sobre uma instalação não realizada

Infelizmente, a Torre da Canção toca a música louca, língua de Babel, mas a Maison Dieu do Tarot não deixa de ser também uma caixa de música carrolliana, máquina de colagem, caça-níqueis de fonemas, trocando as figuras, a cada lance de escadas. O que era ruído de fundo, rangido inorgânico, no patamar seguinte, subindo ou descendo, vira voz principal de um oráculo: efeito sonoro de um almanaque enciclopédico de sons, clipes-espectros, música de entonações e ritmos, conjuntos de timbres, trilha de um desenho animado infinito. Este gigantesco realejo de nove andares mimetiza a nossos ouvidos uma imensa nostalgia do século XX, saudades daqueles sons da impressora matricial e da fita crepe, que levaram o artista a compor no século XXI suas músicas com materiais de escritório, remixadas a lindos gemidos e vozes de macacos e seres humanos. Na pintura de Comparini já vimos esse mesmo empenho híbrido, etnográfico na abordagem e iconográfico na fatura. Nos trabalhos sonoros com o Grivo, nos esquemas e croquis incorporados à obra. O que a ciência da loucura chamou de pareidolia – enxergar figuras onde há apenas o acaso – ou witzelsucht – a compulsão doentia à piada – neste novo trabalho é adotado como procedimento artístico fundamental diante de um amplo acervo de vozes do passado. Acidentalmente, não há, contudo, como não ver aqui nessa vertigem de possibilidades aflitivas uma crítica radical ao cinismo com que o sistema da arte contemporânea, a serviço da valorização do capital, neutraliza os extremos do trágico e do cômico, da barbárie do mercado, reivindicando para si as chaves da decifração da experiência humana como um todo. Deliberadamente, Comparini flerta com a derrisão, com o sarcasmo e a ironia, sem emitir no entanto nenhuma afirmação autoral previamente validade; a sintaxe é aleatória, sugerida pelo movimento, dadaísta no corte. Depois do tempo do inferno da modernidade, a pós-modernidade corresponderia à montanha esboroada do purgatório, da qual escalamos os escombros, em sobe-desce constante, pelas escadas de emergência de um edifício público.

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