três sambas de escola de 1972

1. Martim Cererê – Imperatriz Leopoldinense

Foi um ano marcante para a Imperatriz Leopoldinense, e de carnavalesca fortuna. Era a chamada época de ouro dos sambas de escola no regime militar. Zé Katimba emplacou com Gibi um enredo simpático e nacionalista, baseado na epopeia cosmogônica ingênua ‘Martim Cererê’, do modernista de direita Cassiano Ricardo. A melodia é uma das mais belas do samba brasileiro, e o andamento fica no rancho confortável, isto é, abaixo dos 130 bpm. Só assim é possível curtir os timbres da bateria. Acima dos 130, eles se embolam e o charme escorre. A cadência deste samba típico de escola (otimista, de fácil decorado, canônico na apresentação dos elementos atabaque, cavaco, surdo e coro) dá vontade de marchar em sua beleza continente. Acontece que a Rede Globo de Televisão adotou a música, e, pela primeira vez na história, um samba de escola virava trilha oficial de novela. No caso, a novela das 10 ‘Bandeira 2’, escrita por Dias Gomes e dirigida por Daniel Filho e Walter Campos. A trama sobre jogo-do-bicho se passa no bairro de Ramos, zona norte do Rio e nascedouro da escola Imperatriz. No elenco, Paulo ‘Gracindão’ Gracindo em memorável interpretação, Grande Otelo (no papel do próprio Katimba), Ary Fontoura, e os jovens Marília Pêra e José Wilker, que se casam ao fim da gravação.

2. Ilu Ayê – Portela

É um dos primeiros sambas de escola cujo enredo trata poética e etnograficamente a presença negra no Brasil. A letra é primorosa em seus enxertos nagôs e na delicadeza da história que conta. Depois de chorar lamento na senzala, o tempo passa e, “no terreirão da casa grande / negro diz tudo o que pode dizer”

é samba, é batuque, é reza
é dança, é ladainha
negro joga capoeira
e faz louvação à rainha

Clara Nunes gravou o samba Ilu Ayê, mas ficou muito rápido e assim difícil de gostar. Mônica Salmaso gravou com mais vagar no álbum ‘Voadeira’, e resultou elegante.

3. Onde o Brasil aprendeu a liberdade – Unidos de Vila Isabel

Quem sabe é este, o refrão mais bonito dos sambas de escola. Assinado por Martinho da Vila, o enredo presta aceno à Festa da Pitomba, comemoração pernambucana da vitória sobre os invasores holandeses nas batalhas travadas no Morro dos Guararapes. Diz o refrão:

Cirandeiro, cirandeiro ó
a pedra do seu anel
brilha mais do que o sol

É empolgante, justo quando a questão da ciranda (o que é, como faz para entrar/sair) frequenta as dinâmicas dos dispositivos sociolinguísticos em seus contextos variáveis hoje. Martinho da Vila regravou o samba em outras ocasiões e cadências, sendo a mais conhecida em parceria com Beth Carvalho.

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