dizem: você não precisa articular suas vivências em linguagem compartilhada e tecnologicamente desperta, basta render-se à “hiperexcitação contínua da festa”, e sair correndo, e abraçar a cisma superegóica da promessa do gozo. Vem assim, não por acaso, prescrito o descaso com a ansiedade via quem? ele mesmo: o consumo; do qual, aliás, poucos de nós (os monges, bichos) estaríamos livres ou soltos. O que o mundo tal como o erguemos nos parece pedir, sem vergonha, então, é: anule sua voz e viva o tempo morto de quem trabalha para comprar arapuca por estrada.

É mais difícil do que parece, pois os seres da Organização estão à solta e são gigantes. Um deles, inclusive, pretende “cuidar” de nós os depressivos. E cuidariam, talvez, não fosse um detalhe: quando fazem circular inibidores disto ou daquilo (testados baixo o domínio do Earning Per Share), o que circulam, em verdade, é o discurso mal acabado do “fim da era dos conflitos”, quando nada muito drástico, em esfera alguma, e por mais contraditória, pode ou deve ser incitado. Pare eles, estaria “tudo certo”.

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Reunindo dois anos de produção, Todos soltos é o primeiro cujo nome do autor, Guilherme Coube, vai à capa. Por quê?

Talvez eu tenha amadurecido. Talvez, agora, eu sinta mais firmeza na ideia de fazer circular um livro apenas mais um, sem que o nome do autor tenha medo de aparecer. Mas eu não mandaria ninguém embora se este ninguém dissesse assim mesmo: o que houve foi que regrediu, você, você regrediu. Antes era contido na forma mínima que programa o desterro da autoria, morriam longe tantas influências prosaicas, e víamos ali algo que não se dói desprezar. Agora? Agora você tão somente deseja ser um e só mais um, mais um comum. Você voltou atrás, quando muito…

Todos soltos foi distribuído em residências aleatórias do bairro Bela Vista na semana que passou, infelizmente sem registro fotográfico. Mesmo assim, será lançado entre 15 e 17 de janeiro no Museu da Imagem e do Som de São Paulo por sintonia da edição preto e branco da Feira Plana.

acho que não sou mulher

Acontece de se desferir certos golpes já em adulto. Violência interregna no ambiente avesso, ambiente-defesa construído ao redor. Acontece que Murilo Mendes pedia-nos aos dedicados sermos fiéis à luta pela paz.

Quando: no meio do ano. Eu queria descobrir quem eram os rapazes a entrar no prédio com mesa de montar e laptops. Escrevi assim para uma detetive particular, que passou um orçamento e uma mensagem escondida dizendo: “não são quem verá”

Como: Acuado, recorri à amiga Juliana Frank. A Ju escreve dramas exógenos desde a tenra idade, dedicada hoje que está ao tarô goiano. Eu disse Ju, estou demasiado distraído. Procuro certa abertura.

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a ajuda veio mais q pronta

Por quê: Não é fácil ancorar a língua.

A seguir, Juliana e Mário Ivo, os dois supostos autores de Acho que não sou mulher respondem quatro perguntas cada.

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Quatro perguntas a Mário Ivo Dantas Cavalcanti

1. Você é mesmo o MI da Loli Rouge e o livro ‘Acho que não sou mulher’ de fato vos pertence? Dizemos isso porque o editor free-lancer que editou o objeto sofria de psicodelia no instante da montagem e, como dizem na polícia de São Francisco, “ele não voltou mais”. Assim que não sabemos nada além daquele PDF. Caso não tenha nada a ver com isso, desde já nos desculpamos.

