sedição é chance: nota sobre a crise espanhola

Conforme escrevo, a gente catalã está fechada à vontade do Reino de Espanha. Acabo de assistir, num streaming em tempo real, a uma plácida e alegre caminhada dos bombeiros da Catalunha, em prol da autonomia indepedentista nacional. Trens, metrôs, ônibus, portos e estradas estão parados, num ato de represália à violência policial de Madri do domingo passado, quando o mundo quedou-se um tanto estarrecido ante as cenas de idosos e mulheres arremessados ao chão e chutados por enormes agentes da força espanhola. Numa das fotos mais belas, centenas de tratores, encaminhados das zonas rurais da Catalunha, fechavam as vias de acesso ao centro de Barcelona no domingo do referendo, de modo a impedir a chegada de novas tropas do batalhão do Reino.

Mas o que quer, afinal, a gente catalã? E por quê? E o que quer, por seu turno, o Reino de Espanha? E por quê? Ainda: por que tal evento, cujos desdobramentos restam imprevisíveis, é importante para nós, cá no Brasil?

Como toda gente, a gente catalã quer curtir a vida. Seria inacreditável se não fosse assim. Por seu turno, o Reino de Espanha não deseja desmembrar-se, desejo que tampouco chega a ser exorbitante a um organismo cuja identidade se expressa na união de suas partes. A crise atual acusa incompatibilidade entre os modos de propor os desejos de um e de outro lado.

Converse com um estudante catalão. Ele demonstrará, serena e lucidamente, que sua narrativa independentista está correta. Converse então com um agente do governo de Madri, ou mesmo com o editorialista do periódico El País, e eles demonstrarão, serena e lucidamente, que sua narrativa é legalista e, portanto, correta. No meio das conversas, uma e outra parte afirmarão o pacto democrático, a vontade popular, a soberania, o cristal teleológico do dínamo contratualista a reger a configuração política da convivência. Dois lados, nenhum deles errado. Como proceder?

A saída será uma de cálculo projetivo, estatístico e poético (posto que expresso em narrativas ansiadas), a partir do fio vermelho que teceu a nossa história. Numa leve e funcional distorção da fábula hercúlea do labirinto, seria o caso conjurarmos a prudência de Ariadne – não por retornar por onde entramos, mas para adivinhar e fazer o melhor dos mundos a seguir. O cálculo não é só estatístico: é também poético. Isto quer dizer: entre os vários cenários possíveis e queridos de desdobramento, a eleição se dará também em chave quente e apaixonada, sanguínea e vibrante, de uma confabulação de sonhos cruzados e ingenuidade imanente.

Leiamos por um instante o poema ‘Oda a Espanya’, do poeta catalão Joan Maragall (1860–1911), em tradução de Fábio Aristimunho Vargas:

Escuta, Espanha, a voz de um filho

que fala em língua não castelhana:
falo na língua que me legou
a terra áspera:
língua em que poucos já te falaram;
na outra, demais.

Mais te falaram dos saguntinos
e dos que pela pátria morrem;
das tuas glórias, tuas lembranças,
lembrança e glória de coisas mortas:
viveste triste.

Quero falar-te de outra maneira.
Por que verter o sangue inútil?
Dentro das veias o sangue é vida,
vida de agora e dos que virão;
vertido, é morte.

Muito pensavas em tua honra
e quase nada em tua vida:
teus filhos, trágica, à morte os davas,
te saciavas de honras mortais,
e os funerais eram-te festa,
ó triste Espanha!

Eu vi os barcos zarparem cheios
de filhos dados por ti à morte:
iam alegres a seu destino;
e tu cantavas à beira-mar
como uma louca.

Cadê os barcos? Cadê teus filhos?
Pergunta ao Poente e à onda brava:
perdeste tudo, não tens ninguém.
Espanha, Espanha, retorna a ti,
dá teu pranto de mãe!

Salva-te, oh! salva-te a tantos males;
faça-te o pranto fecunda, alegre e viva;
pensa na vida que te rodeia:
ergue a cabeça,
sorri às sete cores que há no arco-íris.

Não te vejo — onde estás, Espanha?
Não ouves minha voz tonitruante?
Não sabes esta língua que te fala entre riscos?
Desaprendeste de entender teus filhos?
Adeus, Espanha!

