Qual dulçoroso leito

Baixo muito mais suor porque no curso crosta-magma os achados estarão ‘ex oculi’?

É como ater-se em garbo inquisidor de volta à história, mas neste caso a história não dos fatos, que documentos proveria ao tato, e sim das formas, que nada à mão fiável provê.

A tarefa da tenção filosófica, salvífica no que confere torque às atualizações necessárias, imitará Cristo também no que descende à mansão dos mortos sem qualquer protocolo de segurança além do aguerrido duma fé praticamente mística:

si modo quod memoras factum fortuna sequatur

diz Virgílio no quase perfeito verso 109 do livro IV de nossa Eneida.

O episódio central, aí, é a união erótica de Dido e Enéias. À moda do que a εῖδος epopeia marcara a psykhé modernizante dos latinos, o principal autor literário do Ocidente memora a mais que proba manha grega, o Narrar Dramático.

O narrar dramático está contido na mais grega das técnicas, lógos, ou a arte do discurso.

A mitografia hélade, de início oral, isto é, escrita somente na mente, não só foi a responsável pelo nascimento da filosofia, posto prestar-se invariavelmente em télos cosmogônico ou originário-organizacional, mas fez também com que ela, a filosofia, quando a vanguarda do interesse artístico na Atenas pré-Peloponeso assume, englobasse, a si e ao mito, na categoria ou conjunto superior do Discurso – ordenação sistêmica de unidades terminológicas, Nomes, com fins proposicionais – e estes com fim dialético.

Memora Virgílio Homero ao dar a deuses e similares a maquinação da fortuna dos homens. O verso 109 sai da boca de ninguém menos que Vênus, império da formosura, à face artimanhosa de Juno, que por sua vez armará as condições ambientais para que Enéias inocente e misérrima Dido caiam presas do amor.

O plano dá certo.

À entrega do casal, diz-nos prenhe de ático espanto o verso 172,

coniugium vocat hoc praetexit nomine culpam

O princípio desta busca é voltar à crosta salvo – mas também salvando. De mais ricos solos trará o filósofo mãos cheias. Mas não dum composto qualquer. Antes de physis* – natural cultura humana – decomposta e lida.

A moto segue, vagarosa e circulando, pois que teima analisar. Felídeas mãos, agora que em faro e mandíbula fez sua parte a arma lupina. A emergência do impensado rima, lembremos, o que está por vir e aquele que pensa. Harmoniza o que ainda não é com o que cabe em meu querer. Antes da prova, ou junto dela, experimento:

chamam conúbio, querem desvelar

O ato é de amor porque nem nada escondem quando i) se arriscam, Dido e Enéias, obliterando política por êxtase; e ii) reduzem corpos historicamente engrandecidos por discursos à anomia erótica.

Lembram homem e mulher de uma fulcral segurança inominável no amor? Ou quem ama é Eros, tradicional εῖδος grega ofertada no Banquete de Platão? Se sou capaz de dizer e pensar ‘anomia’, a anomia existe?

“O que ama o Amor?”, pergunta a filósofa (CHAUI, M., Introdução à história da filosofia. São Paulo, Cia. das Letras, 2002).  E responde:

O que dura, o perene, imortal. Ama o bem, pois amar é desejar que o bom nos pertença para sempre. Por isso Eros cria nos corpos o desejo sexual e o desejo da procriação, que imortaliza os mortais. O que o Amor ama nos corpos bons? Sua beleza exterior e interior. Amando o belo exterior, Eros nos faz desejar as coisas belas; amando o belo interior, Eros nos faz desejar as almas belas.

Prenhe de ático espanto é o verso 172 da Eneida porque pode ser lido, em contínuo ganho escolástico, como a cópula originária duma εῖδος primordial, misérrimas luvas, inocentes mãos, aliadas em função eclesiástica do que ascende – da morte à eternidade.

Segue entretanto do gozo um novo espanto. Agora a cena é quase tão rica quanto a Pandora de Machado de Assis, emblema supremo de nossa Memórias Póstumas. Aqui, é a Fama. Em metonímica coreografia, a personagem espalha a energia da boa nova num corpo de elástica plástica:

ingrediturque solo et caput nubila condit

este sim um verso perfeito (177).

Sente o leitor a influência de Aretusa? A seguir trataremos dela. Antes, ensaio:

A grados pisa o chão, mente nas nuvens.

Não é outra a fama do que floresce, filhas as flores de terroir e atmosfera, húmus e altura. Dedáleas entretanto se desdobram, e assim entretêm, nossas histórias desde Homero. No que gozam, complicam-se; e nisto ativam sombras e uns escândalos.

É a vez de Mercúrio, extremoso de apolínea culpa, cobrar do homem insuficiente – multá-lo? – seu compromisso, labor construtivo amestrado, ou nada na história de Troia vingar-se-ia. Não porque Apolo assim deseja, mas porque falha, aqui e ali, a nossa Eneida. Eram, pergunte-se, amor e obra, excludentes?

Em nada arrependido, antes vestido no púrpuro da virtude amorosa, está Enéias. À praia, contempla. Em triste viravolta, o mensageiro o amarga. Traz-lhe a antiga sombra da inveja, brumada e temerosa. Toma de assalto, seu cogito, a moderna confusão duma clivagem:

atque animum nunc hoc celerem nunc divit illuc
in partesque rapit varias perque omnia versat

A mente vagueia, incerta e incapaz. É de novo o homem um barco sem porto. Vale dizer: a moto do filósofo não teme conhecer o tanto que teme parar. Familiarizar-se com um mundo a cada passo mais largo não supõe trocar o reino infinito pela monografia do conforto.

Pese o baque, o amor e a dor, o livro IV traz ainda uma bem realizada cena de DR, que nada fica devendo ao melhor cinema do gênero (comédia romântica). Construir a Itália, diz Enéias e Dido,

hic Amor, haec patria est

Não é sobre você, Dido, é sobre a Itália. Prenhe outra vez da sophía da Academia e do Liceu, o dictum de Enéias o faz Virgílio antes político que maldoso. Resignado, o filósofo retorna, pés no chão e a mente em branco, enquanto o corpus social frui das ricas florações da cidade. Em seu antebraço, em pedaço, ou imperfeito para a época de Virgílio mas redondo para a época de João Cabral, um octassílabo (verso 361):

Italiam non sponte sequor

Com Odorico Mendes,

Não espontâneo para Itália sigo.

Com Carlos Alberto Nunes,

Não busco a Itália por gosto.

Ou ainda,

À Itália não é meu querer.

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