Dizem que fui visto ao lado da Loli R uma noite de verão, mas por pura falta de inverno. A bem da verdade, é engraçada a referência à São Francisco. Estávamos, nessa noite, próximos a uma ponte parecida com aquela de Vertigo, mas muito mais kitsch, Loli era então Jane A, como Madeleine parecia ser Carlotta Valdes e depois se mostraria Judy. Conversando com Truffaut, Hitchcock diz que contou a história num ritmo lento porque a partir do ponto de vista de um homem que é emotivo, um homem que, ao tentar vestir uma mulher que se parece com outra (e na verdade é a outra mesmo), procura na verdade despi-la. Nesse caso, o meu e o de Loli R, é o inverso: ela é quem se despe pra mim, e a história é contada (ou assim foi editada pelo editor psicodélico) quase toda sob o ponto de vista dela e, quando eu saltei da ponte, ela não ‘tava lá, pra me carregar nos braços. Nenhum de nós ‘tava lá.

2. Encabulados com o status depreciado da poesia, inúmeros poetas atuais vêm camuflando e torcendo seus poemas para enganar leitores ao fazê-los à imagem de não poemas. Poetas fingindo ensaio, poetas fingindo roman a la clef, poetas fingindo pareceres e resenhas, poetas fingindo cruzes jornalismo. Está ruim assim a coisa? Você finge seus poemas doutra coisa para entrar onde quer que seja? Onde vamos dar com isso?

A coisa sempre ‘teve ruim pra poesia, por isso que ela é tão boa. A gente finge ser gente, finge escrever, finge viver, finge entrar, finge sair, por que danado seria diferente nos versos ensaios romances resenhas jornais? Gosto muito da história do pescador, cutucando o dedão com a peixeira pra dali extrair um bicho-de-pé. Tá fazendo o quê? perguntaram. Tô aqui, cavoucando um poeta, respondeu. Daí esse destino nobre, de desserventia, de inutilidade, de realeza, mesmo.

3. Há muito desencontro em ‘Acho que não sou mulher’. Há, antes, uma nítida-baça paixão. Há também uma parte em que você se derrama em amor e quem responde não é Loli Rouge, mas a mãe de Loli Rouge, dizendo que a filha não está e dando um número. Você liga e, pronto, ela também não atende. E nada ocorre, e você volta a derramar um belo poema de serenidade mais ou menos machucada. A gente está fadado a se frustrar para sempre com as mulheres fortes? A Loli é forte? Ou é só ingrata?

Deixemos as mulheres fracas aos enfermeiros de plantão. Fiquemos com as mulheres fortes, com as chamadas não atendidas, com mães que dão número. A Loli não é forte, só precisa parecer. Agora, a Jane A é outro papo: frágil como um sibite, é uma potência, uma potestade. E, quanto à gratidão, que besteira.

4. Qual a vista da janela mais próxima a você agora mesmo? Qual a importância (a dignidade ontológica) da Janela num mundo de muros e paredes demais? Quem deixa a rede de deitar pendendo em frente à janela à noite pega espírito?

A noite preta, as luzes amarelas marcando um relevo que se perde entre prédios até o morro de Mãe Luíza.
O mundo tem muros, paredes e janelas demais. Quem sai ao aberto, quem fica no relento, não precisa de nenhuma das três indignidades – a janela uma delas, mero artifício da parede, pura ilusão do muro.
A rede tem que tá sempre balançando com gente dentro.

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Quatro perguntas a Juliana Frank

1. Você é mesmo a Loli Rouge do MI e o livro ‘Acho que não sou mulher’ de fato vos pertence? Dizemos isso porque o editor free-lancer que editou o objeto sofria de psicodelia no instante da montagem e, como dizem na polícia de São Francisco, “ele não voltou mais”. Assim que não sabemos nada além daquele PDF. Caso não tenha nada a ver com isso, desde já nos desculpamos.

Sou sim, psicodelicamente falando. Não precisamos aqui pedir desculpas ao entrar nem ao sair – principalmente no caso de emergência. Acredito em enlouquecimento coletivo. A linguagem tem esse poder de arrastar multidões. Nesse caso vejo apenas três personagens inocentes até que se prove o orgasmo.

