Preâmbulo a ‘Duas Sicílias’

ANTES DA IDADE Média, ascenção religiosa, o império da técnica despertaria nos agrupamentos culturais sobreviventes e potentes o amargo deste esquivo desafio: se primor familiar nenhum conterá o escândalo da barbaridade, haverá guerra tamanha que permita produzir, no ofício dos netos, nossos ofícios?

A questão pode parecer solícita, mas tão grave mexerá nas tramas e raízes dos assentamentos letrados indoeuropeus que sua contínua atualização verterá o dilema do encontro dos povos na semente conceitual da aldeia global. Isto é dizer, o signo mesmo da potência generativa, crença mais cara às comunidades ciosas de suas raízes ou origens a partir do neolítico, que tão à vontade bailava nas pontas dos dedos e nos destros manuseios procurados pelo advento do Instrumento, internalizar-se-á, antecipatória e então urgentemente, nas construções enigmáticas, abstratas, teróricas e ferramentais do invisível pensamento.

A prática oracular do vaticínio, gênio dos eleitos, contemplava-a com mais ou menos lealdade o patrocínio dos conselhos sociais. Pensar seria outro pensar quando o saber fosse labor divino, expresso em carme e ludo na prática mercurial do poeta. Assim os governos, ciosos do que abarcavam em égide e pátria, far-se-iam sócios especialmente cordiais dos artesãos da revelação, ora albergando-os, ora expulsando-os.

A errância, apenas arbitrariamente essencial, responderia entretanto à história do trauma do exílio abrindo a via instituinte do método. Barganha, ao vate amealhava a urbana chance: provar ser humana, a ciência; ou: matéria de instrução. Tradições da Ásia ao Lácio erigiram o albergue do aprendiz de coisa alguma, coisa alguma que não a saga virtual do dínamo psíquico vertido ora não mais no assomo órfico, se antes em acomodação descritiva, inspetora, crítica, comunal, da física, da natureza, da tragédia, da república, do cosmo. Pois.

Museu marcará a transição da antiguidade para o mundo religioso ao sofrer o câmbio categórico de alcunha autoral para guarda nutricional. Novo edifício, servirá tal complexo do que espelhou e esculpiu o pensamento. Mínimo cosmo, cura fractal dos nomes, das alegorias, dos rastos consequentes. A novidade maior da ascensão será o convívio fazer viável, do juízo diversificado, este expresso em alternativas curatoriais não exclusivas; e, porque tornadas à história, também não diretivas. Aprenderemos com ela, num longo percurso de luzes e sombras, sombras e funduras, que é coeva à voz da saudade o primor da experiência. Coadunam-se.

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LIMPAR O TERRENO é sinal de contemplação anual. O câmbio sazonal e os tênues arbítrios das quatro imbricações a tela do arado os penhora na graça da terra. Esta os por assim dizer avançará a uma e cada semente, que então sofrerão duas vezes a cor local. Aquela da história do solo; aquela que confirmará no crescimento não ser outra a sua história. Os ciclos sublunares termoexangues não disporão, em regra, a dotes exóticos o plantio. Cada futuro estará guardado onde cada futuro idem. Sedibus urbem será o dizer, passo de um passo, antes que passo do passo, passo do quero, passo do passo do nada.

Acampamentos, jardins, academias, liceus. Florescerão tais imos nas fímbrias dos povos com divulgação e característica. O tipo trocará rapsódia por palestra, mas acabrunhará o mesmo conselho que diante do poeta sorria acomodado. Os guardadores de nomes e valores testemunharão, das margens para o centro, diversa, incontrolável produção na medida mesma em que se dista a controlar, incomodamente difusa e no entanto contagiante. Os feitos serão irregulares, deslocados, ruidosos, até que a voluntária fisiocultura componha novo fator de confusão, posto escravos e guerreiros terem bons belos corpos desde sempre, mas estes ora erotizados magos sem fama nem dívida, não. Porque restou difícil exilar a flor essencial da cidade, seu modo cativo e transitável – institucional –, a sanja estatal ali penetrará quesitos. Ser parte de um corpo, ao cabo, é ser corpo ao corpo mesmo. Encastelada pelo processo, a realidade do aedo-cientista crescerá e padecerá verões de gruta e invernos de fuga, os mesmos a que aliás apontara o antigo vate reduzirem-se sutis nossas empresas.

Matizes chocantes híbridas e parturientes alargarão porém o escopo do pensável. A maneira do edifício firme e nítida vai aos sulcos, salas de tábuas, rolos e volumes que tangem eirando as guarnições dos museus dos palácios e dos grêmios, silos em camadas empilhando, vistas e pórticos organizando.

