três pérolas da elizeth

Elizeth Cardoso parou de estudar no terceiro ano primário para começar a trabalhar. Foi balconista, cabeleireira, porta-bandeira de rancho, dançarina, crooner, até que cantou, meio que por acaso, numa festinha frequentada por altos bambas cariocas. Jacob do Bandolim ouviu e levou-a para o programa Suburbano, na Rádio Guanabara. Não parou mais, e tornou-se uma das maiores gravadoras de discos do Brasil.

Rigoroso, seu pai chegou a lhe bater uma só vez, com vara de marmelo, ao saber que a filha namorava o craque Leônidas. Colecionadora de apelidos, Divina foi também Noiva do Samba-canção, Machado de Assis da Seresta, Magnífica, Enluarada, Saliente do São Jorge, Feiticeira da Vila, 1a Dama da MPB, Faxineira das Canções, Mulata Maior, Lady do Samba, Rainha dos Músicos. Unha e carne com Grande Otelo, chegou a fazer black face em apresentações de comédia com o ator, antes da carreira de cantora engatar. Estrelou a estreia de Tom e Vinicius em disco, aprendeu a batida da bossa com João Gilberto e nos apresentou Paulinho da Viola.

Portelense e flamenguista, Elizeth percorreu todos os gêneros do cancioneiro brasileiro, mas é lembrada principalmente como alta fadista do samba-canção. Por quê?

Dois motivos explicam: primeiro, samba-canção era o que estava saindo, na época.

Sua predisposição, entretanto, que encantava os músicos e maestros, vinha da época de dançarina. No clube onde trabalhava, ela e suas colegas faziam as vezes de acompanhantes, na pista, a cavalheiros solitários, traídos, viúvos, esquecidos, desejosos de uma dança. Ganhava mil e quinhentos cruzeiros por dança. Certa feita, descobriram que ela cantava. Encantados, os cavalheiros passaram então a furar o bilhete da Elizeth como se com ela tivessem dançado, uma, duas, três vezes, mas abriam mão da vez em troca de ouvir seus dotes, junto à orquestra, e pediam aquela música, aquela e aquela — todas do repertório meloso e romântico da era de ouro. Para bem servir, ela decidiu decorar as canções mais solicitadas pelos pobres senhores. Quando deixou para trás a vida de táxi-dancing e foi para as rádios, parecia conhecer com a própria alma a dor daqueles homens. Vivera de perto o abandono deles, tão frágeis, saudosos e dependentes.

É difícil escolher, entre tantas, três pérolas da Elizeth. Depois perca tempo na internet investigando a vasta e rica trilha desta artista tão singular.

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