2. Encabulados com o status depreciado da poesia, inúmeros poetas atuais vêm camuflando e torcendo seus poemas para enganar leitores ao fazê-los à imagem de não poemas. Poetas fingindo ensaio, poetas fingindo roman a la clef, poetas fingindo pareceres e resenhas, poetas fingindo cruzes jornalismo. Está ruim assim a coisa? Você finge seus poemas doutra coisa para entrar onde quer que seja? Onde vamos dar com isso?

Nasci com o destalento de des-poetizar. Nos mundos onde falam as línguas dos homens, é comum que esqueçam as línguas dos anjos, de Aram, e é assim. A gente vai esquecendo a brisa em boa parte das vidas. Mas o disfarce é um dos grandes vícios de escrever e por ele persisto. Muitas vezes sem saber porque diabos ainda insisto nesse trabalho de Penélope. O disfarce torna o outro mais criativo.. Afinal, quem somos nessa toada? A resposta é simples, mas o salto pode ser alto. Nesse ponto sou contemporaníssima. Os disfarces e as confusões de vozes são o grande ápice, a sacada dos tempos sombrios. Ninguém sabe alcançar miragens, não é mesmo? Daí o dia a dia de quem escreve é cheio de trapaças. E eu gosto delas. Das fábulas e personas escondidas em frases aparentemente simples. A artificialidade, a histeria, a inocência, a idiotice sempre escondem altos vôos.

3. Há muito desencontro em ‘Acho que não sou mulher’. Há, antes, uma nítida-baça paixão. Há também uma parte em que o MI se derrama em amor e quem responde não é Loli Rouge, mas a sua mãe, dizendo que você não está e dando um número. Ele liga e, pronto, você também não atende. E nada ocorre, e ele volta a derramar um belo poema de serenidade mais ou menos machucada. O homem está fadado à frustração eterna nas mãos das mulheres fortes? O MI é forte? Ou é só ressentido?

O desencontro é a única beleza que existe entre os dois. Não existe herói, heroína, força ou fúria no meio desses dois desentrelaçados. Os celulares estão quebrados. As rotas de fuga de Loli Rouge estão, a cada dia, mais silenciadas. O caminho dela é liso e nítido e adiante. Acredito que ela não precisa de um celular. Assim como é inútil a presença de um poeta na vida de uma mulher como ela.

Mulheres fortes são temas de revista feminina, de banca de jornal. Foram feitas no molde do tédio. Só poetas, bêbados e crianças podem acreditar em uma imagem tão fabulosa. Mulheres fortes são mulheres, no geral, vivas. Nenhum homem está fadado à frustração. Mas falo do falo, do homem, do homem e do homem. Já de poetas não entendo, nem mesmo suas poesias. A linguagem é imprestável para o amor. A inteligência é irrelevante. A Loli não encontra com MI. I jamais, porque gosta de estradas e mentiras. Ela não sabe ser forte no molde do tédio. E ficar ali fumando na janela, engolindo fumaça e pequenas lorotas. A Loli do meu livro só gosta de ex-presidiários, tatuados na Rússia, construtores e tapadores de piscinas instantâneas, loucos e fugitivos. Enfim, os homens que inventam o mundo e dão forma a ele. Os poetas, geralmente, tem uma certa mania de aniquilar o mundo, de pisar no mundo como se massacra uma guimba de cigarro. Nesse caso, M.I tem uma linguagem forte. Se for ressentido, melhor pra ele, pras suas graves poesias. Mas, conversa de literato não me pega – nem morta. Com veneno de poeta eu adoço meu café.

4. Qual a vista da janela mais próxima a você agora mesmo? Qual a importância (a dignidade ontológica) da Janela num mundo de muros e paredes demais? Quem deixa a rede de deitar pendendo em frente à janela à noite pega espírito?

Janelas foram feitas para que se fume perto delas, planejando novas fugas. Há muito ainda, elas dizem, para escapar.

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Abaixo, uma página do livro, se é que faria diferença:

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Existe, a propósito, uma pendenga no sítio facebook entre editor e autora, mas tudo deve se resolver simbioticamente.