Diante dos poetas o público é não poeta, mas a seu modo, em sua própria oficina ou família, será poeta a valer. Ante o fantasma erudito seremos apenas leigos. A chave da ascenção religiosa forja-se pois na sombra incogitável dos que dela para as luzes se doavam. As intrigas entre escolas, o comércio excludente das tutelas, a empáfia da inércia sofística, o escárnio goliardo das paródias destrutivas devolverão os conselheiros ao sono policial dos mores armados sobre a turba. Um novo império, protocolar e extremoso, ganhará da técnica o rubi e o cetro da redução.

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ANTES DA PRENSA, ascensão do comércio, o império da religião despertaria nos agrupamentos culturais sobreviventes e potentes o amargo deste esquivo desafio: se primor salvífico nenhum conterá o escândalo da descrença, haverá guerra tamanha que permita produzir, no ofício dos netos, nossos ofícios?

Se diante de alternativas há o capaz de optar pela pior, será preciso temor à lei a procurar temor à consequência. Neste estágio, o antigo artesão da voz, amigo das musas, fez-se caso de loucura. O denegrido bibliófilo é indexado na polícia. Administrada, nasce a modernidade. Seu sucesso é testemunho da atitude ignária. Variegadas na escala, serão as prendas a curar a loja, a roça, a escola, a oficina; valores valerão amiúde mais que a técnica; solicitada, a crítica revigora.

Dorme neste mundo organizado a premência belicosa da hierarquia. Palavras são: palavras de ordem. Juntos ou separados, a repressão nos conduz quando o milagre não convence. Aos senhores do conselho restará as novidades de semblante de uma arte univocamente espiritual. O capricho, a machetaria, os altares trabalhados. O assunto inflacionado será o da desinflação humana. No horizonte do maná abscôndito, as doações, a verve persuasiva, o doce recontar, e generoso, de uns simulacros de insânia e desespero. Orfeu, mas imitado.

Amargará ver no entanto que por mais trauma, é sem ruptura que ela galga. A história. Ora nos enfada, aprisiona e entristece o equívoco da desonra. Então desejaríamos um grave buraco no chão. Rasgar o chão aliás imputará engenho ao trunfo paupérrimo da cruz. Proceloso, emaranhado e alto em rios purpúreos haverá, desta cessão imaginada e descumprida, de chegar a mastro soprado o massivo nascituro à voz do povo?

A cônscia mansidão avessa ao caos pregará no exemplo extemporâneo da técnica. Mãos juntas, pescoço oblíquo, comiseração. Mesura elementar endividada. Estar nem lá, quando era deslumbre, nem cá, no instante interessado da penumbra.

À urbana chance servirá um burocrático evangelho. O chaveado livro-caixa, a lúgubre listagem, a confecção minuciosa do contrato, o custo marginal de produção, a tendência a investimento, a taxa de juro, a barreira de entrada, o dumping, o cartel – signos que da andança civilizacional tecem o ritmo no dito seguro e inclusivo da matéria meritosa. O indivíduo será todo para membro ser; o todo será corpo para contínuo gradar. E a nave vai, organizada, fazendo sempre nova a oração que nos livra da praga.

Duas Sicílias, zine que escrevi na Quarentena imposta pela crise sanitária internacional, fala da cópula. Procurei, em hipótese, inúmeros modais de matéria, toda ela viva. Do que fui capaz de elencar, a totalidade se melhor deu a dois, acredito. Melhor escrever um poema para comemorar a pesquisa e a luta empenhada no livreto a sair quando a situação melhorar:

Um ser será dois
infinitamente?
Dos dois,
um surgirá?
E neste, serão
dois para noutro
ser um?
Algo me inquieta.
Um nome à espreita
vence. O ser que cogito me re-
quer, donde não basto; o paço
do querer se dá à luz,
e às frondes
da chuva mas essas
correm. Há, creio,
dentro de mim
o que não tenho.

O IMPÉRIO DO comércio engendrado foi na unívoca conclamação à caritas, encarnada esta na urbana multiplicidade em convívio. Caro se nos haverá de ser não mais do sangue a efígie, do suor a expensa, mas deste o estrênuo próprio, daquele a chaga comum, secos e indistintos por chupados pelo barro que é só um.

Ora a passos de ócio temeroso, ora a torto passo ébrio, eis as luzes voláteis da modernidade a tencionar o mundo à saudosa concreção do Direito Natural. No alvará da loja, da escola, da roça e da oficina, lavrada está em vida a força tênue do verbo:

VOSAUTEMDIXIAMICOSQUIAOMNIA
QUAEAUDIVIAPATREMEONOTAFECIVOBIS

O espanto engendrou o poeta; a inveja, o crítico. Sobrevivente e potente, é no labor social do indivíduo que afim e judicioso o espiralado dito da aldeia global vingará. No ritmo acostumado, o ora cidadão-consumidor cultivará em si a marcha ingênua do homem novo – poeta-crítico –, signo fresco, continuador deste a nós eterno dual.

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