Quais os DEZ piores problemas brasileiros?

Em solidariedade à corrente, publico minha lista. A instrução é elencar a hierarquia e redigir um parágrafo a cada problema, com diagnóstico e prescrição.

1) SAÚDE

Problema ecológico central, a saúde é o maior agente econômico. Da saúde dependem a produtividade e a riqueza. O Brasil é vítima da medicina da doença, quando a medicina deve dar as coordenadas ao viço. Não se trata de uma medicina da prevenção, mas medicina do viço. Contra a medicina da doença, pela medicina do viço, está no SUS a principal empresa do Estado. Tecnologia da informação (sensores, inteligência artificial, nanorrobótica, edição genética) e revolução agronômica podem dar ao povo a mais concreta soberania da terra, a saúde do corpo. Para isso, o Estado deve antecipar, ou jogar junto a, a entrada das grandes corporações de serviços da nova medicina. Se não o fizer, apenas os mesmos 5% terão acesso às novidades. O resto terá de esperar as obsolescências dirimirem as margens de lucro e chegar, como sempre, atrasado.

2) EDUCAÇÃO

Azedo, o termo desperta pesadelos em adeptos das liberalidades da formação. Ideias como pós-schooling, self-schooling, e mesmo no-schooling, confundem-se com decisões desimportantes como escovar os dentes com cúrcuma e o movimento no-poo, que abre mão dos shampoos. Mas escola não é paranoia. É cerne estratégico do desenvolvimento, e dela dependem mão-de-obra, pesquisa, policiamento e refinamento humano e cultural. Prescrição à Nova Escola fiz neste livro. Faltou comentar a Universidade e a educação continuada. A Universidade fica, mas estritamente federal e para 30% da população (quem quer e consegue). O restante pode ser técnico, artista, desenhista, faz-tudo, roceiro, diarista, atleta e feliz longe das teses e arengadas. Além disso, imagino uma instância ainda inexistente, também pública e também excelente, responsável pela educação continuada. A escola perpétua, disponível a qualquer trabalhador afim de reciclar seus saberes e aprender, usando a novidade digital, novas artes e conceitos.

3) INFRAESTRUTURA

As redes brasileiras despencam, e a cada furo damos novos e seguros passos de submissão ao neo-colonialismo. O problema, antes de governança errática, é déficit de engenheiros e cientistas. A solução é formar profissionais de ponta no médio prazo. No curto, importar saber junto às concessões. Que as empresas que cá venham subir pontes, portos, estradas, esgotos e teles prestem-se a abrir os códigos e capacitar nosso humilde contingente.

4) ORGANIZAÇÃO DO ESTADO

Legislativo e executivo não respondem à premência de um corpo estatal forte e ágil. O Estado é letárgico e custoso, e a culpa é menos de seus ocupantes do que do desenho em que se apoia. Uma nova forma (ler postagens anteriores como esta e esta) implica usar a) o suprassumo da possibilidade digital para discussão, deliberação e efetivação parlamentar, e b) a moderna governança corporativa para um poder executivo impessoal e levíssimo, condutor de um orçamento e de um cronograma, auditável e transparente como qualquer empresa viva. O lastro restaria no Senado, reconfigurado como Conselho Administrativo eleito anualmente, com poder de veto e impeachment, ocupado por senhores e senhoras nos quais vemos nossos mais virtuosos pais e mães.

5) ECOLOGIA

Erramos no destrato ignorante e não raro cruel da natureza que Deus nos deu. É nosso maior pecado, e a cada dia em que se repete (resíduos, extração irresponsável, maus tratos, extermínios), nos afastamos do congraçamento cósmico. Toda a força militar de um país na nova era (pós-Singapura) pode ser direcionada à salvaguarda do santuário planetária do território. Cada bioma é um órgão sagrado e feliz do organismo nacional, e dele somos membros em unidade e gratidão. A chave para o reequilíbrio econômico (preços, taxa de lucro e salários) está no enaltecimento ecológico.

6) ECONOMIA

O Estado letárgico e custoso emperra a circulação de bens e valores num ponto distante demais do ótimo, mas a crítica chega invariavelmente tarde e aponta os sintomas linguísticos antes das causas fulcrais. Se é coluna gêmea à Ecologia, a Economia muda de roupa. Joga fora os trapos fedorentos (“crescimento do PIB”) e aprende a formular novas e mais interessantes métricas. Hoje, toda a teoria e comentário são escravos de métricas pensadas antes da primeira guerra. É tempo de cogitar modelos mais desafiadores da mesura do bem-estar, da alegria, do conforto, da satisfação, da realização, da vitória e do consumo.

7) CIDADES

Desde a Constituição de 1988, criar cidades tornou-se gincana de currais e coronéis. A atitude das câmaras de vereança nos rincões é um vexame avassalador. Também nas grandes cidades vê-se distância e esfriamento do povo ante as políticas locais, e as eleições às prefeituras são dramaturgia esquizofrênica. Mas a política será cada vez mais local. Urge plantar a semente do engajamento cidadão. Na esteira do clarão do SUS com a saúde do corpo, o corpo doméstico, do bairro e da cidade merecerão cuidado tátil e maternal. É vivendo e usando o espaço público que entendo entende na prática o que é o bem comum. Por dela me servir, cuido. A cidade deixa de ser de ninguém para ser de todos.

8) ENERGIA

Combustíveis fósseis e carvão matam. Hidrelétricas ferem e traumatizam. Linhas quilométricas de transmissão são tão inteligentes quanto pedir que passem o sal de lá do outro lado da rua. Saleiro é coisa pequena, melhor ter em casa ou pegar no vizinho. A energia está no ar, no sol, no vento e em todos os corpos e coisas. Linha de transmissão é incompreensão biofísica. Pagar por energia é ruborizar o Imposto de Renda, pois é tão grátis quanto um chumaço de cabelo. Aí, o caso é pensar novo bem novo, investindo em laboratórios avançados. Antes, fazer a lição básica e urgente: trocar tudo por geração fotovoltaica e eólica da forma mais local possível.

9) PESQUISA E DESENVOLVIMENTO

Onde está, e o que é, a vida? Água escorrendo num balde é vida? Estamos fora ou dentro do Universo? Somos que sorte de experimento? Como conversar com a inteligência cósmica? O que é o desejo? Como burilá-lo? Como transformar o desejo na mão que a luva do trabalho vestirá? Como faço para construir minha própria casa e ser feliz fazendo o que bem quero da vida? Onde está meu jet-pack propulsivo para um rolezinho em sobrevoo no vale do Paraíba? Ficamos de braços cruzados esperando alguém resolver?

10) AMÉRICA LATINA E LUSOFONIA

La Mancha e Bahia, Cervantes e Camões, Tamanduaré e Pastinha. Villa-Lobos é pura Nova Espanha, faz-se ótimo samba na Colômbia, Angola tem mestres poetas, e o portunhol é mais fácil e bonito do que muito paredão do BBB. Hoje numa livraria não há seção lusófona, não há ensaísmo da nova voz venezuelana. A política externa reserva-se a grandes tratados comerciais e eventos brocochôs. Quero ver minha filha de motocicleta cruzando o continente, ouvindo despreocupada um batuque moçambicano, parando para cozinhar frijoles, beber um mate, mordiscar uns milhos.

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