Ontem, no entanto, antes de surtar aparentemente, a mesma Juliana enviou, em privado, esta mensagem ao editor:

anos de ciganagem. nem o meu sonho sabe onde é minha casa. sonho com casas cada vez mais surrealistas. os sonhos misturam pessoas e cidades, os rostos das pessoas nunca combinam com a geografia. os sonhos vão misturando praias com cerrados com invernos e raios de fogo. é comum que chova e faça dia e noite e sol ao mesmo tempo. as vozes das pessoas estão trocadas, dubladas, seus corpos são artificiais ou estão misturados. já não existem muros nos meus sonhos. normalmente eu caio do avião e flutuo pelas nuvens que desenham rostos errados. tenho asas de pelugem negra. e converso com anjos caídos, eles me contam sobre rotas e linhas e pontilhados feitos para escapistas. me dizem que há muito, ainda, pra fugir. foi o sonho que me alertou que devo parar. que continuar viajando seria o próprio enlouquecimento. então vou ordenar minha cabana fixa. vou ordenar. isso, terei apenas uma residência, vou atirar minhas malas no lixo e pretendo organizar as roupas q sobraram num armário de verdade. e também vou sorrir e sacar da bolsa o comprovante de residência quando a pessoa do guichê pedir. vou dizer: ok, está aqui, simplesmente. e entregar. ao invés da estúpida confusão que vira minha mente ao me pedirem coisas simples. e também vou sonhar com ladrões entrando em uma casa. não ladrões de nuvens ou anjos terríveis que tomam drinques em telhados em forma de carrosséis ou cavalos que cantam em uma linguagem indecifrável. não dormirei mais. isso. não viajo nem durmo mais, a partir de hoje. desembarco.

Acho que não sou mulher será lançado, caso não embargado, também na Feira Plana junto a muita gente.

taco da lôca

Um caso a ser seguido em nossa prosa, musicada e imaginada durante uma semana em que o narrador e protagonista insiste no que talvez chamássemos singularidade não constrangedora, isto é, aquela que respeita a platitude segundo a qual o seu desejo tem duas e apenas duas opções: realizar-se sem restringir o desejo do outro OU realizar-se para provar que o desejo do outro, na verdade, não compensa ou até mesmo não existe. Neste livro, os desejos de grandes conglomerados corporativos e políticos profissionais, por exemplo, são atacáveis porque são inválidos, não humanos.  Insiste-se: o autor é paciente com o mau desenho social sem ser acrítico.

a coisa do eu. até as lamas na questão do si. mesmo, no caso. no caos. sobrevivendo no inferno. umbigo, 2 bigo. taxista ouvindo pan, no programa da tarde o ex bbb bam bam. humanista agressivo. os que sentam no corredor e dão meia licença, os que pedem info na porta do busão sem dar uma nesga pra quem quer entrar.

os direitos dizimados um a um, dia a dia. a real humanitik q regaça como todo mundo o xingú e posta brum.
mata uma aldeia a cada carregada do aifone 5. quem nunca? as mortes por selfie, que ultrapassam ataques de tubarão.

o ex de anita. a publicação do tico.
o meme da vez.
prêmio hídrico, jornalismo wando. você não me avisou, amor. podemos tirar se achar melhor. todos estão surdos, todos estão soltos.

ins-galan

Ao contrário, Bruno Galan apresenta, como no trecho acima, a descrição nevrálgica do romancista decantado de mãos dadas com a crítica. Engaja-se, pois. Não abre mão de ser e pensar o político dentro do experimento e entende que um sujeito nunca se esvaziará o suficiente para pronunciar abobrinhas do tipo “não ligo para política”.

No posfácio da presente edição, o editor Guilherme Coube arrisca hipóteses:

Não é só o desejo de ‘ser escritor original’ no pátio de reproduções majoritariamente insossas e inconsequentes do Facebook, mas é, sobretudo, a coragem de ‘mostrar como escrevo’ aquilo que você não perde por esperar.

Isso ou não, o livro passa fincado em nossa época, na forma e no fundo.

Taco da lôca é lançado 15 de janeiro na Feira Plana com esperadas aparições do sr. Galan.

