Panqueca Melhorada

Sem ovos nem leite, as panquecas do Bengala Bistrô cometem a emoção de superar as estadunidenses tradicionais não só na correção nutricional, posto dispensarem a redundância e o peso: logram também aparência mais chique, mastigação mais cativante e uma crocância leve, dir-se-ia jamais vista nos bolos de panela de lá. Por quê?

A culpa é da mandioca. A liga sem glúten ou gordura de um seu mero aquecimento veste o ingrediente de insuspeitada versatilidade, uma que mal começamos a explorar. O tempura de tapioca, por exemplo, é bastante sedutor se comparado aos da cozinha popular nipo-brasileira.

Aqui, no entanto, juntada em um para um à farinha de milho, ganha-se um bolo dourado e macio, arca fofíssima e plena a desatar-se em comovente puxa-puxa, amiga de toda sorte de melaços, geleias, cremas e frutas.

A farinha de milho é importante não só para arejar e absorver a hidratação da massa, aproximando a liga da fécula da consistência da rabanada, e também não só por estar, hoje, na mira da justiça histórica da militância da cozinha brasileira (leia mais no post do pão), mas porque:

a obra padeja apoiada no milho, cujo epítome seria a broa mineira em sua união estável insuperável com a erva-doce, entrega ao corpo um ingrediente (supondo sempre o processo justo por trás, qual seja, milho crescido em solo são moído na pedra) masculino, enquanto o trigo é feminino. Diferente deste, que aproxima o corpo da água e da madeira, o milho equilibra-nos em sentido contrário, aumentando nosso fogo e nos lembrando da terra. O milho de boa procedência, ingerido após bom preparo, aterra e eleva o astral de nossa porção masculina.

Esta discussão, derivada da biotipologia taoísta que forma a gnose alimentar chinesa há milênios, é infelizmente assunto marginal nas rodas de conversa brasileira. Antes de qualquer urgência na informação taxonômica específica, passível de equivocidades, aproximações, e mesmo conversões, não custa lembrar a lição fundamental, também replicada, de forma menos complexa (porque agrupa os humanos em três, e não em quatro ou cinco tipos como os chineses) na classificação da ayurveda indiana, e a lição fundamental é:

corpos com nascenças, contingências sociodemográficas, geno e fenotípicas, histórias de traumas, delícias e formações de afinidades díspares, terão, necessariamente, reações gerais (biofísica e no astral) diferentes aos mesmos alimentos. O milho que tanto funciona para mim, predominantemente em água elementar e assim avesso aos alimentos que me levem à água, pode não funcionar do mesmo modo a você.

Formar gosto, bem como a aptidão para improvisar as próprias comidas, um cardápio de variações fáceis e surpreendentes que te façam bem, é um trabalho para a vida toda. Pede atenção à expressão por assim dizer essencial de cada ingrediente, mas também à progressão milimétrica de sua reação geral a cada bocado e a cada gole. Anotar mentalmente, separar, simplificar e, ao comer e logo após, recolher-se das distrações.

Se o corpo estiver treinado e atento, a atividade muitas vezes inercial, profana e inconsequente que se tornou a refeição num ocidente entulhado de falsos charmes, virá a ser o momento central do dia, gratificante porque profundamente religioso, antes que superficialmente social.

Panqueca Melhorada

INGREDIENTES

– Fécula de mandioca
– Farinha de milho
– Água

PREPARO

– Una porções iguais de farinha de milho e fécula de mandioca
– Adicione água aos minigolinhos, até chegar à liga fofíssima
– Unte frente e verso com manteiga (opcional)
– Leve ao fogo em frigideira com óleo

– Dica de serviço: moer canela e vestir de mel

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