Queríamos que fosse diferente!

Para Buarque de Holanda em Raízes do Brasil, espanhóis e portugueses seriam diferentes de “outros povos” não pela ganância ou avareza, mas pela “incapacidade (…) de fazer prevalecer qualquer forma de ordenação impessoal e mecânica sobre as relações de caráter orgânico e comunal, como o são as que se fundam no parentesco, na vizinhança e na amizade.”

O defeito torna mais custoso construir o Estado, pois este não é a mera “ampliação do círculo familiar” e não há, “entre o círculo familiar e o Estado, uma gradação, mas antes uma descontinuidade e até uma oposição.” É ao transgredir a ordem familiar, diz Holanda, que fazemos nascer o Estado.

Já Darcy Ribeiro dirá haver por aqui um “velho uso” de “incorporar estranhos à sua comunidade” que fará do parentesco a razão de ser fundamental da gente da terra. Seria o ‘cunhadismo’ nada menos que a “instituição social que possibilitou a formação do povo brasileiro”, prática sem a qual o país seria “impraticável”. No cunhadismo, se caso com uma moça, tenho a mim, no pai dela, um novo pai; e nos parceiros do pai dela, idem. Para Ribeiro, o defeito do costume era um só: acessível demais, a todo e qualquer um, e mesmo “a qualquer europeu desembarcado junto às aldeias”.

O bocado que houver em Holanda de ressentimento teuto ou utopia negativa indignada com o mau desenho dos mecanismos civilizatórios brasileiros, há de em sinal invertido haver em Ribeiro em esperança nativista? Difícil dizer. Ao cabo da leitura atenta e refletida, ambos cumprem certa totalização pendular entre crítica e orientação e funcionam bem, mesmo hoje, como vozes à tarefa brumosa de pescar na turbulência o que é sentido e valoroso.

A “disciplina da concórdia” que marca o sujeito brasileiro cordial e emotivo o fará, na visão do historiador paulista, menos propenso ao raciocínio abstrato, aos raciocínios que “não tenham como fundamento (…) as comunidades de sangue, de lugar ou de espírito”. Para o antropólogo mineiro, no entanto, será abusando desta licenciosidade que o povo aqui criará, com seu cunhadismo, “um gênero humano novo, que não era, nem se reconhecia e nem era visto como tal” pelas famosas três raças e que, instado a deixar para trás sua “ninguendade”, passará a lutar para “construir sua identidade” de brasileiro.

Holanda percebe que “a ideologia impessoal do liberalismo democrático jamais se naturalizou entre nós”. Deste modo, homens e mulheres desejosos de fazer a vida na cidade e nela atuar e operar como cidadãos e eleitores condignos amiúde se frustravam, seja por não conseguir acessar as rodas do conluio, seja por, alérgicos, detestá-las. “Pujança e compostura”, pede Holanda, “grandeza e solicitude”, fazem-se assim misteres incontornáveis para que o Estado respeitável se coloque, e funcione, sem preferência interesseira nem enjeitos, com “harmonia e garbo”, diante de um conjunto complexo marcado por exclusão atávica e privilégios arcaizantes.

Conjunto complexo, lembrará Ribeiro, de “classe dominante de caráter consular-gerencial, socialmente irresponsável, frente a um povo-massa tratado como escravaria, que produz o que não consome e só se exerce culturalmente como uma marginália, fora da civilização letrada em que está imersa.”

A história nos fez, “pelo esforço de nossos antepassados, detentores de um território prodigiosamente rico”, pondera Ribeiro, mas a gente está “metida no atraso” e “sedenta de modernidade e de progresso”. Daí o risco é entregar o assunto e a coisa pública ao nefando “espontaneísmo”.

Este curioso -ismo aparece quatro vezes n’O povo brasileiro, sempre associado ao deixe estar-deixe passar da mentalidade mercantil, esta crente numa sorte de supremacia econômica. Tal espontaneísmo, no entanto, seria atitude abstrata e liberal, em nada sanguínea, em nada pessoal. Se real e brasileira, faria refutar os dois competentes, provados diagnósticos.

É preciso, pois, entender, quando um liberal brasileiro diz faltar mercado no Brasil, que o mercado no Brasil não sobra; entender mesmo sua simples crença de que há mercado e que este mercado sente, deseja e reage. Será similar ao resmungo dos constitucionalistas, nunca enjoativo, de que falta observação à Carta, e não que ela sobra. Falta mercado, portante, é dizer ou lembrar de dizer: não falta urgência à transversal sensibilização diante do sofrimento social encarnado na iniquidade e na carência.

Ora, do ponto de vista do Estado o assunto será tudo menos como gostaríamos, isto é, apenas orgânico e comunal como o afeto familiar da solidariedade. Não há cordialidade que o vença, e não há papai na medida mesma em que mamãe não há. Antes, o tema é um de estudo e mesura. Busca-se visão capaz de ampliar a abrangência de conceitos sim econômicos como a riqueza, e mesmo a igualdade, para aspectos e condições que não estaríamos, talvez, historicamente aptos a notar e valorar. Mas este já é assunto para outra postagem.

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