ó lá, mundo

pensamos em começar com esta citação de 1949

Diante de um universo que anseia por compreender, mas cujos mecanismos não domina, o pensamento normal sempre busca o sentido das coisas nelas mesmas, que nada informam. O pensamento dito patológico, ao contrário, transborda de interpretações e ressonâncias afetivas, sempre pronto para aplicá-las sobre uma realidade de outro modo deficitária. Para o primeiro, existe o não verificável experimentalmente, isto é, o exigível; para o segundo, experiências sem objeto, ou o disponível. Na linguagem dos linguistas, diríamos que o pensamento normal sempre sofre de uma deficiência de significado, enquanto o pensamento dito patológico (ao menos em algumas de suas manifestações) dispõe de um excedente de significante. Graças à colaboração coletiva na cura xamânica, chega-se a um meio-termo entre essas duas situações complementares.

TB SIT

Para Lévi-Strauss, então, pode ser grande a força mágico-social na cura de nossos males. Não há aqui ‘um xamã’, mas o evento xamânico que se dá necessariamente a partir das forças e fraquezas de um conjunto.

Neste caso, o mal (ou o ruim, que é o contrário do que deseja a razão) é o hiato ou apartheid corrente em certa modernidade despreocupada com a seriedade da natureza conflituosa do que nos faz agir e escolher e cliva assim brutal o que o capitalismo das farmácias definiu como normal e desejável de um lado, e como doença e assim inoperabilidade e oportunidade de tratamento comercial e/ou intervenção, ostracismo, perseguição e prisão, do outro. Segundo tal modernidade, o caso é mesmo não dar nas mãos da norma nenhum tipo de biruta.

Contra tal rigidez improdutiva e perpetuadora de processos pouco revisados, existe a chance de compreender a experiência do patológico como “instauradora da condição humana e a via privilegiada para conhecermos nossos processos de formação, assim como traços de nossas estruturas de comportamento” (Safatle), isto é, a esperança de que o medo da loucura como casa (ai o hábito do impensável) dissolva-se em realizações normatizantes que simplesmente passem no teste da mágica social, isto é, sejam integradas e não repudiadas no decantar da análise da razão.

Eu acho engraçado a gente administrar o medo assim. Nunca se ameaçou tanto. E nunca fizemos tanta força para respirar a ontologia da escassez. Estamos provavelmente 99% errados.

Percebamos que é do fundo do poço que se vê a lua, claro, mas não deixemos de performar. Não hoje. Não deixemos de performar. Ampliemos essa treta conosco de modo a

amplificar tudo aquilo que não podemos.

Só assim para chamar a atenção dos magos sociais, não? Foi nomeando a si de neurótico e limítrofe que W. Allen e o punk convocaram sua cura. E

uma dimensão fundamental do trabalho analítico consiste não em dissolver os sintomas, mas em dissolver o vínculo do sujeito à identidade produzida pela doença, o que permite aos sintomas perderem certos efeitos, diminuírem intensidades e se abrirem à possibilidade de produção de novos arranjos

Não é pouca coisa fazer desejo e linguagem e não poder conversar com o cérebro. E ter que acreditar na inexistência da inteligência do cérebro. E herdar e repassar o que queremos por vitória e beleza. E trair quem não se importa. Tudo isso no momento em que “o casamento assombroso entre Gaia e Antropoceno” pressiona por duras reordenações de prioridades e desmontes em série. Você está fazendo o quê no bando transicional, exatamente? Tem certeza? Que bom.

Quer saber o que é ser da internet? Ser da internet é dizer sem vergonha e não precisar esconder que não leu Freud nem Marx PORRA NENHUMA. É isso. A Touro Bengala bem como seus sujeitos em sintonia xamânica são da internet. Não lemos Freud nem Marx porra nenhuma. Nosso devir é superar a doença da indeterminação da identidade que recusa a raia fácil da predicação não artística, isto é, a da posse ou repetição destrutiva. Boa sorte tentando seguir a gente.