Sobre COSMA

A história começa pelo título; COSMA, um plural latino estropiado de COSMOS, porque, como se veria ao final, múltiplos universos eram criados a partir da clonagem do sangue da pomba que invadia uma espécie de bunker onde vivia um Noé pós-apocalipse com um acervo do material genético das espécies.

A conseqüência lógica, o desdobramento natural desse começo nos fez empacar por anos a fio: do desgaste desse material genético, haveriam fatalmente de surgir outros universos idênticos mas gradativamente menos semelhantes ao primeiro. No fim do mundo, no último universo as essências, por assim dizer, já estariam gastas e começam a surgir desequilíbrios que levam todo esse universo a se extingüir. Devido à súbita desaparição desse último universo, o penúltimo acaba indo pelo mesmo caminho – como que sugado pelo buraco formado pelo último – e assim sucessivamente até que a desaparição dos universos chegasse enfim ao nosso universo conhecido, tal como nós hoje o conhecemos.

Tínhamos um final que era novamente a mesma pomba se espatifando no microscópio do Noé do bunker e a visão do Aleph, do que seria algo como o DNA de Deus. Mas e quanto a todos os acontecimentos significativos, indicativos dessa perda de inspiração, do entusiasmo divino dos anjos, dos santos, visionários? Ensaiamos começar, listando episódios representativos dessa nova versão da Queda arquetípica, da expulsão do velho Paraíso, dos homens dos universos bizarros paralelos extintos.

Um deles era uma versão má de cada personagem bíblico, culminando com uma versão má de Jesus que meio se arrependia no final e acabava não ressuscitando mais, deixando sua versão da humanidade na dúvida sobre todo o Evangelho até ali. Reforçando o escopo patrístico, tínhamos também a moldura narrativa: o narrador era descendente de outro filho de Adão, Cam, que dera origem aos camitas, amaldiçoados através das gerações da tribo familiar.

O problema dessas transposições era que a analogia que servia de base era toda canônica, não entravam anônimos.

Quando tivemos que inventar esses anônimos todos, éramos nós mesmos e vimos que não fazia sentido escrever toda uma saga cósmica se fosse para acabar contando uma história de nós mesmos, uma prosa de ficção que não fosse nem científica, nem realista demais, que acabaria virando mais um amontoado de palavras em seqüência.

Uma opção era manter apenas personagens lendários em versões bizarras, o que nos levaria à fantasia. Não poderíamos jamais sucumbir à fantasia, o rock progressivo da literatura.

Pode-se dizer que fomos vítimas do próprio realismo ou que essa história, pelo menos, foi: jamais a concluíamos, nunca escrevemos nada dela além destas poucas linhas que buscam, se não rastrear seu paradeiro, apurar os motivos de sua protogênese, as causas de sua procrastinação.

A idéia inicial era juntar na mesma história todos, ou muitos temas obscuros, mitológicos, bíblicos, com uma atmosfera futurista; uma leitura irônica de textos sagrados em chave de ficção científica.

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Capas de ‘Cosma’ respetivamente em Rússia e Suécia

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