política distrital; alucinações parciais; parrésia

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acredito nas unidades federativas como guardas da cultura regional. um tempero paraense, um vatapá capixaba, uma moda de viola paulista e assim por diante. mas cada estado ter assembleia legislativa própria, polícia própria, receita própria, judiciário próprio, parece confusão e desperdício. nem cidade nem união, os estados estão mais para entidades inalcançáveis, entrepostos, lugares de burocracia dobrada, redundante, atrapalhada, irrelevante. ou os costumes da civilidade mineira seriam assim tão específicos a ponto de uma força policial e um judiciário mineiros serem necessários? as escolas públicas estaduais não seriam melhor geridas se unificadas às municipais? e as universidades estaduais não dariam menos vergonha se unificadas às federais? resta, ao fim e ao cabo, uma sorte de escada para governadores alçarem voos maiores, para partidos montarem feudos e seguirem seus jogos de conquista. o impacto dos estados, quebrados quase todos, acaba sendo o de uma guerra fiscal abandonada, atabalhoando a tributação e claudicando o custo brasil; de instituições distanciadas, carentes da força nacional e do orgulho e da presença locais. a desejada competitividade entre estados tão particulares em suas histórias que pudessem mostrar uma quase-nacionalidade, como aconteceu mais ou menos nos eua, nunca se deu por aqui. basta lembrar. das treze capitanias que inauguraram o país, duas, se tanto, vingaram. somos calmos, misturados e gerais o bastante para estarmos fadados a uma brasilidade amalgamante, solidária às regras em uníssono e às especificidades localíssimas. isso implica: união alerta, enxuta e simples, mais municipalidades bravias na condução dos assuntos dos dias. vejo ainda mais específico: gestão distrital dos assuntos assentados no cotidiano comum. mobilidade, postos de saúde, educação, litígios, urbanismo, meio ambiente. se a união fornece a constituição e os códigos, paga a infraestrutura, os funcionários, e os repasses, proporcionais à arrecadação da atividade econômica e da renda distrital, daí em diante a deliberação das prioridades pode ocorrer no mais local local possível, em assembleias presenciais e fóruns digitais. o dia a dia da política se resume a uma discussão na internet, e nela uma lista de coisas importantes, cuidadas pelo dinheiro dos impostos e pela força pública, acontece no seu bairro.

se você mora num distrito e trabalha em outro, há algo de errado na cidade. alguém mora no méxico e trabalha na bélgica? pois. para a política distrital prosperar, o município deve ter igualdade regional. emprego, renda, equipamentos, estrutura, negócios etc. quantos bairros de são paulo não têm sala de cinema? quantas pessoas moram e trabalham no mesmo distrito? a reconstrução passa, necessariamente, por mapeamento das carências e investimento no desenvolvimento policêntrico. as consequências podem ser belíssimas para o bem estar. o turismo distrital, por exemplo. saio num domingo para visitar o adorável sacomã com a família. conheço a igreja, o mercadão, o centro cultural, como no restaurante de uma família tradicional do bairro, vou a uma peça, compro um artesanato e volto para casa como se tivesse viajado a outro país.

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é o equivalente a um cometa, visível de pertinho e sem a ajuda de aparelhos, a atual programação do instituto tomie ohtake. o carro chefe é a exibição-escola alucinações parciais, em parceria com o centro cultural pompidou. a esperta curadoria mostra considerável elasticidade em poucas obras, e a seleção brasileira é tenaz a ponto de não nos tocar com vira-latismo, exotismo ou favor. o ponto alto, no entanto, é a justaposição destes dois pedaços de mau caminho:

obras atribuídas a um kandinsky e a um picasso distando tão pouco mas tão largamente distintos é coisa que a história da europa explica, no que a consultemos, sem pressa, por que sobre reflexão.

a seguir, o instituto apresenta, nas galerias frente a frente ao fundo do segundo piso, paulo pasta e cecily brown, num dueto que faz revigorar a crença nesta mídia tão antiga. em dimensões mais próprias à pintura que sobrevive, e também na desfiguração com que usamos perder tempo, em tempo de imagens tão fracas e ligeireza de likes. pasta é conhecido nosso, e suas composições de retilíneos estudos cromáticos frequentam inúmeros blogs e arquivos digitais. vê-las em pessoa, no entanto, muda a experiência e digo mesmo que transfigura a pessoa. é um baque, previsto talvez nos idos da teórica bauhaus, sobre a influência das cores nos humores. coloque-se o visitante na sala, abra-se à luz que bate e volta e reste ali o homem, sem onde chegar e sem querer sair. certa altura, as cores falam umas com as outras, e as telas entre si brincam de empurra, pega e esconde. se puder, use fones. brown faz grandes anti-guernicas em camadas abusivas de falsa abstração. trabalha com humor jovial, sorte ancestral, hiperssaturação em prol da narrativa, animismo terrano e sensualidade entre o escatológico elegante e o parturiente pulsante. cada tela é uma excelsa, quase interminável expedição de aventura elementar, imemorial e híper-dinâmica. se pasta tem masculino e feminino equilibrados, brow tem feminino e masculino assim também, no que eles não casam por recato e precaução civil, falta de exagero, e para quem sabe sentarem gostosos numa mesa para quatro.

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é de março a exortação ‘gaudete et exsultate’. a leitura valeria pela dicção agradável e erudição instigante. resta porém em recomendação mais urgente a pais, pedagogos, professores e cidadãos ligados em geral graças à cativante atualidade com que aborda problemas comportamentais e relacionais em voga. toca o tema da santidade para tecer alertas, recomendar coragem, atentar-nos à vigilância hoje, à alegria, e insistir nas razões do discernimento. o ingresso, em via teológica, do conceito de história, é particularmente interessante, e nos faz pensar se a memória universal pode ser um nome alternativo e adequado ao espírito santo. tão útil é o ensinamento do termo parrésia, “a santidade é parrésia: é ousadia, é impulso evangelizador que deixa uma marca neste mundo.” ano de eleições, ouviremos candidatos ao legislativo e ao executivo falando em campanha por nós. será imperioso distinguirmos, entre as calculadas atitudes, candidatos capazes de incorporar a integridade e a sinceridade quando contrastam os problemas brasileiros com seus programas. a fala sem parrésia é a fala sem vontade sincera e sem ardor, algo impossível de falsear porque é “selo do Espírito, testemunho da autenticidade do anúncio.” no âmbito eleitoral, parrésia pressupõe não só a comunicação clara de programas e ações corajosos face o tamanho da crise política e fiscal. pede também a atitude de não manter marginalizadas, por medo ou falta de compromisso, as lacunaridades brotadas na história das negligências e confusões do estado brasileiro.

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