Performance e literatura na cidade do Recife

O que existe entre?
Nada e muita coisa.
Os limiares sob os limites.
Esse nada, talvez, tão importante e crucial.
– Kuniichi Uno

A ideia de falar um pouco sobre literatura e performance germinava, antes mesmo do convite de Guilherme Coube para os dias melhores do blog da Touro Bengala. Desde que cheguei à cidade de Recife, há apenas 5 meses, a poesia pernambucana em sua performatividade já me atravessava, sem que eu a procurasse.

Fui assaltada, quando assistia a minha primeira sessão no maravilhoso cine São Luiz, pelos Atentados Poéticos de Jonard Muniz de Britto, cujo caráter de performance foi o que mais me surpreendeu. Era poesia, era filosofia, mas antes de tudo era performance. E antes mesmo de fazer qualquer investigação, anotando todas as referências, Bruna Rafaella Ferrer me apresenta o poeta performer do Recife: Miró da Muribeca.

Com tudo isso em mãos, ou melhor, no pensamento, Guilherme me traz o fio que faltava ao comentar sobre os ‘romances de barbante’ que chegavam no interior de Pernambuco, e onde um dos poucos da vila que soubesse ler, lia-os para todos os moradores, em voz alta, interpretando os cordéis com gestos.

Em seu poema ‘Descoberta da literatura’, do livro Escola das facas (1975-1980), João Cabral apresenta, entre 44 poemas que falam de Pernambuco e suas paisagens de coqueiros e canaviais, engenhos, personagens políticos e figuras históricas, não somente os temas consagrados em sua poesia – o rio, o sertão, o povo e o canavial – mas sobretudo antigas memórias de criança, colocando-se pela primeira vez como personagem.

Descoberta da literatura

No dia-a-dia do engenho,
toda a semana, durante,
cochichavam-me em segredo:
saiu um novo romance.
E da feira do domingo
me traziam conspirantes
para que os lesse e explicasse
um romance de barbante.
Sentados na roda morta
de um carro de boi, sem jante,
ouviam o folheto guenzo,
a seu leitor semelhante,
com as peripécias de espanto
preditas pelos feirantes.
Embora as coisas contadas
e todo o mirabolante
em nada ou pouco variassem
nos crimes, no amor, nos lances,
e soassem como sabidas
de outros folhetos migrantes,
a tensão era tão densa,
subia tão alarmante,
que o leitor que lia aquilo
como puro alto-falante,
e, sem querer, imantara
todos ali, circunstantes,
receava que confundissem
o de perto com o distante,
o ali com o espaço mágico,
seu franzino com o gigante,
e que o acabassem tomando
pelo autor imaginante
ou tivesse que afrontar
as brabezas do brigante.
(E acabariam, não fossem
contar tudo à Casa-grade:
na moita morta do engenho,
um filho-engenho, perante
cassacos do eito e de tudo,
se estava dando ao desplante
de ler letra analfabeta
de corumba, no caçanje
próprio dos cegos de feira,
muitas vezes meliantes.)

‘Descoberta da literatura’ fala de seu contato com a literatura de cordel, ainda menino, quando lia as histórias em voz alta aos empregados do engenho. Cabral nesse caso não é somente o personagem, mas desde o começo, o performer, aquele que desenrola os “romances de barbante”. O performer da palavra.

Nesse poema, o poeta não apenas dança com as palavras, mas parece pegar com a mão a palavra tecendo movimento puro. O “nobre artesanato” que João Cabral cria com as palavras não se faz a partir da melodia, mas do ritmo. Ritmo sintático. Um ritmo visual, intelectual, que é um ritmo sintático.

João cria paisagens afetivas em movimento:

“o de perto com o distante

o ali com o espaço mágico,

seu franzino com o gigante”

É nessa captura do acontecimento, no ponto convergente entre literatura e performance, onde cada qual através das linguagens (corporal e escrita) que lhes são próprias deixará se expressar em acontecimento, seja na composição de emoções e percepções, seja na criação de lugares e paisagens para as palavras.

A Performance por si só, inúmeras vezes, se constitui como esse corpo em ação, em função do pensar ou no caso da literatura, da escrita. Richard Schechner, um teórico da performance, aponta que a performance não se limita a nenhuma linguagem em especial, pois ela se constitui como:

um “amplo espectro” ou “contínuo” de ações humanas que são variações de rituais, jogos… da representação do social, profissional, gênero, raça, classe e papéis, e para a cura (do xamanismo à cirurgia), a mídia e a internet.

Sendo assim, podemos pensar que a performance é a escrita e o próprio pensamento em movimento, nem mais, nem menos. No qual o cruzamento entre performance e literatura nos revela inquietações estéticas, éticas e de linguagem, isto é, filosóficas.

Dentre as questões envolvidas podemos apontar: presença, agência, incorporação e evento.

Em Diferença e Repetição (1994), Deleuze e Guatarri (D&G) localizam as origens do teatro sem representação em uma tradição interna à história da filosofia, exemplificada por autores como Nietzsche e Kierkegaard: ao dar corpo e movimento à metafísica, fizeram dela ação, e esta existe ao propor atos imediatos. Trata-se de produzir, dentro do trabalho, um movimento capaz de afetar a mente fora de toda a representação, de inventar vibrações, rotações, turbilhões, gravitações, danças ou saltos que tocam diretamente a mente.

Tal cruzamento pretende assim dar conta da relação entre representação e presença; corpo e linguagem; a noção de movimento, ou variação, como um processo político e ontológico.

Contudo, a questão que realmente nos interessa ao ler a literatura como performance é a possibilidade de encarar a performatividade da linguagem como um fazer, mais do que uma representação, e as palavras, se quisermos, podem ser compreendidas como expressão de puro movimento.

Aqui a distinção entre língua e fala sugere que há um conjunto de regras ou constantes em relação às quais enunciados específicos são compreendidos como desvios ou anormalidades. Para D&G, qualquer linguagem dada deve ser compreendida como ‘uma multiplicidade de mundos semânticos’, nos quais todas as diferenças possíveis de sentido estarão virtualmente presentes.

Assim se a performance, de um modo geral, englobará tão diferentes artes, por que evitaria a literatura?

Desafio posto, me proponho a, neste mês de maio, falar sobre performance e literatura. E a perguntar, de que modo a poesia de João Cabral, Jonard e Miró será capaz de conciliar, integrar e fazer dançar linguagem e fala em puro movimento? Ou como a escrita, o pensar, a performance, são a fala em movimento.

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