Agora, leiamos as estrofes 18, 19, 20 e 21 do ‘Cántico’ de San Juan de la Cruz (1542–1591):

  ¡O ninfas de Judea!,
en tanto que en las flores y rosales
  el ámbar perfumea,
  morá en los arrabales,
y no queráis tocar nuestros humblares.

  Escóndete, Carillo,
y mira con tu haz a las montañas,
  y no quieras dezillo;
  mas mira las compañas
de la que va por ínsulas estrañas.

  A las aves ligeras
leones, ciervos, gamos, saltadores,
  montes, valles, riberas,
  aguas, ayres, ardores,
y miedo de las noches veladores:

  Por las amenas liras,
y canto de serenas os conjuro
  que cessen vuestras yras
  y no toquéis al muro,
porque la esposa duerma más siguro.

Ora, o que temos aí? O que temos aí senão a celebração dialógica de uma cultura antiga e forte, tão radical quanto dinâmica? Nós, no Brasil, somos pelo menos 33% Ibéria, e a Ibéria é nada menos que o Brasil da Europa, tendo lá amalgamado, antes de nós, África, Roma, Arábia e Saxônia. No entardecer do Império brasileiro, Pedro II e seus conselheiros viam brotar no tabuleiro do território miríades de manifestações similares, revoltas carentes, sedições separatistas. Tanto nos faz pensar o que carrega de Recife, Barcelona. E como a força nacional foi capaz de superar os desejos de separação, impondo-se muitas vezes não como um pai responsável, mas como um irmão invejoso. Sempre que volto aos registros das revoltas que antecederam a República, penso, ao lado de Joan Maragall, que cabe ao governo central a postura paternal e responsável — olhar suas regiões como filhos, calando-lhes quando suas demandas são imaturas, sentando-lhes à mesa quando soarem persuasivos. Filhos que crescem, amadurecem e desenvolvem projetos de autonomia, mais dia, menos, dia, conversam de igual para igual. Se o Império Romano seguisse apenas seus anseios, não haveria Espanha. Espanha é filha de Roma, que soube crescer, desejar e falar por si.

Os Estados Nacionais nasceram graças a uma ruptura, mais ou menos pacífica, a depender do caso, dentro dos sistemas feudais e absolutistas. Hoje, no seio da globalização tecnológica, testemunhamos a expressão rediviva do orgulho local. As cidades, e não mais as nações, estão crescendo e se afirmando como pólos de inovação comercial e política. Em mais ou menos tempo, as culturas nacionais serão resíduos simbólicos, expressos e cultivados em seus mais honrados produtos. Nos lembraremos deveras do cinema espanhol de Buñuel e Almodóvar, da guitarra espanhola, flamejante e virtuosa, do queijo da Mancha e da paella de Valência, da cava, da pata negra e do tempranillo, mas não mais visitaremos um país, e suas antigas fronteiras serão meras curiosidades historiográficas. Visitaremos Córdoba, Madri, Barcelona e Oslo, ou nomes todavia insuspeitos, pois é alegremente amalucada a toponímia da quarta revolução industrial. Os países, cedo ou tarde, cederão à lei internacional, à licença autônoma das diversidades regionais, e à alegria dos fazedores dos primeiros dias dos muitos novos mundos. Assim aponta a maturação do Direito, e da expressão política popular.

Vejo a sedição catalã como uma oportunidade. Sob o topos amargo da desavença, dá-se à Espanha uma chance de ouro. Assumir as rédeas e tornar nobre o desenlace é o que se espera de uma cultura que legou ao mundo tamanha Arte, tamanho Ritmo, tamanha Política. Que mantenha-se altiva e imperiosa, e não ceda nem rebaixe-se aos queixumes tonitruantes de um filho sufocado e irritadiço. Há 40 anos talvez não fosse a hora; hoje, talvez, seja. Hora de sentar e ouvir a voz do filho que, enfim, se quer tão pai quanto.

Nada apagará da História as façanhas espanholas. Ao contrário: a cultura planetária dedicar-se-á a contemplá-la e a consumi-la, repetindo seu Nome em admiração e pesquisa, quanto mais motivos tiver de dela se orgulhar. Este orgulho hoje depende da condução augusta e serena, não ressentida nem orgulhosa, muitíssimo menos violenta, da crise que se desdobra em chance de ouro. Condução de quem raciocina junto a um filho bem nutrido e capaz, com ele arrazoando os novos termos de su desejada e nova autonomia, morrendo para não morrer, como pediu Santa Tereza, amando-o e bem querendo-o, con llama que consume y no da pena.

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